Aumenta Suicídio Entre Jovens Mórmons

Nos últimos 3 meses, 34 jovens Mórmons entre 14 e 20 anos de idade cometeram suicídio com sucesso. Esse número representa um aumento importante na taxa de suicídios entre jovens SUD, especialmente considerando que não incluem tentativas mal sucedidas e mortes traumáticas autoinflingidas.

Familiares e analistas apontam a Igreja SUD como causa próxima desse aumento na taxa de suicídios.

No começo de novembro de 2015, a Igreja SUD determinou uma clara mudança em política oficial, determinando que a posição da Igreja deva discriminar contra crianças em famílias LGBT, e contra jovens SUD de orientação LGBT. Após a mudança ter vazado para o público a contragosto da liderança, e apesar da resposta oficial da Igreja alterando e levemente suavizando a nova política, milhares de membros da Igreja SUD saíram em protesto e resignaram em massa. Não obstante, o Apóstolo sênior Russell Nelson recentemente mudou a narrativa da nova política, declarando que ela havia sido ordenada por Deus desde o início.

Durante todos esses três meses de protestos e publicidade negativa, os jovens afetados passaram a sofrer com suas próprias batalhas pessoais.

Wendy Williams Montgomery, membro da Igreja SUD no Arizona com um filho homossexual, e uma das líderes do grupo de apoio para famílias Mórmons com membros LGBT, reconta como passou a contabilizar os relatos de suicídios de jovens SUD, sofrendo por causa de sua orientação sexual, que vieram parar no grupo. Desde a descoberta do arrefecimento da homofobia institucional há menos de três meses, 34 jovens se mataram, sendo 28 deles apenas no estado de Utah. A título de comparação, a média anual de suicídios no estado de Utah é de 37 casos.

E estes são apenas os casos documentados, que provavelmente representam uma subestimação do total de tentativas ou suicídios entre Mórmons LGBT. Em entrevista ao jornal The Salt Lake Tribune, a diretora do Utah Pride Center, Marian Edmonds-Allen, explica que “não existem compilações adequadas” em casos de óbitos violentos pois há “uma enorme vergonha e estigma com relação a suicídio e depressão na nossa comunidade”, levando familiares a esconderem informações pertinentes de investigadores. “Uma morte em trânsito ou uma overdose seria acidental ou suicídio?”, questiona Allen. Sua experiência como voluntária no Utah Commission on LGBT Suicide Awareness and Prevention também lhe confirma a prevalente impressão que nem familiares das vítimas, nem autoridades governamentais, e nem líderes eclesiásticos demonstram desejo de contabilizar dados confiáveis e abrangentes.

A psicóloga SUD Lisa Tensmeyer Hansen, atuante na cidade de Provo, Utah, nega conhecer pessoalmente vítimas de suicídio relacionado à nova política da Igreja, porém ela está bem familiarizada com os desafios pelos quais esses jovens passam para conciliar sua orientação, sua fé, e a persistente discriminação cultural e institucional em suas vidas.

“[Eu tenho observado] um aumento em ideações suicidas, em depressão, e ansiedade… Na minha experiência com casos específicos, tenho notado que quanto mais uma pessoa LGBTQ demonstra interesse em permanecer ativa na Igreja ou ligada à ela, tanto maior o processo emocional negativo resultante dessa mudança de política… [Conheço vários casos de membros ativos] que sentem que atingiram um limite além do qual não podem mais maleabilizar-se e desistem por completo de tentar participar [da comunidade]. Também conheço aqueles que estão… lutando com aprofundamento na depressão e perda de esperança.”

Brad Kramer, professor de ética na Utah Valley University, acautela contra a simplificação exagerada da questão:

“O suicídio é um fenômeno trágico e incrivelmente complicado… É claro que a incidência de suicídio pode ser fortemente influenciada pela forma como falamos, descrevemos e informamos sobre suicídios… [Porém, culpar suicídios LGBT em uma causa única], incluindo uma influente retórica e políticas anti-LGBT, provavelmente não é útil. [Eu não estou tentando simpatizar com a] retórica e as políticas homofóbicas [da Igreja SUD]. As novas políticas SUD obviamente têm um impacto negativo sobre mórmons LGBT e suas famílias, incentivando seu ostracismo. Elas incentivam valentões anti-gay e aprofundam a marginalização social. Elas quase certamente contribuem [juntamente com uma vasta gama de fatores] para suicídios e tentativas de suicídio LGBT”.

Uma mãe da cidade de Riverton, Utah, entrou em contato com Montgomery porque seu filho, SUD ativo, havia se matado (uma das mortes não computadas na lista citada acima). O rapaz de 22 anos de idade morava com seu pai SUD devoto quando a política tornou-se pública. Relata a mãe:

“Seu pai não sabia que ele era gay, e ele [o filho] estava com vergonha. Mas ele estava discutindo com o pai dele que o que a igreja estava fazendo era errado.”

O estresse, o desespero, a depressão, e a profunda rejeição tanto da Igreja como de seu próprio pai partiram o jovem rapaz. Subitamente, o pai retorna para casa do trabalho apenas para encontrar que seu filho havia tirado a própria vida.

“A política da igreja divide famílias… e isso repercutirá através de gerações.”

Mesmo para crianças em lares mais estruturados e sem discriminação, a experiência religiosa é sofrida e difícil. Quando o filho gay de Montgomery recebeu a notícia da nova política, o seu sofrimento pessoa partiu-lhe seu coração de mãe:

“Eu o abraçei por uma hora enquanto ele soluçava no meu colo… Os líderes mórmons ficam martelando sobre o casamento sendo entre um homem e uma mulher. Para gays, isso é como Deus está lhe dizendo que você não está certo, a menos que você viva em um casamento heterossexual. Não há maior nível de rejeição do que vindo de Deus.”

A Igreja SUD, através de seu departamento de relações públicas, expressou preocupação e luto pelos jovens mortos. Contudo, não houve expressões dos líderes eclesiásticos ou quaisquer considerações de culpabilidade ou mesmo relação de nexo causal entre a discriminação institucional e o sofrimento dessas crianças.

Um grupo de alunos e professores da BYU, a universidade da Igreja SUD, dedicado a apoiar alunos LGBT demonstra preocupação com essa recente tendência:

O risco de suicídio é uma realidade séria e complexa que muitas pessoas LGBTQ/AMS enfrentam. Em geral, os jovens LGBT que são fortemente rejeitados são 8 vezes mais propensos a tentar o suicídio… Infelizmente, os alunos da BYU não são exceção a estes riscos. Uma pesquisa de estudantes LGBTQ/AMS na BYU de 2012 revelou que 74% deles tinha pensado em suicídio, enquanto 24% já tinham tentado suicídio. No último ano, houve pelo menos cinco tentativas de suicídio confirmadas, nenhum dos quais, felizmente, foi fatal.

Em seu site, eles publicaram os relatos pessoais de 4 desses alunos que tentaram se matar por causa da depressão, do ostracismo, da discriminação, e da sensação de desamparo e profunda alienação no meio Mórmon. Além disso, divulgam telefones e chats para auxílio emergencial, e vídeos de uma campanha destinada a criar uma sensação de comunidade e oferecer esperança para um futuro melhor e menos opressivo.

Mitch Mayne, membro ativo da Igreja SUD que até recentemente servia no Bispado em sua ala na Califórnia, perfeitamente descreveu em sua coluna o conflito gerado entre a Igreja e seus membros LGBT e suas famílias:

Antes da nova política, qualquer decisão a favor ou contra a disciplina da Igreja para um membro LGBT era deixada aos líderes locais, e havia uma maré consistente de boas-vindas varrendo a cultura mórmon. Congregações de Seattle a Boston começaram a imitar o que foi iniciado na região da baía de San Francisco em 2011, onde todos eram bem-vindos – incluindo membros LGBT casados com cônjuges de seu próprio gênero. Segundo esta abordagem, a juventude LGBT Mórmon tinha pelo menos uma vaga idéia de esperança de que, se eles não fossem capazes de aderir a uma norma rígida do celibato ao longo da vida e acabassem com alguém que realmente amam, eles ainda poderiam encontrar uma congregação que estenderia a eles a mão do amor cristão e inclusão.

Mas agora tudo isso mudou. Hoje, a mensagem para a juventude LGBT Mórmon é clara, e é uma Escolha de Sofia sombria: Ou resignar-se a uma vida de celibato forçado, ou ser ejetado de sua igreja e família – para todo o tempo e eternidade. Independentemente de qual opção escolha a juventude Mórmon, eles perdem.

Não deveria ser nenhuma surpresa, então, quando a depressão e as tentativas de suicídio aumentam entre as crianças mórmons gays. Também não deve ser uma surpresa quando mais jovens LGBT se vêem marginalizados ou rejeitados por seus pais sinceramente religiosos, que agora se sentem mais compelidos do que nunca a escolher entre seu filho e sua igreja.

Enquanto caridade, bondade, amor e preocupação dizem estar por trás da nova política, é bastante claro que muitos membros ativos da Igreja, gays e heterossexuais, vêem o que ela realmente é: uma nova rejeição descarada dos membros LGBT. E a pesquisa baseada em evidências feito pelo Projeto Aceitação Familiar nos diz que as crianças que experimentam altos níveis de rejeição têm:

• Mais de 8 vezes maior probabilidade de tentar suicídio;
• Quase 6 vezes mais probabilidade de relatar altos níveis de depressão;
• Mais de 3 vezes mais propensos a usar drogas ilegais;
• Mais de 3 vezes mais probabilidade de ser de alto risco para HIV e DSTs.

Crianças mórmons não estão imunes à ciência… Uma das frases mais repetidas frequentemente usadas para defender a nova política é que ele está sendo promulgada para proteger as crianças. A maioria das pessoas, incluindo multidões de Santos dos Últimos Dias ativos devotos, simplesmente não estão acreditando nessa defesa.


Leia mais sobre a política oficial da Igreja SUD aqui.

Leia mais sobre as resignações de membros SUD aqui.

Leia reações e histórias pessoais de membros SUD aqui.

Leia mais sobre a reação oficial da Igreja ao vazemento aqui.

Leia mais sobre a reação extra-oficial da Igreja SUD a isto aqui.

Leia pronunciamento da Primeira Presidência sobre Casamento Tradicional aqui.

13 comentários sobre “Aumenta Suicídio Entre Jovens Mórmons

  1. Tá… isso é no minimo preocupante !!, é um assunto extremamente sério!!!, sinceramente não concordo que os índices estatísticos consigam mostrar correlação entre suicídios de jovens SUD’s com a nova politica da igreja sobre homossexualismo, em muitos casos, outros fatores emocionais e físicos (como depressão e genética) podem ter um peso maior. No entanto é notório que muitos jovens dentro da igreja sofram com pressões relacionadas a níveis de perfeição que boa parte das vezes não podem ser alcançados. O despreparo dos líderes locais só serve para agravar ainda mais a situação. Torno a repetir que este é um assunto grave, e na minha opinião qualquer pessoa, instituição politica, ou entidade religiosa que patrocinar ou promover pressão psíquica e emocional em um individuo, a ponto de levá-lo ao suicídio deveria ser seriamente punido pelo governo local ou mesmo entidades internacionais. Nossas leis já´evoluíram o suficiente (pouco mas expressivo) de conseguirmos identificar o que hoje chamamos de “assédio moral” no trabalho. A questão é por que as religiões ainda estão isentas e podem atuar livremente na psique humana sem seres responsabilizadas pelo que ensinam ou pregam?

  2. Eu sei que o conteúdo dessa notícia é verdade, porque eu já vivenciei isso. Eu venho acompanhando os posts dessa página há algum tempo, nunca participei dos debates, mas eu precisava comentar nesse post, mesmo que por um perfil anônimo.

    Refletindo sobre a minha infância eu lembro de algumas frases marcantes: “Não ande rebolando assim”, “Tenha cuidado com a forma que você mexe em seu cabelo, as pessoas podem falar mal”, “Homem não deve dançar assim”, entre outras. Desde que me entendo por gente, eu sempre senti que eu era diferente de outros garotos.

    Durante a adolescência eu era muito brincalhão, mas de repente eu notava que eu era diferente e então vinha a depressão, a vergonha, eu me sentia como uma aberração da natureza.

    Por causa desse culpa que sempre tive eu era um pouco perfeccionista comigo mesmo, eu tinha medo de fazer qualquer coisas que decepcionasse as pessoas ao meu redor, uma forma de compensar a culpa, eu tentava ser o filho exemplar, sempre comportado, com ótimas notas, sempre educado, aquele que passou em um curso concorrido em uma universidade federal, sempre servindo na igreja, e posteriormente servindo uma missão.

    Na missão eu conheci bastante do evangelho e tive ótimas experiências, e então passei a me cobrar ainda mais e sempre sentia que nada que eu fizesse era bom o suficiente, eu tinha baixa autoestima (ainda mais), depressão e por sentir tudo isso eu sentia ainda mais culpa, sentia que eu estava sofrendo porque não tinha fé o suficiente, porque era fraco, porque não aceitava bem as provações, eu sofri e culpava a mim mesmo por tudo que sofrera. Durante a missão foram ficando cada vez pior esses sentimentos e eu me arrastava, segurando-me na esperança de que quando eu voltasse para casa tudo iria melhorar.

    Então eu voltei para casa, empolgado porque na minha cabeça tudo seria melhor, minha família estava tão orgulhosa de mim por minha missão, todos me recepcionaram tão bem, eu era um herói, eu venci meus desejos sexuais durante a missão; Mas então todos os maus sentimentos da missão foram voltando, eu não estava feliz e tudo que eu conseguia fazer era me perguntar o motivo da dor, o que mais eu poderia fazer para acabar com a dor, porque mesmo quando eu estava fazendo tudo conforme o evangelho eu não me sentia feliz? E quando eu refletia sobre isso conforme os ensinamentos do evangelho a única resposta que eu encontrava era “eu”, eu sofria por minha culpa. Durante e após a missão conversei com os líderes que deveria (Pres. de missão, bispo e pres. de estaca) e foi bem frustrante, eu tentava desabafar, mas sentia que eles não me entendiam, que eles me julgavam precipitadamente, e ouvia muitas opiniões preconceituosas.

    Me digam irmãos, depois de tudo isso, quando você está digno de uma recomendação para o templo, quando as orações, as escrituras, os líderes e tudo que o evangelho oferece não consegue aliviar a culpa e a dor e quando você não tem mais esperanças de que vá melhorar, quando você está cansado de lutar o que mais você pode fazer? Eu queria morrer sabe, porque eu sentia que tudo era culpa minha e que eu era fraco para mudar isso.

    Mas minha vida não é uma tragédia, graças a uma pessoa: nos reencontramos em uma feira gastronômica (porque eu o conheci rapidamente antes de minha missão) e saímos e conversamos, e eu notava que ele dava em cima de mim e eu tinha medo, mas eu me sentia tão bem perto dele, então continuei, começamos a namorar. Eu sentia que eu podia ser eu perto dele, que eu não precisava me preocupar em me conter, pela primeira vez na minha vida eu consegui ser totalmente sincero com alguém e ele não me julgava e me entendia, pela primeira vez eu não sentia vergonha de mim mesmo, ele faz tudo para que eu esteja feliz, ele é meu melhor amigo, ele é meu porto seguro, ele me ama exatamente como eu sou e eu o amo, e quanto mais tempo estou com ele tenho certeza de quão sincero é nosso amor e que não há nada de errado com isso, porque ele me faz tão bem, ele me devolveu a vontade de viver.

    Infelizmente, nem todos tem a sorte que tive. Eu tenho um amigo da igreja que é gay e tem problemas psicológicos, depressão, precisa tomar remédios e tudo mais.

    Hoje não me sinto mais culpado por ser gay, o que me entristece é que eu amo o evangelho e tudo que vivi e aprendi com ele foi sincero, mas sempre senti (e esse sentimento vem crescendo cada vez mais, ainda mais com os recentes pronunciamentos da Primeira Presidência) que por ser gay não há espaço para mim na igreja.

    Então, esse é o resumo (ou não) da minha vida, eu sei o quanto é difícil para os membros aceitarem a homoafetividade, não tenho raiva e nem os julgo por isso (e nem os cobro isso), apenas tenho a esperança que vocês coloquem em prática a compaixão ensinada pelo Salvador.

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