Profetas Mórmons: Granville Hedrick

Profetas vivos são a parte mais idiossincrática da história, da teologia e da tradição mórmons. Tanto que o primeiro hinário mórmon, de 1835, continha uma estrófe celebrando a natureza ímpar desse quesito fundamental:

“Uma igreja sem um Profeta,
Não é a igreja para mim,
Ela não tem um cabeça para liderá-la,
Não pertenceria a uma assim.”¹

O conceito de profetas vivos permanece firme e forte, com mórmons cantando hoje “Graças damos, ó Deus, por um profeta; Que nos guia no tempo atual”. A celebração, e reverência, de profetas passados é quase tão forte quanto o culto aos profetas vivos atuais, inspirando publicações de biografias autorizadas e livros didáticos para mantê-los vivos na memória coletiva.

Detalhe de O Profeta Isaías, por Michelangelo (Mural na Capela Cistina)

Detalhe de O Profeta Isaías por Michelangelo (afresco no teto da Capela Sistina)

Não obstante, seja por divergência de tradições, seja por falta de interesse ideológico ou eclesiástico, ou por apatia literária ou historiográfica, muitos profetas da história e tradição mórmons são ignorados ou esquecidos. Esta série de artigos servirá para explorar as biografias e os legados desses líderes mórmons com sucintas introduções a seus chamados proféticos.

O artigo de hoje discutirá: Granville Hedrick.

Granville Hedrick nasceu em setembro de 1814 e foi convertido ao mormonismo por missionários de passagem pela região central de Illinois em 1843, sendo prontamente ordenado élder e assumindo a liderança de um ramo em Crow Creek.

A região central de Illinois já gozava de vários ramos da Igreja desde a passagem de Lyman Wight (que seria chamado por Joseph Smith para o Quórum dos Doze em 1841) e John Corrill pela região em 1831, vindo de Kirtland a caminho de Sião, no condado de Jackson, em Missouri. Charles C. Rich (que seria chamado por Brigham Young para o Quórum dos Doze em 1849), morando próximo a Peoria, converteu-se com a pregação de Wight, e foi subsequentemente batizado por George M. Hinkle em 1832 a caminho de Missouri e ordenado élder por Zebedee Coltrin alguns meses depois, este vindo de Missouri a caminho de Kirtland.

Rich passou a visitar vários conversos na região em ramos em Pleasant Grove, Crow Creek, Half Moon Prairie, Vermillion, Eagle Creek, e Bloomington, e angariar ainda mais conversos através de seu proselitismo ativo. Entre eles, Rich converteu David Judy, Jedediah Owen, e Solomon Wixom nesse período. Em 1836, quando mórmons expulsos do condado de Jackson conseguiram um condado em Missouri criado exclusivamente para eles (i.e., Caldwell, onde Joseph Smith logo descobriria o local original para o Jardim de Éden), Rich, Judy, Owen, e Wixom migraram para lá, onde compraram terras próximas uns dos outros.

Durante a guerra mórmon de Missouri de 1838, Judy e Owen foram capturados pela milícia estadual (enquanto Hinkle, quem havia batizado Rich, conseguiu negociar uma trégua pacífica com os missourianos, pelo qual ele foi eventualmente excomungado²) e assim que foram liberados, retornaram para a região central de Illinois de onde vieram.

Quando Hedrick foi batizado próximo a Crow Creek, rapidamente destacou-se por suas habilidades de liderança e pelo seu companheirismo ativo visitando os vários ramos da região e criando fortes laços de coleguismo entre si.

Após o assassinato de Smith, Hedrick seguiu a liderança de Brigham Young, como muitos membros nos ramos da região, e chegou a considerar mudar-se para Nauvoo, Illinois, onde muitos mórmons estavam coligando, porém decidiu permanecer na região central de Illinois por motivos de segurança.

Quando Young liderou um êxodo de mórmons para as montanhas rochosas em 1847, a maioria dos mórmons na parte central de Illinois permaneceu para trás, considerando que mantinham bons relacionamentos com seus vizinhos não mórmons. Com a ausência da Igreja por perto, ou mesmo de contato direto com a direção dos Doze Apóstolos, Hedrick assumiu a liderança informal de todos esses ramos.

Hedrick continuou assistindo os ramos e ajudando-os, viajando entre eles e oferecendo apoio moral e espiritual. Quando emissários de Young anunciaram publicamente a adoção da poligamia como prática oficial de casamento, Hedrick organizou uma conferência entre os ramos de Illinois, e estes optaram por repudiar a prática e por se desvincular da Igreja de Young e incorporar a si mesmos como A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, independente da liderança de Young.

Hedrick continuou realizando conferências formais entre os ramos, e em junho de 1857 o Apóstolo John E. Page compareceu a uma delas. Chamado ao apostolado por Joseph Smith em 1839, Page se opusera aos esforços de Young para reorganizar a Primeira Presidência, assim como  Lyman Wight, Parley Pratt, John Taylor, George Smith, Wilford Woodruff, e Orson Pratt. Page, contudo, demonstrou-se muito mais tenaz e inflexível em sua oposição, chegando a romper com Young para apoiar James Strang. Quando Page percebeu que Strang estava enveredando-se no mesmo caminho de Young (i.e., poligamia, reino teocrático, etc.), abandonou a Igreja strangita na ilha de Beaver. Migrando entre vários grupos de mórmons independentes, encontrou a conferência de ramos em Illinois.

Após seis anos no centro de Illinois, durante uma dessas conferências dos ramos, em maio de 1863, Page ordenou Hedrick, Judy, Owen, e ainda Adna Haldeman ao ofício de Apóstolo e nomeou Hedrick como “presidente do sumo sacerdócio” e “profeta, vidente, revelador, e tradutor” da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como Joseph Smith havia sido em 1830. Aceito pela conferência congregada com voto de apoio unânime, os demais Apóstolos unidos o ordenaram como o novo Profeta Mórmon.

Não tardou um mês para que Hedrick começasse a receber revelações para a Igreja. A sua primeira revelação, inicialmente inócua para os mórmons da região por expressar o que muitos já haviam pregado em conferências, seria a que teria maior impacto para esse grupo. Nela, Hedrick determinou que Smith teria introduzido ideias equivocadas ou errôneas em suas revelações posteriores motivadas por interesses humanos como orgulho, vanidade, ganância, ou luxúria.

Consequentemente, e aos poucos, Hedrick começou a valorizar menos e menos as revelações de Smith, especialmente as que introduziram poligamia, casamento celestial, pluralidade de deuses, investiduras e batismos vicários, dízimo obrigatório (em 10%), e até as inovações organizacionais de Smith como o ofício de Sumo Sacerdote, Presidente da Igreja, e Primeira Presidência. Apesar de ter sido ele mesmo ordenado e designado para os 3 últimos ofícios, eventualmente Hedrick abriria mão destes para uma ordem mais compatível com o Livro de Mórmon e a Bíblia de uma liderança carismática, coletiva e equânime entre os 12 Apóstolos.

E, mais do que todas as outras afirmações de crenças, esse último ponto estabelecido por Hedrick mais se fixou entre esses mórmons. Para ele, as obras padrão que formavam o cânone religioso eram o Livro de Mórmon e a Bíblia. Hedrick completamente repudiava Doutrina e Convênios por causa das muitas alterações posteriores introduzidas às revelações de Smith [ver, por exemplo, aqui e aqui], e aceitava apenas o Livro de Mandamentos (publicado em 1833, antes das posteriores revisões) e ainda assim desde que em harmonia com as obras padrão.

Lote comprado por mórmons em 1831 sob a direção de Joseph Smith para a construção do Templo de Sião, no centro da Nova Jerusalém. À esquerda da foto, vê-se a sede da Igreja de Cristo, dona legal do “lote do templo”. À direita, vê-se o Templo de Independence, da Comunidade de Cristo.

A segunda revelação de Hedrick, em abril de 1864, determinava que os mórmons deveriam retornar para o condado de Jackson, de onde haviam sido expulsos, e onde deveriam preparar o caminho para a Segunda Vinda de Cristo ao construir a Nova Jerusalém e o Templo de Sião na cidade de Independence, Missouri, de acordo com as profecias de Joseph Smith.

Consequentemente, o irmão de Hedrick, John A. Hedrick, comprou uma fazenda nos arredores de Independence e mudou-se para lá com sua família em 1865, sendo os primeiros mórmons a voltarem para o condado de Jackson desde quando foram expulsos de lá em 1833. Nos próximos dois anos, dezenas de famílias seguiram, e estabeleceram uma colônia mórmon que não apenas se entrosava bem com a comunidade autóctone³, mas comandava respeito suficiente para conseguir paulatinamente comprar de volta lotes de terra que formavam o terreno onde Smith havia profetizado que se erguiria o templo mais importante da Terra (ainda naquela geração, inclusive). Até 1877, haviam comprado praticamente todo o terreno para o templo em si (excavações nos anos de 1930 – quando a Grande Depressão interrompeu a proposta de finalmente construir o templo de Sião – encontraram as pedras angulares dedicadas por Joseph Smith e Sidney Rigdon em 1831).

Hedrick recebeu outra revelação, antes de se mudar pessoalmente para Sião em 1868, ordenando a alteração do nome da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias para Igreja de Cristo, o nome original quando Smith fundou-a em 6 de abril de 1830. Ela hoje goza de aproximadamente 10 mil membros espalhados em vários países, continua sendo dirigida coletivamente pelo Quórum dos Doze Apóstolos e norteada exclusivamente pelo Livro de Mórmon e a Bíblia, como Hedrick havia determinado lá nos anos 1860. Conhecida popularmente com o apelido adicionado a seu nome entre parênteses [i.e., Igreja de Cristo (Lote do Templo)] apenas para reconhecimento imediato, sua sede fica justamente no lote do templo dedicado por Smith para a sede do império cristão a ser inaugurado com a Segundo Vinda.

Hedrick faleceu em 1881 aos 67 anos de idade e foi enterrado em Independence, Missouri, em cemitério que leva o seu nome e situa-se a 5 km de onde se sentará Jesus Cristo em Seu trono terrestre para reinar na Terra durante o Milênio.


Notas
[1] Hinário SUD (1835); Hino removido a pedido de Brigham Young em 1844, citado em Quest for Empire: The Political Kingdom of God and the Council of Fifty in Mormon History por Klaus J. Hansen.
[2] George M. Hinkle negociou uma trégua na qual Smith, Rigdon, Wight, e alguns líderes que lideraram as pilhagens mórmons contra os missourianos civis nos condados de Caldwell e Daviess, se entregariam à justiça e as milícias debandariam e não atacariam as fortificações mórmons. Desesperados para salvar suas vidas, Smith et al. (que já estavam planejando uma fuga por trás das linhas, muitos como o Apóstolo Parley Pratt já tendo fugido, deixando o restante do povo mórmon para trás) aceitaram os termos da rendição. Contudo, após meses na cadeia de Liberty aguardando julgamento por traição e insurreição, Smith mudou a história, negou que houvera aceitado tais termos (a despeito de várias testemunhas, incluindo Ridgon e Wight e o general da milícia Lucas), e passou a acusar Hinkle de te-los traído e mentido para eles sobre os termos de rendição. Consequentemente, Smith ordenou que Hinkle fora excomungado sem chances de se defender. Apologistas SUD tentam defender a versão posterior de Smith usando o fato que Hinkle facilitou a evacuação (inclusive ajudando alguns líderes da milícia a roubarem pertences de Smith como souvenir ou troféus de guerra), convenientemente ignorando que Hinkle realmente acreditava que Smith et al. haviam quebrado leis, cometido insurreição, e iniciado a guerra civil que quase culminou no extermínio dos mórmons, e que repetidamente justificou seus atos como dever de cidadão e para proteger os mórmons inocentes.
[3] A Igreja de Cristo, exibindo honestidade e transparência incomum nas publicações da Igreja SUD de Brigham Young e sucessores, abertamente admite que os conflitos em Missouri ocorreram em grande parte por culpa dos próprios mórmons que ameaçavam os missourianos politica e economicamente com sua imigração em massa e desordenada, criando bolhas imobiliárias, votando em bloco, vangloriando-se de que iriam roubar as terras dos residentes locais, e cedendo controle político local a líderes religiosos, além de uma genuína e honesta desconfiança dos missourianos devido ao crescente conflito sobre escravidão negra que culminaria em guerra civil em apenas algumas décadas.

Referências

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