O Livro Tibetano dos Mortos e o Livro de Mórmon

Que paralelo poderia ser traçado entre O Livro de Mórmon e o Livro Tibetano dos Mortos? Pelo nosso bom senso, nenhum, certo? Mas não é isso o que diz Donald S. Lopez Jr., um especialista em budismo e estudos tibetanos da Universidade de Michigan. Em um recente artigo, Lopez enfatiza a semelhança das origens dos dois livros, bem como a diferença de seu status perante o universo das religiões.

O autor começa refletindo sobre a dificuldade de diálogo entre mórmon e cristãos evangélicos, em especial a dificuldade dos últimos em aceitar outros textos além do cânon bíblico, reivindicados por mórmons como sagrados, sendo o mais famoso de todos O Livro de Mórmon. A polêmica não é apenas doutrinária, segundo Lopez, mas se encontra “no tempo e espaço”: para  maioria dos cristãos, “O Livro de Mórmon é moderno demais em tempo e perto demais em espaço para ser uma escritura sagrada”.

Após descrever o surgimento do Livro de Mórmon, desde o aparecimento de um anjo ao adolescente Joseph Smith até a tradução não-convencional das placas, Lopez então fala do aparecimento do Bardo Todol (“Libertação Pelo Escutar Durante o Estado Intermediário”), mais conhecido pelo título recebido no ocidente, O Livro Tibetano dos Mortos. Os paralelos podem ser facilmente reconhecidos pelos leitores familiarizados com a narrativa de Joseph Smith.

No final do séc. XII, um jovem tibetano chamado Karma Lingpa tem uma visão na qual é instruído a desenterrar um livro sagrado de uma montanha do Tibet. O livro fora escondido lá por um sábio budista vindo da Índia e estava escrito “em uma escrita secreta que apenas Karma Lingpa poderia decifrar”, escreve Lopez. Os ritos preceitos no livro focam no “estado intemediário” entre duas vidas mortais, instruindo o indivíduo a evitar uma má reencarnação ou mesmo a conseguir escapar do ciclo de nascimentos mortais. Traduzido para o inglês e publicado pela Universidade de Oxford em 1927, ele se tornaria um verdadeiro best-seller  e o texto budista mais conhecido no séc. XX.

Lopez analisa o paralelo e as diferenças na recepção dos dois livros da seguinte forma:

Um texto desenterrado no estado de Nova York há menos de 200 anos atrás [O Livro de Mórmon] torna-se uma fonte de inspiração para uma comunidade de fieis, mas objeto de condenação e escárnio para seus vizinhos, que os expulsam de Ohio e Illinois, e por fim até Utah. Na América [EUA], O Livro Tibetano dos Mortos, santificado pelas areias do tempo e os imponentes picos do distante Tibet tornou-se um clássico espiritual atemporal; sua origem um pouco dúbia permanece uma história não contada. Porém, o Livro de Mórmon, desenterrado há nem tanto tempo de um monte mais modesto de Nova York é ainda um objeto de disputa em muitos setores cristãos em 2012.

Lopez não está fazendo com isso uma defesa do Livro de Mórmon, muito menos suscitando dúvidas sobre a legitimidade do Livro Tibetano dos Mortos. Mas sua comparação entre as duas obras lança luz sobre o modo como a distância (ou proximidade) no tempo e espaço afetam a percepção que temos sobre a natureza sagrada de um livro e nos relembra que, independente da crença na inspiração divina de um texto, o humano está presente na origem de toda escritura.

Veja aqui mais sobre a história do Livro Tibetano dos Mortos.
 
Leia aqui mais sobre as edições do Livro de Mórmon e uma experiência de leitura que retoma sua publicação original em parágrafos.

6 comentários sobre “O Livro Tibetano dos Mortos e o Livro de Mórmon

  1. Pingback: Misticismo e ortodoxia | Vozes Mórmons

  2. Irmão Antonio, eu ainda não li, mas você já leu o “O Livro da Lei do Senhor” da Igreja Strangita? Se sim, o que achou? Já pensou em orar a respeito? Acha que pode haver algum tipo de inspiração divina? Dizem que tem até fac-símile assim como no Livro de Abraão.

    • Marcos, ser eu não me engano, hay um livro que e citado na Biblia com esse nome, mais que nunca foi encontrado, gostaria de saber um pouco mais sobre esse livro

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