Neto de Polígamos Fala Sobre Discriminação na Igreja Mórmon

Famoso jogador de basquete, membro da Igreja SUD, fala da nova política de exclusão, refletindo sobre sua experiência como filho de mórmons fundamentalistas

Lance Allred. Mórmons fundamentalistas. Poligamia. Igreja SUD. Basquete. Utah.

Lance Allred (Imagem: Barton Glasser/Deseret News)

“Uma das coisas mais alarmantes sobre a nova posição da Igreja SUD acerca de crianças de famílias gays”, escreve Lance Allred, “é como os líderes da igreja estão usando a poligamia como precedente para defender e explicar a nova política”. Lance Allred, que recentemente encerrou sua carreira como jogador de basquete da NBA,  é neto de um famoso líder mórmon fundamentalista. Ele escreveu ao jornal Salt Lake Tribune a respeito da discriminação sofrida por ele e sua família em Utah e a luta para se filiarem à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Para Allred, a nova política do Manual de Instruções SUD apresenta crianças e adolescentes em famílias polígamas ou com pais homossexuais como “cidadãos de segunda classe”. No estado sede da Igreja, afirma ele, “o dano mais sério não virá das crianças não estarem na igreja, plenamente bem-vindas, mas virá do ostracismo social na escola e comunidade”. Confira alguns trechos.

Rejeitado pelo sobrenome

Eu cresci na poligamia por escolha alheia. E por causa disso, eu estava à margem, um “apóstata”. Quando minha família se mudou da nossa comunidade polígama para Utah em 1987, o nome Allred ainda estava fresco, sinônimo do meu avô Rulon Allred, que havia sido assassinado em 1977. Meus pais de fato queriam que nós, crianças, frequentássemos a ala SUD local, pois queriam que tivéssemos uma criação mais segura e moderada. Mas fomos recusados pelo nome da nossa família e porque meu pai não estava pronto, à época, para renegar sua família, irmãos e mães.

Punido pelos pecados do pai

Como consequência, eu fui marcado com uma letra escarlate, o garoto mais alto na minha turma, com aparelhos auditivos gigantes e um jeito engraçado de falar. Acima de tudo isso, se há uma coisa que um mórmon não gosta é um mórmon polígamo. O assédio moral e a constante sensação de ser “menos do que” meus colegas foi brutal. Isso aconteceu porque eu estava pagando o preço pelas escolhas e ações dos meus antepassados. Eu estava sendo punido pelos pecados de meu pai, e não o meu próprio: um contradição direta da segunda Regra de Fé.

Sentimento de culpa por renegar familiares

Finalmente, depois de meu pai descobrir um sério abuso no conselho dos Irmãos Apostólicos Unidos¹, nós saímos [da organização] e apenas então, quando renunciamos nosso legado, nossa genealogia, participando de duras reuniões com a Primeira Presidência da Igreja SUD, foi-nos permitido entrar na fé mórmon [SUD]. Por cinco anos, após minha família ter deixado a poligamia quando eu tinha 13, tive vergonha, fui constrangido pelo meu passado, pelo meu legado. Tive que renegar a todos. Por medo de não pertencer, reneguei meus primos, meus melhores amigos que havia deixado, para que minha família e eu pudéssemos ser aceitos no novo mundo em que entrávamos. Eu senti uma tremenda culpa ao longo da minha adolescência.

Abuso mental

A Igreja SUD e seus seguidores devotos fazem-se de ingênuos e desconsideram completamente as ramificações sociais que uma criança enfrentará quando dizem frivolamente “quando tiverem 18 anos, podem ser batizadas.” Claro, quando tiverem 18, depois de passarem seus anos formativos como adolescentes, através de uma rede de abuso mental, desenvolvendo sabe-se lá que tipo de complexos emocionais e doenças. 

Estender a mão

No entanto, à medida que cresci e ganhei mais perspectiva através de minhas viagens ao redor do mundo, e falando no palco, eu me tornei orgulhoso da minha genealogia, dos meus primos, minha família, meus tios e tias, que escolheram ou tiveram de permanecer na poligamia. E quanto a isso, sim, existem monstros na poligamia e muitas vítimas, especialmente crianças. Imagine quantos desses, especialmente nos clãs Jeffs ou Kingston, que estão em situações violentas e abusivas, encontrariam a coragem de sair se a Igreja SUD passasse mais tempo acolhendo-os, possuísse um programa que oferecesse ajuda, ao invés de apontar o dedo, alienar e demarcar uma fronteira. As pessoas que necessitam de ajuda não pedirão a alguém que os esteja julgando e chamando de pecadores todas as suas vidas.

  1. Em inglês, Apostolic United Brethren (AUB). É uma das maiores organizações mórmons fundamentalistas nos Estado Unidos, desiada em Utah e com adeptos em Montana e outros estadosamericanos, além de um pequeno grupo filiado em Ozumba, México. Membros da AUB praticam casamento plural e não se consideram uma igreja.

O termo “mórmon fundamentalista” designa mórmons que praticam (ou acreditam que devem praticar) o casamento plural, entre outros princípios, e que não estão associados à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD). Em 1890, a Igreja SUD oficialmente aboliu a prática, e pelo menos desde 1909 excomunga praticantes ou mesmo simpatizantes do fundamentalismo mórmon.


 

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