Prova dos Noves: Apóstolos e Profetas

bibliaDécadas atrás, era comum no ensino da aritmética no ensino fundamental o uso de um truque matemático: A prova dos noves, ou mais popularmente, os noves-fora.

O truque consiste em somar os dígitos individuais de um número em uma operação aritmética simples (i.e., soma, subtração, multiplicação, e divisão), subtraindo 9 e adicionando os remanescentes dígitos. Compara-se, então, todos os números da operação com o resultado da operação, e caso coincidam, confirma-se o resultado.

Por si só, a prova dos noves não serve para resolver nenhum problema aritmético. Contudo, o seu valor reside em checar, ou confirmar, se o seu trabalho matemático (i.e., a sua conta) está correta. Hoje, com calculadoras em qualquer celular ou computador, ninguém mais sente a necessidade de um truque que, em outra época, já serviu a muita gente.

Não obstante, resulta-nos o legado da expressão “prova dos noves” ou “noves-fora” para qualquer ferramenta que cheque ou confirme a validade de uma idéia, ou hipótese, ou instinto, ou teoria. Serve também para uma ferramenta que teste a validade de uma ensinamento religioso, uma doutrina de fé, uma crença, ou qualquer escrito por apóstolos ou profetas.

Resta, então, a indagação: Existe uma “prova dos noves” para escritos de apóstolos ou ensinamentos de profetas?

Sim, existe.

Como a idéia me foi sugerida por um comentarista neste site, cita-lo-ei diretamente.

Em um artigo meu sobre a influência das decisões judiciais da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre as políticas e ensinamentos da Igreja SUD (e especificamente, com relação à presente cruzada Mórmon anti-gay), um comentário me chamou a atenção por sua mediocridade intelectual:

Que tristeza… [v]er homossexuais ou simpatizantes tão inteligentes e conhecedores das ciências do mundo, das leis, filosofias, interações sociológicas e infelizmente tão leigos a respeito dos mandamentos e leis de Deus.

Apesar de me sentir envaidecido com o elogio (“inteligente e conhecedor das ciências”? Quem me dera!), eu respondi ilustrando a ignorância fundamental e o erro de raciocínio desta construção (i)lógica:

…tais “mandamentos e leis” foram, todos e sem exceção, frutos diretos e indiretos dos contextos históricos e dos preconceitos dos homens que os ditaram ou escreveram. Dentre esses “mandamentos e leis de Deus” estão ordens para assassinar mulheres e crianças, permitir o estupro de mulheres virgens, permitir a escravidão de outros seres humanos, coagir mulheres a serem esposas plurais e concubinas, coagir adolescentes a se casarem secretamente com profetas, proibir dessegregação racial de espaços e ordenanças sagradas, etc. Estes “mandamentos e leis de Deus” vem mudando com o passar do tempo e da história, com a tendência de evoluir de posições mais preconceituosas e menos éticas para posições menos preconceituosas e mais éticas.

E este é fato histórico inegável. Apenas pessoas completamente ignorantes da história de sua própria fé (ou apologistas simplesmente desonestas) não compreendem que não há “lei” ou “mandamento” que não tenha mudado ou evoluído com o passar do tempo, da aquisição de conhecimentos científicos, ou da evolução intelectual e moral da sociedade autóctone.

Quantos Cristãos se sentiriam a vontade com mandamentos divinos que demandem a matança indiscriminada de mulheres e crianças de outras religiões? Ou a escravidão de mulheres virgens para coerção sexual/matrimonial? Ou que obriguem uma mulher vítima de estupro a casar-se com seu estuprador? Ou que exijam que escravos sejam submissos a seus mestres Cristãos? Ou que permitam a escravidão humana em geral? Ou que permitem que não-Cristãos sejam torturados durante 5 meses sem mata-los por sua descrença? Ou que proibam mulheres de falar em público, ou de chefiar ou liderar homens em quaisquer capacidades? Ou que obriguem mulheres a serem completamente submissas e obedientes a seus maridos, mesmo aos que sequer sejam bons Cristãos?

Eu imagino (ou melhor, espero) que nenhum. Cristãos, em seu maioria, sabem (consciente ou instintivamente) que tais “leis” ou “mandamentos” não se aplicam mais a eles, apesar de suas posições no cânone oficial, pois o universo Cristão tem mudado e evoluído com o passar do tempo, da aquisição de conhecimentos científicos, e da evolução intelectual e moral da sociedade Cristã e não-Cristã.

Esse conhecimento assusta os fiéis, especialmente aqueles com maiores limitações intelectuais (i.e., os que não conseguem enxergar o mundo ou a realidade além do simplista preto-e-branco, nós-contra-eles) ou com maiores benefícios sociais (i.e., os que derivam status social elevado devido à sua religiosidade). Por que? Porque isso significa que qualquer “lei” ou “mandamento” na atualidade pode ser submetido ao escrutínio do julgamento de gerações futuras mais iluminadas que a nossa, e julgados como imorais ou anti-éticos, ou simplesmente como simplistas ou supersticiosos.

Sendo isso a (óbvia) verdade, a questão que se forma na cabeça de todo fiel pensante e preocupado é: Como saberei quais “leis” e “mandamentos” são “eternos” e relevantes e quais são frutos dos preconceitos e da ignorância humana dentro do meu próprio contexto sócio-cultural? Em outras palavras, qual seria a proverbial “prova dos noves”? Qual seria os “noves-fora” para determinarmos qual “lei” ou “mandamento”, qual escrita apostólica ou discurso profético merece consideração absoluta? E, consequentemente, qual poderíamos simplesmente relegar ao nosso próprio julgamento ético ou crítico, confiando na sabedoria das possíveis gerações futuras?

Eis como respondeu, à minha réplica, este nosso comentarista assíduo:

Concordo em parte com você, pois sou um homem de fé e creio que Deus sempre se comunicou com os profetas bíblicos, do livro de Mórmon e modernos. Mas, infelizmente, os contextos históricos e preconceitos os fizeram, muitas vezes, agir mais de acordo com seus pensamentos, achando assim que estavam fazendo a vontade de Deus. Um dos mandamentos principais de Deus, o amor ao próximo, não foi muito seguido no antigo testamento e poucos o fazem hoje. Jesus mandou amar até o inimigo, e porque muitos cristãos hoje odeiam os homossexuais? Eles apenas tem uma orientação diferente, mas são humanos. Nenhum cristão é obrigado a ser a favor da união homoafetiva, mas porque tanto ódio? Os mandamentos de Deus são puros e verdadeiros, o ser humano é quem os deturpa.

E aí está, sucinta e profundamente elaborada, a “prova dos noves”. Se o que o Apóstolo ou o Profeta escreveu ou está dizendo incita-nos a tratar as outras pessoas — além de nós mesmos, além de nossos familiares, além de nossos amigos próximos, além de nossos colegas, além de nossos correligionários — com respeito, com dignidade, com humanidade, ou mesmo com amor, então trata-se de um ensinamento, uma lei, ou um mandamento válido.

O contrário também é verdade. Se o que o Apóstolo ou o Profeta escreveu ou está dizendo incita-nos a tratar as outras pessoas com desrespeito, com indignidade, sem humanidade, com preconceito, ou mesmo com ódio, então trata-se de um ensinamento, uma lei, ou um mandamento inválido, e/ou que provavelmente será invalidado no julgamento de gerações posteriores.

Poligamia é um exemplo claro disso. Quantas pessoas, na Igreja SUD, defendem poligamia como uma boa idéia hoje? Quantas pessoas não inventam desculpas, ou mesmo mentiras, para tentar aliviar a poligamia do passado? Racismo é outro excelente exemplo disso. Quantas pessoas hoje acreditam que segregação racial é idéia boa, ética, ou moral? Mas até 1978, os Profetas e Apóstolos (e os membros) da Igreja SUD achavam perfeitamente defensível. Quem defenderia mudar a política atual para retomar a segregação racial?

A questão com os homossexuais é um dos temas atuais. Será discrimina-los uma postura ética, ou moral, ou mesmo digna? Expulsa-los da Igreja por se casarem ou constituírem famílias, com filhos, é mostrar compaixão e trata-los com dignidade? Gastar centenas de milhões de dólares para evitar que haja leis que os protejam, mesmo os gays que sequer Mórmons sejam, é uma atitude que daria orgulho a Jesus? Que ensinou “amai-vos uns aos outros” ou “..até os inimigos”?

A questão da mulheres é um outro tema atual. Será discrimina-las, negando oportunidades eclesiásticas, profissionais, ou mesmo pessoais uma postura ética, ou moral, ou digna? O que dirão os nossos netos ou bisnetos ao descobrirem que na nossa geração, a Igreja SUD não permitia que mulheres fossem líderes ou ordenadas, e incentiva-as a não terem carreiras profissionais ou que suas vestimentas ou a limpeza de suas casas são importantes indicadores espirituais. Gastar milhões de dólares para evitar que haja leis que as protejam, mesmo as mulheres que sequer Mórmons sejam, é uma atitude que daria orgulho a Jesus? Que ensinou “amai-vos uns aos outros” ou “..até os inimigos”?

No frigir dos ovos, tudo se resume em amor, tolerância, respeito, e dignidade ao próximo. Tratar o outro como desejamos que nos tratem os outros. Afinal, não é isso a essência do que é (ou deveria) ser Cristão?

_________________

Para quem está realmente curioso, e não aprendeu os noves-fora na escola, e ainda ficou inteiramente insatisfeito com o meu simples resumo acima, eis um exemplo prático:

Imagine a seguinte conta:

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Existem duas maneiras de se aplicar a prova dos nove, ambas se equivalem:

No primeiro número 3562 somam-se os algarismos e cada vez que a soma superar o nove, tira-se este mesmo nove logo:

3 + 5 = 8 + 6 = 14 menos 9 = 5, continuando 5 + 2 = 7.

A outra maneira parece ser melhor, somam-se todos os algarismos:

3 + 5 + 6 + 2=16 -> 1 + 6 = 7.

Lembre que , se o valor der nove, ao diminuirmos o nove teremos zero, o famoso “noves fora, nada”.

Logo a prova dos nove do primeiro número é 7.

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Deve-se fazer o mesmo processo para os outros termos e verificar a soma dos termos da prova dos nove:

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Nota-se que a conta está correta, pois a soma dos termos da prova dos nove e dos termos do resultado dá o mesmo valor.

A prova dos nove para a multiplicação
Usa-se o mesmo procedimento, veja:

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Logo:

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12 comentários sobre “Prova dos Noves: Apóstolos e Profetas

  1. Parabéns Marcello Jun! Bom texto, apesar de uma preocupação um pouco implícita com preconceito… Nós temos apenas que assumir posições é o que eu sempre defendi… Por exemplo, decidi que vou selecionar vários textos da ABEM e publicar no meu Face… Acho que é importante as pessoas saberem a história real e verdadeira da Igreja. A história dos profetas e suas falhas… Fazendo isto estarei me expondo como jamais fiz antes, mas acho que devo isso a ABEM, ao Antônio, nosso herói solitário, (não está mais) e a você que se esforça em trazer fatos. Devo isso também à verdade que liberta segundo o Salvador. Isso vai render debates enfadonhos com alguns seguidores mais ortodoxos… Mas vamos lá…
    Abraço e um cordial Shalom a todos…

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