“As crianças começam por amar os pais, à medida que crescem tornam-se seus juízes, perdoam-lhes, às vezes”.
Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray.
Na semana anterior à VI Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, soube que um dos temas abordados seria baseado em uma experiência que Suzana Nunes tivera há pouco tempo.
Conforme nos contou Suzana, uma moça que se preparava para servir em uma missão de tempo integral pediu-lhe que fizesse algumas perguntas sobre a Igreja. A moça, de antemão, mencionou querer perguntas difíceis para treinar sua retórica e testar seu conhecimento sobre o mormonismo.
Suzana então preparou dez perguntas, que podem ser transcritas mais ou menos assim:
- É verdade que Joseph Smith teve dezenas de esposas, muitas delas sem que Emma soubesse?
- É verdade que dentre as esposas plurais de Joseph havia moças de 14, 15 e 16 anos?
- É verdade que Joseph Smith foi maçom?
- É verdade que parte da cerimônia do templo foi inspirada na maçonaria?
- É verdade que Joseph olhava dentro de um chapéu para traduzir o Livro de Mórmon?
- Você já ouviu falar no Montain Meadows Massacre?
- É verdade que a Igreja ensinou que os negros são descendentes de Caim, vieram à Terra com uma maldição e não podiam entrar no templo?
- É verdade que a Igreja construiu um shopping de um valor superior a US$ 5 bilhões?
- É verdade que antigamente as mulheres faziam imposição de mãos?
- É verdade que Joseph Smith ensinou que a Lua é habitada?
A reação da moça que solicitou o teste deixou Suzana reflexiva, segundo esta nos contou dia 7, sábado. A futura missionária não somente desconhecia aquelas coisas, como automaticamente classificou tudo aquilo como mentira.
Ao entrar em contato com essa experiência, veio-me à mente a ideia de fazer as mesmas perguntas a dois rapazes que estão preparando os papéis do chamado missionário.
A resposta dada pelos rapazes foi a mesma da moça sabatinada pela Suzana, com a pequena diferença de que um deles colocou como verdadeira a pergunta sobre Joseph ter sido maçom, pois ouvira sobre isso de um amigo, em um acampamento da Igreja.
As perguntas foram direcionadas a jovens adolescentes, mas não creio que as respostas teriam sido muito diferentes se as mesmas perguntas fossem lançadas a pessoas mais velhas, com mais tempo e posição na igreja.
Neste artigo, quero levantar possíveis razões para o desconhecimento que mórmons têm de sua própria história, as questões culturais que concorrem para isso e propor caminhos para que as próximas gerações possam lidar de uma maneira mais saudável com os assuntos considerados espinhosos de sua tradição religiosa.
Reitero que o problema não seja restrito aos jovens missionários, nem a pessoas de baixo nível educacional, mas que é algo presente em todos os estratos sociais mórmons.
EXEMPLOS RECENTES
Há pouco mais de um ano, o setenta sueco Hans Mattsson veio a público contar sua experiência em lidar com esses assuntos. Segundo Mattsson, para muitos dos temas tratados pela Suzana, ele teve que ser forte para aceitar – e estamos falando de um líder do alto escalão.
Outro exemplo interessante, este aqui do Brasil, é de um setenta de área que escreveu um livro intitulado A Origem da Vida, no qual afirma, por motivação religiosa, serem falsos o Big Bang e a Evolução Orgânica, demonstrando total desconhecimento sobre essas teorias e, principalmente, sobre os acalorados embates entre apóstolos mórmons sobre o tema.
Dado que mesmo pessoas de relativo destaque na hierarquia eclesiástica SUD, como as citadas anteriormente, desconhecem assuntos que para os que estão envolvidos com os estudos mórmons há alguns anos parecem tão batidos, tão repetitivos. Lanço a seguinte pergunta:
É de fato interesse da Igreja que seus membros tomem conhecimento sobre essas coisas?
Antes de responder a pergunta, gostaria de levantar possíveis motivos de esses missionários e líderes da Igreja desconhecerem essas coisas; assim como as possíveis razões de a Igreja evitar tocar nesses temas.
As perguntas da Suzana giram em torno da poligamia, casamento de homens mórmons com adolescentes, racismo, processo de tradução do Livro de Mórmon, imposição de mãos femininas, relação entre maçonaria e mormonismo, crença em selenitas, Montain Meadows e City Creek Center.
POLIGAMIA
A poligamia era ESTRANHA até mesmo para época e lugar quando e onde foi iniciada, o que refletiu no caráter secreto que a prática teve logo no início.
Quando os mórmons se isolaram no oeste, passaram a se sentir mais à vontade para assumir publicamente a prática.
Com o fim do isolacionismo, Utah se integrou à União, se americanizou e passou a seguir a cartilha de Washington. A poligamia voltou a ser praticada secretamente. Até que por fim ela foi abandonada de vez pelo corpo principal do mormonismo.
Se fizermos um levantamento bibliográfico sobre poligamia nas publicações oficiais da Igreja, mesmo aquelas que têm por objetivo contar a história do mormonismo no Sec. XIX, o tema poligamia aparece de maneira tímida.
Se nos santos textos a poligamia é evitada, os profanos, por sua vez, transformaram-na no cerne do mormonismo. Mais que o Livro de Mórmon, foi a poligamia que levou o nome do mormonismo aos quatro cantos do mundo. Personagens como Sherlock Holmes e autores como Julio Verne popularizaram na Europa a existência de um grupo religioso do oeste dos EUA que a praticava.
Notícias sobre a poligamia trouxeram o nome do mormonismo também ao nosso país, várias décadas antes da chegada da Igreja por aqui. Os maranhenses Aluísio Azevedo e Sousândrade são exemplos disso; bem como o próprio imperador D. Pedro II.
Com o abandono da prática, as novas gerações de mórmons já passavam a olhar a poligamia como algo errado. De praticantes passaram a perseguir quem a praticava. É na tentativa de dar uma explicação para si e para as pessoas ao redor sobre o passado embaraçoso que surgem as histórias fantasiosas sobre a prática, como a explicação de uma missionária transcrita por uma pesquisadora brasileira:
“Sim, os homens podiam se casar com mais de uma mulher. Mas isso era porque naquela época havia muitas mortes masculinas; essas travessias eram muito duras para os homens. Então alguém tinha que tomar conta das viúvas.”
Quando indagadas sobre o casamento com adolescentes:
“Algumas eram mais novas, mas essas tinham perdido o pai, e também não tinham quem tomasse conta delas.”
CASAMENTO COM ADOLESCENTES
A poligamia de fato é algo estranho nos EUA do séc. XIX, mas a questão da idade das esposas plurais talvez possa ser contornada, em parte, simplesmente com uma contextualização.
O casamento de homens mais velhos com adolescentes, suspeito, era algo não tão chocante nas áreas rurais dos EUA do XIX, como seria nos Estados Unidos hoje. O simples entendimento do quão problemático é olhar para o passado usando as noções de hoje já ajudaria bastante.
Na própria literatura cristã primitiva temos um bom exemplo das perspectivas sobre o tema na Galileia do Sec. I. Em um importante texto apócrifo chamado Proto-evangelho de Tiago, encontramos uma tradição que afirma ter Maria doze anos de idade quando foi decidido que ela casaria com um viúvo chamado José. Segundo o relato, Maria contava com dezesseis anos à época da concepção.
É uma prova que a Sagrada Família tinha como matriarca uma adolescente? Claro que não! Mas demonstra que, para a comunidade que compôs esse texto, o fato de uma adolescente se casar e ter filho não era algo necessariamente reprovável.
Essas noções básicas de exegese e hermenêutica, creio, podem ser mais bem trabalhadas nas escolas da Igreja.
RACISMO INSTITUCIONAL
Assim como a poligamia, a proibição do sacerdócio aos negros é algo que causa constrangimento e todo um folclore que tenta explicar o motivo da notória discriminação.
Em muitas partes dos EUA do Séc. XIX e primeira metade do XX, a discriminação racial era praticamente senso comum. O Mormonismo absorveu muito desse racismo, desenvolveu-o e, por fim, tornou-se refém dele.
Embora poucas, as pesquisas sobre o mormonismo em nosso país nos fornecem dados que demonstram o quão difícil era a pregação missionária antes de 1978; inclusive, mostram a dificuldade com que muitos membros lidavam com a própria crença.
Os missionários deixavam para tocar no assunto somente em sua última palestra, a famosa lição sobre a linhagem, porém, não antes de avaliar discretamente as feições das pessoas a quem ensinavam – muitas vezes, recorrendo a fotografias e visita a parentes próximos, com o objetivo de melhor diagnosticar neles ascendência africana.
Com a mudança ocorrida no fim dos anos 70, esse enorme peso foi tirado de nossos membros e missionários. Os números de batismos explodiram. As novas gerações de mórmons não tiveram mais que se preocupar com a “semente de Caim”. Falar sobre a antiga crença se tornou desnecessário.
Não é muito difícil entendermos o porquê de esses missionários desconhecerem a antiga prática de discriminação, tendo em vista que a Igreja foi de fato crescer em nosso país somente após a revelação do sacerdócio, e as gerações antigas, constrangidas, passarem a evitar o assunto.
Mesmo em mundo contemporâneo, o mormonismo possui uma noção muito arcaica de comunicação com o divino; muito disso ligado à crença em um estreitíssimo laço entre seus líderes e Deus.
A origem do mormonismo está ligada a um homem que via Deus, que falava com Ele. Se Joseph Smith tinha essa intimidade, seus sucessores também o têm, pensa o fiel. Logo é muito difícil aceitar que uma prática como segregação racial fosse apenas fruto de um racismo difuso na cultura americana. O mormonismo até hoje tem dificuldade de lidar com o LADO HUMANO de seus líderes.
Isso gera a dificuldade em aceitar que as visões de mundo dos profetas mórmons muitas vezes não eram muito diferentes das de seus contemporâneos. Assim como é difícil para um mórmon entender a humanidade de seus líderes, é difícil igualmente entender que seus discursos e até mesmo as doutrinas por eles ensinadas muitas vezes refletiam mais o espírito da época do que algo que deveria ser perene.
Com a Era da Informação, temos mais acesso aos pensamentos de figuras como Joseph Smith e Brigham Young. É impossível negar que suas opiniões e doutrinas ensinadas, em muitos casos, não refletem o que uma pessoa de bem consideraria correto hoje.
O próprio Presidente Hinckley quando confrontado, no 60 Minutes, com frases racistas de Brigham Young, encerrou o assunto com “isso ficou pra trás”, mostrando que essas concepções não devem ter perenidade e refletem um passado que a igreja gostaria de esquecer.
É nessa tentativa de fazer sumir alguns tópicos da memória coletiva, que se coloca para debaixo do tapete partes da história, e os membros passam a ter acesso somente a partes selecionadas do passado de sua religião e da biografia de seus líderes – praticamente hagiografias.
Acostumados a uma história sanificada de sua religião e por serem alimentados em um sistema que idealiza a instituição A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os jovens com os quais Suzana e eu conversamos automaticamente consideraram mentira os fatos levantados.
Boa parte desses problemas seria resolvido se nossas escolas da Igreja divinizassem menos os líderes e treinassem os alunos na compreensão do Zeitgeist (espírito da época) como algo influente no desenvolvimento das escrituras e desenrolar da história mórmon.
Se isso fosse trabalhado, ficaria mais fácil lidar com outros assuntos levantados pela Suzana, como a possível crença em selenitas, o processo de tradução do Livro de Mórmon e a influência maçônica.
HABITANTES DA LUA
A especulação de uma lua habitada era algo de relativa força entre os americanos do século XIX, e os mórmons eram ainda mais suscetíveis a ela, pelo fato de acreditarem na existência de vários mundos habitados.
Embora haja pelo menos um relato de alguém que, quando criança, conheceu Joseph e supostamente aprendeu deste sobre a existência de habitantes na lua, a crença em selenitas nunca foi algo que tivesse qualquer relevância no conjunto de crenças desenvolvidas entre os mórmons.
É até provável que muitos mórmons acreditassem nisso, e que Joseph fosse um deles. Quantos mórmons republicanos hoje acreditam que o aquecimento global é um mito?
PROCESSO DE TRADUÇÃO DO LIVRO DE MÓRMON/ INFLUÊNCIA MAÇÔNICA
Vivendo às margens da religião institucional, a família Smith era muito suscetível às crenças mágicas da região rural onde morava. Assim como saliva e areia canalizaram a fé de um cego, de modo a este conseguir a cura por meio de Jesus, um chapéu e algumas pedras puderam catalisar o processo revelatório de um jovem do interior de Nova York.
A compreensão de que Joseph não viveu em um vácuo cultural permite uma melhor aceitação de que a teologia desenvolvida nos primórdios do mormonismo teve como substrato elementos familiares ao profeta.
Aulas que mostrassem a influência de crenças, textos e práticas dos povos do Oriente Médio na teologia judaica – ou como a árvore de natal pode unir nossa família para falarmos sobre Jesus –, seriam de bastante ajuda para que se visse o empréstimo de elementos maçônicos como algo não necessariamente condenável.
IMPOSIÇÃO DE MÃOS FEMININAS/ MOUNTAIN MEADOWS/ SHOPPING
A dificuldade de aceitar o dado histórico da imposição das mãos femininas, em parte, vem das consequências de como se encara a ideia de um Deus imutável.
Noções básicas de crítica textual e história mórmon mostrariam claramente que, a despeito de Deus ser o “mesmo hoje, ontem e sempre”, as visões dos autores bíblicos e profetas mórmons sobre Ele têm mudado bastante – reflexo de nossa humanidade, ou como diria Paulo, por ainda conhecermos “em parte”.
Tentamos fazer o nosso melhor, mas por não conhecermos completamente as coisas, seguimos pelo caminho que consideramos mais provável; porém, que nem sempre é o correto – ou pelo menos não correto para sempre.
É imperativo que mudanças ocorram. O mormonismo, através do princípio da Revelação Contínua, tem uma importante arma para melhor enfrentar os desafios hodiernos. A crença de que a palavra de um profeta atual vale mais que a de um antigo é um ponto forte da Teologia Mórmon.
Como os que estão fazendo a mediação com o divino são tão humanos quanto você e eu, os embates e as divergências de opinião terminam respingando nas práticas e visões da comunidade religiosa. As mudanças de visões sobre qual deve ser o papel da mulher na Igreja podem ser melhor compreendidas quando entendemos isso.
Vejo na questão do papel da mulher muita semelhança entre os desdobramentos ocorridos no mormonismo e cristianismo primitivo.
Tanto nos evangelhos quanto nas cartas que a crítica textual classifica como genuinamente paulinas, a presença das mulheres é muito forte. Mesmo em uma época em que o testemunho de uma mulher tinha pouca validade em um tribunal de justiça, Jesus escolhe uma mulher para ser testemunha de sua ressurreição. Foi através de uma mulher que as Boas Novas ultrapassaram as fronteiras de Israel.
Paulo observa e constata as liberdades trazidas pelo cristianismo: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há HOMEM nem MULHER, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”. Não se trata de uma apologia que Paulo tenha feito a elas, mas de uma constatação do quadro que encontrara.
Algo que mudaria quando o cristianismo, ao procurar lugar ao sol, se acomodou nos moldes patriarcais da sociedade greco-latina, e as mulheres cristãs voltaram a ser como as mulheres de Atenas, conforme canta Chico Buarque. Nem mais falar na igreja podiam!
Joseph Smith, a despeito da poligamia e a sujeição feminina dela decorrente, apresentava uma visão mais progressista em relação à mulher atuar na igreja – sacerdócio, imposição de mãos, etc. Porém, o mormonismo viu sumir um pouco dessa chama progressista em seu meio.
Um mórmon olha para vários detalhes históricos e tem dificuldade de percebê-los como verdade. Quando as fontes lhes são apresentadas e não restam mais dúvidas de sua veracidade, muitas vezes, o membro da Igreja entra em um estado que beira a dissonância cognitiva.
A difusa crença de que os apóstolos e profetas mórmons têm uma relação privilegiada com Deus contribui para passividade com a qual os membros recebem as instruções de seus superiores.
Por diversas vezes, presenciei discursos de líderes e membros, nos quais afirmações do tipo “eu pularia de um prédio se o profeta mandasse” foram proferidas como sinal de comprometimento com sua fé. A falta de filtro pessoal é encarada como virtude.
Esse comportamento, aliado à atmosfera xenofóbica presente no Território de Utah no início da segunda metade do séc. XIX, pode estar por trás do triste acontecimento de 1857.
Por acreditarem que toda e qualquer ação realizada pela Igreja tem Deus como mentor intelectual, são passivos em aceitar as ordens vindas do topo da hierarquia. Essa passividade contribui para a instituição sentir pouca necessidade de transparência, incluindo a financeira. Um shopping bilionário de alguma forma, na mente dos fiéis, tem Jesus como idealizador.
DESAFIOS DA INFORMAÇÃO
Na Era da Informação, o acesso que se tem aos pensamentos de líderes da história do mormonismo nos mostra quão humanos e falhos eles foram e são, evidenciando algo que deveria ser óbvio: a importância de, ao receber seus ensinamentos, submetê-los ao crivo da racionalidade
A crença em líderes quase divinizados e a falta de filtros pessoais concorrem para a infantilização dos membros.
Além da passividade e falta de filtro pessoal, outra coisa que fica nos arrabaldes da infantilização é a dicotomia do preto e branco, ou para fazer alusão a um best-seller contemporâneo, a não existência dos cinquenta tons de cinza. Nuances parecem inexistir.
Não quero dizer com isso que os mórmons sejam desprovidos de senso crítico, apenas que ele é pouco usado quando se trata da análise de sua religião.
Detentores de uma visão idealizada da Igreja a que pertencem, consideram como falso e impertinente qualquer dado ou opinião que vai de encontro à visão sanificada e consolidada pelo grupo religioso – o que explica a quase demonização que tem sido feita ao Vozes Mórmons.
Volto à pergunta do início do texto: a Igreja durante sua existência tem demonstrado querer que seus membros conheçam aqueles fatos? Ou então, a Igreja tem interesse que seus membros a vejam como uma instituição passível de erros?
Infelizmente, a resposta é NÃO.
A igreja prefere que seus membros e missionários desconheçam muitos dos assuntos relacionados à sua história e se sente confortável com a visão idealizada que os membros têm dela.
A Hans Mattsson, o setenta sueco que citamos anteriormente, após expor suas dúvidas aos seus superiores na hierarquia SUD, foi dito que não comentasse sobre elas com ninguém, incluindo família.
Em 1984, Elder Ronald E. Poelman fez um dos melhores discursos da história das conferências: falou sobre as diferenças entre a Igreja e o Evangelho, apresentou a Igreja como uma instituição suscetível a incorporar em suas práticas opiniões e costumes de grupos sociais; chegou a comentar o fato de muitas pessoas serem erroneamente rotuladas de infiéis por não se conformarem com certos padrões consagrados pela tradição do grupo.
Porém, a versão disponibilizada pela A Liahona e pelo vídeo oficial que foi distribuído às estacas trazia edições que fizeram sumir tudo aquilo que fazia do discurso algo que se destacasse dos outros com os quais estamos acostumados.
Boyd K. Packer, com sua visão utilitarista da história da igreja, falou que “algumas verdades não são úteis”, tacitamente ensinando que se deve omitir alguns tópicos. Cinco anos antes, Ezra Taft Benson criticou os historiadores e sua tendência de “exageradamente humanizar os profetas de Deus”.
ERA DA INFORMAÇÃO
Com a internet, hoje temos mais facilmente acesso a discursos e diários antigos de pessoas ligadas ao Movimento dos Santos dos Últimos Dias. Para o público que não fala inglês, temos ferramentas de tradução. O lado falho dos líderes é algo que salta aos olhos.
Ao contrário do que queria Ezra Taft Benson, se torna cada vez mais necessário humanizar os líderes, resgatando a ideia de que o divino se revela no humano, não na negação deste.
Um importante passo dado pela Igreja nesse sentido foi a publicação de novos ensaios que abordam temas espinhosos de sua história e doutrina. A importância desses textos não se deve tanto à tentativa de tornar palatável aos membros certas controvérsias, mas sobretudo pelo simples fato de falar sobre elas em seu site oficial.
Para diminuir a distância entre o que historicamente temos como mais provável e as hagiografias criadas pela tradição mórmon, novos focos devem ser dados no magistério da Igreja.
Enfatizar o lado humano de nossos líderes: já estreitamos demasiadamente os laços dos líderes com Deus. O caminho é puxá-los mais pra terra, favorecendo a desconstrução do mito de uma igreja perfeita.
Noções de exegese e hermenêutica: assim saberão melhor extrair o riquíssimo conteúdo presente nas escrituras, além de desenvolver em nossos membros um maior senso crítico. Desse modo, ao serem confrontados com frases, opiniões e doutrinas de líderes do passado, não cairão no anacronismo de necessariamente aceitar como uma verdade o que foi dito, nem de demonizar quem disse.
Focalizar no princípio básico mórmon da Revelação Continua: entender a tradição mórmon como não estática, mas em constante mudança. Ter a coragem que um dia teve o Bruce R. McConkie, que após tantas bobagens faladas sobre os negros, pediu para que esquecêssemos o que ele e outros apóstolos e profetas mórmons falaram sobre o assunto.
Só assim teremos uma nova geração de mórmons mais maduros, capazes de ler sua religião por uma ótica adulta, sabendo reconhecer a força de sua história e doutrina sem precisar idealiza-las.
Na Era da Informação, o mormonismo sai de sua infância e entra na adolescência; e como bem sabemos, esta é uma fase difícil. Comparando a Igreja a uma mãe, ao sairmos da infância começamos a ter uma visão mais crítica sobre ela, a notar suas falhas.
Ao invés de considerarmos como mentira fatos inegáveis do passado, estaremos mais aptos a encarar o que considero um dos maiores desafios do mormonismo contemporâneo: nós mórmons já enfrentamos turbas, um deserto, as tropas do governo federal e hoje temos que aprender a enfrentar nossa própria história.




Olha gostei muito de todo o artigo sou muito curioso sobre muitas fatos que acorreram nos primórdios da igreja só acho, ou melhor dou uma sugestão, para que se poste não somente fatos controversos que muitas veses pode confundir ou até enfraquecer a fé de leigos ou membros novos mas que possamos também analisar milagres que ocorreram durante a migração para o oeste muitos desses milagres estão registrados em diários e servem como testemunho e fortalece nossa fé alguns desses milagres foram transformados em bons filmes como por exemplo: o resgate de Efraim e muitos outros.
Obrigado, Jaime. Nós também gostamos muito do texto!
Por via de regra, aqui nós discutimos fatos históricos competentemente comprovados. Por isso não se vê discussões sobre as hagiografias ou os contos populares dos quais você faz referência. Tomemos o exemplo que você citou. O filme ‘O Resgate de Efraim‘ é inteiramente ficcionalizado, mentindo no início ao dizer que fora baseado nos diários contemporâneos quando na realidade fora baseado numa coletânea de relatos anotados várias décadas após os eventos, incluindo várias exagerações e deturpações desses relatos (para dramatizar milagres que não ocorreram) e ainda mentiras deslavadas como Brigham Young enviando resgate antes de ficar sabendo da tragédia (para dramatizar dons proféticos que não ocorreram).
Ironicamente, mesmo após ter pleno conhecimento da tragédia ocorrendo e após haver enviado duas equipes de socorro para salvar os sobreviventes ainda em risco de vida, Brigham Young optou por desviar socorristas e rações para assegurar grupos que traziam do Leste bens de consumo e uma máquina a vapor pessoalmente importados por Young, resultando em atrasos e mais dezenas de mortes.
Nós ainda não discutimos os fiascos, equívocos, tragédias, e a negligência envolvendo o projeto de carrinhos-de-mão ainda, mas você nos ofereceu uma boa sugestão.
Eu gostaria muito de um estudo mais detalhado deste tema, é de grande interesse para mim. Um mapa geral das viagens, das decisões tomadas e suas consequências, pois o que sei, que aconteceu de fato, está muito fragmentado, e precisaria de uma análise melhor para que se tenha uma visão mais clara. O conhecimento geral é baseado mais em histórias romantizadas e menos em fatos. Como se trata de um episodio crucial da história mórmon, penso que seja muito importante. Acredito que não estou sozinha… Fica aí uma sugestão para próximos estudos.
Jaime se você veio aqui procurar edificar sua fé você veio no lugar errado, aqui é só pedrada.
Os donos desse site (ou pelo menos um) dedicam boa parte do tempo à procura dessas “pedras”.
Isso fica visível na reposta que eles lhe deram, onde você ao sugerir artigos edificantes eles lhe respondem dizendo que você deu uma boa sugestão para uma nova pedrada.
De fato, na história da igreja há vários fatos dignos de orgulho, porém, aos administradores do site não convém divulgar, sob a justificativa de que trata-se de site de debate “acadêmico” da história e cultura mórmon, sendo que a história e Cultura mórmon não se limita ao postado aqui.
Na melhor das hipóteses, no campo da fé, este site pode ser considerado como um teste à mesma.
Nós concordamos com você, Moroni. Para os membros da Igreja que estão acostumados com uma versão infantilizada da história da Igreja, o nosso site pode ser um “teste” para a fé.
A questão, contudo, não é uma de “pedrada”, mas sim de uma avaliação adulta e realista dos fatos. Por exemplo, você contesta o fato de Brigham Young ter, indiretamente por incompetência e descaso, causado a desnecessária morte de dezenas de imigrantes Mórmons? Ou que ele tenha diretamente inflingido sofrimento desnecessário sobre os imigrantes com seu programa de carrinhos-de-mão? Não, porque esses são os fatos históricos. Na Primária, nós cantávamos e brincávamos de pioneiros movidos pela fé e protegidos por anjos. Hoje, adultos, estudamos as pressões sócio-econômicas que incentivaram esses imigrantes a fugir de seus países no início de industrialização, os interesses geo-políticos da Igreja SUD para agilizar essa imigração mal planejada, e os interesses econômicos de Young para desumaniza-la o máximo possível.
Ninguém aqui dedica seu tempo “à procura [de] pedras”. Nós dedicamos nosso tempo estudando, e se os fatos incluem “pedras”, não as evitamos. Infelizmente, o exemplo do Jaime (i.e., imigração com carrinhos-de-mão) é um evento histórico que praticamente só tem “pedras”, com uma liderança centralizada focada exclusivamente em consolidar poder político regional e controlar assentamento geográfico estratégico, usando os pobres e miseráveis como peças descartáveis nessas manobras tácticas e expondo-os à condições desumanas desnecessáriamente e, quando econômicamente expediente, a risco de vida e à morte. Para quem lê os relatos pessoais dos pobres e miseráveis envolvidos, há algums estórias de fé e superação, porém há muito mais estórias de sofrimento e desespero (que nós hoje, diferente deles na época, sabemos ter sido inteiramente desnecessário e evitável), desilusão, e opressão. O evento todo é, sem dúvida, uma tragédia humana e uma marca de vergonha para o Mormonismo.
Não obstante, se “na história da igreja há vários fatos dignos de orgulho” sobre os quais não estamos dedicando atenção, e que você tenha identificado específicamente, gostaríamos de ouvir suas sugestões.
Gostaria muito de ler um artigo escrito aqui sobre a verdadeira face do empreendimento visionário e perigoso de carrinhos-de-mão idealizado por Brigham Young. Me sinto mal toda vez que vejo os membros SUDs e principalmente a liderança por meio de discursos e artigos reverentes na Liahona, tratando da santidade e espiritualidade dessa obra cheia de milagres e alusões de grandiosa fé dos pobres coitados puxadores de carrinhos-de-mão. Realmente esses pioneiros sofreram muito em nome de sua fé, não pretendo com esse comentário menospreza-los. Mas a realidade por trás dessa dura imposição a eles é mais difícil de digerir. Gostaria muito de ler um artigo honesto que tratasse da responsabilidade de Brigham Young por essa engenhosidade que fez com que milhares de pessoas enfrentassem a todo custo e risco de morte iminente, iludidas com a promessa de Sião a algumas milhas de distância.
Em 25 de Dezembro de 2005, o então presidente da Igreja SUD, Gordon B. Hincley, em entrevista ao “Associated Press” respondeu à seguinte pergunta:
Associated Press: Alguns estudiosos dizem que registros históricos apontam para discrepâncias com a história oficial da igreja. Como você concilia as diferenças? E qual é a posição da Igreja sobre o conhecimento histórico?
Presidente Hinckley: Bem, nós não temos nada a esconder. A nossa história é um livro aberto. Eles podem encontrar o que estão procurando, mas o fato é que a história da Igreja é clara e aberta e conduz à fé, força e virtudes.
Há dentro da Igreja uma forte convicção de que as fontes confiáveis, quando se trata dos vários aspectos históricos envolvendo a Igreja SUD, são apenas aquelas disponibilizadas oficialmente pela Igreja. Quando nos deparamos com produções acadêmicas e literárias de não membros, é comum não se dar o valor devido a essas produções. Subtende com isso, que a Igreja ao defender sua própria interpretação da verdade como oficial, nega a possibilidade de muitos acadêmicos e estudiosos sérios e competentes, que não participam da fé mórmon, de ter reconhecido seus trabalhos junto à Igreja apenas por ter uma interpretação diferente dos fatos, interpretações essas que no meio acadêmico são completamente legítimas e necessárias para o estabelecimento da elucidação dos eventos históricos.
A Igreja lida com algumas questões históricas muita das vezes como se elas devessem ser estáticas, não propensa à mudança, o que é entendível, visto que uma revisão histórica poderia implicar em mudanças de “verdades” inquestionáveis até o presente momento. Um exemplo simples é o caso do relato da Primeira Visão, onde apesar de termos diversos relatos, categoricamente é defendido apenas um como oficial; onde os demais, pelo ponto de vista da Igreja, apenas oferecem subsídios que “completam uns aos outros” mesmo que para isso, não se dê a importância devida às muitas discrepâncias apresentadas entres eles.
Para aqueles que se interessam pela história da Igreja e a estuda, não será difícil perceber que a Igreja precisa lidar de forma mais transparente com seu passado. As afirmações doutrinárias de hoje não raramente se chocam com declarações contraditórias do passado. A sensação que passa é que para firmar a verdade atual, se nega ou desconhece a verdade primitiva. Em outros casos, comumente a Igreja se defende dizendo que determinado assunto carece de fontes, deixando transparecer que não há documentos suficientes para elucidar determinado evento histórico, tornando assim quase que impossível compreender o assunto abordado, característica essa facilmente perceptível no que diz respeito a fatos críticos do passado. Por exemplo, no ensaio “Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo”[1] a Igreja afirma que “o Registro histórico do casamento plural em seu inicio é, portanto, escasso: poucos registros da época fornecem detalhes, e reminiscências posteriores nem sempre são confiáveis”. Por outro lado, há nesse mesmo ensaio, citado acima, na nota de rodapé número 29, uma referência a um artigo publicado na “Improvemente Era” de autoria do Apóstolo John A. Widtsoe com a seguinte afirmação: “A literatura e documentos existentes em matéria de casamento plural em Nauvoo no dia de Joseph Smith são muito numerosas, centenas de depoimentos sobre o assunto estão no Escritório do Historiador da Igreja em Salt Lake City. A maioria dos livros e artigos de jornais e revistas sobre o assunto são encontrados lá também”.[2][3] Em meio a essas declarações, como lidar com essas discrepâncias históricas?
Além da transparência histórica, é perceptível que a Igreja precisa lidar de forma mais madura com certos aspectos de sua história que envolvem afirmações extraordinárias. Recentemente li um artigo publicado na Liahona de abril de 2014, escrito por David A. Edwards e intitulado “Verdadeiro ou Falso?”. O propósito do artigo, como se pode ler desde o início, é distinguir a verdade do erro usando como método alguns argumentos “lógicos”. Pelo que li, não há nada de errado no método escolhido pelo autor para demonstrar a verdade, desde que as premissas fossem condizentes com a conclusão. Vejamos o argumento “lógico” publicado:
#1 – Idéia Falsa: Algumas coisas do Livro de Mórmon são refutadas pelas evidências científicas atuais, e os relatos de como ele foi traduzido são contraditórios, por isso Joseph Smith deve ter inventado tudo ou plagiado de algum lugar.
#2 – Para Onde Conduz (Grande Mentira): O Livro de Mórmon não é verdadeiro e Joseph Smith não foi um profeta, então corte os laços com a Igreja.
#3 – A Verdade – A ciência confirma muitas coisas do Livro de Mórmon, e as “evidências” contra ele são falhas. Mas a prova mais importante é o testemunho do Espírito dizendo que é verdadeiro e que Joseph Smith foi um profeta verdadeiro.
Como lidar com as proposições acima, principalmente quando relacionamos as mesmas à historicidade do Livro de Mórmon? Se a ciência confirma muitas coisas do Livro de Mórmon, e as “evidências” contra ele são falhas, onde estão as confirmações científicas? De fato, se houve confirmação científica, qual foi o motivo que levou o Élder Dallin H. Oaks do Quórum dos Doze Apóstolos, a afirmar que “é nossa posição que nenhuma prova secular pode nem provar nem refutar a autenticidade do Livro de Mórmon”? A conclusão desse argumento “lógico” citado acima é no mínimo questionável; creio que não deve ser assim a melhor forma de a Igreja lidar com questões críticas de seu passado. Principalmente em nossos dias, onde a informação está ao alcance de muitos, em poucos cliques.
[1] Por algum motivo o ensaio “Plural Marriage in Kirtland and Nauvoo” não está relacionado junto com os demais ensaios na página em que a Igreja dedicou aos mesmos, sendo inclusive alvo de críticas decorrente desse fato.
[2] Widtsoe, John A. Evidences and Reconciliations: Did Joseph Smith Introduce Plural Marriage?. Improvement Era 49, no. 11 (Nov. 1946): 766–67. Disponível aqui.
[3] Veja também a quantidade substancial de documentos sobre a poligamia disponibilizados pelo pesquisador Brain C. Hales em seu site.