Mulheres sud não são mais vistas administrando bênçãos de conforto e saúde por imposição de mãos. A prática incentivada por Joseph Smith e levada para as Montanhas Rochosas pelas mulheres mórmons, foi defendida e promovida pela Sociedade de Socorro no final do século XIX, sobrevivendo com respaldo oficial a primeira metade do século XX.
Para Joseph Smith, mulheres poderiam impor as mãos sobre qualquer doente, homem ou mulher. Para aqueles que criticaram a prática, afirmou que havia tanto pecado na imposição de mãos por mulheres quanto em umedecer o rosto de um doente. Presidida por Emma Smith, a Sociedade de Socorro estabelecida em 1842, em Nauvoo, abraçou com devoção a prática.
No ano seguinte, a introdução de mulheres no Quórum dos Ungidos coroou o trabalho iniciado com a Sociedade de Socorro, apresentando às mulheres os “privilégios, bênçãos e dons” do sacerdócio e constituindo definitivamente o casamento celestial plural como um dos fundamentos da exaltação de homens e mulheres.
Esposa plural de Joseph Smith, Eliza R. Snow entendia que a investidura dava à mulher não apenas o direito mas o dever de administrar bênçãos de cura, incluindo a unção de doentes, afirmando como Presidente da Sociedade de Socorro de que tais práticas eram ordenanças, o que fortemente relacionaria as mesmas ao sacerdócio recebido na investidura.
O apóstolo Orson Pratt, em 1873, comentando sobre o dom de cura descrito no capítulo 16 do evangelho de Marcos, afirmou a propriedade de homens (ordenados ao sacerdócio ou não) e mulheres abençoarem seus próprios filhos:
“E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”.
Parece que os dons aqui nomeados são dons gerais, pretendidos mais ou menos para toda a Igreja, não apenas para aqueles no Sacerdócio, mas para aqueles fora do Sacerdócio, para homens e mulheres. Por exemplo, crianças muitas vezes adoecem e é privilégio dos seus pais, quer tenham o Sacerdócio ou não, em virtude desta promessa, impôr as mãos sobre seus filhos doentes e pedir em nome de Jesus para curá-los. Suponhamos que o pai, o cabeça da família, está ausente. A mãe tem o direito de impôr suas mãos sobre sua criança doente? Dizemos que, em virtude desta promessa que o Senhor fez, ela pode impôr as mãos sobre seu filho ou filhos e pedir a Deus para curá-lo ou curá-los. (Journal of Discourses, 16:288-289)
Apesar de questionada e enfraquecida ao longo das primeiras décadas do séc. XX, a prática feminina da imposição de mãos ainda encontrava defensores na década de 1950, como o apóstolo Joseph Fielding Smith que em suas obras Doutrinas de Salvação e Answers to Gospel Questions expressava opinião similar à de Pratt de que a mulher poderia abençoar seus filhos em função da fé.
Alguns ramos do mormonismo, surgidos após a crise de sucessão ou desenvolvidos no “brighamismo” do oeste, preservaram a prática até hoje. Mulheres ainda abençoam doentes e aflitos em alguns grupos mórmons fundamentalistas, como por exemplo a Igreja do Primogênito. Na Comunidade de Cristo (antiga Igreja Reorganizada) também mulheres participam de bênçãos por imposição de mãos (embora não saiba dizer se devido ou não ao sacerdócio).
Embora nunca tenham sido proibidas de assim proceder na Igreja Sud, mulheres acabaram eventualmente por depender de forma exclusiva de homens ordenados ao sacerdócio para bênçãos por imposição de mãos. Como uma cor que desbota gradualmente, a prática desapareceu sem grande alarde.
Poderia a bênção por mulheres ser revivida hoje, dada a ausência de quaisquer proibições? Seria esse um legado a ser reivindicado por membros da moderna Igreja Sud?
A bela imagem acima ilustra o tema escolhido pela organização Ordain Women para o ano de 2015: “Honrando nosso passado, visualizando nosso futuro“.

Acho que não é necessário uma reinvidicação por algo que não foi proibido. Basta começar a fazer. Se o sumiço foi gradual o retorno também pode ser. Acredito que uma reinvidicação desnecessária geraria atrito e desconforto, fazendo com que as mulheres recuem diante da possibilidade.
Simpatizo muito com sua posição, Victoria. Minha intenção ao usar “reivindicar” era justamente no sentido de “reaver”.
Excelente, coerente e pertinente comentário, Victória.
A única objeção que eu teria com ele é que, historicamente, apesar de você ter razão de que “o sumiço foi gradual”, você não tem razão que ele “não foi proibido”. Entre 1903 e 1922, a liderança da Igreja (ora Apóstolos, ora a Primeira Presidência, ora o Presidente da Igreja) publicaram artigos e discursos que paulatina e gradualmente foram evoluindo de desencorajamento até a proibição aberta. (Newell, Linda. The Historical Relationship of Mormon Women and Priesthood. Dialogue Journal vol. 18 no. 23, pp. 21-32)
Boa Noite. Gostaria de saber as fontes utilizadas nesse artigo? E em qual livro da trilogia “Doutrinas de Salvação” encontra-se a citação utilizada?
Obrigada.
Att.
Olá, Bruna. A citação de Orson Pratt está em Journal of Discourses, volume 16, páginas 288-289. Clicando na referência do texto acima, abrirá o link. Outras referências podem ser encontradas clicando nos trechos em verde. Especialmente importantes são as atas de fundação da Sociedade de Socorro de Nauvoo: http://josephsmithpapers.org/paperSummary/nauvoo-relief-society-minute-book. Escrevi a esse respeito aqui: http://vozesmormons.com.br/2013/10/04/a-sociedade-de-socorro-e-o-sacerdocio/.
Fico devendo a informação sobre qual volume de Doutrinas de Salvação. Postarei aqui assim que tiver a informação.