Líderes Mórmons – Cuja Igreja é Frequentemente Associada ao Partido Republicano – Reagem à Política de Partido Único

David Campbell

Os principais líderes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias lançaram uma bomba em Junho de 2023, dizendo ao seu rebanho para votar nos democratas. Bem, quase isso.

Laços com a política republicana estariam prejudicando a retenção da Igreja SUD nos EUA? | Imagem: cortesia de cottonbro studio.

Numa carta lida por líderes locais durante as reuniões de adoração em todo o país, o presidente da igreja e os seus dois conselheiros instruíram os membros a não votarem em um único partido político. Santos dos últimos dias, muitas vezes conhecidos como mórmons, têm apoiado esmagadoramente os republicanos nas últimas décadas.

“Apenas votar em um único partido ou votar com base na ‘tradição’, sem um estudo cuidadoso dos candidatos e de suas posições sobre questões importantes, é uma ameaça à democracia e inconsistente com os padrões revelados”, escreveram as três principais autoridades da Igreja, referindo-se às escrituras santos dos últimos dias.

Tais cartas são frequentemente usadas para orientar os fiéis. Por exemplo, em 2008, cartas semelhantes mobilizaram os santos dos últimos dias na Califórnia para apoiarem a Proposição 8, uma iniciativa eleitoral contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tal como sugerido pelo enorme tempo e dinheiro que membros da igreja investiram na Proposição 8, estas cartas podem ser persuasivas devido, em grande parte, ao papel único dos líderes. Dentro da fé, as principais autoridades SUD são conhecidas como “profetas, videntes e reveladores”, e membros falam frequentemente da necessidade de “seguir o profeta”, referindo-se ao presidente da igreja. De fato, há uma cativante canção infantil com esse título, que inclui o refrão “segue o profeta, não vais errar”.

Para o observador casual da política americana, é sem dúvida surpreendente ouvir que os líderes SUD estão a promover a ideia de votar nos Democratas. Mas, como cientista político que estuda religião, incluindo a Igreja SUD, acredito que a carta destaca uma tendência importante no cristianismo norte-americano.

Fãs republicanos – mas nem sempre

É verdade que mórmons rivalizam com cristãos evangélicos brancos em seu apoio ao Partido Republicano, e geralmente têm opiniões muito conservadoras. De acordo com o Cooperative Election Study, 60% dos membros da igreja SUD se identificam como republicanos e apenas 23% como democratas.

No entanto, mórmons nem sempre se alinham perfeitamente com as prioridades de outros Republicanos. São, por exemplo, mais moderados na política de imigração e, embora se oponham ao aborto, a Igreja nunca apelou a uma proibição total. Apesar de um histórico de oposição ao casamento gay, os líderes SUD endossaram o recente projeto de lei no Congresso que afirma o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo – embora somente depois de garantirem que organizações religiosas não seriam obrigadas a reconhecer tais casamentos.

Santos dos últimos dias também nunca aderiram totalmente ao movimento de Donald Trump. Em 2016, Trump obteve apenas 45% dos votos em Utah, estado predominantemente mórmon, em grande parte porque o candidato de um terceiro partido, Evan McMullin, membro da igreja, corroeu seu apoio. Indo para as eleições de 2020, Trump teve índices de aprovação mais baixos entre santos dos últimos dias do que entre outros grupos fortemente republicanos.

A ambivalência de muitos membros em relação a Trump pode ter resultado de mensagens anteriores de líderes religiosos. Em 2016, um editorial do Deseret News, de propriedade da igreja, apelava a Trump para abandonar a corrida – embora não apoiasse sua oponente democrata, Hillary Clinton.

Ainda mais diretamente, líderes da Igreja emitiram uma declaração condenando o “banimento muçulmano” proposto por Trump. Um movimento pouco característico da Igreja, refletiu a oposição particular dos santos dos últimos dias ao ataque a minorias religiosas, dada sua própria história de serem tratados como intrusos.

Não é coincidência que o político SUD mais proeminente do país, o senador do Utah Mitt Romney, tenha sido durante muito tempo uma pedra no sapato de Trump.

Olhos no futuro

Por que os líderes estão se pronunciando? Pode-se argumentar que isto não é novidade, uma vez que a hierarquia SUD já havia encorajado mais o bipartidarismo. “Não é do nosso interesse sermos conhecidos como uma igreja de partido único”, disse um élder ao The Salt Lake Tribune durante entrevista em 1998.

Uma pergunta melhor é por que as autoridades máximas da Igreja estão se manifestando agora. Parte da explicação provavelmente decorre da preocupação com o domínio que Trump e a abordagem trumpiana da política exercem sobre o Partido Republicano.

Mas eu argumento que há outra explicação. Santos dos últimos dias são bem conhecidos por seu extenso programa missionário em todo o mundo. Nos Estados Unidos, contudo, a Igreja não ficou imune ao declínio nacional em filiação religiosa.

A própria igreja relata um crescimento decrescente no número oficial de membros, que se baseia em registos de batismo. Contudo, pesquisas públicas revelam que o número de santos dos últimos dias nos EUA está, de fato, diminuindo, e não apenas a taxa de crescimento. Mesmo entre os que se autodenominam santos dos últimos dias, um quarto já considerou deixar a igreja.

Pesquisas conduzidas por mim e por outros cientistas políticos mostram que uma das razões pelas quais tantos americanos estão se afastando da religião é a relação entre o cristianismo conservador e o Partido Republicano. Pessoas cujas visões religiosas se alinham com a direita religiosa, mas não compartilham sua política, geralmente se sentem em conflito. Em alguns casos, elas deixam a congregação onde adoram por uma nova. Outras, no entanto, desistem completamente da religião – uma razão para o crescimento dramático na porcentagem de americanos sem religião.

Embora a maior parte desta pesquisa tenha se concentrado no envolvimento evangélico com o Partido Republicano, implica-se que, como fé predominantemente republicana, o mormonismo também provavelmente experimentará um êxodo. Surpreendentemente, na sua investigação sobre a razão pela qual as pessoas abandonam a fé SUD, a escritora de religião Jana Riess descobriu que ex-membros da igreja têm muito mais probabilidade de ser democratas do que aqueles que permanecem no rebanho.

Santos dos últimos dias mais velhos continuam a identificar-se fortemente como republicanos, mas membros com menos de 30 anos são muito mais propensos a descrever-se como democratas. Se esses jovens membros da igreja virem a sua igreja como um bastião do republicanismo, poderão decidir que o mormonismo não é para eles – ao passo que um maior bipartidarismo poderá mantê-los no rebanho.

Este recente apelo dos líderes SUD poderia criar um potencial contra-exemplo de uma tendência dentro da religião americana. Cada vez mais, americanos adaptam suas crenças religiosas à sua política, e não o contrário.

Aqui, por outro lado, está uma declaração feita por homens que santos dos últimos dias creem falar em nome de Deus, dizendo a seus correligionários que deveriam romper as fileiras republicanas. Se jamais houve o caso de se esperar que a religião infuencie a política das pessoas, é este – com os olhos nas eleições de 2024.


David Campbell é professor na Universidade de Notre Dame, onde chefia o Departamento de Ciência Política. Seu website pessoal pode ser encontrado aqui.

Artigo original publicado aqui. Reproduzido sob permissão.

2 comentários sobre “Líderes Mórmons – Cuja Igreja é Frequentemente Associada ao Partido Republicano – Reagem à Política de Partido Único

  1. O mesmo acontece com a DIREITA BRASILEIRA, infelizmente alguns membros SUD acham bonito apoiar golpistas como se fosse algo nobre. Apoiar o ANTI CRISTO do BOZO somente corrompe o caráter e a fé.

    • Não tenho nenhum apreço pelo Bolsonaro, mas qualificá-lo de Anti Cristo é demais. Estude melhor o que esse termo significa.

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