Comunistas pensam como Cristãos?

O Papa Francisco afirmou que “os comunistas [são] os que pensam como os cristãos”, em entrevista ao jornal italiano La Repubblica publicada anteontem.

O jornalista Eugenio Scalfari colocou essa pergunta direta ao Papa católico:

“Então você anseia por uma sociedade onde a igualdade domina. Isso, como você sabe, é a ideologia do socialismo marxista e também do comunismo. Você está, então, pensando em um tipo de sociedade marxista?”

Ao que respondeu o pontífice argentino Jorge Bergoglio:

“Já foi dito muitas vezes, e eu sempre respondi que, considerando tudo, são os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos tenham o direito para decidir. Não os demagogos, não Barrabás, mas o povo, os pobres,tenham eles fé em um Deus trascendental ou não. São eles quem devem ajudar a obter a igualdade e a liberdade.”

Com seu vasto império voltado para fins lucrativos e empresas multibilionárias, é difícil imaginar, hoje em dia, um Profeta da Igreja SUD fazendo uma afirmação pública semelhante. Não obstante, as raízes históricas do mormonismo incluíram conceitos ideológicos facilmente comparáveis ao comunismo. Por exemplo, a Ordem Unida estabelecida por Joseph Smith, e tentativamente re-implementada por Brigham Young, foi vista como uma forma de comunismo por, além de historiadores e economistas, vários líderes da própria Igreja.

O Presidente Brigham Young, jr., filho do Presidente Brigham Young, e então Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos, fez os seguintes comentários sobre a comparação entre a Ordem Unida e o comunismo, além do estado do corporativismo na Igreja Mórmon (ênfases nossas):

Brigham Young Jr.

Brigham Young Jr. Apóstolo (1864-1903), membro do Quórum dos Doze (1868-1873, 1877-1903), Conselheiro na Primeira Presidência (1873-1877), Presidente do Quórum dos Doze (1901-1903)

“O [Apóstolo] J[ohn] H[enry] Smith disse que as nossas últimas O[rdens] U[nidas] pareciam demais com Comunismo [e que] achava que o atual sistema de Corporações uniria os povos melhor, talvez. Eu não concordo com ele, mas não disse nada. Há dedicação demais de tempo para Corporações, ações de bolsa, títulos de investimento, políticas, etc., por nossos líderes para o meu gosto. Nós estamos metidos em todos os tipos de interesses comerciais e negócios  [—] até os membros dos Doze representam corporações invejosas umas das outras e quase prontos para brigar entre si.” — Brigham Young, jr. (Diário de Brigham Young, jr., 30 maio 1890)

Ademais, no Manual do Sacerdócio, publicado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1939, encontra-se uma interessante crítica ao capitalismo e enfática apologia ao chamado “Estado de bem-estar social” (ênfases nossas):

“Uma vez que todos os sistemas capitalistas baseiam-se na instituição da propriedade privada, herança e a motivação do lucro, resultam inevitavelmente em grandes desigualdades de propriedade e renda. (…) Entre as sugestões mais plausíveis oferecidas para corrigir abusos existentes sem afetar adversamente o sistema produtivo, está continuar a socialização das nossas Instituições de serviços através de um sistema de tributação progressiva com base na capacidade de pagamento … tendo a maior parte de seus lucros [i.e., dos capitães da indústria] para financiar a educação gratuita, bibliotecas abertas, parques públicos gratuitos e centros de recreação, seguro-desemprego, aposentadorias, seguros para doenças e acidentes, e talvez eventualmente até serviço de assistência médica e hospitalar gratuitos. (…) A família média pode não ter muito mais dinheiro, se tiver, para gastar sob tal sistema do que têm agora. Porém … a renda familiar então miserável pode ser inteiramente dedicada às necessidades da vida, além de alguns dos confortos agora apreciados pelas classes de renda mais alta. (…) Para financiar tudo isso, é claro, exigir-se-á enormes somas de dinheiro. (…) E isso exigirá um sistema fiscal cuidadosamente elaborado para o qual cada um contribuirá de acordo com sua capacidade financeira. Impostos sobre heranças e impostos imobiliários se tornarão progressivamente mais elevados, até que o atual sistema de herança de grandes fortunas passadas de geração em geração será extinto. E, aliás, os chamados ricos ociosos que vivem dos ganhos das gerações passadas não existirão mais.”

(‘Sacerdócio e Bem-estar na Igreja: Guia de Estudo para os Quóruns do Sacerdócio de Melquisedeque para o ano de 1939’ pelo Conselho dos Doze Apóstolos, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Deseret Book Company, 1938.)

Nenhum cristão de hoje pode se esquecer da descrição comunista da comunidade cristã original encontrada no Novo Testamento (ênfases nossas):

Todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e Deus derramava muitas bênçãos sobre todos. Não havia entre eles nenhum necessitado, pois todos os que tinham terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o entregavam aos apóstolos. E cada pessoa recebia uma parte, de acordo com a sua necessidade.” (Atos 4:32-35)

Notoriamente, essa descrição aspiracional de como os primeiros cristãos seriam, ou de como todos cristãos deveriam ser, é muito semelhante à máxima elaborada por Karl Marx do que deveria ser a “fase superior da sociedade comunista”:

“De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”

É possível que o Papa esteja correto e que a ideologia comunista é a versão secular que mais se aproxima aos ensinamentos espirituais de Cristo? É possível que os primeiros cristãos, e os primeiros mórmons, tentaram ou almejaram tentar construir uma sociedade religiosa semelhante aos ideais que hoje rotulamos como comunistas? É possível que a liderança mórmon retorne às suas raízes de outrora e volte a criticar o capitalismo e a abraçar uma forma de socialismo, como líderes do passado fizeram, e como o pontífice católico parece estar fazendo?


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6 comentários sobre “Comunistas pensam como Cristãos?

  1. Eu aprendi na igreja, de forma indireta, nos corredores e ouvindo a conversa dos meus pais, que o comunismo é uma organização satânica, o principal ramo da grande e abominável igreja, os ladrões de Gadianton dos dias atuais. O livro Doutrina Mórmon trás uma visão parecida com essa.

  2. Um Estado Mundial Cosmoético que elimine as fronteiras virtuais geográficas, estabeleça intercâmbio amplo, minimize barreiras alfandegárias, econômicas, monetárias, políticas e burocráticas, e obstáculos à liberdade de ir e vir do cidadão do mundo deve ser a meta.

    Do ponto de vista econômico, atualmente, o Estado de Bem Estar Social dos países escandinavos é o que temos mais próximo do governo ideal.

    • “Politicamente falando, não há mais do que um princípio – a soberania do homem sobre si mesmo. Essa soberania de mim e sobre mim chama-se Liberdade. Onde duas ou mais destas soberanias se associam principia o Estado. Nesta associação, porém, não se dá abdicação de qualidade nenhuma. Cada soberania concede certa quantidade de si mesma para formar o direito comum, quantidade que não é maior para uns do que para os outros. Esta identidade de concessão que cada um faz a todos chama-se Igualdade. O direito comum não é mais do que a protecção de todos dividida pelo direito de cada um. Esta protecção de todos sobre cada um chama-se Fraternidade. O ponto de intersecção de todas estas soberanias que se agregam chama-se Sociedade.”

      Victor Hugo, in ‘Os Miseráveis’

  3. Cheguei a ouvir de um bispo meu que o Comunismo e as variações que o valham seriam “desencorajadas” pela igreja. Vocês conhecem algum manual ou citação de alguma liderança que leve a essa conclusão? Achei o comentário duvidoso, mas na época eu não quis questionar (bem como muitas outras coisas que já me passaram batido outras vezes).

    • Tem alguns discursos de presidentes da Igreja que condenavam o comunismo. Muito embora fossem os mesmos líderes que pregavam supremacia racial branca, contra os direitos das mulheres e contra os direitos civis e igualdade entre negros e brancos…. Só por aí vc já tem uma base como era a mente doente desses líderes do passado.

  4. Penso que socialismo nunca existiu o que existiu foi partidos comunistas corruptos, dirigentes comendo e vivendo do bom e do melhor e o povo comendo ração sendo perseguido se criticasse o regime.O Comunismo e uma doença ! Tira o livre arbítrio do homem e seu diferencial de desenvolvimento e mérito.O capitalismo é injusto e exploratório.Mas devemos lutar para nossa liberdade seja sempre mantida e tenhamos acesso a todas as coisas boas que a humanidade produz e inventa.As pessoas que colaboram e trabalham mais devem ser premiadas e desfrutar sua glória.Penso que os valores e princípios devem estar acima de qualquer ideologia de um fulano ou ciclano.O verdadeiro socialismo não deve ser imposto mas sim trabalhado e fomentado de modo constante e persistente pelas instituições.empresas e governos.

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