Mórmons que se candidataram à presidência dos EUA

Mitt Romney não é o primeiro mórmon a almejar a  presidência dos Estado Unidos. Antes dele, outros oito mórmons tentaram a corrida presidencial, sem contar outros dois que à época de sua candidatura não eram membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Começando com Joseph Smith, que concorreu sem filiação partidária, os candidatos listado a seguir refletem a ampla diversidade de posições politicas ao longo da história mórmon.

1844 Joseph Smith Jr. (sem partido) – depois de buscar sem sucesso proteção política entre presidenciáveis democratas e republicanos, Joseph Smith veio a ser o primeiro líder religioso a concorrer à presidência de seu país. Baseada em sua visão de uma teodemocracia, sua plataforma política incluía a abolição da escravatura a transformação das prisões em centros educacionais para os detentos e a anexação da então República dos Texas aos EUA. Seu candidato a vice-presidente era o também mórmon Sidney Rigdon. Ao mesmo tempo que fazia sua campanha eleitoral, o Conselho dos 50 buscava alternativas para a migração em massa dos santos dos últimos dias, para fora dos EUA, alternativa que veio a ser a única concretizada após o término abrupto de sua campanha em 1844, quando Joseph Smith se tornou o primeiro candidato à presidência dos EUA a ser assassinado.

1920 Parley P. Christiansen (extinto Partido Trabalhista-Agrário) – filho de imigrantes dinamarqueses que se fixaram em Idaho, Christiansen exerceu a advocacia em Salt Lake. No período da I Guerra Mundial, defendeu militantes presos por sua oposição ao envolvimento americano no conflito. Após passar pelos partidos Republicano e Progressista, Christiansen passou a atuar junto aos diversos grupos de esquerda em Utah que levariam à formação do novo partido trabalhista e pelo qual concorreu à presidência. A eleição de 1920 foi a primeira em que mulheres tiveram o direito ao voto nos 48 estados americanos. A candidatura de Christiansen recebeu em todo país 265.411 votos (quase 1% do total de votos). Em Utah, o percentual foi de 3,07%. Suas maiores votações foram nos estados de Washington e Dakota do Sul, com mais de 19% em cada um.

1968 George W. Romney (Partido Republicano) – pai do atual candidato Mitt Romney, George Romney é descendente de polígamos que migraram para colônias mórmons no México fugindo da perseguição federal nos EUA. Fazendo o caminho inverso, George Romney nasceu no México e migrou para os EUA aos 5 anos. Tornou-se um empresário bem-sucedido e foi governador do estado do Michigan. Durante sua candidatura à nomeação republicana, sua mudança de posição acerca da Guerra do Vietnã (de favorável a contrário) o tornou impopular no partido e acabou por fortalecer seu concorrente Richard Nixon. Enquanto hoje muitos americanos questionam se na Casa Branca Mitt Romney “receberia ordens” de Salt Lake, George Romney nunca levantou essa suspeita. Defensor dos direitos civis para os negros, George Romney era visto como um republicano liberal e politicamente independente da hierarquia sud.

1968 Ezra Taft Benson (Partido Americano Independente) – como membro do Quórum dos Doze, Benson pregava ardentemente contra o perigo do comunismo e do movimento por direitos civis, chegando a promover a espionagem de alunos e professores da BYU para detectar possíveis liberais e esquerdistas. Benson foi ministro de agricultura do presidente Eisenhower. Em 1968, aceitou a nomeação do direitista Partido Americano Independente para concorrer à presidência dos EUA, tendo como vice Strom Thurmond, um defensor da segregação racial. Devido às repercussões negativas de sua candidatura, o então presidente da Igreja David O. McKay o convenceu a abandonar a corrida presidencial. Mais tarde, como presidente da Igreja sud, Benson já não expressava a antiga retórica radical.

1976 Morris K. “Mo” Udall (Partido Democrata) – Morris Udall vinha de uma família mórmon com reconhecida influência política no estado do Arizona. As políticas raciais defendidas pela Igreja sud à época fizeram com que Udall entrasse em desacordo com a hierarquia de Salt Lake. Udall também foi um crítico ativo da intervenção militar no Vietnã. Nas primárias do Partido Democrata de 1976 teve um ótimo desempenho, porém, ficando atrás de Jimmy Carter, eleito presidente naquele ano.

1992 James G. “Bo” Gritz (Partido Populista) – coronel aposentado das Forças Especiais, Gritz sempre gostou de polêmicas e teorias conspiratórias, como sugere a foto ao lado em que queima a bandeira da ONU. Ele já acusou membros do governo Reagan de facilitar o narcotráfico no Laos, esteve envolvido com milícias, protestou contra a Guerra do Golfo em 1991 e até hoje ministra cursos de técnicas paramilitares. Havia se filiado à Igreja sud em 1982. Concorreu à vice-presidência em 1988 ao lado de um ex-líder da Ku Klux Klan, desistindo logo após. Em 1992, foi candidato à presidência, recebendo 106.152 votos, correspondendo a apenas 0,14% dos votos no país. Mas em Utah e Idaho, os percentuais foram de 3,84% e 2,13% respectivamente. Após sua campanha, pediu a resignação de sua condição de membro, devido a conflitos envolvendo sua rejeição em pagar impostos federais.

2000 Orrin G. Hatch (Republicano) – apesar de ter no início de sua militância política uma inclinação trabalhista, Orrin Hatch juntou-se à ala mais à direita dos republicanos. Como membro do congresso americano, esteve envolvido na formulação de leis anti-terrorismo e na aprovação de ajuda estatal para a sobrevivência de instituições financeiras (no estilo PROER brasileiro). Nas prévias republicanas de 2000 que escolheram George W. Bush, Hatch obteve a menor votação e a menor arrecadação de fundos, atribuindo ao preconceito anti-mórmon parte de seu insucesso.

2012 John Huntsman (Republicano) – neto do apóstolo David B. Haight, o californiano John Huntsman iniciou sua carreira política trabalhando na Casa Branca com o presidente Ronald Reagan. Huntsman também trabalhou com George Bush pai. Entre 2005 e 2009, foi governador de Utah. Nas prévias republicanas de 2008, foi um dos primeiros apoiadores de John McCain, ignorando seu correligionário Mitt Romney. Com posições moderadas e fluência em mandarim, em 2009 Huntsman foi nomeado embaixador na China pelo presidente Obama (democrata). Esse fato esteve presente na troca de farpas entre Huntsman e Romney nesta campanha eleitoral. “A pessoa que deve representar o nosso partido concorrendo contra o presidente Obama não é alguém que o chamou de um líder notável e foi ser seu embaixador na China “, disse Romney. A resposta de Huntsman não deixou por menos: “Eu sou alguém que acredita em colocar o meu país em primeiro lugar. Romney aparentemente acredita na política em primeiro lugar”. Apesar de serem membros do mesmo partido e da mesma igreja, os dois possuem visões-de-mundo muito diferentes. Após a declaração de Romney sobre gostar de despedir pessoas, em janeiro passado, Huntsman chegou a dizer que seu companheiro de partido era “bastante inelegível”. Apesar disso, o ex-embaixador abandonou a disputa eleitoral e declarou seu apoio a Romney.

2012 Edward Noonan (Partido Americano Independente) – comerciante aposentado, Noonan acredita que Mitt Romney não poderia concorrer à presidência, devido à cidadania mexicana de seu pai, e afirma que Barack Obama é um cidadão indonésio.

Um futuro mórmon e uma mórmon que havia sido excomungada

1968 Eldridge Cleaver (Partido Paz e Liberdade) – antes de sua conversão ao mormonismo, Cleaver foi um militante de extrema esquerda. Sua candidatura à presidência teve o apoio dos famosos Panteras Negras. Em meio a todo o conflito do ano de 68, Martin Luther King Jr. havia sido morto, o que apenas acirrou a tensão racial nos EUA. Após sua conversão, Cleaver filiou-se ao Partido Republicano.

1984 Sonia Johnson (Partido dos Cidadãos) – doutora em educação, Sonia Johnson lecionou inglês em universidades dos EUA e exterior. Ativista pelos direitos da mulher, criticou o lobby da Igreja sud para impedir a aprovação da ERA (Equal Rights Amendment – Emenda de Direitos Iguais), uma emenda constitucional propondo que a igualdade de direitos não pudesse ser negada em função do gênero, e formou a organização Mormons for ERA. Tal posicionamento trouxe a sua excomunhão em 1979.  Sonia Johnson declarou dois anos depois que “se [as ordenanças] são necessárias, eu as tenho intactas“. Sua candidatura presidencial teve também o endosso do Partido Socialista dos EUA e do Partido Paz e Liberdade.

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12 comentários sobre “Mórmons que se candidataram à presidência dos EUA

  1. Muito bacana esse assunto.Amei as propostas de Joseph Smith.Creio eu que foram revolucionárias para a época,alguém me corrija se eu estiver errada.

    • Também acredito que eram muito progressivas e algumas até utópicas. Deveríamos fazer um estudo mais detalhado para ver quais propostas eram comuns a outros pensadores e forças políticas. A abolição da escravatura, por ex., era partilhada por muitos. O diferencial na plataforma de Joseph Smith era de que os proprietários de escravos fossem ressarcidos pelo estado para evitar um conflito. Sei que a anexação do Texas não era bem vista pelos principais candidatos democrata e republicano.

    • Pois é, Leonel. Acredito que nem tudo possa ser correlacionado. Por outro lado, a correlação é em si uma tentativa de evitar a diversidade. Caberia questionar se a neutralidade política da Igreja não tem um potencial favorecimento a determinadas posições política e visões d emundo num sentido mais amplo.

      De qualquer forma, essa existência de visões diferentes e mesmo contraditórias é salutar para uma instituição, desde que a tolerância de visões minoritárias não seja apenas uma salvaguarda formal para dizer o quanto somos normais e tolerantes.

  2. Pingback: Mais um mórmon candidato à presidência dos EUA | Vozes Mórmons

  3. Pingback: Mitt Romney Representa Mórmons? | Vozes Mórmons

  4. Há muito tempo a igreja sonha em ter um mormon na casa branca, particulamente. acho pouco provável tendo em vista que a sociedade americana não tem bons olhos aos mormons devido suas práticas religiosas. Agora os mormons são bem visto pelo governo, pois a igreja com sua doutrina nacionalista agrega as forças armadas americana uma grande mão de obra para fazer terror ao redor do mundo.

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