Gerontocracia Mórmon

Em uma semana, a Igreja SUD deve anunciar 3 novos Apóstolos para o rol dos 15 líderes máximos, estilizados “profetas, videntes, e reveladores”.

A oportunidade histórica de mudar 20% da liderança da Igreja não pode ser subestimada e ainda pode oferecer pistas para qual direção a Igreja rumará nas próximas décadas.

A última vez que três vagas no Quórum dos Doze foram preenchidas ao mesmo tempo foi em abril de 1906. Mathias Cowley e John W. Taylor haviam renunciado em outubro de 1905 em protesto contra o Segundo Manifesto (eventualmente, este foi excomungado e aquele desassociado) e Marriner W. Merrill tinha acabado de falecer em fevereiro. George F. Richards, Orson F. Whitney, e David O. McKay foram chamados para substituí-los. A presente situação histórica, 109 anos depois, ocorreu pelos recentes falecimentos de L. Tom Perry, Boyd K. Packer, e Richard G. Scott em menos de 4 meses.

três anos atrás, nós publicamos uma excelente tabela, criada por um entusiasta em estatísticas, que calculava a média da idade de todos os membros da Primeira Presidência e do Quórum do Doze Apóstolos (i.e., os 15 líderes máximos da Igreja SUD): [1]

Eixo Horizontal: Ano, de 1835 a 2009
Eixo Vertical: Idade
Linha Azul: Idade média dos 15 Apóstolos (PP + Q12)
Linha Laranja: Idade do líder mais velho
Linha Verde: Idade do líder mais novo
Linha Preta Quebrada: Idade do Presidente da Igreja
Barras Brancas e Cinzas alternantes: representam cada administração de um Presidente de Igreja (nomes em cima ou abaixo).

O que essa tabela nos demonstra?

Acima de tudo, ela nos demonstra que, progressivamente, a Igreja vem sido liderada por homens cada vez mais velhos.

Isso, sem dúvida, tem suas vantagens. Com o passar do tempo e da idade, ideias e ideais mais radicais e menos conciliadores tendem a se dissipar e dar lugar a posições mais ponderadas e tolerantes. Extremismos de homens como Joseph Fielding Smith e Ezra Taft Benson causaram muita ansiedade quando estes assumiram a presidência da Igreja, mas até chegarem a essa posição, muito do radicalismo de outrora já se havia dissipado, e suas administrações não demonstraram a virulência de suas juventudes. [2][3]

Por outro lado, há certamente desvantagens. Um grupo de homens idosos tem mais dificuldade para entender problemas de jovens, às vezes 3 ou 4 gerações atrás deles. Não há como discutir que os problemas de hoje, e os contextos sociais, econômicos, ou culturais são completamente diferentes de quando Thomas Monson tinha 20 ou 30 anos de idade na década imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.

Uma outra questão é a capacidade de produção administrativa: Quando David McKay morreu, alguns Apóstolos não queriam ordenar Joseph Fielding Smith como Presidente da Igreja por ser velho demais, especialmente porque McKay já havia estado tão debilitado durante os últimos anos de seu presidência que fora necessário convocar 3 Conselheiros extras, inchando a Primeira Presidência a 6 membros. Semelhantemente, Spencer Kimball e Ezra Benson sofreram debilidades mentais intensas nos seus últimos anos de vida, forçando a liderança da Igreja a delegar a seus Conselheiros a tarefa de liderar a Igreja de facto. [4][5]

A idade avançada, por exemplo, explicaria umas posturas ideológicas difíceis de se compreender em 2000 ou 2015, mas que seriam perfeitamente normais para 1930 ou 1940. Por exemplo, há alguns anos atrás o Presidente Gordon Hinckley escolheu estabelecer que mulheres SUD não poderiam ter mais que um par de brincos. O Apóstolo Russell Nelson, há meros três anos, escarneceu teorias científicas muito bem estabelecidas há quase um século. [6][7]

Recentemente, uma tabela interativa foi publicada com os dados dos líderes atuais (e recém-falecidos) que explora de maneira didática as idades e tempo de serviço dos respectivos líderes.

Líderes Tabela Interativa

Tabela interativa de líderes da Igreja SUD (15 Apóstolos, ou Profetas, Videntes e Reveladores) , incluindo os 12 vivos e os 3 recém-falecidos. Clique na foto para checar a tabela e suas funções interativas para ver mais informações detalhadas.

Entre outras coisas, essa tabela demonstra que dos 11 Apóstolos vivos (excetuando-se, aqui, o Profeta), 8 deles (73%) tinham entre 57 e 63 anos de idade quando foram chamados ao apostolado. Apenas 2 deles (27%) tinham entre 51 e 53 anos, e nos últimos 10 anos, os convocados tinham 57, 63, e 67 anos de idade. A tendência histórica até aqui óbviamente favorece idosos acima dos 60 anos de idade, com uma pequena minoria de adultos de meia-idade (i.e., acima dos 50 anos), e excluindo completamente adultos (e.g., entre 35 e 50 anos) e adultos-jovens (e.g., entre 25 e 35 anos).

Outra consideração consideravelmente fácil de se visualizar nessa tabela é a alta probabilidade estatística que David Bednar servirá como Profeta, considerando que o chamado profético na Igreja SUD é burocraticamente regimentado: Profeta é o Apóstolo com mais tempo de serviço na liderança (i.e., entre o Quórum dos Doze e a Primeira Presidência).

Um fato interessante que não se pode interpretar dessa tabela, mas certamente fácil de se inferir com sua ajuda, são os credenciais e requisitos curriculares para o chamado apostólico. Dos 11 Apóstolos vivos (novamente, excluindo-se o Profeta), todos subiram pela hierarquia eclesiástica progressivamente, seja pelos chamados religiosos (i.e., Presidentes de Estaca, Representantes Regionais[8], Primeiro Quórum de Setenta), seja por carreira no Sistema Educacional da Igreja (3 deles serviram como Presidentes da BYU). A única exceção, justamente o Apóstolo com mais tempo de serviço de Apóstolo — e, consequentemente, quem recebeu seu chamado há mais tempo e menos representa tendências atuais — que fora chamado sem servir no Primeiro Quórum de Setenta ou como Presidente da BYU é o atual Presidente do Quórum dos Doze Russell Nelson, que galgou os degraus da escada eclesiástica SUD como os demais (i.e., Presidente de Estaca, Representante Regional), mas trabalhava como médico pessoal do idoso e enfêrmo Spencer W. Kimball quando este decidiu chamá-lo diretamente ao apostolado.

Além da notada preferência pela chamada “terceira idade” e homens em idade de aposentadoria, a liderença da Igreja inequivocadamente favorece promoções em etapas dos carreiristas eclesiásticos. Apóstolos são convocados dentre os homens que demonstraram décadas de fidelidade e dedicação à instituição, galgando sequencialmente a ordem de ofícios eclesiais de maneira muito similar ao cursus honorum da República Romana Antiga, que coincidentemente ou não, também serviu de padrão para a Igreja Católica Apostólica Romana.

Que a Igreja é liderada por um grupo fechado de homens idosos é fato inegável. Que a idade média desse grupo vem aumentando com o passar do tempo, e que a preferência por indução de homens igualmente idosos é, face aos dados estatísticos, também inegável. Sem entrar no mérito de que são exclusivamente homens, e que são, no geral, do mesmo contexto sócio-cultural, a questão da preferência por uma gerontocracia certamente tem impacto em toda Igreja, e cultura, Mórmon.

Quando chamarem os 3 novos Apóstolos, e confirmarem os novos 20% dos líderes SUD, na semana que vem, poderemos todos novamente checar essa excelente tabela para comparar suas respectivas idades com as idades dos atuais líderes, e também com suas idades à época de suas ordenações ao apostolado. Se as idades dos calouros se enquadrarem com a tendência histórica recente, saberemos que os líderes atuais não enxergam o processo gerontocrático como algo a ser corrigido. Se as idades, contudo, romperem com essa tendência, isso pode significar uma preocupação em mudanças para o futuro. Sem uma pedra de vidente, essas pequenas dicas são as melhores ferramentas disponíveis na atualidade para contemplarmos as ponderações contemporâneas na liderança SUD.


[1] Reproduzida com permissão, original aqui.
[2] Religion: Smooth Succession? Time, 14 Jan 1974.
[3] Quinn, Michael. The Mormon Hierarchy: Origins of Power. Signature Books, 1994, pp. 256-258.
[4] Quinn, Michael. The Mormon Hierarchy: Extensions of Power. Signature Books, 1997, pp. 55-58.
[5] Mormon President’s Health Raises Questions. Los Angeles Times, 31 Jul 1993.
[6] Hinckley, Gordon. Grande Será A Paz De Seus Filhos. Conferência Geral, Out 2000.
[7] Ver Mórmons Contra Ciência?
[8] Representantes Regionais hoje são estilizados Setenta – Autoridades de Área

29 comentários sobre “Gerontocracia Mórmon

  1. Me desculpem mas, tantas expectativas em cima desses homens tidos como tão “santos” por alguns e nunca vi eles fazerem quase nada pelo mundo, exceto dedicar templos e assinar cheques o dia todo.

    Saudades da Lady Diana que, ela sim, tentava mudar o mundo. E até Angelina Jolie. Estas sim fizeram e fazem muito mais pelo mundo!

    • Eu sou membro e acho legal todos estes posts, comentários.Quero seria melhor de todos os “Cristãos” tivessem a capacidade de amar as pessoas e respeita las com sua escolhas.

      • Magnólia, EU poderia fazer uma lista bem extensa para te apresentar, mas como estou sem tempo e principalmente paciência, vou te passar apenas um site da Igreja, para que estude, se assim quiser: http://www.ldscharities.org
        Depois responda: quem você acha que administra esses projetos imensos? Você não sabe o que diz. Eu conheci em Utah áreas gigantescas, nas quais a Igreja mantém fazendas para produção de alimentos, com o único objetivo de ajudar os necessitados em todas as partes do mundo! Quem supervisiona todos esses projetos, essa estrutura toda? Quem você acha que é? Informe-se melhor, procure conhecer a Igreja a fundo.
        Arranjei um pouco mais de paciência – lembrei de mais um exemplo recente: a Igreja produziu um filme chamado Meet the Mormons e exibiu em salas de cinema por todos os Estados Unidos. Arrecadou alguns milhões de dólares com isso (uns dez, se me lembro bem). O que foi feito com essa grana? Foi toda doada à Cruz Vermelha! Você sabia disso? Você realmente conhece essa Igreja? Informe-se.

  2. Texto muito interessante. Parabéns.
    Os gráficos bem esclarecedores.
    Só lamento não terem entrado no mérito, ainda que especulativo, dos prováveis nomes a serem escolhidos.
    Se formos levar em conta a hierarquia, devem chamar alguém da presidência dos 70.
    O que acham?

  3. Entrando no mérito especulativo, atualmente temos alguns irmãos que servem no quorum dos setenta, incluindo presidência e primeiro quorum que, se formos levar em conta a hierarquia, poderíamos apostar neles para o Quorum dos Doze: Elder Ronald A. Rasband, chamado em 01/04/2000. Donald L. Hallstrom, chamado em 01/04/2000, Richar J. Maynes, chamado em 01/04/2000, Whintney Clayton, chamado em 31/03/2001. e Walter F. Gonzalez, chamado em 31/04/2001. Cláudio R. Costa, chamado em 31/04/2001. Mas não podemos esquecer que a igreja é guiada por revelação, lembramos do discurso do Presidente Gordon B. Hinckey – A Liahona abril de 1994 (DEUS está no Leme).

  4. Aceitemos e permitamos que todos os que amam a justiça o façam, demos ouvidos ao que nos ensinam e nos esforcemos para ser como eles, pois está escrito: Quem recebe um profeta em qualidade de profeta receberá galardão de profeta. E o galardão de um profeta consiste na vida eterna no Reino de Deus.

    • Flavio Gomes, pegando um gancho no que a irmã Magnólia Sá falou anteriormente, realmente “não sei o que esses homens fizeram de tão relevantes como profetas, videntes e reveladores, a não ser assinar cheques e dedicar templos”. Parece que o poder do sacerdócio só funciona na hora dos discursos e quando estão fazendo oração. Não vejo o poder da vidência prever algum acontecimento que poderia atingir a todos. Por quê será que não anteciparam os acontecimentos de 11/09 ou a morte por afogamento da criança que tentava fugir da violência da Síria com seu pai? As maiores previsões dos líderes da igreja é: se você se afastar desse evangelho, não poderá ser exaltado ou então: se você não pagar seu dízimo, não irá prosperar.
      Desculpe fugir do tema principal, mas as vezes realmente leio algumas pessoas idolatrando os líderes da igreja como se eles fossem as pessoas mais perfeitas e corretas do mundo. Parece que todos os conselhos que eles dão se não cumprirmos, seremos amaldiçoados.
      Estou esperando bastante ansioso a indicação dos novos três membros do quorum dos doze. Não sei o que vai mudar na visão geral da igreja com a entrada desses, já que todo o conselho de líderes, não decidem nada se o Presidente da Igreja não aprovar. Que Deus os abençoe para que conduzam a igreja no caminho correto.

      • Ai Milton te fiz perder rápido a paciência? que coisa, não faz uma lista porque não tem nem por onde começar que pena! um dia vc consegue enumerar ao menos uma que seja real, vou “rezar para vc conseguir!

        bjomeliga!

  5. minhas apostas: Rasband, Clayton e Costa (brasileiro,pq não?).Caussé… não!, Teixeira, talvez e quiçá Soares, mais um brasileiro…mas acho que podem ser escolhidos Hallstrom e Christensen junto com Rasband.

  6. Sempre espero estar enganado sobre as pessoas, mas a julgar pelo modo como Costa lida com seu próprio povo, preferiria ficar sem representação lá do que ter ele. O mesmo para Ulisses. Inclusive já estive em conferências com ambos, e não senti qualquer espírito de liderança, nem pessoalmente e nem à distância. Seria mais um membro sem expressão, e com isso quem perde é a ‘cultura brasileira na igreja’.

    Mas como eu disse, se ocorrer, torço muito para estar muito enganado. Pois dizem que “quando Deus chama Ele qualifica”, mas apenas se quem foi chamado permitir e realmente tenha sido um chamado divino.

    • Não acompanho a carreira do Cláudio Costa. Uma coisa, no entanto, considero preocupante: em anos recentes, ele repopularizou o discurso “Catorze Princípios Fundamentais para Seguir o Profeta”, dado por Benson em 1980. É um dos discursos mais satânicos já proferidos na Igreja.

      • Na verdade também não gosto nem um pouquinho deste discurso, especialmente os princípios 2, 3 e 14. Eles falam, na ordem, que o profeta está acima das obras padrão (escrituras), que um profeta vivo é mais importante que um profeta morto, e a última frase: “rejeite-os e sofra.”

      • Muitos, Moroni. O próprio Spencer W. Kimball teve uma percepção negativa do discurso e exigiu explicações de Benson. Em resumo, ele afirmou a necessidade de obediência cega por parte dos membros e que a palavra do presidente da Igreja é sempre a vontade de Deus em todos os assuntos.

      • Sem duvida Antonio. Quase nao pude acreditar naquele discurso. Qualquer pessoa de fora da igreja com um pouco de inteligencia iria certamente sair convencido que somos uma seita. Nao o culpo o Elder Costa totalmente, creio que ele tambem foi condicionado a pensar de tal forma como muitos outros membros, no entanto nao deixa de ser uma heresia o que ele falou.

      • Pois este é um exemplo, justamente, do problema, Antônio.

        Sinto uma ‘babação’ e uma bajulação descarada de lideres brasileiros (talvez seja cultural) que não levam em conta as necessidades locais dos membros quando tem contato com estes que realmente tem poder de ação mais global. Parece não desejarem ‘queimar’ sua chance de promoção futura enfio em pontos polêmicos ou mesmo coisas óbvias que, se mudadas, poderiam abençoar ainda mais as pessoas comuns.

        Esse discurso citado é um belo exemplo de ‘forçar a barra’ para chamar atenção para sua ‘fidelidade e capacidade’ de ser chamado como próximo apóstolo.

        Não lembrava desse discurso de tanto que não gostei dele, mas confesso que não prestei atenção e nem sabia de sua origem. Parece que ele segue claramente a frase infeliz deste discurso: [“De que lado você está?” O Presidente Boyd K. Packer surpreendeu-me com essa pergunta (…) em minha primeira designação como novo setenta. (…). “Um setenta”, continuou ele, “não representa o povo para o profeta, mas o profeta para o povo. Nunca se esqueça de que lado você está!” Foi uma poderosa lição.]

        E mais, já notaram o plágio descarado dos brasileiros e outros líderes do alto escalão no que tange aos discursos em conferências. Esse pessoal não sabe criar seu próprio discurso, tem que ficar copiando os da Liahona? Eu esperaria isso de pessoas sem formação acadêmica ou experiência de liderar, mas entre setentas e dozes?

      • Verdade, Antônio, ultimamente não tem muitos, especialmente de brasileiros, já que também não são muitos destes que discursam. Ocorre mais em conferências locais ou regionais. Talvez eu estivesse pensando na repetição de temas sem o capricho de uma boa retórica ou acréscimo de alguma idéia nova ou roupagem nova numa idéia antiga.

        Por exemplo, eu gostei muito de uma do Elder Dube (olhar para frente e acreditar), mas ao reler percebi que quase toda sentença era de outra pessoa. Foi chato saber que ele não foi autoral.

  7. Pingback: Novo Apóstolo Brasileiro? | Vozes Mórmons

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