Placas de Latão — Primeira Edição

Publicamos um guia introdutório para a compreensão da teoria científica da dissonância cognitiva. Recebemos, felizmente, elogios sobre a qualidade e a didática do artigo, porém também recebemos críticas pelo seu tamanho.

Infelizmente, o assunto é complexo e, portanto, muito difícil de explorar de maneira sucinta enquanto compreensiva e explicativa. Por isso resolvemos investir algum tempo citando alguns exemplos ilustrativos para incentivar a ponderação e a investigação deste assunto, que invariavelmente afeta a todo ser humano.

Felizmente, nós recebemos muitas mensagens e comentários de mórmons zelosos que acham que precisam “defender a fé”.

Nossa proposta aqui no Vozes Mórmons é estimular discussões racionais e lógicas, baseadas em fatos e raciocínio crítico. Compreendemos o estresse emocional resultante da dissonância cognitiva que motiva pessoas a expressarem-se de maneira tão emotiva e irracional.

Por isso, publicaremos episodicamente algumas “pérolas” que recebemos para exemplificar e ilustrar expressões de dissonância cognitiva que não deveriam ser aceitos em nenhum contexto racional e lógico, mas que certamente são comuns no discurso coloquial. não são bem-vindos aqui. Fazemo-no na esperança de incentivar uma conscientização ampla desse problema psicológico universal, urgindo todos à reflexão ponderativa dos mecanismos típicos de dissonância, das reduções mais frequentes, e das ferramentas existentes para superá-las. [Leia sobre isso aqui]

Sem mais delongas, eis o exemplo de hoje:
Ontem publicamos um artigo que, para qualquer leitor racional, é perfeitamente claro e inequívoco. Mencionamos um discurso recente do Apóstolo Russell Nelson, onde ele reconhece que o Livro de Mórmon não tem o valor histórico que sua narrativa indica ou mesmo Joseph Smith havia ensinado.

Sugerimos que o leitor pause um instante para lê-lo na íntegra. O artigo é curto.

Recebemos, então, um comentário muito interessante que é um perfeito exemplo de dissonância cognitiva:

 

Interessante o discurso, ainda mais interessante quando lemos em original e vemos que a conclusão dele não tinha nada a ver com a conclusão feita da ABEM. Ele disse que “There are some things the Book of Mormon is not,” President Nelson said. “It is not a textbook of history, ALTHOUGH SOME HISTORY IS FOUND WITHIN ITS PAGES. It is not a definitive work on ancient American agriculture or politics. It is not a record of all former inhabitants of the Western Hemisphere, but only of particular groups of people.”

Além da ressalva acima (que foi traduzida, porém aparentemente esquecida para gerar a conclusão), é interessante a continuidade do texto (omitida pela ABEM), onde diz que “The Book of Mormon, he continued, affirms the existence of a living and loving Father in Heaven. “It affirms the nature of our Heavenly Father’s plan of salvation, happiness, and mercy. It declares, as another testament, the generation and divinity of Jesus the Christ. It teaches of His ministry and of His Atonement. The Book of Mormon stands as a global beacon of eternal truth.” (Em tradução livre: O livro de mormon, ele continua, “afirma a natureza do plano de nosso pai celestial de salvação, felicidade e misericórdia. Ele declara, como um OUTRO TESTEMUNHO (ou testamento), a geração e a divindade de Jesus Cristo…”.

Assim sendo, em nenhum momento o líder quis abstrair o caráter histórico do evento, mas sim enfatizar a natureza e o proposito pelo qual foi escrito (propósito): um testemunho (que, por definição, já alude ao caráter real dos eventos descritos) acerca da divindade e e o plano metafisico. Esse tipo de diálogo feito pelo líder é muito comumente utilizado no campo religioso e segue o nome de HOMILÉTICA. Tirar esta frase dele de seu contexto me parece pretexto, ou muito comumente induz a erro algumas pessoas mais literalistas que desconhecem os fundamentos desse estilo de composição de sermões…. Não se recriminem por terem interpretado assim, muitas pessoas também também se enganam em sermões papais ou de escritos pastorais mais ricos e profundos.”

Aos leitores mais astutos, especialmente aos leitores familiarizados com o conceito de dissonância cognitiva.

Tomemo-lo por partes.

“Interessante o discurso, ainda mais interessante quando lemos em original e vemos que a conclusão dele não tinha nada a ver com a conclusão feita da ABEM.”

O comentarista, cegado por sua dissonância cognitiva, ignora completamente esse trecho do nosso artigo original, onde deixamos claro que o discurso, seu ponto central, e sua conclusão principal, nada tem a ver com a questão de historicidade do Livro de Mórmon (ênfase nossa):

“Nesse discurso, feito há duas semanas durante o Seminário de 2016 para Novos Presidentes de Missão no Centro de Treinamento de Missionários de Provo, Utah, cuja mensagem central fora a importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon, Nelson admiteproblemas com relação a historicidade da narrativa do Livro de Mórmon:”

Nesse momento de absoluta cegueira intelectual, esse comentarista ignora que em nenhum momento do artigo indica-se que o discurso de Nelson tratava da historicidade do Livro de Mórmon. Para qualquer leitor racional e calmo, ele obviamente explora as implicações lógicas de um comentário incidental.

Imagine, por exemplo, que ele tivesse dito: “O Livro de Mórmon oferece uma oportunidade espiritual ímpar em todos os 6 mil anos desde que a Terra foi formada por Deus”. O discurso ainda assim estaria focado nos temas religiosos e espirituais do Livro de Mórmon, mas essa afirmação obviamente indicaria implicitamente uma crença em Criacionismo da Terra Jovem. E nós estaríamos discutindo criacionismo, certamente, ao invés de historicidade do Livro de Mórmon.

Contudo, como Nelson citou tangencialmente a questão de historicidade, e ele muito óbvia e inequivocadamente citou a questão de historicidade, então nós discutimo-la. Após citar a Pérola de Grande Valor, o Livro de Mórmon, Joseph Smith, retornamos a Nelson:

“Agora, no início do século 21, vê-se o Presidente do Quórum dos Doze distanciando-se de uma leitura literal das escrituras e dos pronunciamentos proféticos tanto do Profeta Joseph Smith, como de Presidentes da Igreja do passado, enfatizando que o Livro de Mórmon “não é um livro de história” e “os antigos habitantes do Hemisfério Ocidental” não são literais descendentes da “casa de Israel”.

E em nenhum momento os seus comentários foram descontextualizados, ou sugeriu-se que o foco de seu discurso havia sido essa questão. Como se pode ver, Nelson é perfeitamente citado, e o significado de seus comentários respeitados em sentido e significado.

Então, se o artigo não sugere, em nenhum momento, que “a conclusão dele não tinha nada a ver” com a questão de historicidade, e se os comentários dele foram exata e precisamente mantidos em sentido e significado, donde a revolta de nosso estimado comentarista?

Seguimos adiante.

“Ele disse que “There are some things the Book of Mormon is not,” President Nelson said. “It is not a textbook of history, ALTHOUGH SOME HISTORY IS FOUND WITHIN ITS PAGES. It is not a definitive work on ancient American agriculture or politics. It is not a record of all former inhabitants of the Western Hemisphere, but only of particular groups of people.”

Além da ressalva acima (que foi traduzida, porém aparentemente esquecida para gerar a conclusão),” 

Novamente, cegado por sua dissonância, nosso intrépido comentarista ignora esses trechos do nosso artigo (ênfase nossa):

Agora, no início do século 21, vê-se o Presidente do Quórum dos Doze distanciando-se de uma leitura literal das escrituras e dos pronunciamentos proféticos tanto do Profeta Joseph Smith, como de Presidentes da Igreja do passado…”

Nesse momento de estuporante cegueira intelectual, esse comentarista ignora que “distanciar-se” é um verbo que indica movimento, o que implica transição e gradualidade, e não significa repúdio, negação, ou renúncia, que implicariam uma definição determinada. Dito doutra maneira, nosso comentarista ignora que o artigo explica um movimento gradual de uma posição específica (i.e., o Livro de Mórmon é historica e absolutamente literal) para outra (i.e., o Livro de Mórmon não é absolutamente literal e contém semblante de historicidade porém com muitos trechos não-históricos). [ver nota #1]

Então, se o artigo não sugere, em nenhum momento, que Nelson havia negado completamente todos os méritos históricos do Livro de Mórmon, mas apenas sugerido uma interpretação menos literal e histórica de suas afirmações canônicas, donde a revolta de nosso estimado comentarista?

Seguimos adiante.

“é interessante a continuidade do texto (omitida pela ABEM), onde diz que “The Book of Mormon, he continued, affirms the existence of a living and loving Father in Heaven. “It affirms the nature of our Heavenly Father’s plan of salvation, happiness, and mercy. It declares, as another testament, the generation and divinity of Jesus the Christ. It teaches of His ministry and of His Atonement. The Book of Mormon stands as a global beacon of eternal truth.” (Em tradução livre: O livro de mormon, ele continua, “afirma a natureza do plano de nosso pai celestial de salvação, felicidade e misericórdia. Ele declara, como um OUTRO TESTEMUNHO (ou testamento), a geração e a divindade de Jesus Cristo…”.”

Novamente, cegado por sua dissonância, nosso corajoso comentarista ignora esse trecho do nosso artigo (ênfase nossa):

“Nesse discurso, feito há duas semanas durante o Seminário de 2016 para Novos Presidentes de Missão no Centro de Treinamento de Missionários de Provo, Utah, cuja mensagem central fora a importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon, Nelson admiteproblemas com relação a historicidade da narrativa do Livro de Mórmon:”

Como mencionamos acima, o comentarista ignora que o artigo jamais sugeriu que o tema central do discurso de Nelson fora a questão de historicidade, mas sim “a importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon”. Como ele mesmo enumerou acima, a nossa afirmação sobre qual seria o tema central do discurso de Nelson está perfeitamente correta.

Então, se o artigo não sugere, em nenhum momento, que o tema central fora a questão de historicidade, e explicitamente explica que trata-se da “importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon”, donde a revolta de nosso estimado comentarista?

E, ademais, quando o nosso sardônico comentarista nos critica por haver “omitid[o]” a “continuidade do texto”, cujo conteúdo abordava um assunto sobre o qual o artigo não discutia, por que será que ele nunca parou para se perguntar o porque dessa omissão?

Seguimos adiante.

“Assim sendo, em nenhum momento o líder quis abstrair o caráter histórico do evento,” 

Novamente, cegado por sua dissonância, nosso bravo comentarista ignora esse trecho do nosso artigo, que cita diretamente Nelson (ênfase nossa):

“Há algumas coisas que o Livro de Mórmon não é. Ele não é um livro de história, embora alguma história seja encontrada em suas páginas. Ele não é uma obra definitiva sobre agricultura ou política na América antiga. Ele não é o relato de todos os antigos habitantes do Hemisfério Ocidental, mas apenas de uns grupos particulares de pessoas.”

Para qualquer leitor honesto e imparcial, Nelson está obviamente querendo “abstrair o caráter histórico”, especialmente considerando os trechos que nós citamos em nosso artigo do próprio Livro de Mórmon, da Pérola de Grande Valor, de uma carta por Joseph Smith, e de um editorial por Joseph Smith, explicitamente definindo o Livro de Mórmon como “o relato de todos os antigos habitantes do Hemisfério Ocidental”. Dito doutra maneira, Nelson está explicitamente negando ou reinterpretando o que o próprio Livro de Mórmon, a Pérola de Grande Valor, uma carta de Joseph Smith, e um editorial por Joseph Smith dizem a respeito do Livro de Mórmon.

Então, se o artigo demonstra, através de citações claras e inequivocas, que Nelson está oferecendo uma interpretação distinta da questão de historicidade do Livro de Mórmon que as fontes originais propuseram (i.e., Joseph Smith e o Livro de Mórmon em si), como seria possível honestamente dizer que Nelson “em nenhum momento…  quis abstrair o caráter histórico…” do Livro de Mórmon, como afirma o estimado comentarista?

Seguimos adiante.

“mas sim enfatizar a natureza e o proposito pelo qual foi escrito (propósito): um testemunho (que, por definição, já alude ao caráter real dos eventos descritos) acerca da divindade e e o plano metafisico.”

“Esse tipo de diálogo feito pelo líder é muito comumente utilizado no campo religioso e segue o nome de HOMILÉTICA.”

Aqui, cegado pela dissonância, o intrêmulo comentarista se repete e retoma ao tema equivocado de supor que o nosso artigo houvera sugerido que o tema central do discurso de Nelson não fora “a importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon”.

Como já lidamos com isso acima, seguimos adiante.

“Tirar esta frase dele de seu contexto me parece pretexto, ou muito comumente induz a erro algumas pessoas mais literalistas que desconhecem os fundamentos desse estilo de composição de sermões….”

Novamente, cegado pela dissonância, o destemido comentarista repete-se e, de novo, ignora que explicamos que o tema central do discurso de Nelson não fora “a importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon”.

Ademais, cria ab novo uma fantasia de que a citação examinada fora removida do contexto,  incapacitado de perceber que o contexto do discurso, mencionado por nós ainda no segundo parágrafo (sexta linha) do artigo, é inteiramente irrelevante para a análise do trecho em questão. A crença de Nelson na “importância dos temas religiosos, espirituais, e teológicos abordados no Livro de Mórmon” em nada alteram sua crença no literalismo histórico-textual de sua narrativa. Logicamente, Nelson pode crer na mensagem espiritual e não crer em sua historicidade, ou pode descrer da mensagem espiritual e ainda assim crer em sua historicidade, ou quaisquer permutações de combinações entre esses dois extremos, e o fato dele defender um em nada determina sua posição sobre o outro.

Seguimos adiante.

“Não se recriminem por terem interpretado assim, muitas pessoas também também se enganam em sermões papais ou de escritos pastorais mais ricos e profundos.”

Nosso irônico comentarista termina sua epístola com uma saudação apropriadamente irônica.

Irônica não no sentido de zombeteiro ou sarcástico, mas no sentido de ironia trágica, onde o resultado totalmente diferente das expectativas. O nosso artigo, como clara e meticulosamente demonstrado originalmente, e explicado neste, não demonstra exemplos de “engan[os] em sermões… ou… pastorais…”, pois em nenhum momento nos propomos a considerar o “sermão” pregado por Nelson, mas restringimo-nos a uma análise do contexto de um comentário tangencial, como amplamente explícito no artigo original.

Seria muito fácil para um observador mais caústico julgar que o comentarista supracitado é um leitor completamente desatento, ou talvez um apologista fanático sem escrúpulo por honestidade intelectual. Esse julgamento, contudo, seria precipitado. Dissonância cognitiva afeta a todas as pessoas igualmente, e portanto vigilância constante e repetidas reflexões sobre seus efeitos é mister para qualquer indivíduo que se proponha a estudos racionais, lógicos, e acadêmicos. Destrinchar e avaliar exemplos ilustrativos é um método didático e eficaz nessa empreitada, e portanto, agradecemos ao nosso topetudo comentarista. Reconhecemos a dificuldade de confrontar nossos próprios pontos cegos intelectuais e nossa própria dissonância cognitiva, e saudamos a todos que tem a coragem de fazê-lo em público.

Dos 4 mecanismos de redução de dissonância cognitiva, nosso pioneiro comentarista exibe 3 em seu curto comentário. Dos 4 paradigmas de manisfestações de dissonância cognitiva, ele exibe 2. Quais destes você consegue reconhecer? Qual seria uma resposta consonante adequada e racional que você lhe sugeriria?


NOTA #1

É interessante notar que o nosso comentarista também ignorou o fato que nosso artigo optou por ser elegante e caridoso atribuindo uma honestidade intelectual a Nelson que a sua afirmação não indica com clareza. Nelson poderia estar querendo dizer que tudo no Livro de Mórmon é 100% histórico, porém apenas não compreensivo, o que seria profundamente desonesto de sua parte. O Livro de Mórmon claramente afirma o que ele está desconfirmando (i.e., que ele narra a “origem” dos povos ameríndios), e sugerir que todas as afirmações do Livro de Mórmon são históricas ao mesmo tempo em que se nega uma das afirmações centrais seria profundamente desonesto. Nada pode ser 100% algo, porém com alguma exceção — a exceção altera a qualificação de 100%. Escolhemos, portanto,  acreditar que Nelson não é mentiroso e, consequentemente, não está baseando-se nessa linha de raciocínio.

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