Às vésperas da eleição presidencial que levaria ao segundo turno Dilma Roussef e José Serra, o setenta brasileiro Claudio Costa pregava a obediência cega e utilizava a economia brasileira como um exemplo de revelações específicas dadas por profetas vivos.

Cláudio R. M. Costa, da Presidência dos Setenta
Em 02 de outubro de 2010, Costa discursou na 180a Conferência Geral d”A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, baseando-se em um famoso discurso do apóstolo Ezra Taft Benson, “Catorze Princípios Fundamentais Para Seguir o Profeta”. Para ilustrar a afirmação de Benson de que “o profeta vivo é mais importante para nós do que as obras-padrão”, Costa ofereceu o seguinte exemplo:
O profeta vivo recebe revelações específicas para nós. [1] Lembro-me de muitas vezes em que estive presente para ouvir um dos servos do Senhor falar algo específico para uma cidade ou um país. Lembro-me de pelo menos três profetas, videntes e reveladores vivos que falaram sobre meu país, o Brasil. Um desses servos disse que o Brasil se tornaria uma das grandes economias do mundo, livre da inflação. Naquela época, tínhamos uma inflação mensal de dois dígitos. Era difícil para muitas pessoas acreditarem no que o profeta disse, mas eu acreditei. Atualmente, o Brasil tem uma inflação anual de cinco por cento, e isso vem acontecendo há vários anos. O Brasil tornou-se a oitava maior economia do mundo, e o país está indo muito bem!
Uma inflação mais baixa não significa o fim da inflação. Ou seja, o Brasil não estava naquele ano “livre da inflação”. Em 2010, o índice oficial ficaria em 5,91%.
Otimismo com razão
Mesmo sendo o mais elevado em seis anos, porém, 5,91% não se pareciam em nada com os exorbitantes índices anteriores a 1995. Em períodos das décadas de 1980 e 1990, esse seria um índice diário de inflação. Portanto, o otimismo de Costa em relação à economia brasileira não era sem motivo, como ilustra este gráfico:

A inflação brasileira entre 1965 e 2010. Gráfico: mercadopular.org
O castigo da inflação
Inflação é um assunto digno da atenção de qualquer pessoa preocupada com a harmonia em sociedade e o bem-estar do próximo. Portanto, é louvável que o assunto chame a atenção de um líder mundial do mormonismo.
Traduzida de forma mais visível pela alta persistente e generalizada de preços, inflação é o aumento da quantidade de dinheiro disponível em certo momento. Ela prejudica toda a economia, mas muito especialmente as pessoas mais pobres e que dependem de salários. Enquanto os mais ricos conseguem manter maior poder de compra através de aplicações financeiras, pobres têm sua própria subsistência prejudicada de forma perversa, pois sua renda real diminui a cada mês. Importações de alimentos, medicamentos e outros produtos também se tornam menos acessíveis devido à desvalorização da moeda nacional.
O mundo melhorou
Em dezesseis anos, sob os governos social-democrata e petista, o Brasil passou a ter uma moeda estável e uma inflação muito menor do que em períodos anteriores. Discursando ao final do segundo mandato de Lula, Costa poderia ter dito, com razão, que “nunca antes na história deste país” houvera tanta prosperidade. O que o setenta não reconheceu, mas até Lula incorporou a seus autoelogios no mês anterior ao discurso de Costa, é que vivíamos em um “momento auspicioso” para a humanidade e não só para o Brasil: a pobreza caía notavelmente em todas as regiões do globo.
Mudanças demográficas, políticas econômicas, maior acesso à educação e programas de combate à pobreza extrema fizeram com que o país seguisse o ritmo mundial de crescimento econômico e de qualidade de vida, ainda que aquém de outros países emergentes (inclusive na redução da inflação).
“Naquela época [da suposta profecia], tínhamos uma inflação mensal de dois dígitos”, afirmou Costa. Porém, a inflação voltou aos dois dígitos em 2015: 10,67%, o maior índice em treze anos. Para este ano, a estimativa é que seja de 7,2%.
Revelação? Específica?
Apesar de falar em “revelações específicas” dadas pelo “profeta vivo”, Costa não fornece informações mínimas sobre quem proferiu a profecia sobre o Brasil (“[u]m desses servos”) ou quando o fez (“naquela época”). Ainda que seja óbvio que as escrituras não tratem do conceito moderno de inflação, seu relato tampouco explica como a palavra do “profeta vivo” é superior ou mais precisa do que as escrituras canônicas do mormonismo.
Fazendo uso da imprecisão a seu favor, Costa não explica se a profecia dada por “um desses servos” já havia sido cumprida ao atingirmos “uma inflação anual de cinco por cento” ou se seria ainda cumprida futuramente com uma utópica taxa de inflação de 0%. Tal ambiguidade, porém, contraria o próprio conceito de profetizar um evento futuro:
Não se pode checar objetiva ou racionalmente as visões sobrenaturais de um vidente, ou as revelações sobrenaturais de um revelador, ou mesmo o privilégio epistêmico sobre Jesus de um Apóstolo, mas uma profecia pode ser checada e confirmada quanto ao seu cumprimento factual.
Uma frase, no entanto, parece sugerir que Costa está falando de uma profecia cumprida: “Era difícil para muitas pessoas acreditarem no que o profeta disse, mas eu acreditei” (ao invés de “eu acredito”).
Além de fazer o desserviço aos santos dos últimos dias de dar novo alento ao satânico discurso de Benson, Costa agiu levianamente ao relatar a suposta (e vaga) profecia sobre a economia brasileira. Ao assim fazer, ele tão somente enfatizou o culto à autoridade e o folclore SUD de que há revelações sendo recebidas cotidianamente pelas autoridades gerais, e sobre as quais os membros não precisam saber.
Nota
1. Diferentemente do transcrito no texto oficial em português, o áudio em português, bem como no texto e áudio em inglês, a primeira frase lê “O profeta vivo está recebendo revelações específicas para nós”.
Faltou profetizar que a inflação foi baixa no governo do PT…2005-13
Que pena que vários comentários foram aprovados e o meu não, só porque usei de um pseudônimo. Ótima a sua política de só aceitar comentários que lhes convém ou que vocês possam rebater ideologicamente.
Estimado,
Nós permitimos que se use “de (sic) um pseudônimo”. Um pouco de inteligência, honestidade, ou atenção na sua parte e teria visto muitos comentaristas usando pseudônimos aqui.
Nós não só “aceit[amos] comentários que [nos] convém”. Um pouco de inteligência, honestidade, ou atenção na sua parte e teria visto muitos comentários que discordam dos artigos publicados.
Não obstante, mantemos regras claras e inequívocas para participar no nosso site com comentários. As regras estão publicadas de maneira fácil de se encontrar, ler, e entender há mais de 5 anos. Um pouco de inteligência, honestidade, ou atenção na sua parte e teria visto essa:
Você se ilude muito se acredita que o seu comentário seja difícil de “rebater ideologicamente”, especialmente considerando que ele é inteiramente fundamentado em duas falácias lógicas comuns. Adeque os seus comentários às nossas regras de participação e publicaremos todos os seus comentários. Inclusive aquele seu comentário in toto, que ainda mantemos em arquivo, assim como uma explicação baseada nele para o seu aprendizado em raciocínio lógico.