2016: Livro de Mórmon – Dia 1

2016 é o ano curricular do Livro de Mórmon para membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Imagem inspirada na descrição das Placas de Ouro por Joseph Smith

Dedicaremos uma postagem diária durante o ano cobrindo todo o texto do Livro de Mórmon com comentários adicionais aos que os membros da Igreja SUD teriam em seus manuais curriculares correlacionados. Postagens passadas podem ser encontradas aqui.

O trecho de hoje é: Página de Título

A primeira página do Livro de Mórmon é muitas vezes negligenciadas por membros da Igreja como não sendo parte das escrituras, mas ela foi ditada por Joseph Smith para inclusão no livro, e ele mesmo afirmou que o trecho encontrava-se originalmente nas Placas de Ouro:

“Eu gostaria de mencionar aqui que a página de título do Livro de Mórmon é uma tradução literal, tomada a partir da última folha, no lado esquerdo da coleção ou livro de placas, que continha o registro que foi traduzido, a linguagem do qual fluia o mesmo que toda a escrita hebraica em geral; e que dita página não é de forma alguma uma composição moderna, quer da minha ou de qualquer outro homem que viveu ou vive nesta geração.” — Joseph Smith, Jr. (History of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints 1:71)

A Página de Título é importante pois, além de resumir o livro, ela estabelece o tom e os temas principais.

É, portanto, um resumo do registro do povo de Néfi e também dos lamanitas — Escrito aos lamanitas, que são um remanescente da casa de Israel; e também aos judeus e aos gentios

Acima de tudo, e antes de mais nada, o tema central do Livro de Mórmon é estabelecer a história de como o continente americano foi colonizado por israelitas. O livro abre sua primeira sentença proclamando inequivocadamente tratar-se de um resumo da história dos povos nefitas e lamanitas, cujo foco central é dirigir-se aos descendentes do povo lamanita (o povo nefita, como veremos, foi completamente exterminado no genocídio do final do livro), que são inconsciente, porém geneticamente,  hebreus (“remanescente da casa de Israel”). Em segundo plano, o livro dirigi-se “também” aos “judeus” (o resto da “casa de Israel”) e aos “gentios” (o resto da humanidade).

A declaração de intenção é importante pois determina a ambição de escopo histórico e religioso. O Livro de Mórmon estabelece a si mesmo, logo de início, a missão de convencer os povos aborígenes americanos que são, em realidade, hebreus e, portanto, o “povo do convênio” de Deus, através de uma exposição de sua verdadeira origem histórica.

O próprio Joseph Smith enfatizou esse ponto, anos depois, quando escreveu:

Neste livro importante e interessante, a história da América antiga é desdobrada, desde o seu primeiro assentamento por uma colônia que veio da Torre de Babel na confusão das línguas até o início do século V da era cristã. Somos informados por esses registros que a América, nos tempos antigos, havia sido habitada por duas raças distintas de pessoas. A primeira foi chamada de Jareditas e veio diretamente da Torre de Babel. A segunda raça veio diretamente da cidade de Jerusalém cerca de 600 anos antes de Cristo. Eles eram principalmente Israelitas dos descendentes de José. Os Jareditas foram destruídos aproximadamente no mesmo tempo em que os filhos de Israel vieram de Jerusalém, que os sucederam na herança da região. A principal nação da segunda raça caiu em batalha próximo ao fim do século IV. O resto são os índios que habitam agora neste país.” (ênfases nossas)

Esse conceito não foi uma contribuição inédita introduzida or Smith. Tratava-se de uma teoria popular comum na época.

Escrito por mandamento e também pelo espírito de profecia e de revelação — Escrito e selado e escondido para o Senhor, a fim de que não fosse destruído — Para ser revelado pelo dom e poder de Deus, a fim de ser interpretado — Selado pela mão de Morôni e escondido para o Senhor a fim de ser apresentado, no devido tempo, por intermédio dos gentios — Para ser interpretado pelo dom de Deus.

O segundo tema central do Livro de Mórmon é sua mensagem religiosa focada em resolver os problemas teológicos discutidos em torno do Cristianismo na época de Smith, então considerado o “devido tempo” para “ser revelad[a]” pelo dom carismático de Smith (i.e., “dom e poder de Deus”).

É interessante notar o fluxo narrativo da construção literária desses trechos, que fortemente sugerem uma concepção original através de narração oral improvisada ao invés de uma elaboração literária premeditada, considerada e planejada antes de ser escrito (ou entalhado).

“Escrito por mandamento… Escrito e selado… Para ser revelado… Selado pela mão… Para ser interpretado…”

Contraste esse fluxo mais oral e improvisado com o texto composto por Smith citado acima, muito mais ponderado e literariamente construído.

Contém ainda um resumo extraído do Livro de Éter, que é um registro do povo de Jarede, disperso na ocasião em que o Senhor confundiu a língua do povo, quando este construía uma torre para chegar ao céu

Novamente, é interessante notar como Smith estabelece as mesmas informações sobre Nefitas, Lamanitas, e Jareditas de maneira mais concisa e elegante do que o elaborado nessa Página de Título.

Destina-se a mostrar aos remanescentes da casa de Israel as grandes coisas que o Senhor fez por seus antepassados; e para que possam conhecer os convênios do Senhor e saibam que não foram rejeitados para sempre

Confluem aqui ambos temas centrais numa mensagem religiosa coesa, determinando o foco principal do livro como a conversão dos ameríndios, descendentes de Israel, ao culto de Jesus, o descendente espiritual do Judaismo.

E também para convencer os judeus e os gentios de que Jesus é o Cristo, o Deus Eterno, que se manifesta a todas as nações

Apesar dos recentes esforços de branding por parte da Igreja SUD em adicionar o subtítulo “Um Novo Testamento de Jesus Cristo” ao Livro de Mórmon, o tema Cristológico é apenas secundário, e quase uma reflexão tardia, aos temas centrais acima citados.

Ademais, é importante notar como a Cristologia do Livro de Mórmon, a despeito de evolução teológicas posteriores, é predominantemente Trinitária. Para o Livro de Mórmon, “Jesus é o Cristo [e] o Deus Eterno”.

E agora, se há falhas, são erros dos homens; não condeneis, portanto, as coisas de Deus, para que sejais declarados sem mancha no tribunal de Cristo.

Interessantemente, a Página de Título admite que há falhas no texto do Livro de Mórmon, mas que a obra não deve ser julgada por seus erros ou seus acertos, e sim apenas aceita com e em seus erros.

TRADUÇÃO ORIGINAL DAS PLACAS, PARA O INGLÊS, FEITA POR JOSEPH SMITH, JR.

Esse trecho é uma alteração posterior. O original dizia:

Por Joseph Smith, Junior,
AUTOR E PROPRIETÁRIO

É comum apologistas usarem o argumento equivocado que Smith haveria se auto-intitulado como “autor” ao invés de “tradutor” para proteger seus direitos autorais. Contudo, as leis proprietárias da época teriam lhe atribuído os direitos autorais plenos mesmo se tivesse real e comprovadamente traduzido o texto. Essas leis foram revisadas e amendadas apenas em 1870 para os EUA, e 1886 pela  Convernção de Berne para o mercado internacional.

Como autor, Smith tentou vender os direitos autorais do Livro de Mórmon, sem sucesso. Fracassando na empreitada de vender a propriedade intelectual, enviou voluntários para vender as 5,000 cópias impressas individualmente.

Smith decidiu alterar a designação de “autor e proprietário” para “traduzido por” apenas na segunda edição em 1837.


Leia o texto do Livro de Mórmon aqui em sua última versão em português publicada pela Igreja SUD.

Leia os nossos comentários adicionais do Livro de Mórmon aqui.

9 comentários sobre “2016: Livro de Mórmon – Dia 1

  1. Excelente ideia essa de compartilharmos sobre os ensinamentos do LM. Espero que possamos ser inspirados ao comentar, assim como seria bom uma boa dose de imparcialidade.

  2. Bom dia. Sobre a aula de hj na minha ala, falou-se muito sobre a pedra fundamental da religião. A Plenitude do evangelho no LM, mas sabemos que o LM nao possui a plenitude do evangelho. Muitas coisas so foram reveladas até mesmo após a morte de JS. Esse tipo de comentarios que nao podemos fazer durante as aulas. Assunto totalmente desconsiderado pelos professores.

    • Verdade, há algum tempo mudaram para esse termo onde se lia a “pedra angular”, que fazia muito mais sentido. Terminei por dar essa lição na abertura do curso da escola dominical de minha ala dada a falta de professores no dia por conta das enchentes que se abateram em nossa cidade, e fiz questão de fazer essa separação teórica como é ensinada hoje do que realmente é na prática.

      O livro é um apoio que sua as paredes de nossa teologia, mas não é toda ela e nem é substituto de Cristo, que é a pedra de esquina.

  3. Observem as palavras de Moroni, em Moroni 10:4.
    Ele nos instrui a perguntarmos para Deus se as coisas *não* são verdadeiras, ao contrário do que nos é ensinado,, que devemos perguntar se elas *são* verdadeiras, dai surge uma dúvida em meu coração, a tal queimação no peito, é um sentimento em resposta à não veracidade ou à veracidade?

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