Profetas Mórmons: Pauline Hancock

Profetas vivos são a parte mais idiossincrática da história, da teologia e da tradição mórmons. Tanto que o primeiro hinário mórmon, de 1835, continha uma estrófe celebrando a natureza ímpar desse quesito fundamental:

“Uma igreja sem um Profeta,
Não é a igreja para mim,
Ela não tem um cabeça para liderá-la,
Não pertenceria a uma assim.”

O conceito de profetas vivos permanece firme e forte, com mórmons cantando hoje “Graças damos, ó Deus, por um profeta; Que nos guia no tempo atual”. A celebração, e reverência, de profetas passados é quase tão forte quanto o culto aos profetas vivos atuais, inspirando publicações de biografias autorizadas e livros didáticos para mantê-los vivos na memória coletiva.

profetisa mórmon

Hulda, de Elspeth Young.

Não obstante, seja por divergência de tradições, seja por falta de interesse ideológico ou eclesiástico, ou por apatia literária ou historiográfica, muitos profetas da história e tradição mórmons são ignorados ou esquecidos. Esta série de artigos servirá para explorar as biografias e os legados desses líderes mórmons com sucintas introduções a seus chamados proféticos.

O artigo de hoje discutirá Pauline Hancock.

Pauline Bailey nasceu em 1903, quando a Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias era presidida por Joseph Smith III.  Seu pai era um missionário da Reorganização buscando conversos entre os “brighamitas” de Utah. Após seu casamento com o também membro RSUD Silas Hancock, Pauline mudou-se para Independence, Missouri, aos 20 anos. No solo da futura cidade de Sião, na década de 1920, Pauline e seu marido encontraram sua igreja em fortes disputas internas.

Pauline Hancock, 1959.

Pauline Hancock, 1959.

Sob a presidência de Frederick M. Smith, filho e sucessor de Joseph Smith III, a Igreja RSUD encontrava-se em um processo vertical de modernização. Doutor em Psicologia e pioneiro dentre mórmons no uso religioso do rádio, o profeta admirava os ideias do movimento protestante conhecido como Evangelho Social e buscava adicionar à igreja seus princípios de bem-estar social e econômico.

Além disso, e de forma mais marcante, desde 1919, a ideia e a prática de Smith de uma primazia da Primeira Presidência – e, em particular, do Presidente da Igreja – sobre o Quórum dos Doze e o Bispado Presidente gerou um conflito entre as autoridades gerais RSUD. Em abril de1925, Smith obteve a aprovação do “Controle Diretivo Supremo” para o ofício de Presidente da Igreja. Em resposta a tais debates, a Igreja de Cristo (Lote do Templo) decidiu abolir o ofício de “élder presidente” em outubro do mesmo ano, submetendo a igreja à liderança coletiva dos apóstolos, além de rejeitar o uso de Doutrina e Convênios. Na sua conferência de abril do ano seguinte, seis dos sete apóstolos selecionados eram ex-membros RSUD.

Enquanto muitos membros descontentes dexaram a Igreja Reorganizada e juntaram-se aos vizinhos “hendrickitas“, Pauline e Silas Hancock tomaram parte em uma organização independente, o “Grupo de Protesto”, liderado pelo apóstolo RSUD T.  W.  Williams. Nele, Pauline teve partipação ativa, servindo como secretária da organização. Com a morte de Williams e subsequente fim do grupo, os Hancock também acabaram por transferir sua filiação  para a Igreja de Cristo (Lote do Templo).

Os anos de Pauline Hancock na igreja do Lote do Templo foram igualmente de grande atividade.  Após o entusiasmo e as controvérsias geradas pelas revelações do apóstolo Otto Fetting, que relatou ser visitado por João Batista, outro apóstolo pregaria uma doutrina essencial para o pensamento de Pauline. Durante sua missão na Inglaterra, Samuel Wood converteu-se à crença de que Pai, Filho e Espírito Santo eram apenas três aspectos do mesmo Deus, e não seres distintos. Pauline não só abraçou o conceito como financiou a publicação do apóstolo intitulada The Infinite God (O Deus Infinito).

Em 1935, o apóstolo Wood foi chamado a um tribunal da igreja e desassociado por seus ensinamentos sobre a deidade. No mesmo dia Pauline e seu marido deixaram a igreja.

A partir de 1946, Pauline Hancock passou a ter diversas experiências místicas. Sua habiilidades de ensinar acerca das escrituras também atraiu muitas famílias, que começaram a se reunir em sua residência em Independence para estudo e oração nas noites de sexta. Logo, iniciaram-se reuniões dominicais. Pauline organizou e liderou sua própria denominação, a Igreja de Cristo (Ensinamento da Bíblia e do Livro de Mórmon).

Fora das estruturas eclesiásticas de suas duas igrejas anteriores e sem reivindicar uma linha de autoridade do sacerdócio, Pauline explicava que sua autoridade vinha da doutrina correta que ensinava e por ter sido chamada diretamente por Deus para ministrar. Escrevendo em 1956 o artigo Deus Chama Mulheres Para Pregar e Ministrar?, para o jornal da cidade, ela afirmou:

Deus falou comigo então e disse “Agora vá e ensine todas as pessoas o que Eu tenho te mostrado”. Respondi a Ele que eu não poderia fazer isso e Ele disse “Eu estarei contigo”. Eu disse “Sou uma mulher e eles não me receberão”. Ele disse “Eu não era uma mulher e eles não me receberam – vá e Eu estarei contigo.”

Quando o grupo desejou, pela primeira vez, realizar batismos, após dúvidas sobre quem os deveria realizar, Pauline afirmou ter recebido uma revelação em dezembro de 1949 em que Deus ordenava que ela realizasse a ordenança. Os primeiros batismos foram administrados por Pauline em janeiro do ano seguinte.

A nova profetisa enfatizou a natureza decaída do ser humano. Relatando uma de suas visões, escreveu:

PELA PRIMEIRA VEZ na minha vida EU VI O SANGUE DO CORDEIRO DO CALVÁRIO. Eu soube de repente de MINHA NATUREZA VIL E PECAMINOSA , minha condição perdida.  Soube a que não havia nada de bom em mim, EXCETO O QUE DEUS TINHA POSTO.

Classificando como falsas as doutrina mórmons de selamentos, dos três graus de glória e do batismo pelos mortos, Pauline Hancock pregava que os únicos destinos após a morte eram o céu ou o inferno. Acreditando que a salvação era obtida através da fé e da graça, Pauline gradualmente passou a pregar que a filiação eclesiástica e mesmo ordenanças como o batismo eram desnecessárias. Todas as crenças e práticas religiosas, afirmava Pauline, deveriam estar baseadas unicamente na Bíblia cristã e no Livro de Mórmon. Ainda que rejeitasse as ações posteriores de Joseph Smith, Pauline cria fervorasamente na origem histórica e divina do Livro de Mórmon.

Pauline Hancock morreu em outubro de 1962, devido a um câncer. Sua pequena igreja passou a ser administrada por dois membros, Eugene e Olive Wilcox. Naquele mesmo ano, seus dois membros em Utah, o casal Sandra e Jerald Tanner, passaram a acreditar que o Livro de Mórmon era uma fraude. Muitos outros membros da igreja teriam também dúvidas sobre a legitimidade da tradução da escritura nefita a partir de 1971, com a publicação de registros legais envolvendo o jovem Joseph Smith.

Votando pelo abandono do Livro de Mórmon como escritura, em 1973, a congregação mudou seu nome para Igreja de Cristo (Ensinamentos da Bíblia). Posteriormente, ainda, para Igreja de Cristo (Não Denominacional). Por fim, os membros da primeira igreja da tradição mórmon fundada por uma profetisa, votaram pelo fim da organização e venda da prédio, em 1984.

 

 

Referências

Addams, R. Jean, “The Church of Christ (Temple Lot) and the Reorganized Church of Jesus Christ of Latter Day Saints: 130 Years of Crossroads and Controversies,” The Journal of Mormon History, Vol. 36, No. 2, 54-127.

Smith, Jason R. “Pauline Hancock and Her ‘Basement Church‘”.  The John Whitmer Historical Association Journal. Vol. 26, pp. 185-193

——————, “Scattering of the Hedrickites”. IN Bringhurst, Newell e Hamer, John (eds.), Scattering Of The Saints: Schism Within Mormonism, John Whitmer Books, 2007.

 

4 comentários sobre “Profetas Mórmons: Pauline Hancock

  1. E disse-lhes: Homens israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens,
    Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada.
    Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos.
    E agora digo-vos: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará,
    Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus.
    Atos 5:35-39

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