Como Lidar Com a História da Igreja?

“As crianças começam por amar os pais, à medida que crescem tornam-se seus juízes, perdoam-lhes, às vezes”.

                                                                                           Oscar Wilde, em O Retrato de Dorian Gray.

Na semana anterior à VI Conferência Brasileira de Estudos Mórmons, soube que um dos temas abordados seria baseado em uma experiência que Suzana Nunes tivera há pouco tempo.

Conforme nos contou Suzana, uma moça que se preparava para servir em uma missão de tempo integral pediu-lhe que fizesse algumas perguntas sobre a Igreja. A moça, de antemão, mencionou querer perguntas difíceis para treinar sua retórica e testar seu conhecimento sobre o mormonismo.

Suzana então preparou dez perguntas, que podem ser transcritas mais ou menos assim:

Imagem: Florêncio Batista.

Imagem: Florêncio Batista.

A reação da moça que solicitou o teste deixou Suzana reflexiva, segundo esta nos contou dia 7, sábado. A futura missionária não somente desconhecia aquelas coisas, como automaticamente classificou tudo aquilo como mentira.

Ao entrar em contato com essa experiência, veio-me à mente a ideia de fazer as mesmas perguntas a dois rapazes que estão preparando os papéis do chamado missionário.

A resposta dada pelos rapazes foi a mesma da moça sabatinada pela Suzana, com a pequena diferença de que um deles colocou como verdadeira a pergunta sobre Joseph ter sido maçom, pois ouvira sobre isso de um amigo, em um acampamento da Igreja.

As perguntas foram direcionadas a jovens adolescentes, mas não creio que as respostas teriam sido muito diferentes se as mesmas perguntas fossem lançadas a pessoas mais velhas, com mais tempo e posição na igreja.

Neste artigo, quero levantar possíveis razões para o desconhecimento que mórmons têm de sua própria história, as questões culturais que concorrem para isso e propor caminhos para que as próximas gerações possam lidar de uma maneira mais saudável com os assuntos considerados espinhosos de sua tradição religiosa.

Reitero que o problema não seja restrito aos jovens missionários, nem a pessoas de baixo nível educacional, mas que é algo presente em todos os estratos sociais mórmons.

EXEMPLOS RECENTES

Há pouco mais de um ano, o setenta sueco Hans Mattsson veio a público contar sua experiência em lidar com esses assuntos. Segundo Mattsson, para muitos dos temas tratados pela Suzana, ele teve que ser forte para aceitar – e estamos falando de um líder do alto escalão.

Outro exemplo interessante, este aqui do Brasil, é de um setenta de área que escreveu um livro intitulado A Origem da Vida, no qual afirma, por motivação religiosa, serem falsos o Big Bang e a Evolução Orgânica, demonstrando total desconhecimento sobre essas teorias e, principalmente, sobre os acalorados embates entre apóstolos mórmons sobre o tema.

Dado que mesmo pessoas de relativo destaque na hierarquia eclesiástica SUD, como as citadas anteriormente, desconhecem assuntos que para os que estão envolvidos com os estudos mórmons há alguns anos parecem tão batidos, tão repetitivos. Lanço a seguinte pergunta:

É de fato interesse da Igreja que seus membros tomem conhecimento sobre essas coisas?

Antes de responder a pergunta, gostaria de levantar possíveis motivos de esses missionários e líderes da Igreja desconhecerem essas coisas; assim como as possíveis razões de a Igreja evitar tocar nesses temas.

As perguntas da Suzana giram em torno da poligamia, casamento de homens mórmons com adolescentes, racismo, processo de tradução do Livro de Mórmon, imposição de mãos femininas, relação entre maçonaria e mormonismo, crença em selenitas, Montain Meadows e City Creek Center.

POLIGAMIA

Mórmons presos por coabitação ilegal. Penitenciária estadual de Utah, aprox. 1888.

Mórmons presos por coabitação ilegal. Penitenciária estadual de Utah, aprox. 1888.

A poligamia era ESTRANHA até mesmo para época e lugar quando e onde foi iniciada, o que refletiu no caráter secreto que a prática teve logo no início.

Quando os mórmons se isolaram no oeste, passaram a se sentir mais à vontade para assumir publicamente a prática.

Com o fim do isolacionismo, Utah se integrou à União, se americanizou e passou a seguir a cartilha de Washington. A poligamia voltou a ser praticada secretamente. Até que por fim ela foi abandonada de vez pelo corpo principal do mormonismo.

Se fizermos um levantamento bibliográfico sobre poligamia nas publicações oficiais da Igreja, mesmo aquelas que têm por objetivo contar a história do mormonismo no Sec. XIX, o tema poligamia aparece de maneira tímida.

Se nos santos textos a poligamia é evitada, os profanos, por sua vez, transformaram-na no cerne do mormonismo. Mais que o Livro de Mórmon, foi a poligamia que levou o nome do mormonismo aos quatro cantos do mundo. Personagens como Sherlock Holmes e autores como Julio Verne popularizaram na Europa a existência de um grupo religioso do oeste dos EUA que a praticava.

Notícias sobre a poligamia trouxeram o nome do mormonismo também ao nosso país, várias décadas antes da chegada da Igreja por aqui. Os maranhenses Aluísio Azevedo e Sousândrade são exemplos disso; bem como o próprio imperador D. Pedro II.

Com o abandono da prática, as novas gerações de mórmons já passavam a olhar a poligamia como algo errado. De praticantes passaram a perseguir quem a praticava. É na tentativa de dar uma explicação para si e para as pessoas ao redor sobre o passado embaraçoso que surgem as histórias fantasiosas sobre a prática, como a explicação de uma missionária transcrita por uma pesquisadora brasileira:

“Sim, os homens podiam se casar com mais de uma mulher. Mas isso era porque naquela época havia muitas mortes masculinas; essas travessias eram muito duras para os homens. Então alguém tinha que tomar conta das viúvas.”

Quando indagadas sobre o casamento com adolescentes:

“Algumas eram mais novas, mas essas tinham perdido o pai, e também não tinham quem tomasse conta delas.”

CASAMENTO COM ADOLESCENTES

A poligamia de fato é algo estranho nos EUA do séc. XIX, mas a questão da idade das esposas plurais talvez possa ser contornada, em parte, simplesmente com uma contextualização.

O casamento de homens mais velhos com adolescentes, suspeito, era algo não tão chocante nas áreas rurais dos EUA do XIX, como seria nos Estados Unidos hoje. O simples entendimento do quão problemático é olhar para o passado usando as noções de hoje já ajudaria bastante.

Helen Mar Kimball (1828–1896), desposada por Joseph Smith aos 14 anos.

Helen Mar Kimball (1828–1896), desposada por Joseph Smith aos 14 anos.

Na própria literatura cristã primitiva temos um bom exemplo das perspectivas sobre o tema na Galileia do Sec. I. Em um importante texto apócrifo chamado Proto-evangelho de Tiago, encontramos uma tradição que afirma ter Maria doze anos de idade quando foi decidido que ela casaria com um viúvo chamado José. Segundo o relato, Maria contava com dezesseis anos à época da concepção.

É uma prova que a Sagrada Família tinha como matriarca uma adolescente? Claro que não! Mas demonstra que, para a comunidade que compôs esse texto, o fato de uma adolescente se casar e ter filho não era algo necessariamente reprovável.

Essas noções básicas de exegese e hermenêutica, creio, podem ser mais bem trabalhadas nas escolas da Igreja.

RACISMO INSTITUCIONAL

Assim como a poligamia, a proibição do sacerdócio aos negros é algo que causa constrangimento e todo um folclore que tenta explicar o motivo da notória discriminação.

Em muitas partes dos EUA do Séc. XIX e primeira metade do XX, a discriminação racial era praticamente senso comum. O Mormonismo absorveu muito desse racismo, desenvolveu-o e, por fim, tornou-se refém dele.

Embora poucas, as pesquisas sobre o mormonismo em nosso país nos fornecem dados que demonstram o quão difícil era a pregação missionária antes de 1978; inclusive, mostram a dificuldade com que muitos membros lidavam com a própria crença.

Os missionários deixavam para tocar no assunto somente em sua última palestra, a famosa lição sobre a linhagem, porém, não antes de avaliar discretamente as feições das pessoas a quem ensinavam – muitas vezes, recorrendo a fotografias e visita a parentes próximos, com o objetivo de melhor diagnosticar neles ascendência africana.

Com a mudança ocorrida no fim dos anos 70, esse enorme peso foi tirado de nossos membros e missionários. Os números de batismos explodiram. As novas gerações de mórmons não tiveram mais que se preocupar com a “semente de Caim”. Falar sobre a antiga crença se tornou desnecessário.

Não é muito difícil entendermos o porquê de esses missionários desconhecerem a antiga prática de discriminação, tendo em vista que a Igreja foi de fato crescer em nosso país somente após a revelação do sacerdócio, e as gerações antigas, constrangidas, passarem a evitar o assunto.

Mesmo em mundo contemporâneo, o mormonismo possui uma noção muito arcaica de comunicação com o divino; muito disso ligado à crença em um estreitíssimo laço entre seus líderes e Deus.

A origem do mormonismo está ligada a um homem que via Deus, que falava com Ele. Se Joseph Smith tinha essa intimidade, seus sucessores também o têm, pensa o fiel. Logo é muito difícil aceitar que uma prática como segregação racial fosse apenas fruto de um racismo difuso na cultura americana. O mormonismo até hoje tem dificuldade de lidar com o LADO HUMANO de seus líderes.

Isso gera a dificuldade em aceitar que as visões de mundo dos profetas mórmons muitas vezes não eram muito diferentes das de seus contemporâneos. Assim como é difícil para um mórmon entender a humanidade de seus líderes, é difícil igualmente entender que seus discursos e até mesmo as doutrinas por eles ensinadas muitas vezes refletiam mais o espírito da época do que algo que deveria ser perene.

Com a Era da Informação, temos mais acesso aos pensamentos de figuras como Joseph Smith e Brigham Young. É impossível negar que suas opiniões e doutrinas ensinadas, em muitos casos, não refletem o que uma pessoa de bem consideraria correto hoje.

O próprio Presidente Hinckley quando confrontado, no 60 Minutes, com frases racistas de Brigham Young,  encerrou o assunto com “isso ficou pra trás”, mostrando  que essas concepções não devem ter perenidade e refletem um passado que a igreja gostaria de esquecer.

É nessa tentativa de fazer sumir alguns tópicos da memória coletiva, que se coloca para debaixo do tapete partes da história, e os membros passam a ter acesso somente a partes selecionadas do passado de sua religião e da biografia de seus líderes – praticamente hagiografias.

Acostumados a uma história sanificada de sua religião e por serem alimentados em um sistema que idealiza a instituição A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os jovens com os quais Suzana e eu conversamos automaticamente consideraram mentira os fatos levantados.

Boa parte desses problemas seria resolvido se nossas escolas da Igreja divinizassem menos os líderes e treinassem os alunos na compreensão do Zeitgeist (espírito da época) como algo influente no desenvolvimento das escrituras e desenrolar da história mórmon.

Se isso fosse trabalhado, ficaria mais fácil lidar com outros assuntos levantados pela Suzana, como a possível crença em selenitas, o processo de tradução do Livro de Mórmon e a influência maçônica.

HABITANTES DA LUA

A especulação de uma lua habitada era algo de relativa força entre os americanos do século XIX, e os mórmons eram ainda mais suscetíveis a ela, pelo fato de acreditarem na existência de vários mundos habitados.

Embora haja pelo menos um relato de alguém que, quando criança, conheceu Joseph e supostamente aprendeu deste sobre a existência de habitantes na lua, a crença em selenitas nunca foi algo que tivesse qualquer relevância no conjunto de crenças desenvolvidas entre os mórmons.

É até provável que muitos mórmons acreditassem nisso, e que Joseph fosse um deles. Quantos mórmons republicanos hoje acreditam que o aquecimento global é um mito?

PROCESSO DE TRADUÇÃO DO LIVRO DE MÓRMON/ INFLUÊNCIA MAÇÔNICA

Vivendo às margens da religião institucional, a família Smith era muito suscetível às crenças mágicas da região rural onde morava. Assim como saliva e areia canalizaram a fé de um cego, de modo a este conseguir a cura por meio de Jesus, um chapéu e algumas pedras puderam catalisar o processo revelatório de um jovem do interior de Nova York.

A compreensão de que Joseph não viveu em um vácuo cultural permite uma melhor aceitação de que a teologia desenvolvida nos primórdios do mormonismo teve como substrato elementos familiares ao profeta.

Aulas que mostrassem a influência de crenças, textos e práticas dos povos do Oriente Médio na teologia judaica – ou como a árvore de natal pode unir nossa família para falarmos sobre Jesus –, seriam de bastante ajuda para que se visse o empréstimo de elementos maçônicos como algo não necessariamente condenável.

IMPOSIÇÃO DE MÃOS FEMININAS/ MOUNTAIN MEADOWS/ SHOPPING

A dificuldade de aceitar o dado histórico da imposição das mãos femininas, em parte, vem das consequências de como se encara a ideia de um Deus imutável.

Noções básicas de crítica textual e história mórmon mostrariam claramente que, a despeito de Deus ser o “mesmo hoje, ontem e sempre”, as visões dos autores bíblicos e profetas mórmons sobre Ele têm mudado bastante – reflexo de nossa humanidade, ou como diria Paulo, por ainda conhecermos “em parte”.

Tentamos fazer o nosso melhor, mas por não conhecermos completamente as coisas, seguimos pelo caminho que consideramos mais provável; porém, que nem sempre é o correto – ou pelo menos não correto para sempre.

É imperativo que mudanças ocorram. O mormonismo, através do princípio da Revelação Contínua, tem uma importante arma para melhor enfrentar os desafios hodiernos. A crença de que a palavra de um profeta atual vale mais que a de um antigo é um ponto forte da Teologia Mórmon.

Como os que estão fazendo a mediação com o divino são tão humanos quanto você e eu, os embates e as divergências de opinião terminam respingando nas práticas e visões da comunidade religiosa. As mudanças de visões sobre qual deve ser o papel da mulher na Igreja podem ser melhor compreendidas quando entendemos isso.

Vejo na questão do papel da mulher muita semelhança entre os desdobramentos ocorridos no mormonismo e cristianismo primitivo.

Tanto nos evangelhos quanto nas cartas que a crítica textual classifica como genuinamente paulinas, a presença das mulheres é muito forte. Mesmo em uma época em que o testemunho de uma mulher tinha pouca validade em um tribunal de justiça, Jesus escolhe uma mulher para ser testemunha de sua ressurreição. Foi através de uma mulher que as Boas Novas ultrapassaram as fronteiras de Israel.

Paulo observa e constata as liberdades trazidas pelo cristianismo“Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há HOMEM nem MULHER, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”. Não se trata de uma apologia que Paulo tenha feito a elas, mas de uma constatação do quadro que encontrara.

Algo que mudaria quando o cristianismo, ao procurar lugar ao sol, se acomodou nos moldes patriarcais da sociedade greco-latina, e as mulheres cristãs voltaram a ser como as mulheres de Atenas, conforme canta Chico Buarque. Nem mais falar na igreja podiam!

Joseph Smith, a despeito da poligamia e a sujeição feminina dela decorrente, apresentava uma visão mais progressista em relação à mulher atuar na igreja – sacerdócio, imposição de mãos, etc. Porém, o mormonismo viu sumir um pouco dessa chama progressista em seu meio.

Um mórmon olha para vários detalhes históricos e tem dificuldade de percebê-los como verdade. Quando as fontes lhes são apresentadas e não restam mais dúvidas de sua veracidade, muitas vezes, o membro da Igreja entra em um estado que beira a dissonância cognitiva.

A difusa crença de que os apóstolos e profetas mórmons têm uma relação privilegiada com Deus contribui para passividade com a qual os membros recebem as instruções de seus superiores.

Por diversas vezes, presenciei discursos de líderes e membros, nos quais afirmações do tipo “eu pularia de um prédio se o profeta mandasse” foram proferidas como sinal de comprometimento com sua fé. A falta de filtro pessoal é encarada como virtude.

Esse comportamento, aliado à atmosfera xenofóbica presente no Território de Utah no início da segunda metade do séc. XIX, pode estar por trás do triste acontecimento de 1857.

Por acreditarem que toda e qualquer ação realizada pela Igreja tem Deus como mentor intelectual, são passivos em aceitar as ordens vindas do topo da hierarquia. Essa passividade contribui para a instituição sentir pouca necessidade de transparência, incluindo a financeira. Um shopping bilionário de alguma forma, na mente dos fiéis, tem Jesus como idealizador.

DESAFIOS DA INFORMAÇÃO

Na Era da Informação, o acesso que se tem aos pensamentos de líderes da história do mormonismo nos mostra quão humanos e falhos eles foram e são, evidenciando algo que deveria ser óbvio: a importância de, ao receber  seus ensinamentos, submetê-los ao crivo da racionalidade

A crença em líderes quase divinizados e a falta de filtros pessoais concorrem para a infantilização dos membros.

Além da passividade e falta de filtro pessoal, outra coisa que fica nos arrabaldes da infantilização é a dicotomia do preto e branco, ou para fazer alusão a um best-seller contemporâneo, a não existência dos cinquenta tons de cinza. Nuances parecem inexistir.

Não quero dizer com isso que os mórmons sejam desprovidos de senso crítico, apenas que ele é pouco usado quando se trata da análise de sua religião.

Detentores de uma visão idealizada da Igreja a que pertencem, consideram como falso e impertinente qualquer dado ou opinião que vai de encontro à visão sanificada e consolidada pelo grupo religioso – o que explica a quase demonização que tem sido feita ao Vozes Mórmons.

Volto à pergunta do início do texto: a Igreja durante sua existência tem demonstrado querer que seus membros conheçam aqueles fatos? Ou então, a Igreja tem interesse que seus membros a vejam como uma instituição passível de erros?

Infelizmente, a resposta é NÃO.

A igreja prefere que seus membros e missionários desconheçam muitos dos assuntos relacionados à sua história e se sente confortável com a visão idealizada que os membros têm dela.

A Hans Mattsson, o setenta sueco que citamos anteriormente, após expor suas dúvidas aos seus superiores na hierarquia SUD, foi dito que não comentasse sobre elas com ninguém, incluindo família.

Ronald E. Poelman

Ronald E. Poelman

Em 1984, Elder Ronald E. Poelman fez um dos melhores discursos da história das conferências: falou sobre as diferenças entre a Igreja e o Evangelho, apresentou a Igreja como uma instituição suscetível a incorporar em suas práticas opiniões e costumes de grupos sociais; chegou a comentar o fato de muitas pessoas serem erroneamente rotuladas de infiéis por não se conformarem com certos padrões consagrados pela tradição do grupo.

Porém, a versão disponibilizada pela A Liahona e pelo vídeo oficial que foi distribuído às estacas trazia edições que fizeram sumir tudo aquilo que fazia do discurso algo que se destacasse dos outros com os quais estamos acostumados.

Boyd K. Packer, com sua visão utilitarista da história da igreja, falou que “algumas verdades não são úteis”, tacitamente ensinando que se deve omitir alguns tópicos. Cinco anos antes, Ezra Taft Benson criticou os historiadores e sua tendência de “exageradamente humanizar os profetas de Deus”.

ERA DA INFORMAÇÃO

Com a internet, hoje temos mais facilmente acesso a discursos e diários antigos de pessoas ligadas ao Movimento dos Santos dos Últimos Dias. Para o público que não fala inglês, temos ferramentas de tradução. O lado falho dos líderes é algo que salta aos olhos.

Ao contrário do que queria Ezra Taft Benson, se torna cada vez mais necessário humanizar os líderes, resgatando a ideia de que o divino se revela no humano, não na negação deste.

Um importante passo dado pela Igreja nesse sentido foi a publicação de novos ensaios que abordam temas espinhosos de sua história e doutrina. A importância desses textos não se deve tanto à tentativa de tornar palatável aos membros certas controvérsias, mas sobretudo pelo simples fato de falar sobre elas em seu site oficial.

Para diminuir a distância entre o que historicamente temos como mais provável e as hagiografias criadas pela tradição mórmon, novos focos devem ser dados no magistério da Igreja.

Enfatizar o lado humano de nossos líderes:  já estreitamos demasiadamente os laços dos líderes com Deus. O caminho é puxá-los mais pra terra, favorecendo a desconstrução do mito de uma igreja perfeita.

Noções de exegese e hermenêutica: assim saberão melhor extrair o riquíssimo conteúdo presente nas escrituras, além de desenvolver em nossos membros um maior senso crítico. Desse modo, ao serem confrontados com frases, opiniões e doutrinas de líderes do passado, não cairão no anacronismo de necessariamente aceitar como uma verdade o que foi dito, nem de demonizar quem disse.

Focalizar no princípio básico mórmon da Revelação Continua: entender a tradição mórmon como não estática, mas em constante mudança. Ter a coragem que um dia teve o Bruce R. McConkie, que após tantas bobagens faladas sobre os negros, pediu para que esquecêssemos o que ele e outros apóstolos e profetas mórmons falaram sobre o assunto.

Só assim teremos uma nova geração de mórmons mais maduros, capazes de ler sua religião por uma ótica adulta, sabendo reconhecer a força de sua história e doutrina sem precisar idealiza-las.

Na Era da Informação, o mormonismo sai de sua infância e entra na adolescência; e como bem sabemos, esta é uma fase difícil. Comparando a Igreja a uma mãe, ao sairmos da infância começamos a ter uma visão mais crítica sobre ela, a notar suas falhas.

Ao invés de considerarmos como mentira fatos inegáveis do passado, estaremos mais aptos a encarar o que considero um dos maiores desafios do mormonismo contemporâneo: nós mórmons já enfrentamos turbas, um deserto, as tropas do governo federal e hoje temos que aprender a enfrentar nossa própria história.

50 comentários sobre “Como Lidar Com a História da Igreja?

  1. Obrigado por esclarecer a sua não crença em Jesus Cristo,Silvio, estou satisfeito.Meu irmão, não levo para o lado pessoal de forma alguma, eu aprendo mais com você ou sobre o judaísmo, quando você também não é beligerante(palavra bonita). Chama a minha atenção os seus comentários generalizadores, vide o último, como se todos os “mórmons” não soubessem do passado,história, da Igreja ou sugerindo que aqueles que sabem ou que pesquisam a fundo se afastam,negam o testemunho, etc.

    Respondendo a sua 1ª afirmação: “Mas você está mais beligerante.Mórmon não pode ficar armado assim não…”

    R= Pode sim, amigo, afinal sou um defensor SUD, e me considero um pequeno “hobbit” pesquisador das religiões(ainda que meu conhecimento sobre muitas seja como um grão de mostarda). No entanto, em minha defesa, cito o profeta Mórmon que disse: “Eis que estou labutando com eles continuamente;e quando lhes transmito a palavra de Deus com rigor,eles tremem e enraivecem-se contra mim(…)” E agora, meu amado filho,apesar da dureza deles,trabalhemos diligentemente;porque,se deixarmos de trabalhar,estaremos sob condenação(…) – Morôni 9:4;6
    Considero um dever defender aquilo que chamo de verdade.

    Você também me perguntou: “Mas conta pra nós aqui o que aconteceu? Você sumiu, foi vitimado pelo surto de dengue?”

    R= Neste verão, todo cuidado é pouco amigo, porque não é só a dengue não, têm uma tal de “chikungunya” que tá pegando bastante. Felizmente não fui vítima de nenhuma das duas. Tive problemas pessoais sérios, precisei me ausentar da internet(social), e reorganizar a minha vida,estou em processo de renovação e já posso me aventurar novamente por esta mídia. Agradeço o interesse e a preocupação.

    Foram muitas as perguntas que me fez e aqui têm outra das suas: “pergunte em um dia de testemunho pelo púlpito ou mesmo individualmente em sua ala pergunte a umas 30 pessoas, a pergunta é: – Você sabia que José Smith teve 11 esposas poliandricas?”

    R= Você sabe porque prestamos um testemunho?Qual o propósito dele? Você prestaria um testemunho dizendo: ” Eu sei que D´us ordenou a Moisés, que enviasse o povo hebreu para esfolar crianças, trucidar mulheres para habitar Canaã?” Presto meu testemunho que Ló fez a coisa certa em entregar a suas filhas virgens para que os homens de Sodoma a estuprassem” Me diga como este fortaleceria a fé de um candidato ao judaísmo?

    PS:Não te chamarei de, Thorin escudo de carvalho,mas a propósito J. R. R. Tolkien é fantástico não acha?

    • Por isso eu disse Beligerante, no sentido de combatente, não é o que somos? Todos defensores e simultaneamente combatentes? Quando eu era mais jovem, e isso faz algum tempo, nós fazíamos uma partida de futebol no estilo cada um para si… Não sei porque me lembrei disto agora, talvez porque fosse divertido, a bola não saia do lugar, houvesse ou não talentos individuais… A bola nunca ia para a rede… É assim aqui no blog em alguns momentos… Eu não precisaria dar um testemunho sobre Moisés ou sobre o genocídio promovido por ele por dois motivos: (1) Porque está escrito e praticamente todo povo judeu conhece sua própria história… (2) Porque D’us assim decretou que fosse feito e o sangue dos inocentes serve para expiação das nações destruídas, eles (os inocentes) têm suas mansões junto ao Eterno… Este é um bom contraste Alexandre, pois se observar o que reivindicamos aqui é que a mesma honestidade seja praticada pela igreja verdadeira pois ela requisita para si este qualificativo. O que se cria em torno do debate ou é retorica ou provocação como as vezes que eu escrevi que você precisava ler sua história… Peço que me perdoe por isto, sei que você é inteligente, estudioso e um jovem dedicado… Quando as vezes provocamos é para ver o mórmon perder a cabeça… E depois provocarmos com censura… Alguns caem outros se mantem firmes… Você se manteve firme… Você há de convir comigo que se aprende mais nestes debates e nos artigos deste blog do que jamais se aprenderia na igreja… Isso não é porque encontramos aqui um grupo de rebeldes… É porque a característica comum de quem aqui vem é a busca pelo conhecimento.. Agora sejamos sinceramente honesto é assim em toda a dimensão de nossas alas? Dentro de minha percepção pessoal de mundo eu não vejo assim… Vejo pessoas defendendo com o coração sua fé, não com a razão… Logicamente que está intrínseco a diferenciação e a necessidade de cada um dos órgãos envolvidos neste conflito. Vamos nos encontrando pelas vias do ciberespaço meu jovem. Shalom!

      • Ficamos assim então…rs…gosto dos debates inteligentes como os que você e o blog propõe, principalmente os menos cáusticos,você irmão Silvio conquistou o meu respeito e admiração.

        Concordo com você que aprendo muito no vozesmórmons,em alguns momentos ampliei a minha visão do evangelho restaurado,mas não substituo as aulas ministradas nas classes dominicais,institutos de religião,serões e conferências da igreja principalmente aquelas que julgo sentir, o que considero ser o Espírito de D´us, confirmando para mim como verdadeiro(a).

        Não julgo a sinceridade daqueles que comentam neste blog e se assim o fiz, em algum momento, peço perdão, mas julgo a minha própria sinceridade em buscar a verdade sobre D´us, Cristo, e seu evangelho.

        ” Mas eis que eu te digo que deves estudá-lo bem em tua mente; depois me deves perguntar se está certo(…)” – D&C 9:8

        Sei que D´us ama seus filhos e responde as orações daqueles que o buscam,dentro daquilo que tenho como, a verdade, ELE, ainda não me disse o contrário,Thomas Spencer Monson é um profeta levantado por Elohim,as palavras não podem descrever o que sinto quando ouço a voz mansa de seu Espírito me confirmar isto.

        PS:Tenho o desejo de aprender sobre o judaísmo e conhecer os seus costumes e práticas,pesquisá-lo em uma fonte limpa. Até +

  2. Acho que uma das melhores frases que li nesse texto é “Comparando a Igreja a uma mãe, ao sairmos da infância começamos a ter uma visão mais crítica sobre ela, a notar suas falhas.”
    Felizmente ou infelizmente, precisamos dar tempo às pessoas para que se preparem e busquem mais conhecimento sem forçá-las a isso. Assim como ninguém alcança maturidade do dia pra noite, o conhecimento e aceitação da história da igreja também será lento e gradual. Se respeitarmos esse tempo, no futuro teremos membros fortes e maduros para lidar com os questionamentos sobre o passado. Tenho apenas 22 anos de idade, cerca de 20 anos de igreja (se minha vida pré-batismo conta de alguma forma), mas, modéstia à parte, possuo mais maturidade para lidar com isso do que vários líderes mais velhos do que eu. Essa capacidade varia de pessoa para pessoa. Li esse texto, compreendi muito bem. Ao invés de abalada me sinto ainda mais fortificada, agora mais do que nunca a igreja precisa de gente pra lidar com isso.

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