Bastidores do Site LDS.org

Você gostaria de saber como são os bastidores do site oficial da Igreja SUD?

LDSorg

Captura de tela do site oficial da Igreja SUD à data da publicação original desse artigo

Um engenheiro de software e ex-funcionário do departamento de TI (Tecnologia de Informação) da equipe do site LDS.org conduziu uma sessão aberta de AMA (em inglês, ask me anything, ou pergunte-me qualquer coisa) com usuários do site Reddit.

Na entrevista, o engenheiro que solicitou anonimidade (ver abaixo), não relata absolutamente nada de novo para quem já trabalhou para a Igreja ou pessoalmente conhece funcionários ou ex-funcionários da Corporação (no Brasil, Associação). E, certamente, não revelou nada bombástico ou sensacionalista.

Contudo, o seu relato é interessante por oferecer ideias de como é a vivência dentro do aspecto corporativo da Igreja SUD, e em especial, como o site oficial é construído e mantido.

Primeiramente, uma breve sinopse autobiográfica. O engenheiro nos conta que ele cresceu na Igreja SUD nos EUA, mas fora de Utah, serviu missão, casou-se no templo, e estudou na BYU.

Em segundo lugar, ele explica que não deseja se comprometer pessoalmente por motivos familiares e, especialmente, comprometer as pessoas com quem ele trabalhava diretamente na Corporação, por quem ele mantém “profundo respeito”.

A revelação mais interessante e mais ilustrativa que ele oferece é, justamente, a primeira na lista, referente a atitude da liderança da Igreja com relação aos famosos ensaios:

… [Q]uando eu estava trabalhando no sistema de busca para o site lds.org é que me dei conta dos ensaios … [h]ouve uma reclamação [das Autoridades Gerais] de que um artigo estava aparecendo “muito alto” nos resultados da pesquisa. Reclamações sobre a necessidade de limpar material para fora dos resultados de pesquisa não eram raras. Normalmente era algo como alguém humilhando obesos em uma Ensign [revista norte-americana como A Liahona] antiga ou algo assim… Desta vez, porém, foi algo apenas aparecendo “muito alto” na lista de busca. Eu achei que era estranho, após uma primeira avaliação, porque os termos de pesquisa eram perfeitamente relevantes para o artigo. Eu comecei a lê-lo e era o infame ensaio sobre raça e sacerdócio. Eu não tenho certeza se eu preciso elaborar mais do que isso… A forma como ele foi abordado foi que eles não querem introduzir novas questões para os membros. Se eles sabem disso e desejam descobrir mais sobre isso, eles podem encontrá-lo. Eles não querem as pessoas tropeçando [nos ensaios] sem querer. Tente implementar esse algoritmo de busca… Eu tenho certeza que eles não fizeram nada sobre isso desde então.

O engenheiro relata que manutenção do site incluía limpezas períodos dos arquivos antigos publicados online que continham material ofensivo ou preconceituoso  para uma audiência moderna, que talvez não o fossem para sua audiência contemporânea, e os motivos porquê não há conteúdo disponível datando de antes de 1970.

Eles mantem backups de tudo (como é prática padrão), mas eu não acho que eles o mantem facilmente acessível internamente. De vez em quando, eu teria que apagar coisas do mecanismo de busca que doutra maneira ficaria aberto permanentemente. Normalmente só tratavam-se de artigos antigos de membros publicados na Ensign [revista norte-americana, como A Liahona], com algo como humilhando obesos ou algo assim. Não coisas boas, mas coisas muito facilmente descartados por TBMs [N. do T., gíria para membros hiperreligiosos] como bem sabemos… Eu não acho que eu realmente estou contribuindo nada de novo aqui, mas considerando que eles passam o tempo apagando material insensível dos artigos dos anos 1970, eu imagino que alguém percebe que não há nenhum benefício em liberar material que será apenas apagado de qualquer jeito.

O escopo da capacidade de trabalho da equipe digital pode parecer pequeno para alguns observadores externos desacostumados com geração de conteúdo, mas o engenheiro deixa claro que a capacidade de recursos humanos é considerável:

A desculpa que eu sempre ouvia era que eles não têm o recursos humanos suficientes para converter tudo, etc. Com algumas das façanhas loucas que eles gerenciavam na tradução de conteúdo logo após a Conferência Geral, etc., eu acho isso muito difícil de acreditar.

Sobre algumas posturas que misturam o profissional com o religioso:

Assim, quando se trata de hierarquia do mais alto escalão, existem conselhos geralmente com um par de Doze, um par de Autoridades Gerais, e alguns gerentes. Normalmente, porém, as coisas não estavam muito claras ao meu nível exatamente de onde os pedidos estavam vindo. Havia um monte de  “o espírito me disse” ou “eu não posso estar errado porque eu sou uma Autoridade Geral” e coisas do gênero. Um perfeito exemplo foi o projeto Vídeos da Bíblia que foi feito há alguns anos atrás. A gerência gostava de dar a idéia de que se algo não fosse plausível de se fazer dentro de um prazo, que poderíamos atrasá-lo. De última hora, o projeto Vídeos da Bíblia a ser anunciado na Devocional de Natal foi largado nas nossas mãos e não havia como atrasá-lo porque Deus o queria pronto para a devocional. Então, nós trabalhamos como loucos para fazê-lo, e é certo que não foi tão ruim para nós quanto para os caras de áudio-visual (o vídeo que foi mostrado terminou de render uma hora, talvez duas, antes de subir ao ar para a devocional). Após essa façanha, houve uma reunião para comemorar, ao qual o nosso grupo não foi convidado e apenas ficamos sabendo da comemoração depois. Mais tarde, a Autoridade Geral que havia falhado em checar que o nosso grupo fora convidado, nos disse que havia uma lição nisso para nós, já que Deus não comete erros. Sim, até mesmo algo simples como convites não entregues, se feito pela mão de uma Autoridade Geral, acaba virando como se Deus o tivesse assim desejado, aparentemente.

E outras que todos já vimos em reuniões de liderança ou mesmo em atividades da Igreja como membros leigos:

Outro aspecto interessante eram as orações. Afora um gerente direto que eu tinha que simplesmente não parecia gostar de convidar outros para proferir orações, você sabia quando alguém estava empurrando alguma coisa se eles insistiam para fazer a oração. “Oramos para que todos possamos nos dedicar juntos ao projeto XYZ…”

Sobre alguns conflitos de interesse:

Eu não sei de quaisquer escândalos por assim dizer. (Note que é uma grande corporação. Havia mais ou menos 1.000 funcionários no lado de TI e o lado de TI era mantido bastante separado do COB [Escritórios da Igreja]). Eu teria gostado de ter conhecido mais sobre o que levava a algumas decisões de negócios. Por exemplo, um pedaço de software foi entregue à TI para avaliar. Algumas pessoas empurraram de volta querendo saber que valor real o produto estaria adicionando. A AG [Autoridade Geral] empurrando o produto (um monte de pessoas não sabem que determinadas AGs atuam como gestores dentro da corporação e receberão estipêndios) praticamente respondeu que o software já havia sido comprado, não importando os resultados da avaliação. Agora, se a AG já havia vendido para aqueles acima dele o produto e não queria ter que voltar atrás, ou se ele tinha um amigo na empresa que estava vendendo-o, ou apenas não confiava naqueles fazendo a avaliação técnica, eu não tenho idéia.

Sobre agilidade de publicação versus controle editorial:

Quando se trata de publicação de conteúdo, havia um processo de aprovação pelo qual itens publicados tinham que passar. Eles teriam que passar por correlação. Há um caminho para que uma editora circunvente no software para eventos mais oportunos, como o falecimento de uma AG ou algo assim, mas eles controlam isso e se você fizer isso é melhor ter uma boa desculpa para fazê-lo. Quando era sobre outras coisas, como a forma como o site está configurado, etc., há este jogo político que é jogado. Tudo vem de uma AG e raramente você vai ouvir de qual deles. Normalmente, eles só fazem parecer que se trata dos mais altos escalões sem realmente precisar de quem exatamente.

Sobre interesses internos que competem entre si:

Bem, há um monte de grupos. História da Família, da Juventude, da Sociedade de Socorro (você pode adivinhar onde que elas ficavam na lista de prioridades), etc., e todos eles queriam nos fazer acreditar que seu projeto particular era o favorito das AGs, assim que seus projetos seriam visto como de maior prioridade.

Um exemplo ilustrativo sobre como a Sociedade de Socorro é valorizada:

Um história interessante sobre a Sociedade de Socorro. Certo ano, o departamento do Sacerdócio decidiu que queria chutar a transmissão da Sociedade de Socorro para fora da seção Conferência Geral do site para a seção de transmissões, sem sequer consultar a Presidência da Sociedade de Socorro. A Sociedade de Socorro não ficou muito feliz com isso e elas acabaram sendo transferidas de volta para a seção de Conferência Geral antes da próxima Conferência Geral.

Sobre maior controle do conteúdo disponível para leitores digitais:

Os meus últimos dias de trabalho para a Igreja SUD foram estressante enquanto eu estava procurando um novo emprego. Eu me sentia como se eu estivesse trabalhando para o Ministério da Verdade de [George] Orwell [no livro] 1984. Em vez de papéis em chamas, eu ajudei a entregar a reescrita da história da Igreja no meio digital deles. Fazendo-me ainda mais desconfortável, antes de eu sair eles tinham começado uma tática para tentar usar estatísticas de tráfego do site para classificar usuários em grupos como ‘fiel’, ‘mostre-e-saia’, etc., com alguma forma de rotulagem dos visitantes do site. Discursos sobre a incorporação deste sistema de rotulação em seus objetivos futuros para personalização do site eram comuns.

Sobre o uso do site e hábitos de consumo de leitura pelos membros da Igreja:

 

Eu acho que para fora da temporada de conferências, a maior parte do tráfego vinha de navegadores que usavam o lds.org como sua homepage. Sério, às vezes, era decepcionante, pois parecia que o site não era realmente usado tanto assim. Exceto durante a conferência geral, onde a carga é realmente muito impressionante. Não me lembro exatamente, mas é loucura, especialmente considerando que é uma igreja. É como centenas de milhares, levando-se em conta todas as línguas com conteúdo. Há muito a ser dito sobre [a Igreja SUD], mas eles podem realmente produzir conteúdo.

Sobre salários e perspectivas de carreira:

Havia uma alta rotatividade quando se tratava de funcionários. Com a exceção de uns poucos fanáticos “este é o meu sacrifício ao Senhor” que ainda assim são realmente talentosos, eles tinham dificuldades segurando talentos. Eu acho que eles perderam muitas pessoas com a “medida de consagração” que eles esperavam delas, como eles dizem, e também com a atmosfera altamente política.

Sobre práticas de gerenciamento e controle de conteúdo:

A maioria das pessoas de conteúdo estão localizados no COB, no centro de Salt Lake, mas as pessoas de software estão no Riverton Office Building. Então, eu realmente não interagia com apóstolos. Meus superiores diretos eram ótimos, eu achava. Eu não me sentia observado muito de perto. O lado técnico das coisas são mantidos muito separados do pessoal de conteúdo e parecia haver um nível de desconfiança do COB. Isso quase dava uma sensação de “nós contra eles.” As pessoas responsáveis pela publicação do conteúdo no site, por outro lado, pareciam ser vigiadas bem de perto, pelo o que eu pude ver.

Vocês conseguem pensar em perguntas que gostariam de fazer ao engenheiro? Podemos enviá-lo mais perguntas e adicionar as respostas aqui na seção de comentários.

5 comentários sobre “Bastidores do Site LDS.org

  1. Eu já enviei 3 críticas aos sistemas de controle Web da igreja. Essas críticas são levadas a sério e não fui atendido porque eu teria que escrever em inglês. Porque não tem suporte em Português? As demandas de membros são levadas a sério? Minha sugestão é encarar as demandas com geração de protocolo de atendimento como um SAC. Nós temos que acompanhar os pedidos. Outra coisa era exportar os relatórios em formato Excel ou Txt. Abandonar esse negócio de tudo começar pelo sobrenome, qualquer relatório na igreja é tudo Silva, João da é muito chato trabalhar dessa forma.

  2. Interressante, usando o próprio site para enganar os membros.
    Gostaria de saber como são escolhidos os temas. Por exemplo a igreja atualmente esta sendo criticada devido a sua posição preconceituosa.
    Percebo que temos muitas coisas referente a família no site oficial.
    Outro ponto sobre mulheres e sacerdócio, a igreja foi duramente criticada e passa por outro momento difícil. So olhar o site e temos um ponto sobre a liderança da SocSoc poder participar mais nas decisões.

    A igreja escolhe a dedo o que quer exibir para manipular membros ou e só coincidência?

    • Tbm sempre observei isso, eles só repetem a mesma coisa que eles julgam ser favorável, e optam por esconder coisas “delicadas”, acredito que eles deveriam ter colocado algo acerca desse momento que estão vivendo e dessas críticas que recebem mas, fingem que não tá havendo nada! eles não querem mostrar para os membros o que realmente são!

  3. Já trabalhei na ABIJCSUD coordenadoria de construção (Reforma de Capelas) na Associação o sistema é criterioso, contava com muitos engenheiros e membros de alto escalão que não eram membros, e me parecia que o sistema de camadas era aplicado desde cima, em tese, uma camada superior, coordena e fiscaliza a camada inferior, nenhuma surpresa em relação ao método empresarial moderno.
    É claro, onde havia muito dinheiro envolvido nas obras de reforma e construção, a gestão de negócios trabalha para não permitir brecha para “tentações” e obviamente não poderia ser de outro modo.

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