O Voto Mórmon na Disputa Eleitoral Americana

Em Utah, onde os dois partidos majoritários escolheram pré-candidatos derrotados na disputa interna, os resultados são imprevisíveis para Hillary Clinton e Donald Trump. Os dois aparecem empatados em pesquisas eleitorais. E a rejeição de ambos entre eleitores mórmons ainda ajuda no crescimento de um terceiro candidato, Gary Johnson.

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Hillary Clinton, Gary Johnson e Donald Trump em busca do voto mórmon.

Encruzilhada Republicana

Utah é tradicionalmente um estado republicano, e a cultura mórmon é um fator decisivo para tanto. Dentre grupos religiosos nos EUA, mórmons apresentam o maior índice de identificação com o Partido Republicano, com 70%. A preferência, no entanto, não tem se traduzido em nenhuma certeza para as eleições de novembro.

Durante sua pré-candidatura, foi em Utah que Trump teve a segunda pior derrota nas primárias. O mórmon Mitt Romney, um dos primeiros da elite republicana a criticar Trump, havia pedido o apoio ao evangélico Ted Cruz, que recebeu 69% dos votos em Utah. Trump ficou em terceiro lugar (14%), atrás ainda de John Kasich (16,8%).

Como uma religião minoritária e que reconta seu passado de perseguições e discriminação, mórmons massivamente rejeitaram Trump. No final de 2015, após as declarações do candidato sobre impedir a entrada de muçulmanos nos EUA, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicou na semana seguinte uma declaração sobre liberdade religiosa em que o islamismo era citado. Em junho passado, o senador mórmon Mike Lee, sendo questionado por que não havia endossado ainda Trump, afirmou que as declarações do presidenciável eram de intolerância religiosa.

Como a defesa da liberdade religiosa na Igreja SUD é inconsistente e figuras como Romney são bastantes hábeis em trocar princípios por resultados eleitorais, veremos se a hierarquia republicana em Utah manter-se-á sem apoiar Trump e qual será o desempenho do candidato nas urnas.

Esperança Democrata

Do lado democrata, o senador socialista Bernie Sanders havia liderado disparadamente as primárias no estado mórmon, com cerca de 80% dos votos. Sanders era também o favorito entre alunos da BYU, universidade pretencente à Igreja Mórmon. Na convenção nacional em que declarou o apoio a Hillary Clinton, Sanders fez questão de falar pessoalmente aos delegados de Utah e convencê-los a apoiar a campanha de Clinton. Uma pesquisa do Salt Lake Tribune e do Hinckley Institute, feita em junho, mostra que, enquanto Clinton empata com Trump em Utah, Sanders o venceria por dois pontos percentuais, caso fosse o candidato democrata.

Com a forte rejeição de Trump entre mórmons, Hillary Clinton teria, a princípio, melhores chances de vencer em Utah, algo inesperado para o estado.  A última vitória democrata em Utah ocorreu nas eleições de 1964, quando os EUA elegeram Lyndon Johnson no rescaldo do assassinato do imensamente popular entre mórmons John Kennedy. A possibilidade disso se repetir em 2016, ainda que pelo fator anti-Trump, é animadora para os democratas. O ex-presidente Bill Clinton visitará Utah para reforçar a campanha de Hillary neste mês.

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Surpresa Libertária

Nas eleições presidenciais de 2016, além de Trump e Clinton, haverá um terceiro candidato em todo país: o libertário Gary Johnson. Diferentemente do Brasil, o registro de candidaturas à presidência nos EUA ocorre em âmbito estadual. Dessa forma, o candidato presidencial de um pequeno partido pode constar nas cédulas eleitorais de um único estado e estar ausente nos demais 49. Neste ano, o Partido Libertário conseguiu a façanha de registrar sua candidatura em todos os EUA. Para ser incluído nos debates na TV, Johnson precisará obter 15% nas pesquisas nacionais.

Na definição de Johnson, libertários são conservadores em termos fiscais, e liberais em questões sociais. Johnson defende corte de gastos governamentais, fim de campanhas militares no exterior, favorecimento da imigração e legalização da maconha. Seu candidato a vice, o ex-governador de Massachussets Bill Weld afirma: “quero o governo fora da sua carteira e fora do seu quarto”.

O discurso libertário parece agradar ao público mórmon. Johnson, ex-governador do Novo México, estrategicamente sediou sua campanha presidencial na cidade de Salt Lake. Pesquisa eleitoral do Salt Lake Tribune e Hinckley Institute mostra Clinton e Trump empatados em 35%, enquanto Gary Johnson conta com a preferência de 13% dos eleitores em Utah. Em outra pesquisa local, Johnson apareceu com 16% das intenções de voto.

Johnson e Weld são oriundos do Partido Republicano e trabalham para ganhar os votos de conservadores que rejeitam Trump, bem como apoiadores de Sanders desiludidos com a escolha democrata por Clinton. Os libertários, que recentemente ganharam a filiação do senador estadual Mark Madsen, esperam que sua campanha possa ser endossada por Mitt Romney e outros republicanos.

Depois de ter declarado que a discussão sobre liberdade religiosa era um “buraco negro” e fazer uma referência ambígua ao mormonismo, Gary Johnson escreveu no Deseret News que se deve buscar um equilíbrio e não utilizar a liberdade religiosa para discriminar pessoas LGBT.

Incertezas

Se há quatro anos, Barack Obama recebia apenas cerca de 25% dos votos no estado, enquanto Mitt Romney levava quase 73%, em 2016 o cenário é incerto para democratas e republicanos. Mórmons irão superar sua rejeição a Trump e honrar a tradição republicana? Utah terá a primeira vitória democrata em cinco décadas? Mórmons republicanos de renome endossarão a campanha libertária?

 

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