Entendendo: Dissonância Cognitiva

Na psicologia e nas ciências neurológicas, “dissonância cognitiva” é o estresse mental ou desconforto emocional experimentado por um indivíduo que detém duas ou mais crenças, idéias ou valores contraditórios demaiso mesmo tempo, ou executa uma ação que seja contraditória com uma ou mais de suas crenças, ideias, ou valores, ou mesmo é confrontado com novas informações que conflitem com as suas crenças, idéias ou valores pré-existentes.

A teoria científica da dissonância cognitiva se concentra em como os seres humanos se esforçam continuamente por um estado de consistência interna. Uma pessoa que vivencia uma inconsistência, ou dissonância, tende a se tornar psicologicamente e emocionalmente desconfortável, e estará motivado para tentar reduzir esta dissonância, bem como ativamente evitar informações ou situações que, provavelmente, poderiam aumentá-la. Ela foi postulada pela primeira vez em 1956 pelo trabalho inovador de Leon Festinger.

A teoria da dissonância cognitiva se baseia no pressuposto que indivíduos buscam a coerência entre as suas expectativas e a realidade. Devido a isso, as pessoas se envolvem em um processo chamado “redução de dissonância” para trazer suas cognições e suas ações em sintonia umas com as outras. Esta criação de uniformidade permite uma diminuição do estresse psicológico e da angústia. De acordo com Festinger, a redução de dissonância pode ser alcançada de quatro maneiras:

  1. Mudança de comportamento ou de cognição;
  2. Justificar o comportamento ou a cognição, alterando a cognição conflitante;
  3. Justificar o comportamento ou a cognição, adicionando novas cognições;
  4. Ignorar ou negar qualquer informação que entre em conflito com as crenças existentes.

A maior parte da pesquisa sobre dissonância cognitiva assume a forma de um dos quatro principais paradigmas. Pesquisas importantes geradas pela teoria tem-se ocupado com as consequências da exposição a informações inconsistentes com uma crença existente, o que acontece depois que os indivíduos agem de maneiras que sejam incompatíveis com as suas atitudes prévias, o que acontece depois que indivíduos tomam decisões, e os efeitos de esforços investidos. Um princípio fundamental da teoria da dissonância cognitiva é que aqueles que têm investido pesadamente em uma posição específica podem, quando confrontados com evidências que a desconfirmem, ir ainda mais longe para justificar a sua posição.

Paradigma de Desconfirmação de Crença

Dissonância é sentida quando as pessoas são confrontadas com informação que seja incompatível com as suas crenças. Se a dissonância não for reduzida com alteração da crença, a dissonância pode resultar na restauração de consonância através de percepção equivocada, de rejeição ou refutação da informação, da busca de apoio de outros que compartilhem das mesmas crenças, e da tentativa em convencer outros.

Uma primeira versão da teoria da dissonância cognitiva surgiu em 1956 com o livro de Leon Festinger “Quando Profecia Falha”. Este livro relata o aprofundamento da fé de membros de uma seita após o fracasso da profecia que um pouso de OVNI era iminente. Os crentes se conheceram em um lugar e tempo pré-determinado, acreditando que só eles iriam sobreviver à destruição da Terra. O tempo designado chegou e passou sem incidentes. Eles enfrentaram dissonância cognitiva aguda: Teriam sido vítimas de uma fraude? Teriam eles doado todas as suas posses em vão? A maioria dos membros escolheu acreditar algo menos dissonante para resolver o fato que realidade não correspondera às suas expectativas: Eles acreditavam que os alienígenas haviam dado uma segunda chance à Terra, e o grupo tinha sido escolhido e ordenado para espalhar a palavra de que a destruição da Terra deveria parar. O grupo aumentou dramaticamente seu proselitismo apesar, e em grande parte por causa, que a profecia não se cumpriu.

Paradigma de Conformidade Induzida

No experimento clássico de Festinger e Carlsmith de 1959, alunos foram convidados a passar uma hora cumprindo tarefas chatas e entediante (por exemplo, girandos pinos um quarto de volta, vez após vez). As tarefas foram projetadas para gerar uma reação negativa forte. Uma vez que os indivíduos tinham cumprindo suas tarefas, alguns dos experimentadores pediam-lhes um pequeno favor. Eles foram convidados a falar com outro aluno (na verdade, um ator trabalhando pros pesquisadores) e convence-lo que as tarefas que eles tinham realizado eram interessantes e envolventes. Alguns participantes foram pagos surpreendentes $20 pelo simples favor, enquanto outro grupo foi pago apenas $1, e o grupo controle não foi solicitado o favor.

Quando solicitados a avaliar as tarefas chatas e entediantes na conclusão do estudo (não na presença do outro “aluno”), aqueles no grupo de $1 os classificou de forma mais positiva do que os dos grupos dos $20 e do controle. Isto foi explicado por Festinger e Carlsmith como evidência de dissonância cognitiva. Os pesquisadores teorizaram que as pessoas vivenciaram dissonância entre as cognições contraditórias “Eu disse a alguém que a tarefa fora interessante” e “Eu realmente achei chato.” Quando pagos apenas $1, os alunos foram obrigados a internalizar a atitude que foram induzidos a expressar porque não tinham outra justificação para tal. Aqueles na condição de receber $20, no entanto, tinham uma justificação externa óbvia para o seu comportamento, e, portanto, sentiram menos dissonância.

Em experiências subsequentes, um método alternativo de induzir dissonância tornou-se comum. Nesta pesquisa, os experimentadores usavam escrever ensaios contra-atitudinais, nos quais as pessoas eram pagas diferentes quantidades de dinheiro (por exemplo, $1 ou $10) para escrever ensaios expressando opiniões contrárias à sua própria. Pessoas pagas apenas uma pequena quantidade de dinheiro têm menos justificação externa para sua inconsistência, e devem portanto produzir justificação interna para reduzir o elevado grau de dissonância que sentem.

Uma variante do paradigma de conformidade induzida é o paradigma do brinquedo proibido. Um experimento por Aronson e Carlsmith em 1963 examinou autojustificação em crianças. Neste experimento, as crianças eram deixadas em um quarto com uma variedade de brinquedos, guloseimas, incluindo um brinquedo altamente desejável. Ao sair do quarto, o experimentador ameaçava metade das crianças com uma punição severa àquelas que brincassem com o brinquedo cobiçado e à outra metade apenas uma punição leve. Todas as crianças no estudo abstiveram-se de brincar com o brinquedo. Mais tarde, quando as crianças tinham dito que poderiam brincar livremente com qualquer brinquedo que queriam, os da condição de punição leve foram menos propensos a brincar com o tal brinquedo, mesmo que a ameaça tivesse sido removida. As crianças que tinham sido ameaçadas apenas levemente tiveram que justificar a si mesmas por que não brincaram com o brinquedo cobiçado. O grau de punição por si só não era forte o suficiente para resolver suas dissonâncias, então as crianças tinham de se convencer de que o brinquedo simplesmente não era tão legal assim.

Um estudo de 2012, usando uma versão do paradigma do brinquedo proibido, mostrou que ouvir música reduz o desenvolvimento de dissonância cognitiva. Com nenhuma música tocando ao fundo, o grupo controle de crianças de quatro anos de idade foi orientado a evitar brincar com determinado brinquedo. Depois de brincarem sozinhos, as crianças depois desvalorizaram o brinquedo proibido na sua classificação, o que é como os resultados de estudos anteriores sugeriria. No entanto, no grupo variável, música clássica foi tocada ao fundo enquanto as crianças brincavam sozinhas. Nesse grupo, as crianças não desvalorizaram o brinquedo depois. Os pesquisadores concluíram que música que pode inibir certas cognições resultando na redução da dissonância.

A música não é o único exemplo de uma força externa que influencia em diminuição de dissonância pós-decisional; um estudo de 2010 mostrou que a lavagem das mãos tinha um efeito semelhante.

Paradigma de Livre Arbítrio

Em um tipo diferente de experimento conduzido por Jack Brehm, 225 estudantes do sexo feminino avaliaram uma série de aparelhos domésticos e em seguida foram permitidas escolher entre um de dois aparelhos para levar para casa como presente. Uma segunda rodada de avaliações mostrou que as participantes aumentaram as suas classificações do item que eles escolheram, e rebaixaram suas classificações do item rejeitado.

Isto pode ser explicado em termos de dissonância cognitiva. Ao tomar uma decisão difícil, há sempre aspectos na escolha rejeitada que permanecem atraentes e essas características são dissonantes com a escolha da outra coisa. Em outras palavras, a cognição “Eu escolhi X” é dissonante com a cognição “Há algumas coisas que eu gosto sobre Y”. Pesquisas mais recentes encontraram resultados semelhantes em crianças de quatro anos de idade e até em macacos-prego .

Além de deliberações internas, a estruturação de decisões entre outros indivíduos podem desempenhar um papel na forma como um indivíduo age. Pesquisadores em um estudo de 2010 analisaram as preferências e normas sociais como reportadas, de forma linear, para decidir salários entre três indivíduos. As ações do primeiro participante influenciavam a própria auto-determinação do salário do segundo, e assim por diante. Os pesquisadores argumentam que a aversão à desigualdade é a principal preocupação dos participantes.

Paradigma da Justificação do Esforço

Dissonância é despertada quando indivíduos se envolvem voluntariamente em uma atividade desagradável para alcançar algum objetivo desejado e dissonância pode ser reduzida por exagerar o valor da meta. Aronson e Mills submeteram indivíduos a uma “iniciação” embaraçosa (i.e., trote do tipo universitário) para se juntar a um grupo de discussão. Um grupo foi convidado a ler doze palavras obscenas em voz alta; o outro para ler doze palavras que eram relacionadas com o sexo, mas não obsceno. Ambos os grupos foram, então, dado fones de ouvido para ouvir uma discussão pré-gravada “projetada para ser tão maçante e banal quanto possível” sobre o comportamento sexual dos animais. Os participantes foram informados de que a discussão estaria ocorrendo na sala ao lado. Os indivíduos cuja iniciação exigida palavras obscenas avaliou o grupo como mais interessante do que os indivíduos na condição de leve iniciação.

Lavar as mãos foi demostrado como eliminando a dissonância pós-decisional, presumivelmente porque a dissonância é comumente causada pelo desgosto moral (i.e., consigo mesmo), o que está relacionado com nojo de condições insalubres.

Exemplos Clássicos

Sabbatai Sevi

Um exemplo clássico de redução da dissonância cognitiva ocorreu movimento messiânico judaico do século 17 de um judeu, chamado Sabbatai Sevi, que proclamou publicamente ser o Messias em 1665. Sevi, um adepto de uma teologia judaica popular chamado Cabalismo Luriânico, era um maníaco-depressivo carismático que deliberada e espetacularmente quebrava a lei de Moisés, comia alimentos proibidos e pronunciava o nome sagrado de Deus, e, em seguida, afirmava que ele tinha sido inspirado a fazê-lo por revelação especial. Sabbatai angariou muitos seguidores, abrangendo a Itália, a Holanda, a Alemanha e a Polónia. Seus seguidores pensavam que ele iria inaugurar uma nova era de redenção para Israel. No entanto, quando Sabbatai viajou para Istambul em 1666, ele foi preso e encarcerado pelas autoridades muçulmanas. O sultão lhe deu uma escolha: conversão ao Islã ou morte. Sabbatai escolheu o Islã.

Consequentemente, uma doutrina Sabbatiana peculiar desenvolveu-se e cristalizou-se com extraordinária rapidez nos anos seguintes. Dois fatores foram responsáveis por isso: por um lado, uma fé profundamente enraizada, alimentada por uma experiência profunda e religiosa e, por outro lado, a necessidade ideológica para explicar e racionalizar a dolorosa contradição entre a realidade histórica e a fé. Em poucas palavras, a teologia redefinida era que tudo aquilo fizera parte de uma estratégia intencional de assumir a forma de mal e depois matá-lo de dentro. Quando a poeira baixou, a cruel decepção foi transformada em uma afirmação positiva de fé.

Os Lubavitch

Um grupo de judeus hassídicos Lubavitch, um subgrupo de judeus ortodoxos, era sediado em Nova York e tinha cerca de duzentos mil seguidores em todo o mundo. A partir de 1991, cresceu-se um fervor cada vez maior entre os Lubavitch que seu líder espiritual, o Rebbe Menachem Mendel Schneerson ( “Rebe” é o título formal para o líder espiritual dos Lubavitch), poderia ser o tão esperado Messias, aquele que daria início à redenção do fim dos tempos. O Rebbe Schneerson nunca reivindicou explicitamente que ele era o Messias, mas causou uma grande impressão em tantos de seus seguidores que muitos pensavam que ele poderia ser.

Em março de 1992, aos 89 anos de idade, Rebbe Schneerson teve um derrame que o deixou paralisado do lado direito de seu corpo e incapaz de falar. Apesar de sua profunda incapacidade, o fervor messiânico na comunidade Lubavitch intensificou-se, culminando com planos para coroá-lo o Messias. Lubavitchers citavam Isaías 53, “um homem de dores, e experimentado no sofrimento”, e argumentavam que sua doença era um pré-requisito para a vinda messiânica e que o próprio Rebbe tinha escolhido ficar doente e tinha tomado sobre si o sofrimento do povo judeu.

Dois anos mais tarde, em 10 de março de 1994, Rebbe Schneerson teve outro derrame, desta vez deixando-o em coma. Seus seguidores seguiam inabaláveis, mais uma vez agarrados à sua crença de que ele poderia ser o Messias.

Um rabino lubavitcher ofereceu a seguinte racionalização:

“O Rebbe está agora em um estado de ocultação. Os judeus não podiam ver Moisés no Monte Sinai e achavam que ele estava morto. Eles construíram o bezerro de ouro e tiveram uma visão dele morto num caixão, enquanto ele estava de fato vivo e em estado de ocultação. O Rebbe está em um estado de Chinoplet, um estado de transe em que a alma deixa o corpo. A alma do Rebbe tem que ir até os reinos inferiores para arrastar as almas dos pecadores. Ele deve fazer isso antes que ele se declare o Messias.”

Três meses após este segundo acidente vascular cerebral, em 12 de junho de 1994, Rebbe Schneerson morreu. Mesmo isso ainda não conseguira extinguir a crença de que ele poderia ser o Messias. Embora os números exatos sejam desconhecidos, a ideia de que Rebbe Schneerson iria ressuscitar dos mortos logo varreu a comunidade Lubavitch em todo o mundo. Os seguidores de Rebbe Schneerson racionalizaram que seu Messias morto iria completar sua missão mais tarde, depois que ele ressuscitasse dos mortos.

Leon Festinger explica isso em termos gerais:

“Onde há um número de pessoas com a mesma dissonância cognitiva, o fenômeno [de redução da dissonância cognitiva] pode ser muito mais espetacular, até mesmo ao ponto onde seja possível suportar provas que de outra forma seriam esmagadoras… Há uma tendência para buscar explicações desses fenômenos marcantes que lhes correspondem em qualidade dramática, isto é, se procura algo incomum para explicar o resultado incomum. Pode ser, no entanto, que não há nada mais incomum sobre esses fenômenos do que a relativa raridade da combinação específica de circunstâncias ordinárias que resultam em sua ocorrência.”

Exemplos Mórmons

Como o nosso foco aqui no Vozes Mórmons é estudar o mormonismo, ilustraremos o conceito de dissonância cognitiva com alguns exemplos tirados de nossa experiência coletiva. Nesses 5 anos no ar, nós já recebemos dezenas de milhares de comentários, emails, e mensagens, dos quais ao menos metade perfeitamente ilustrariam um ou mais aspecto de dissonância cognitiva.  Mencionaremos, portanto, alguns destes ilustrativos baseados nas reações mais frequentes.

Com relação às 4 formas de expressão de dissonância cognitiva:

1) Paradigma de Desconfirmação de Crença

Em 1834, o Profeta fundador do mormonismo, Joseph Smith, convocou um exército de mórmons para marchar através dos Estados Unidos para recuperar, à força militar, terras perdidas por mórmons assentados no estado de Missouri. Smith profetizou milagres divinos e sucesso militar para resgatar o assentamento na prometida (em profecia) cidade de Sião, onde ergueriam a Nova Jerusalém em preparação ao iminente apocalipse cristão (donde o epíteto “dos últimos dias”).

Esse exército, denominado de “Acampamento de Sião”, foi um enorme fracasso. Após 1.500 km de marcha, dentre os aproximadamente 200 voluntários, nenhum participou de nenhum combate, 14 morreram e dezenas adoeceram de uma doença infecciosa facilmente evitável (cólera), e nenhuma terra foi recuperada.  Além disso, dezenas de mórmons voluntários se revoltaram contra o Profeta quando se deram conta que suas profecias de conquista militar e resgate imobiliário não haviam se cumprido. Aos veteranos que se mantiveram leais Smith recompensou criando o Quórum dos Doze Apóstolos e o Quórum dos Setenta e preenchendo-os com eles.

Qual era a cognição original? Montar um exército para resgatar o assentamento de Sião que seria imbatível pois Deus estava no comando.

Qual foi a realidade que disconfirmou a cognição original? O exército não cumpriu nenhum de seus objetivos.

Como se reduziu a dissonância? Alterando-se a cognição original, ao mudar os parâmetros dos objetivos da missão para os resultados obtidos, não os previamente almejados. Deus, ao invés de resgatar os membros em Missouri e milagrosamente recuperar suas terras, apenas queria separar o joio do trigo para escolher esses novos líderes eclesiásticos.

2) Paradigma de Conformidade Induzida

Não obstante o seu completo fracasso, hoje o Acampamento de Sião é uma das estórias prediletas para se promover fé entre mórmons. Conta-se da fé inabalável de homens que largaram tudo para obedecer o Profeta e mantiveram a fé mesmo após o retumbante fracasso de sua missão e de suas profecias, recebendo por isso bençãos espirituais na forma de promoções eclesiásticas. Não é incomum ouvir mórmons afirmando que a aventura militar não fora um fracasso, pois serviu para separar o joio do trigo e ainda treinar esses líderes religiosos para missões eclesiásticas futuras. Muitos desses líderes pessoalmente viriam a citar esse fracasso militar como uma experiência apoteótica e epifanica em suas carreiras religiosas.

Qual era a cognição original? Montar um exército para resgatar o assentamento de Sião que seria imbatível pois Deus estava no comando.

Qual foi a realidade que disconfirmou a cognição original? O exército não cumpriu nenhum de seus objetivos.

Como se reduziu a dissonância? Alterando a percepção dos resultados, justificando e restruturando um completo fracasso como uma experiência memorável e educacional.

3) Paradigma de Livre Arbítrio

Como em toda religião, culto, seita, agremiação, cultura, e sociedade, existem aspectos positivos e aspectos negativos atrelados à condição de “ser mórmon”. Não obstante, mórmons costumam estruturar seu pensamento religioso desnecessariamente em uma condição binária e maniqueísta, impedindo-os de considerar a possibilidade da existência de “aspectos negativos”.

Ou a igreja é a “única verdadeira” ou ela é uma fraude completa. A Igreja é a “única viva e verdadeira na face da terra” e todas as demais são “a igreja do diabo” e visões nuanceadas e mais complexas como “a Igreja é importante e relevante pra mim, assim como outras igrejas são importantes e relevantes para seus praticantes” são vistas com suspeita ou até mesmo condenação aberta. Tal posição extremista e simplista apaga quaisquer equivocações ou nuances (e.g., do tipo “nem tudo que a Igreja prega é importante ou relevante pra mim”), que devem ser, e frequentemente são, ignorados e evitados a todo custo.

Uma vez escolhido, ou imposto por berço e tradição familiar, “ser mórmon” significa a impossibilidade de olhar para alternativas (e.g., “não ser mórmon”, ou “ser mórmon mas não concordar com tudo no mormonismo”) ou considerar que haja aspectos negativos em “ser mórmon” por determinação a priori.

Qual era a cognição original? A Igreja é a “única e viva e verdadeira” e tudo o mais é “mundano e morto e falso”.

Qual foi a realidade que disconfirmou a cognição original? Existem aspectos negativos na Igreja, como em tudo na vida real.

Como se reduziu a dissonância? Alterando a percepção da realidade, aceitando apenas os aspectos positivos da Igreja, rejeitando considerar os aspectos negativos, e fazendo o inverso (ou mesmo ignorando) o mundo além das fronteiras dela.

4) Paradigma da Justificação do Esforço

De mórmons espera-se sacrificar muito tempo e esforço durante a semana típica devotados diretamente à Igreja em serviço voluntário. É um fato popularmente aceito que quando mais tempo se dedica às atividades da Igreja, mais “fiel” torna-se o membro. Quanto mais se dedica tempo e esforço à ela, mais se torna relevante ou o fim em si para o membro.

Contudo, muitos membros abertamenta admitem que tais serviços e tarefas são entediantes e intelectual ou espiritualmente improdutivas.  Não é incomum ver ou ouvir membros convencendo-se, ou tentando convencer outros, que tais atividades são mais interessantes do que realmente sejam. Discutir a falta na qualidade intelectual ou espiritual dessas é, inclusive, visto como sinal de “apostasia” ou “falta de fé ou espiritualidade”.

Com relação os mecanismos para redução de dissonância:

1) Mudança de comportamento ou de cognição

Durante mais de um século a Igreja SUD discriminou contra negros, reduzindo-os a membros de segunda categoria. Negros podiam se converter e se batizar, mas jamais podiam ser ordenados ao sacerdócio, servir em posições de liderança eclesiástica, ou mesmo participar dos rituais e sacramentos mais importantes na teologia mórmon.

Para justificar tal discriminação, mórmons pregaram que: 1) Deus instituiu a escravidão negra; 2) Deus instituiu uma  maldição sobre negros por tratar-se de uma raça inferior e merecedora de ser escravizada; 3) Deus instituiu tal restrição por serem “representante[s] na Terra” do “Diabo”; 4) O negro  “é obviamente inferior ao branco”; e 5) Negros haviam sido aliados de Satanás na vida pré-mortal.

Subitamente em 1978 a política de segregação racial foi cancelada, e imediatamente todos esses ensinamentos religiosos e proféticos foram relegados ao status de “mero folclore”.  A nova cognição é que Deus não faz acepção de pessoas baseado em cor de pele, então todos aqueles ensinamentos que eram doutrina tornaram-se, pela nova definição imposta ou reinterpretação, “apenas” folclore e “nunca foram doutrina”.

2) Justificar o comportamento ou a cognição, alterando a cognição conflitante

Cognição #1: Deus não é racista.

Cognição #2: Deus lidera diretamente a Igreja SUD.

Cognição #3: A Igreja era racista até 1978.

Essas cognições são conflitantes. Se #1 e #2 são verdadeiras, #3 é falsa. Se #1 e #3 são verdadeiras, #2 é falsa. Se #2 e#3 são verdadeiras, #1 é falsa.

Crer nessas 3 cognições resultará, inevitavelmente, em dissonância. Como reduzi-la?

 

Muitos mórmons qualificam a discriminação contra negros como “não tão ruim” já que permitia-se que fossem batizados “igualmente”. As óbvias diferenças, como não ser ordenado ao sacerdócio e não frequentar o templo, são relegadas a mero detalhe incidental, apesar do fato que na doutrina mórmon o sacerdócio e o templo eram então, e ainda são hoje, instituições eclesiásticas fundamentais e centrais para qualquer mórmon. Contudo, quando se discute o passado de segregação racial, e apenas quando se discute isso, elas são reinterpretadas para significar menos do que realmente significam na vida religiosa de um mórmon.  Ademais, como poderia ser discriminação se eles podiam se batizar? Se são membros de segunda categoria, ainda assim são membros. Onde há “discriminação” nisso?

É óbvio para qualquer observador externo que, para se abraçar tal visão é mister ignorar-se que, por definição, “discriminação” literalmente significa “[t]ratamento desigual ou injusto dado a uma pessoa ou grupo, com base em preconceitos de alguma ordem, nomeadamente sexual, religioso, étnico, etc.”, alterando-se seu significado para algo desnecessariamente extremista como “absolutamente nenhum tratamento ou contato com uma pessoa ou grupo…”.

Ademais, é preciso também ignorar que o substantivo “racismo” literalmente significa “[t]eoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial)…”, o que é exatamente a “separação” que a Igreja fazia até 1978 entre seus membros brancos e negros.

Procura-se comumente reduzir essa dissonância, portanto, ao alterar uma das cognições que causa tal dissonância, a saber, alterando-se o significado do adjetivo “racista” e criando-se uma versão absolutamente extrema e fictícia, muito além do seu significado original e universalmente aceito.

É interessante, nesse momento, abrir um aparte para notar dois fatos comuns entre, porém não exclusivos a, mórmons: 1) Apologistas são especialistas em abraçar dissonância cognitiva para reduzi-la enquanto fingem nunca tê-lo feito; 2) Uma tática popular entre apologistas é inventar novas definições para palavras, conceitos, ou fatos de uso e aplicação exclusiva para eles e que se contrapõe às definições ou aos fatos universalmente aceitos fora da bolha apologética. Esse exemplo acima, de insistir que a discriminação SUD contra negros baseado em racismo institucional não era discriminação e não era racismo, é uma perfeita ilustração de uma postura que, para o observador externo pode parecer esquizofrênico ou desonesto, mas que é perfeitamente explicável dentro do contexto psicológico da Teoria da Dissonância Cognitiva e da tática apologética de reduzir dissonância criando definições diferentes para termos similares ao invés de confrontar os fatos. Para o apologista, discriminar contra negros não é discriminação porque ele simplesmente inventa para si uma definição nova, exclusiva, e idiosincrática do que é discriminação.

3) Justificar o comportamento ou a cognição, adicionando novas cognições

Dentro desse contexto de criar novas definições idiosincráticas para termos universais, muitos mórmons qualificam a supracitada discriminação contra negros simplesmente como não discriminatória pois, para eles, discriminação “de verdade” seria escravidão ou segregação racial do tipo “Apartheid” sul-africano.

Essas “nova cognições” são, como é comum para esforços apologéticos, intelectualmente desonestos pois distorcem a cognição original e distorcem os fatos (e.g., Brigham Young legalizou e defendeu escravidão negra; Apartheid é uma palavra em Afrikaans que literalmente significa “separar” ou “segregar” usada para descrever uma ordem política sul-africana para legalmente tratar brancos e negros diferentemente, assim como a Igreja SUD fazia), introduzindo novos ou diferentes significados a um termo ou ideia já universalmente definidos e criando “nova cognições” que sejam invisíveis ou irreconhecíveis para o observador externo ou objetivo.

4) Ignorar ou negar qualquer informação que entre em conflito com as crenças existentes

E, finalmente, muitos mórmons simplesmente afirmam categoricamente que tudo isso é mentira, e a Igreja nunca discriminou contra negros. Quando se lhes apresenta os fatos demonstrando a realidade histórica do ocorrido, repetem fervorasamente “é mentira” e obtusamente ignoram ou negam os fatos amplamente comprovados.

Variações do “é mentira” popular entre mórmons incluem “isso é apostasia”, ou “pra quê falar sobre isso”, ou “isso não é necessário para minha exaltação”, ou recentemente, “duvide das suas dúvidas” e “você perguntaria para Judas sobre Jesus”. Frases de efeito que serve o único propósito de ignorar ou negar novas informações que possam gerar novas cognições que criem conflitos com cognições pré-existentes.

Conclusão

Certamente você conhece, já testemunhou, ou mesmo já vivenciou uma ou mais dessas situações de dissonância. É possível que o tenha experimentado por si mesmo, ou quiçá, em circunstâncias diferentes, o veja expresso em colegas correligionários. Dissonância cognitiva é uma reação universal, irracional, e inerente à condição humana, e apenas ciência dela nos permite desenvolver as ferramentas para minimizar seu controle sobre nossas vidas e  almejar uma existência mais consciente, racional, e coerente.

Conte-nos abaixo quais  exemplos ilustrativos com o quais você poderia contribuir para o acervo coletivo de ilustrações mórmons de dissonância cognitiva.


Referências

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Adaptado parcialmente dos artigos “Cognitive Dissonance” e “Cognitive Dissonance and the Resurrection of Jesus“.

6 comentários sobre “Entendendo: Dissonância Cognitiva

  1. Estava ansiosa para um dia ler esta reportagem. eles se encaixam em tudo isso, eu já tinha visto esses experimentos no youtube, e só percebemos que agimos dessa forma quando saímos da SUD. esses mórmons, percebo hoje, que são incapazes de pensar por si mesmos.

    • Magnólia, ….”esses mórmons, percebo hoje, que são incapazes de pensar por si mesmos.”
      Eu sou mórmon, amo a maioria dos preceitos doutrinários da minha religião, tenho admiração e respeito pelo líder fundador da mesma (embora não seja cego para suas falhas também) acredito no livro de mórmon como obra inspirada, linda e sim, divina (pois “o divino” para mim se contamina com o barro do mundano também). Vejo gente humilde, boa honesta aos montes na Igreja e também vários pilantras e aproveitadores. Você acha que eu sou incapaz de pensar?

  2. Lembrei do Mito da Caverna de Platão, já mencionado em outro comentário aqui no blog por outro leitor, da fábula da raposa e as uvas, além do meu próprio comentário no texto da pesquisa sobre Mórmons serem anti-católicos. Gosto bastante dos textos de abordagem psicológica. Já havia lido aqui outro texto com o mesmo tema (dissonância cognitiva), mas confesso que entendi melhor só agora.

    • A postagem foi para pessoas como você caro Jean mas, acredito que nem sequer foi lido por você e se leu nem entendeu, já tinha uma respostinha na ponta da língua!

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