Russell M. Nelson e o Dom de Línguas

Texto de Gustavo Oliveira

Fui escolhido! Quando tinha 17 anos, o Élder Russell M. Nelson do Quórum dos Doze Apóstolos, viria visitar o Rio de Janeiro. Seria uma visita rara, sem muito aviso prévio, e somente por um dia. Élder Nelson anunciou que queria dirigir-se aos jovens e jovens solteiros. Meu bispo me perguntou se eu tinha interesse em ser o tradutor do Élder Nelson para seu discurso. Eu estava em êxtase! Um membro do Quórum dos Doze Apóstolos! Claro que aceitei!

Semanas se passaram e eu não havia recebido nenhuma mensagem reforçando o convite; eu ainda não sabia se seria o tradutor ou não. Finalmente, chegou o dia do serão com o Élder Nelson. Eu cheguei cedo na capela de Andaraí, um bairro carioca, e a sede da nossa estaca. A grande maioria dos presentes eram jovens; jovens das três estacas cariocas: Andaraí, Madureira, e Rio de Janeiro. A capela de Andaraí estava mais cheia que durante nossas conferências de estaca. E eu ainda não sabia se seria o tradutor ou não.

Eu vi bastante gente se congregando perto do escritório do presidente de estaca. Eu fui lá junto com o resto da muvuca que se formou. O presidente da Missão Rio de Janeiro (chamado Presidente Day) me achou, e parecia estar aliviado em me ver. Ele me perguntou:

– Você ainda quer fazer a tradução, Gustavo?
Eu respondi que gostaria se fosse preciso ainda.
– Então venha comigo!

Eu o segui e ele me apresentou ao Élder Nelson. Fiquei completamente paralisado. Apertei a mão dele e falei:

– Eu acho que serei seu tradutor hoje, Apóstolo Nelson. Eu posso falar com o senhor um instante? Eu quero ouvir bastante a sua voz pra me acostumar com sua entoação, pode ser?
– Com certeza, ele respondeu com um sorriso. E me chame Élder Nelson, por favor. Somente Élder.
– OK. Gostaria de saber o assunto sobre o qual o senhor vai discutir hoje pra me preparar com um vocabulário apropriado.
– Não tenho nenhum assunto preparado, o Espirito Santo irá me guiar hoje.
– Muito bem. Então, por favor, me fale mais sobre sua vida. Quero somente me acostumar com sua entonação e frases comuns que o senhor usa.
– Bem, me formei como médico, e trabalhei como cirurgião cardíaco…

Nesse instante, mais pessoas se juntaram à multidão que já era grande. Muitos começaram a tentar se comunicar com o Élder Nelson e várias outras pessoas que estavam ao redor do apóstolo americano. Eu achei interessante que um apóstolo não tivesse nenhum assessor ou ajudante. Rapidamente, eu me acanhei e fui para um canto mais calmo. Encontrei a esposa do Élder Nelson e ela estava conversando com uma jovem brasileira em inglês e nós três conversamos bastante.

Descobri que essa visita era algum tipo de visita clandestina. Uma ordem expressa várias vezes foi de não tirar nenhuma foto de qualquer maneira. O Presidente Day estava se ocupando de bloquear várias câmeras de vários jovens que ainda não haviam escutado a ordem imposta. Pelo pouco que eu ouvi, talvez fosse algum tipo de compra importante de terreno ou transação financeira importante. Na verdade, não sei a razão pelo sigilo.

Finalmente chegou a hora. A capela não somente estava cheia, mas o salão cultural e o palco do salão cultural também estavam repletos. Eu estava com o grupo que marchava em direção ao púlpito, mas no final do grupo. Quando cheguei ao púlpito, não tinha mais onde se sentar! Normalmente, o púlpito da estaca Andaraí tinha espaço suficiente pra um coral inteiro e toda liderança. Nessa noite, não havia lugar algum. Pensei que com certeza haveria um lugar pra mim se eu fosse realmente seu tradutor. A única conclusão seria que eu não era mesmo o tradutor. Com certeza, tinha vários outros jovens na estaca com a habilidade de traduzir. Um amigo meu, o filho do Presidente Day, já estava sentado perto do seu pai no púlpito. Ele seria uma boa escolha, pensei, e comecei a procurar um assento qualquer.

Quando a mini-conferência começou, eles realmente anunciaram meu nome como tradutor. Fiquei feliz, repentinamente, mas muito nervoso. Élder Nelson se direcionou ao púlpito, e eu segui.

Estava muito nervoso. Não queria desapontar minha estaca e queria ser um bom servo e servir como uma voz para o espírito. Élder Nelson começou e eu traduzi o que ele havia dito rapidamente. Rápido demais. Minhas palavras saíram mescladas e não muito diferenciáveis. Élder Nelson riu e olhou pra mim. Ele tentou novamente e novamente minhas palavras somente fizeram todos rirem. Ele pôs sua mão no meu ombro e falou:

– Quando Moisés foi chamado como profeta, ele não podia se comunicar com seu povo, e Deus lhe providenciou Aarão. Hoje, Deus me providenciou esse rapaz – se referindo a mim, não creio que soubesse meu nome.

Eu me senti bem melhor e o resto do seu discurso se passou sem interrupções, com apenas duas exceções.

1. Élder Nelson contara uma estória sobre um homem que desejava lhe antagonizar com um charuto enorme. Quando Élder Nelson falou “cigar”, a palavra que me veio à mente foi “cigarro”, o que não somente seria errado, como daria um contexto errôneo à estória. Eu parei, e pensei durante uns segundos pra lembrar a palavra “charuto” pois a minha cabeça tinha estacionado na palavra “cigarro”. Alguém na congregação me ajudou e falou “charuto!” alto suficiente pra que eu ouvisse! Graças aos céus! Então eu falei “charuto!” e todos riram, Elder Nelson incluso. “Muy grande!” – ele falou em espanhol.

2. Quando chegou a hora de prestar seu testemunho, Élder Nelson não precisou de minha ajuda. Ele deu seu testemunho em português! Eu fiquei plantado ao lado dele por três minutos. Resisti um impulso jovial de traduzir suas sentenças para o inglês, só por gozação. Todos sentimos um espírito muito forte e poderoso.

Quando sentamos, Élder Nelson me pegou pelo braço e me fez sentar ao seu lado e pôs seu braço em meus ombros num abraço meio paterno. Sentindo meio constrangido, eu falei:

– Parabéns, Élder Nelson, não sabia que o senhor sabia falar algo em português. Quantas aulas de português o senhor teve?

Sua resposta foi algo que nunca esqueci até hoje:

– Nunca! O que você testemunhou esta noite foi o dom das línguas!

Que linda resposta! Esta foi uma experiência que compartilhei várias vezes durante minha missão e sempre pra uma classe nova quando ensinava português no CTM. O dom das línguas se manifestou na minha presença.

Eu compartilhei essa evidência de como o dom das línguas se manifestava corretamente a um companheiro de quarto na BYU. Quando terminei a minha estória, meu amigo perguntou:

– Espera. Quem foi esse apóstolo?
– Elder Russell M. Nelson -respondi.
– Que engraçado. Ele fez algo semelhante na minha classe do CTM em São Paulo.
– Como assim? – eu indaguei.
– Bem, ele terminou seu discurso e prestou seu testemunho em inglês, exatamente como você descreveu, mas quando chegou a hora de fazer a última oração, ele olhou pros lados e falou: “Creio que vocês estão preparados para isso:” E começou a proferir a última oração em português.
– Que estranho – eu respondi. – Ninguém tinha sido escolhido pra fazer a última oração?
– Não, um élder tido sido chamado, mas ele só ficou lá plantado, fazendo nada.
– Então por que o Élder Nelson fez isso?

Essa pergunta eu me fiz várias vezes. Por que o Élder Nelson teria feito isso? Ele é um homem muito capaz e inteligente. Foi pioneiro de várias implementações de intervenções cirúrgicas no mundo. Ele, famosamente, aprendeu chinês (mandarin) em dois anos sozinho, com pouco auxílio externo. Ele fala um pouco de espanhol. Na realidade, o testemunho que ele prestou foi um português meio quebrado e cheio de expressões e palavras em espanhol.

Eu decidi lhe perguntar.

Na BYU, antes do ataque do Cody Judy contra o Presidente Howard Hunter, os alunos podiam se enfileirar e apertar a mão de um apóstolo ou profeta quando eles visitavam o campus. O Élder Nelson fez um serão domingueiro e resolvi lhe perguntar. Na realidade, nem precisei lhe perguntar. Eu apertei sua mão, e ele me perguntou:

– Jovem, de onde você é?

Eu respondi que vinha do Brasil. Ele sorriu largamente e começou a falar no mesmo português quebrado misturado com espanhol:

– Wonderful! Mi esposa y eu gostam do Brasil muy. Adora o Brasil! Onde no Brasil você é?

– Rio de Janeiro. Na verdade, eu conheci o senhor lá. Eu traduzi para o senhor. O senhor se lembra? – falei em inglês para que ele me entendesse.

Com seu sorriso um pouco menos largo agora, ele falou, em inglês, que claro que lembrava de mim, e que um prazer era me ver na BYU.

Agora, o Élder Nelson tornou-se Presidente Nelson; presidente do Quórum dos Doze Apóstolos e sucessor do Presidente Monson caso esse faleça. Me preocupa um pouco ter um homem obviamente muito inteligente, completamente disposto a passar sua inteligência como dom do espirito, numa posição de tamanho poder.

Qualquer que sejam suas intenções de promover fé e fazer-nos acreditar que ele possui um dom espiritual para um fim altruístico, fingir-se ter algo espiritual quando ele somente estudou e memorizou, pode se reduzir a uma conceito: charlatanismo. Isso é uma proposta muito perigosa, caso o Élder Nelson ascenda ao trono mórmon e receba o manto profético.

60 comentários sobre “Russell M. Nelson e o Dom de Línguas

  1. Minha confiança numa autoridade geral vem da minha fé em Jesus Cristo.Como você insinuou que Russel M. Nelson é um charlatão, essa foi sua evidência, numa experiência que você mesmo disse ter, a minha evidência não diferente no sentido de argumentos, acredito que o mesmo não é charlatão, e que tem defeitos com certeza, como todos tem, mas simular uma situação que daria pra entender que ele é um apóstolo por causa do dom de línguas dele, ele simula toda uma situação, eu acredito fielmente que não, do mesmo direito que você tem de dizer que ele é um charlatão. Sua experiência e todas as palavras bem colocadas, cheia de detalhes supostamente verdadeiros como você diz, é a mesma do meu testemunho sobre os apóstolos e profetas, que eles são discípulos de Cristo com autoridade real, sei também que você afirmar que ele é um apóstolo e ele só possui essa falha, muita pretensão sua que eu ache que é boa intenção para não ser enganado.

  2. Eu e meu esposo estávamos presente na cerimônia de abertura de terra do Templo de Curitiba e tenho certeza que Élder Nelson falou pelo dom de línguas pois não havia sotaque americano ele falava como nativo, e o Espírito emanava!! Foi glorioso e gratificante fazer parte deste momento!!

  3. Jamais ouvi um americano falar português como o Pres. Nelson na oração dedicatória do CTM. Ainda que estivesse lendo a oração com palavras escritas em inglês para parecer português, ainda assim seria impossível falar sem sotaque. Ainda que ele tenha estudado, treinado ou ainda decorado, por quê ele não pode reconhecer a ajuda do Espírito Santo? Eu falo, escrevo e leio perfeitamente português e espanhol. Me esforcei para aprender a falar os dois sem sotaque. Mas quando vejo inúmeras pessoas que não conseguem ter a mesma capacidade, reconheço, com humildade, que tive o Dom das Línguas para me ajudar.

    • Estava na dedicação do templo de Curitiba , sim ele falou em português, porém, tinha sotaque sim e forte por sinal.Creio que as pessoas estavam tão maravilhadas em ver os apóstolos e o templo dedicado que não prestaram a devida atenção. E todos que ali estavam acreditarão piamente que ele usou o dom de línguas para ler a dedicação em.português.
      Não quero desmerecer a fé de ninguém, mas, o Elder Nelson tem facilidade em aprender novas línguas. Ele é uma pessoa com inteligência acima do normal. Ele tem o “dom” de aprender rápido. Esse talento não é exclusivo de autoridades gerais e nem de membros da igreja.
      Conheço outras pessoas que aprendem idiomas facilmente e nem membros da igreja são.

  4. Eu tinha ouvido da dedicação do CTM no Brasil por Elder Nelson. Um Presidente do Ramo em São Paulo que eu conhecia disse que a oração dedicatória do Elder Nelson foi dado num português sem sotaque e perfeito. O Espírito foi muito forte quando o Presidente de Ramo me contou.

    Queria ver o que tinha na net sobre este acontecimento e fiquei um pouco desapontado em ler a experiência em cima onde alguém está acusando o Apóstolo de charlatanismo.

    Fiz uma pesquisa hoje e achei essa experiência:

    http://www.crockettclan.org/wws/tongues.html

    Presidente Nelson fez uma coisa semelhante na Itália nos 1980s. Só que discursou por quinze minutos em italiano e os americanos presentes perceberam um sotaque americano e os italianos não perceberam nenhum sotaque.

    Creio que ele possui o dom das línguas mesmo.

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