Mórmons Mobilizam por Vítimas de Terremoto e Publicidade

A região de Canterbury, em especial a cidade de Kaikoura, no norte da Nova Zelândia foi atingida por um terremoto de magnitude 7,8 na escala de Richter à meia-noite de ontem, horário local.

Mapa da Nova Zelândia indicando epicentro do terremoto de magnitude 7,8 do dia 14 de novembro de 2016. Linha vermelha cruzando o mapa indica falha tectônica da margem sul da Placa do Pacífico (Mapa: USGS)

Mapa da Nova Zelândia indicando epicentro do terremoto de magnitude 7,8 do dia 14 de novembro de 2016. Linha vermelha cruzando o mapa indica falha tectônica da margem sul da Placa do Pacífico (Mapa: USGS)

A Igreja Mórmon, por sua parte, não perdeu tempo para elaborar um esforço de arrecadação de suprimentos e materiais muito necessários às vítimas da região. E tampouco perdeu tempo para anunciar publicamente seus esforços e aproveitar o bônus de relações públicas.

Terremoto de Kaikoura

Apesar da baixa taxa de mortalidade, com apenas 2 mortes confirmadas até agora, o terremoto não apenas resultou em bilhões de dólares em danos materiais resultantes da devastação e destruição, mas deixou milhares de habitantes de Kaikoura e cidades  circunvizinhas completamente isolados do resto do mundo. Equipes de resgate mobilizadas encontram dificuldades para acessar a região por causa dos quase 100 mil deslizamentos, e embora tenham conseguido restaurar acesso a energia elétrica, milhares ainda estão sem acesso a saneamento básico, mantimentos, e água.

Resgates por helicópteros estão sendo realizados pelo exército neozelandês, enquanto mais de 20 mil habitantes das regiões adjacentes foram evacuados pela guarda civil, e as marinhas chinesa e norte-americana também se mobilizaram para auxiliar nos resgates. A Cruz Vermelha já mobilizou e distribuiu geradores, comunicadores via satélite, abrigos móveis e suprimentos de água para Kaikoura, mas alerta para a necessidade de abrir acesso para mais mantimentos pelos próximos dias.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias emitiu nota oficial que seus membros na cidade de Christchurch, a meros 190 km do epicentro do terremoto, estão se mobilizando para arrecadar mantimentos, água, e outros suprimentos emergenciais para ser enviados por helicóptero à isolada zona de desastre. A nota afirma que a própria Igreja também contribuirá com suprimentos, e ainda solicita doações financeiras para o seu próprio Fundo Humanitário da Igreja.

Exército neozelandês evacua cidade isolada pelo terremoto (Foto: NZDF)

Exército neozelandês evacua cidade isolada pelo terremoto (Foto: NZDF)

Orgulhosos da participação humanitária da Igreja SUD nesse esforço na Nova Zelândia, membros da Igreja no Brasil trocam em redes sociais uma tradução em português dessa nota oficial. Com o chamativo título “Santos dos Últimos Dias se mobilizam para ajudar as vítimas dos terremotos na Nova Zelândia” e um texto inteiramente plagiado [o site em questão parece ter o hábito de plagiar seus textos. Nós havíamos chamado atenção a um outro exemplo claro de plágio. Compare o texto plagiado da nota em questão aqui com o texto original aqui], mórmons brasileiros compartilham com ufania a notícia da caridade pública da Igreja.

A Igreja que mais ajuda, a primeira nos desastres, etc.

É claro que as contribuições humanitárias da Igreja SUD não são uma tendência nova. O Apóstolo Dallin H. Oaks, por exemplo, recentemente afirmou em discurso para a Universidade de Oxford que a Igreja doa uma média de USD 40 milhões anualmente em ajuda humanitária há mais de 30 anos.

Dallin H. Oaks discursando na Universidade de Claremont. © 2015 by Intellectual Reserve, Inc. All rights reserved.

Dallin H. Oaks discursando na Universidade de Claremont. © 2015 by Intellectual Reserve, Inc.

A informação oferecida pelo Apóstolo Oaks diverge apenas modestamente de nossas estimativas de 2 anos e outra de 4 anos atrás de uma média em torno de USD 46 e 84 milhões anuais, baseadas em cálculos envolvendo dados oficiais da Igreja e informações descobertas por um processo jurídico inglês.

Essa quantia investida pela Igreja em caridade e ajuda humanitária representa, de toda sua renda em doações voluntárias como dízimos e ofertas de jejum, aproximadamente apenas 0,5% de seu rendimento total, considerando que a renda anual estimada de dízimos e ofertas da Igreja SUD é de USD 7 bilhões. A título de comparação, o OPEX (borderô anual de despesas operacionais totais) mundial da FORD é de USD 7 bilhões. A Igreja SUD é considerada a segunda igreja mais rica do mundo com ativos estimados em mais de USD 30 bilhões.

Essa quantia doada em ajuda huminatária é uma fração ainda mais ínfima de todos os rendimentos anuais da Igreja quando se incluem no cálculo os lucros de suas dezenas de empresas com fins lucrativos.  A renda anual de apenas uma de suas subsidiárias com fins lucrativos, a Deseret Management Company, adiciona um faturamento anual de USD 1,5 bilhão. A Igreja SUD diretamente investiu USD 5 bilhões no seu complexo imobiliário City Creek Center em torno do famoso shopping mórmon. A Igreja SUD está diretamente investindo mais bilhões de dólares em outros empreendimentos imobiliários, seguradoras, um verdadeiro império de mídia impressa, digital, televisiva, e rádio, e agronegócios. [Veja uma lista impressionante das empresas da Igreja SUD aqui]

Mitos populares

Esse dado oficialmente confirmado pelo Apóstolo Oaks desmistifica três mitos populares ou lendas urbanas:

1. A Igreja SUD investe pesadamente em ajuda humanitária

Muitos membros da Igreja insistem que ela investe muito em caridade e ajuda huminatária. Contudo, 0,5% de total de doações e contribuições voluntárias não é um valor muito impressionante, mesmo que USD 40 milhões seja um montante considerável em si.

2. A Igreja SUD é uma das maiores promovedoras de ajuda humanitária

Muitos membros da Igreja insistem que ela é uma potência em termos de caridade e ajuda huminatária, que ela é “a primeira a chegar” e ajuda em muitos lugares “onde ninguém vai”. Consideremos, porém, que em 2013 o total investido globalmente em ajuda huminatária foi USD 20,5 bilhões, e em 2014 foi USD 24,5 bilhões, o valor de USD 40 milhões parece muito, muito pequeno em perspectiva (0,2% e 0,1% respectivamente). A título de comparação, a Cruz Vermelha e a Crescente Vermelha, combinadas, investiram USD 1,6 bilhões em 2014 em ajuda humanitária. Aliás, os dados estatísticos demonstram, para desconforto dos libertários extremistas, que os maiores doadores são os governos federais, cobrindo 3/4 de todas as doações, contribuições, e investimentos humanitários.

3. A Igreja SUD não divulga seus esforços humanitários

Recentemente publicamos um artigo discutindo os méritos da publicidade em torno dos esforços humanitários da Igreja. Muitos membros da Igreja se ofenderam com o artigo, argumentando que a Igreja promovia caridade e ajuda humanitário “em segredo” ou “sem anunciar ao mundo”. Muitos outros membros se ofenderam por havermos citado um ensinamento de Jesus atribuído a Ele no Novo Testamento que claramente condena essa publicidade eclesiástica.

Apesar desses programas de caridade e voluntariado organizados e financiados pela Igreja costumarem servir de fértil fonte para propaganda oficial, sendo publicados pela Igreja e patrocinados em sites de notícias e divulgação autocongratulatórios e propagandísticos (inclusive obrigando membros da Igreja voluntários a vestirem um chamativo e facilmente reconhecido colete amarelo para facilitar reconhecimento em fotos  e vídeos), ainda há membros que acreditam que a Igreja “não divulga” seus esforços e seus investimentos em caridade e ajuda humanitária.

Maos Que Ajudam

Basta uma breve passada de olho na “sala de imprensa” oficial da Igreja SUD em português para ver 8 notas (das 20 publicadas entre maio e novembro de 2016) alardeando ações sociais e voluntárias organizadas pela Igreja. Inclusive, algumas dessas “ações sociais” sequer são ajudas humanitárias, mas exclusivamente ações publicitárias [ver, por exemplo, como a Igreja usou voluntários para ajudar a multibilionária FIFA em seu evento esportivo].

Considerando que um dos Apóstolos sênior (segundo na linha de sucessão) publicou a etiqueta de preço desses gastos com ajuda e caridade, supõe-se que essa lenda urbana sumirá. Ainda mais considerando que essa afirmação seguiu-se meras semanas após outro Apóstolo, Jeffrey Holland, gabar-se ao parlamento britânico de todos os esforços humanitários da Igreja.

Ajuda humanitária

Certamente, fazer o bem é muito, muito melhor que não fazer nada. Os membros em Christchurch devem ser comendados por seus esforços para aliviar o sofrimento de seus vizinhos do norte. A Igreja deve ser agradecida por se oferecer a complementar os esforços dos membros de Christchurch. E, certamente, ninguém afirmará que USD 40 milhões não é uma soma considerável e impressionante.

Não obstante, perguntamos a nossos leitores se esse tipo de caridade é realmente louvável? A Igreja sequer enviou as doações para a zona de desastre, mas seu departamento de relações públicas já as anunciou ao mundo. Não existe a possibilidade de, ao menos parecer, que haja uma maior preocupação com a publicidade da ajuda humanitária do que com a ajuda em si?

Ou o que vale é apenas o ato em si? Se o resultado pragmático importa mais que a intenção espiritual, não deveria a Igreja multibilionária e financiada pelo Estado através de generosas isenções de impostos investir mais em caridade do que apenas somas pífias? Por outro lado, se as somas não importam, mas sim o espírito com que se oferece ajuda, então a publicidade e autopromoção não desmerecem o ato em si?

Os ensinamentos de Jesus sobre o assunto merecem consideração especial para uma igreja que porta Seu nome? Certamente, membros da Igreja de Jesus Cristo não deveriam se ofender de considerar um ensinamento específico de Jesus Cristo sobre determinado assunto, não?

“Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita, de forma que você preste a sua ajuda em segredo. E seu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará.”


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13 comentários sobre “Mórmons Mobilizam por Vítimas de Terremoto e Publicidade

  1. Fui contra o uso dos coletes amarelos dos mãos que ajudam desde do príncipio, e nunca entendi o porquê da igreja não gastar a maior parte do seu dinheiro em caridade e melhorando a vida dos missionários, pra onde vai esse lucro todo? Será que o dinheiro serve só pra bancar salários de autoridades gerais e funcionários de suas associações? What a shame!!!

  2. Interessante. Quando é com outros países que não tem muitos membros eles demoram para ajudar e quando ajudam, eles ajudam com nome da religião na doação rs… Coincidência ou não, a Igreja SUD está ajudando de cara NZ que é um país com alto indice de membros SUD.

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