Juíz Autoriza Intimação de Profeta Mórmon em Caso de Abuso Sexual

Thomas S. Monson, Profeta Mórmon e 16º Presidente d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, será intimado a depor em processo contra a Igreja por abuso sexual infantil.

Thomas Monson demonstra a saudação do Escoteiro. 16o Presidente da Igreja SUD, Monson sempre enfatizou a importância do escotismo para os jovens (rapazes) Mórmons, como todos os outros profetas desde 1910.

Thomas S. Monson, 16º Presidente da Igreja SUD, saúda os escoteiros.

Advogados de quatro nativos americanos anunciaram ontem que solicitarão a intimação de Monson para depor em um processo contra a Igreja SUD após julgamento do Juíz Federal Robert Shelby negar petição dos advogados da Igreja. No processo, os quatros ameríndios acusam a Igreja de falhar em protegê-los de, e após descobrir os fatos acobertar, múltiplos casos de estupros e abuso sexual de crianças sob sua tutela.

Entenda o caso.

Entre 1947 e 2000, a Igreja SUD manteve um programa de assimilação cultural denominado “Programa de Colocação de Alunos Índios”, popularmente conhecido como “Programa de Colocação de Lamanitas”, através do qual retirou milhares de crianças ameríndias de seus lares, transferindo-as para lares mórmons brancos adotivos num esforço para assimilar e aculturar essas crianças pobres. As crianças eram prontamente batizadas na Igreja e endoutrinadas na fé mórmon, além de receber educação formal ocidental.

O então Apóstolo Spencer W. Kimball mencionou esse programa em seus comentários durante a Conferência Geral semi-anual de 1960:

“Eu tenho visto um impressionante contraste no progresso do povo indígena hoje em dia… O dia dos Lamanitas está chegando. Por anos eles vêm se tornando deleitosos, e agora estão ficando brancos e deleitosos, como prometido. Nesta foto de 20 missionários Lamanitas, 15 dos 20 eram tão brancos quanto os Anglos; 5 eram mais escuros, mas igualmente deleitosos. As crianças adotadas em lares de Utah são geralmente mais claras que seus irmãos e irmãs nas reservas indígenas. Em uma reunião, um pai e mãe estavam presentes com sua filha de 16 anos, e a jovem moça membro da Igreja — de 16 anos — sentada entre os pais escuros, e era evidente que ela já tinha tons mais claros que seus pais — na mesma reserva, na mesma casa, exposta ao mesmo sol e vento e clima. Havia um médico numa cidade de Utah que por dois anos alojou um jovem índio em sua casa que testemunhou que o rapaz já estava vários tons mais claro que seu irmão recém-chegado da reserva ao programa de adoção. Estes jovens membros da Igreja estão mudando para brancos e deleitosos. Um jovem élder jocosamente disse que ele e seu companheiro estavam doando sangue regularmente no hospital com a esperança de acelerar o processo.” — Spencer Kimball (Conferência Geral Outubro 1960ênfases nossas)

Spencer Kimball Lamanitas Mórmons

Spencer W. Kimball confraternizando com membros da tribo Navajo. Imagem: lds.org

Em março deste ano, um casal de irmãos da tribo Navajo abriu um processo contra a Igreja, alegando que eles sofreram abusos sexuais e estupro aos 10 e 11 anos de idade, respectivamente, mesmo após haverem sido relocados de famílias várias vezes, justamente por causa desse problema, sofrendo abusos similares em múltiplos lares. Em seu processo, acusavam a Igreja não apenas de saber dos ocorridos, de retornar crianças para lares onde abuso sexual havia sido cometido, mas também de acobertá-los e proteger os culpados sob a guisa de não embaraçar o programa e a Igreja, instruindo líderes locais e membros a não cooperarem com oficiais da lei ou denunciarem os crimes.

No mês seguinte, outra membro da tribo Navajo, encorajado pelo casal de irmãos, abordou os mesmos advogados e juntou-se ao processo, também alegando ter sofrido abuso sexual na sua infância e acobertamento por parte da Igreja. A Igreja imediatamente contestou a jurisdição da Corte da Nação Navajo, independente por tratados com o governo federal dos EUA, solicitando transferência para o judicial federal, onde ela mantém contatos próximos, especialmente com juízes distritais mórmons.

Não obstante, no mês seguinte ainda um quarto membro da tribo veio adiante denunciando abusos físicos e mentais sofridos em seu lar mórmon adotivo enquanto criança e a mesma resposta displiscente por parte de oficiais da Igreja. Novamente, a Igreja respondeu solicitando a transferência do caso da corte tribal para uma corte federal, ou seja, para transferir de jurisprudência para fora do controle de ameríndios para tribunais controlados por anglo-europeus e/ou influenciados pela Igreja e, especialmente, onde leis para tais crimes prescrevem.

Em julho p.p., os advogados desses quatro ameríndios Navajo entraram com uma ação para intimar o depoimento de Thomas Monson para o dia 4 de agosto, p.p., para explicar e elucidar os pormenores desse programa de assimilação cultural e comentar as falhas na salva-guarda e proteção dessas crianças. A Igreja prontamente solicitou uma medida cautelar para proteger e impedir que Monson tivesse que depor. Em sua medida cautelar, advogados da Igreja insistiram que o processo deveria ser julgado em corte federal, ao invés da corte tribal, argumentando que esta não teria jurisdição sobre o caso.

Os advogados das supostas vítimas alegam que o testemunho de Monson, sob pena de perjúrio, é crucial para desvendar e tornar público os segredos da alta cúpula da liderança da Igreja concernente a esses temas sensitivos (i.e., o programa de cunho racista e o acobertamento eclesiástico de abusos sexuais e infantis) e diretamente pertinentes aos casos dos quatro acusadores. Enquanto isso, advogados da Igreja alegam que Monson não possuiria conhecimento pessoal específico ou direto melhor ou maior que burocratas da Corporação da Igreja, que poderiam testemunhar com propriedade sem indevidamente incomodar o idoso profeta.

Não obstante, o Juíz Federal Robert Shelby determinou que não há argumentos legais ou evidências factuais para demonstrar que a corte tribal não tenha jurisdição sobre o caso. Shelby argumentou em seu julgamento que embora os supostos abusos tivessem ocorrido fora das reservas, o programa de colocação da Igreja SUD ocorria dentro delas, e que a Igreja teria sido omissa para relatar as ocorrências aos pais e às autoridades das reservas de onde havia tirado as crianças.  Ademais, o Juíz Federal argumenta que estabelecer jurisprudência de casos assim em cortes tribais lhes confere maior autonomia jurídica que já lhes é de longa data devida. Consequentemente, Shelby negou à Igreja sua medida cautelar, efetivamente liberando os advogados para apresentar nova intimação judicial contra Monson para obrigá-lo a depor no caso.

Entre os fatos que pretendem destrinchar do testemunho de Monson estão os detalhes do caso do Setenta e Autoridade Geral George P. Lee. Lee, que participou do mesmo programa de colocação de ameríndios aos 12 anos de idade, serviu missão de tempo integral em reservas indígenas, e eventualmente foi chamado como Setenta Autoridade Geral em 1975 como a primeira Autoridade Geral “lamanita”. Em 1989, Lee foi subitamente excomungado por “apostasia”, porém investigação jornalística pelo The Salt Lake Tribune em 1994 descobriu que Lee havia realmente sido excomungado por abuso sexual de uma criança em seus programas da Igreja.

Os advogados tentam descobrir quantas crianças Lee molestou, quando a Igreja descobriu dos abusos, e por quanto tempo a liderança da Igreja evitou tomar atitudes punitivas drásticas contra Lee, e ainda se houve tentativas de acobertamento direto. Monson servia como Segundo Conselheiro na Primeira Presidência e é, hoje, um dos poucos líderes eclesiásticos da época ainda vivo, e dentre esses o que detinha o maior posto hierárquico então.

45 comentários sobre “Juíz Autoriza Intimação de Profeta Mórmon em Caso de Abuso Sexual

  1. Interessante…tinha ouvido falar a décadas atrás que o Lee tinha sido excomungado porque discordara e começara a “pregar” contra a decisão da Igreja de acabar com um programa de ajuda financeira a índios americanos.

  2. Complementando o meu comentário anterior:

    https://en.wikipedia.org/wiki/George_P._Lee

    Excommunication and criminal conviction

    On September 1, 1989, the Church announced that Lee had been excommunicated for “apostasy and other conduct unbecoming a member of the Church.”[4] He was the first general authority to be excommunicated since 1943,[1] when apostle Richard R. Lyman was excommunicated for adultery and unlawful cohabitation.[2]

    According to Lee, the action stemmed from his disagreement with LDS Church president Ezra Taft Benson over the role of Native Americans in the church. When he became church president, Benson had ended the church’s Indian Placement Program, which Lee cited as a key to his personal development. Lee argued that Benson was not treating Native American Latter-day Saints in the way that Kimball would have approved. Additionally, Lee claimed the First Presidency had accused him of polygamy, immorality and teaching false doctrine. Lee provided copies of letters he had written to leaders of the LDS Church to the news media.[5][6] The church did not publicly respond to Lee’s letters or his public comments; it is the policy of the church not to publicize the details of an excommunicant’s behavior which brought about the disciplinary action.

    In 1993, the Salt Lake Tribune reported that Lee had attempted to sexually molest a minor girl in 1989, and that this was one of the reasons for Lee’s excommunication. Initially, Lee denied the charges; however, on October 12, 1994, the Tribune reported:

    A year ago, former Mormon general authority George P. Lee proclaimed he was ‘innocent before God’ of sexually molesting a 12-year-old neighbor girl.

    But Tuesday before a 3rd District judge, Lee humbly hung his head and admitted to touching the girl’s breasts for sexual gratification ….

    Lee, 51, pleaded guilty to attempted sexual abuse of a child, a third-degree felony.[7]

    On July 27, 2007, Lee was arrested in Washington County, Utah, for failing to register as a sex offender in the state of Utah.[8][9] The police reported that Lee had not registered since 2001 and that he had been “living in an area with several young children in close proximity.”[10] Lee was booked into Purgatory Correctional Facility in Hurricane, Utah on $5,000 bail.[8] The case dragged on for many months due to Lee’s health issues. On March 19, 2008 the case was formally dropped[11] due to these issues and Lee eventually registered with the sex offender registry. One year later, on March 29, 2009, Lee was removed from Utah’s sex offender registry.[12]
    Death

    Lee died in Provo, Utah on July 28, 2010, from “a long battle with physical problems”.[13] After his death, Latter-day Saint sociologist Armand Mauss described Lee as “one of the truly tragic figures in modern Mormon history”.[2]

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