Igreja Publica Documentos Secretos de Joseph Smith

Finalmente, após 172 anos de sigilo absoluto, a Primeira Presidência d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias permitirá escrutínio público dos documentos da organização secreta fundada por Joseph Smith.

"Último Discurso Público do General de 3 Estrelas Joseph Smith" por John Hafen, 1888.

“Último Discurso Público do General de 3 Estrelas Joseph Smith” por John Hafen, 1888.

Apelidado de “Conselho dos 50”, Joseph Smith fundou em 11 de março de 1844 uma organização ultra-secreta entitulada O Reino de Deus e Suas Leis com as suas Chaves e Poder, e Julgamento nas mãos de Seus Servos, Ahman Cristo“. Essa organização serviria como o governo político teocrático mórmon, o literal Reino de Deus na Terra, e consequentemente Smith foi coroado por esse conselho como Rei da Terra exatamente um mês após sua fundação.

Consciente da natureza potencialmente explosiva, e traiçoeira, de se estabelecer um governo paralelo para suplantar o estabelecido governo democrático norte-americano, Smith ordenou sigilo absoluto e obrigou seus membros a juramentos de segredo. Seus membros costumavam chamá-lo por códigos para evitar divulgar seus segredos, como “Conselho dos 50” ou “Conselho do Reino”, até mesmo em seus diários,  chegando a inventar formas alternativas, como  “YTFIF” (palavra inglesa “fifty”, significando “cinquenta”, de trás para frente) entre outros.

Composta por 53 indivíduos – incluindo três “gentios” (não-mórmons) simpatizantes, a instituição teocrática, cuja existência era completamente desconhecida dos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, deveria preparar o governo milenar de Cristo na Terra, constituindo um núcleo político inicial do Reino de Deus.

Dois anos depois, ele iniciaria a organização desse Reino.

Apesar de sua enorme importância no pensamento de Joseph Smith, o Conselho dos 50 ainda permanece desconhecido da maioria dos mórmons. Não há, por exemplo, nenhuma menção do Conselho em manuais do Sistema Educacional ou outras publicações da Igreja SUD. Por outro lado, desde a década de 1950, tem sido um dos grandes temas da história mórmon.

Quando o Segundo Conselheiro da Primeira Presidência, William Law, descobriu da conspiração mórmon para cometer traição contra o governo federal, ele uniu-se a outros membros da Igreja insatisfeitos com a prática (também secreta) de poligamia e decidiram expor esses segredos de Smith ao público. Compraram uma prensa e fundaram o jornal “O Expositor de Nauvoo”, para expor essas grandes conspirações das quais os membros da Igreja eram inteiramente ignorantes. Smith, receoso da reação pública e zeloso de seus grandes segredos, ordenou a destruição imediata (e ilegal) da prensa e queima de todas as cópias da primeira edição do jornal antes de entrar em circulação.

Smith, e co-conspiradores nesse ato ilegal, foram imediatamente presos e levados para a cidade de Carthage, sede do condado de Hancock (ao qual pertencia Nauvoo), para responder em prisão cautelar (Smith era, afinal, fugitivo da lei em Ohio e Missouri) pela denúncia de traição. Antes de partir para a cadeia de Carthage, Smith instruiu o secretário do Conselho dos 50, William Clayton, a queimar ou enterrar as atas da organização. Em 22 de junho de 1844, Clayton registrou em seu diário:

“Joseph sussurrou e disse-me para colocar os r[egistros] do R[eino] nas mãos de um homem fiel e mandá-los para longe, ou queimá-los, ou enterrá-los, o que fiz imediatamente após retornar para casa.”

Graças à sua escolha de enterrar as atas, elas foram preservadas. No entanto, até hoje, não se encontravam disponíveis para estudo. Inclusive, até 2010 as atas permaneciam no famoso “Cofre da Primeira Presidência”, onde apenas Apóstolos poderiam visualizá-las e nenhum pesquisador poderia lê-las sem pessoal autorização do Presidente da Igreja.

Uma ótima notícia veio no ano passado, quando o Departamento de História da Igreja anunciou que as atas viriam a ser publicadas pelo projeto Joseph Smith Papers. Há uma grande expectativa sobre o que será publicado e quais questões virão a ser elucidadas pelas novas fontes. Editores do projeto Joseph Smith Papers haviam anunciado para o final de 2016 a publicação de um volume dedicado às atas do Conselho dos 50 durante o período de Nauvoo. O anúncio fora feito durante a conferência anual da Mormon History Association, realizada em San Antonio, no Texas. Os editores, Ron Esplin, Matthew Grow e Richard Turley, afirmaram não haver nada “sensacional” nas atas publicadas. Três volumes manuscritos contendo as atas haviam saído do Cofre da Primeira Presidência e sido entregues ao Joseph Smith Papers em 2010. No ano passado, o anúncio de que as atas viriam a ser publicadas gerou bastante expectativa na comunidade acadêmica e outros interessados na história mórmon.

Após o assassinato de Smith, Brigham Young assumiu controle do Conselho dos 50. Uma de suas primeiras ações foi descontinuar participação dos não-mórmons no Conselho. Para Brigham Young, assim como as novas ordenanças recebidas no Quórum dos Ungidos, a liderança dos 50 era também uma credencial para futuramente assumir a presidência da Igreja. Ou seja, o Conselho dos 50 era um ponto de disputa nos bastidores da crise de sucessão.  Até James Strang – que nunca fora parte dos 50 – fez questão de criar sua própria réplica do Conselho teocrático de Joseph Smith, contando com o auxílio de George Miller, membro original dos 50.

Assim como na sucessão da Primeira Presidência, a sucessão no Conselho dos 50 tampouco foi livre de controvérsias. Pelo menos três de seus membros quiseram honrar as missões de colonização a eles dadas por Joseph Smith, colocando-as acima da liderança de Young – James Emmet, Alpheus Cutler e Lyman Wight – e acabaram por estabelecer suas próprias organizações religiosas.

Entre 1844 e 1884, quando ocorreu sua última reunião, o Conselho dos 50 passou por diferentes composições, assumiu diferentes tarefas e recebeu maior ou menor importância da hierarquia mórmon.

O Conselho dos 50 foi tema do primeiro Podcast Mórmon, promovido pela Associação Brasileira de Estudos Mórmons (ABEM) e o blog Vozes Mórmons. Mais informações sobre o Conselho dos 50 em português podem ser encontradas aqui, aqui e aqui. Assista aqui o nosso podcast de dois anos atrás sobre o Conselho dos 50. Será interessante comparar o que já sabíamos sobre ele com o que leremos nas atas.

Um fato que já se tornou público e exige correção era na percepção de que Smith havia anotado a revelação para o Conselho dos 50 em abril de 1842, quase 2 anos de sua formação oficial. Contudo, notas já surgiram que as atas demonstram que Smith só a ditaria em abril de 1844, após sua fundação. Outra nota preliminar interessante reporta que os principais focos das atas no período a ser coberto eram como e aonde relocar os membros da Igreja para fora do território dos Estados Unidos, além de uma cavalgada de diatribes contra o seu governo democrático.

Um dos editores do primeiro volume, que será publicado no final do mês, Gerrit Dirkmaat, expressa a esperança que as atas sirvam de inspiração a membros da Igreja:

“Leitores aprenderão quão desesperadores eram os desafios enfrentados por membros da Igreja que buscavam um refúgio da tempestade de ataques antimórmons e das intrigas políticas contra a Igreja entre 1844 e 1845. Eles conhecerão, em um nível mais pessoal, homens como Joseph Smith, Hyrum Smith, Brigham Young e John Taylor, e enxergarão suas esperanças, seus sonhos, e suas aspirações. E eles serão inspirados ao ler sobre eles.”


Artigos citados no podcast (listados por data de publicação)

HANSEN, Klaus J. The Metamorphosis of the Kingdom of God: Toward a Reinterpretation of Mormon History em Dialogue: A Journal of Mormon Thought, vol. 1 no. 3, 1966.

QUINN, D. Michael. The Council of Fifty and Its Members, 1844 to 1945 em BYU Studies vol. 20, no. 2, 1980.

EHAT, Andrew. “It Seems Like Heaven Began on Earth”: Joseph Smith and the Constitution of the Kingdom of God em  BYU Studies vol. 20, no 3, 1980.

BLYTHE, Cristopher J. “… But the future will write up the past, when all will be made plain…” What we will learn with the publication of the Council of Fifty minutes. 2013


Assista vídeos produzidos pela Igreja SUD para introduzir membros ao conselho que ela negou existir por décadas:

9 comentários sobre “Igreja Publica Documentos Secretos de Joseph Smith

  1. Um dos editores do primeiro volume que será publicado no final do mês, Gerrit Dirkmaat, expressa a esperança que as atas sirvam de inspiração a membros da Igreja.

    Onde o tal Gerrit Dirkmaat expressou a tal esperança referindo-se a tal ata “secreta”?

      • Altamir, você não sabe como funcionam links?

        Explicamos, então: Quando você vê no texto do artigo algumas palavras em cores diferentes (azul ou verde, dependendo do seu monitor) do resto do artigo, eles são links. Links são referências que, se você clicar com o seu mouse nelas, abre uma nova página da internet com a referência em si. É a magia da internet permitindo leitores acesso imediato às fontes e referências.

        Por tratar-se de uma competência básica em alfabetização digital, compreendemos que é fácil esquecer-se que algumas pessoas tenham dificuldades para transicionar para mídia eletrônica. Afinal, a internet só tem 20 anos no Brasil. Não hesite em pedir ajuda no futuro quando coisas assim lhe estiverem confundindo. O que parece ser simples para muitos não necessariamente o é para todos.

  2. O entusiasmo de Gerrit Dirkmaat deixa evidente que somente o que for positivo para enaltecer a liderança da igreja será revelado. Isso também servirá para calar os críticos que falam de um submundo mórmom de segredos e conspiração contra o governo americano. Revelar tais atas através um projeto controlado pela igreja não me faz ficar entusiasmado sobre seus resultados. Nem a igreja e nenhuma instituição seria louca de dá um tiro no próprio pé.

  3. Antes de comentar o texto quero acrescentar que eu adoro ironia do administrador ao responder alguns comentários.
    Em 2014, li “The Council of Fifty and Its Members”, o Conselho tinha vários outros apelidos como “O Grande Conselho de Deus”, “O Conselho Especial”, “O Conselho do Reino”, “O Quórum dos 50”, “O Conselho dos L”( algarismo romano), “A Escola do Reino”, entre outros…
    Apesar de ser uma organização secreta e dissociada parecia que certas evidências indicavam uma subordinação a igreja.

  4. “Smith foi coroado por esse conselho como Rei da Terra”

    A megalomania de Smith não tinha limites. O interessante é que o Livro de Mórmon diz que a América jamais terá reis: 2 Ne 10:11.
    Aliás, o Livro de Mórmon aos poucos foi sendo colocado de lado como fonte de doutrina por Joseph Smith.

  5. Concordo com o receio de não ser tudo publicado para esconder alguma coisa. Teria sim que haver autorização da Igreja para a presença de historiadores independentes em todo esse processo.

Deixe um comentário abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s