Vinho no sacramento

wine-glassAtualmente, membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias usam água e pão para simbolizar o sangue e o corpo de Cristo em suas cerimônias dominicais. Entende-se hoje que o uso da água em substituição ao vinho está em concordância com os preceitos da chamada Palavra de Sabedoria, a revelação de Doutrina e Convênios 89 sobre o consumo de alimentos e bebidas. A própria seção 89 e os registros históricos nos dizem, no entanto, que o vinho continuou a ser usado durante muito tempo pela Igreja SUD na ordenança do sacramento, como mostram as citações abaixo.

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No início do mês de agosto, Newel Knight e sua esposa nos visitaram em minha residência em Harmony, Pensilvânia; uma vez que nem sua esposa nem a minha haviam sido ainda confirmadas, foi proposto que devêssemos confirmá-las e partilhar juntos do sacramento, antes que ele e sua esposa nos deixassem. Para preparar isto, fui procurar algum vinho para a ocasião, mas havia ido apenas uma curta distância quando fui encontrado por um mensageiro celestial e recebi a seguinte revelação, tendo os quatro primeiros parágrafos sido escritos naquele momento e o restante em setembro seguinte: [seção 27 de D&C] (Joseph Smith, History of the Church 1:106, agosto de 1830)

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Pois eis que vos digo que não importa o que se come ou o que se bebe ao participar do sacramento, se o fizerdes com os olhos fitos na minha glória – lembrando perante o Pai o meu corpo, que foi sacrificado por vós, e o meu sangue, que foi derramado para a remissão de vossos pecados.

Portanto um mandamento vos dou, que não compreis vinho nem bebida forte de vossos inimigos;

Portanto nenhum tomareis a não ser que seja novo, feito por vós, sim, neste reino de meu Pai que será edificado na Terra.

Eis que nisso há sabedoria; portanto não vos maravilheis, porque virá a hora em que, na terra, beberei do fruto da vide convosco (…). (Doutrina e Convênios 27:2-5; agosto de 1830)

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Eis que não é bom nem aceitável aos olhos de vosso Pai que alguém entre vós tome vinho ou bebida forte, exceto quando vos reunis para oferecer vossos sacramentos perante ele.

E eis que deve ser vinho, sim, vinho puro de uva da videira, de vossa própria fabricação.(D&C 89:5-6; 27 de fevereiro de 1833; revelação conhecida como “Palavra de Sabedoria”)

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Às 4, nos reunimos na casa do Dr. Richards com o Presidente Young, H[eber] C. Kimball, W[illard] Richards, J[ohn] Taylor, A[masa] Lyman, G[eorge] A. Smith, O[rson] Pratt, N[ewel K. Whitney, G[eorge] Miller, L. Richards e J. Young. Oferecemos nossa orações sobre uma variedade de assuntos. (…) Foi decidido empregar o irmão [Isaac] Morley para fazer 100 barris de vinho para sacramento. (William Clayton, An intimate chronicle: the journals of William Clayton, p. 171-172; 03 de julho de 1845)

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No Templo o dia inteiro. Todo o primeiro quórum com uma ou duas exceções estava presente, tanto homens quanto mulheres. À 1 hora aproximadamente nos vestimos. (…) A reunião foi aberta com oração por Joseph Fielding. Depois disso, Élderes Taylor, Hyde, Phelps, Pratt e John Smith expressaram cada um seus sentimentos sobre nosso atual privilégio de nos reunirmos no Templo, apesar de toda a oposição combinada de homens e demônios. Durante o discurso, os Bispos tendo provido Pão e Vinho, o pão foi partido pelo Irmão Kimball e então abençoado por ele e passado pelo Bispo Whitney. Joseph Young então abençoou o vinho que foi também passado pelo Irmão Whitney. (William Clayton, idem, p. 193-194; 07 de dezembro de 1845. O templo acima mencionado é o de Nauvoo)

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Mas o Senhor nos disse que não importa o que partilhamos quando administramos o cálice ao povo, desde que o façamos com os olhos fitos na glória de Deus; é então aceitável a ele. Em consequência, usamos água como se fosse vinho; pois somos ordenados a não beber vinho para esse propósito sagrado a não ser que seja feito pelas nossas próprias mãos. (Brigham Young, Journal of Discourses 19:92; 19 de agosto de 1877)

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10 comentários sobre “Vinho no sacramento

  1. Olá amigos do blog, alguns de vocês sabem dizer qual a relação desta veste litúrgica “http://pt.wikipedia.org/wiki/Barrete_(veste_litúrgica)” usada na Igreja Católica com a que conhecemos na Igreja e Jesus Cristo?

    Já pesquisei sobre e não encontrei nada. Se alguém puder ajudar fico agradecido.

  2. Pingback: El, Jeová e Elohim | Vozes Mórmons

  3. Sei que é um post antigo, mas desejei comentar.
    A questão do vinho para mim, está muito clara: somente seria administrado vinho caso fosse fabricado pela Igreja. Caso contrário, admite-se água em substituição. (Embora eu acho que, pela simbologia, seria interessante a confecção de vinho pela Igreja para o sacramento).

  4. Pingback: RESSUSCITA-ME | Vozes Mórmons

  5. Existem mais coisas por trás disto, procure na história direitinho que vocês encontraram o real motivo de os Anjos (mensageiros), terem aparecido para os santos que estavam indo Buscar o vinho para a realização das reuniões! O Senhor é Maravilhoso.

  6. Sobre o Sacramento da Ceia do Senhor (ou Eucaristia, na terminologia católica) não se pode ignorar a estranheza que nos causa Jesus, um judeu, instituir um ritual em que seu corpo e sangue são oferecidos ao consumo dos crentes, ainda que simbolicamente.

    O primeiro relato contido no Novo Testamento sobre a última ceia foi escrito por Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios 11: 23-25, e ele diz ter recebido como uma revelação do próprio Jesus:

    23 Porque EU RECEBI DO SENHOR o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão (…)

    O primeiro evangelista, Marcos, e em seguida os demais que tomaram seu texto por base, repetem a tradição paulina.

    Mas qual é a probabilidade histórica de que esta tradição, com base no que Paulo disse ter “recebido” de Jesus, representa realmente o que Jesus disse e fez naquela última refeição?

    1) Na Kidush a idéia de comer carne humana e beber sangue, mesmo que simbolicamente, é completamente alheia ao judaísmo. A Torá proíbe especificamente o consumo de sangue, não apenas para Israel, mas para toda a humanidade.
    Embora as restrições judaicas digam respeito ao sangue dos animais, consumir carne e sangue humanos não era proibido porque era simplesmente inconcebível. Esta sensibilidade geral para a própria ideia de “beber sangue” se opõe a probabilidade de que Jesus tenha usado tal símbolo.

    2) Não há qualquer evidência de que a comunidade original de Jesus, liderada por seu irmão Tiago, tenha praticado o rito conforme o ensinamento de Paulo. Pelo contrário, a Didaquê, documento do primeiro século descoberto em 1873, ao tratar da Eucaristia não fez nenhuma menção ao pão como sendo carne e ao vinho como sendo sangue.

    3) A ingestão simbólica da “carne” e beber do “sangue” era um rito mágico de união na cultura greco-romana conhecido por “teofagia”, mas não na cultura judaica. No caso do cristianismo (que alguns chamam muito apropriadamente de paulinismo), eles representam o epítome da fé cristã: os crentes são salvos dos pecados pelo corpo e sangue de Jesus.

    5) Na Kidush a benção do vinho vem primeiro que a benção do pão. A “santa ceia” no formato atual que é praticada nas igrejas pode indicar um sincretismo com o paganismo. É feita fora de ordem e desconectada da ceia bíblica de que se origina. A enorme semelhança que existe entre o ritual cristão da santa ceia e os cultos de mistérios pode ser sintetizado nessa frase de Preserved Smith:

    “Mas, de todos os” mistérios “conhecidos por nós, é o de Dioníso que tem a maior semelhança com a de Cristo, o deus do vinho (Dioniso) teve uma morte violenta, e foi trazido de volta à vida”. “Sua paixão”, como os gregos chamavam esse evento, e sua ressurreição foram promulgadas em seus ritos sagrados. (http://archive.org/stream/shorthistoryofc00smit#page/22/mode/2up)

    • “Nunca foi fácil entender o simbolismo do sacrifício no cristianismo. Ele se desenvolveu no contexto da tradição grega, e não da judaica. Na Grécia pagã, constituía um ato sagrado queimar a carne no altar para alimentar os deuses e depois comê-la. Um ato igualmente sagrado, que remonta a milhares de anos, consistia em beber sangue, sangue misturado com vinho ou vinho simbolizando sangue. A palavra grega eucharistia designava tais cerimônias quando estas eram especificamente ações de graças formais. Assim, a palavra utilizada pelos cristãos para denominar seu ato de adoração relacionava-o diretamente aos sacrifícios pagãos.

      Tão logo entraram em contato com o pensamento grego, os ensinamentos de Cristo assumiram um significado inaceitável para os judeus. Em seu simbolismo ou no simbolismo que a Igreja lhe atribuía, o sacrifício de Cristo estava próximo demais dos velhos ritos pagãos. Os devotos de Baco afirmavam que comiam a carne de seu deus e bebiam-lhe o sangue. Os cristãos começaram a fazer a mesma coisa. Eles misturavam a água e o vinho de um modo que lembrava certos rituais. Mais tarde, os padres apresentaram diferentes interpretações místicas: Santo Irineu afirmou que o gesto simbolizava a união das naturezas terrena e celeste de Cristo; São Cipriano explicou que representava a união dos fiéis com Jesus, sendo esta a que prevaleceu.”

      • Por conseguinte, a Ceia Eucarística não pode ter sido instituída pelo Jesus Histórico.
        O renomado teólogo e ex-padre católico John Dominic Crossan, em seu livro O Jesus Histórico, argumenta que a Ceia Eucarística, interpretada literalmente, não é originária de Jesus histórico (cf. CROSSAN, 1994, p. 398-399).
        Mais precisamente, ele mostra que a Ceia Eucarística, como referida num dos livros mais antigos do cristianismo, o chamado Didaqué (ou “Instrução dos Doze Apóstolos”), escrito por volta do final do Século I de nossa era (mas descoberto somente no ano de 1883), nada tem a ver com a “revelação” recebida por Paulo e os relatos posteriores registrados nos evangelhos.

        Vejamos também a opinião de David Flusser (1917-2000):
        Jesus seguia a ordem essênia em suas refeições de festa e, em especial, na última ceia, ou seguia a ordem não-sectária: vinho e pão? Segundo Mateus e Marcos, Jesus primeiro abençoava o cálice e depois o pão, mas a situação em Lucas é diferente. “Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa, antes de meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que de agora em diante não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é meu corpo” (Lc 22:14-19).

        Aí termina o texto de Lucas, de acordo com o famoso Codex Bezae, a antiga tradução latina, e dois antigos manuscritos siríacos. Todos os leitores atentos reconhecerão com facilidade que o que se
        segue em Lucas nos outros testemunhos é tirado de 1 Cor 11:23-26, de modo que temos aqui a estranha situação de que no texto aceito aparecem dois cálices, um no começo e o outro no final. Tanto a Versão Padrão Revista como a Nova Bíblia Inglesa adotaram o ponto de vista correto, de que
        Lc 22:19b-20 não fazia parte do texto original de Lucas . Depois que Jesus disse do pão partido ‘Isto é meu corpo” fazendo alusão a sua iminente morte violenta, ele continuou e tornou-se mais explícito, dizendo: “Todavia a mão do traidor está comigo à mesa” (Lc 22:21). (FLUSSER, 2000, p. 227) (grifo nosso).

        Argumenta Geza Vermes: Há uma terceira ocorrência que, embora considerada pertencente à tradição
        oral pela maioria dos estudiosos, chama a minha atenção por sua peculiaridade. Relaciona-se ao
        relato de Paulo sobre o estabelecimento da refeição eucarística. (…) Ao passar adiante a tradição da igreja e a ele transmitida por agentes anônimos, como a morte, o sepultamento, a ressurreição e as aparições posteriores de Jesus (1Cor 15:3-5), ele prefacia a sua declaração com “Transmiti-vos… aquilo que eu mesmo recebi” (1Cor 15:3). No caso da eucaristia, entretanto, está dito que a sua fonte é Jesus, implicando que lhe fora diretamente revelada. “Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor
        o que vos transmiti” (1Cor 11:23). (…) Consequentemente, a redação de Paulo pode ter sido a
        fonte primária da formulação no Novo Testamento do estabelecimento da eucaristia . Em outras palavras, há grande chance de que a interpretação eucarística da refeição comunal da igreja seja devida a Paulo, e que os editores de Marcos, Mateus e especialmente de Lucas, que segue Paulo mais de perto, a tenham introduzido nas suas respectivas narrativas nos Evangelhos Sinópticos.
        (VERMES, 2006b, p. 86-87)
        .

  7. “A questão do vinho para mim, está muito clara: somente seria administrado vinho caso fosse fabricado pela Igreja. Caso contrário, admite-se água em substituição.”

    A substituição do vinho por água na Eucaristia é uma prática gnóstica.

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