Muitos Mórmons reagiram com compaixão, tristeza e revolta às mudanças na política oficial da Igreja SUD com relação a famílias LGBT e suas crianças.
Infelizmente, muitos outros Mórmons escolheram celebrar com expressões de ódio, preconceito, ignorância e ainda maior ímpeto discriminatório contra pessoas LGTB.

“O passado é apenas prólogo” — William Shakespeare
Entre os dois extremos, alguns levantaram questionamentos aparentemente sinceros e concatenados, que merecem ponderada consideração.
Eis um exemplo:
Seria possível nos tornarmos como o Pai Celestial seguindo este tipo de procedimento aqui na Terra? Vcs de fato acham que existem gays, lésbicas e simpatizantes destes no Reino Celestial? A despeito de todo o respeito que devemos dar ao livre arbítrio de todos os seres humanos, vcs de fato acham que incentivar ou não alertar que isto pode ser a destruição da possibilidade de se tornar como nosso Pai e Mãe Celestiais é algo de fato aceitável? Deveria eu aceitar a prática de um irmão que pode lhe custar a plenitude da felicidade na vida eterna, sem alertá-lo? Qual a solução proposta por vcs então? Sermos testemunhas complacentes com a possível destruição da alma destes?
Não obstante a razoabilidade da pergunta, para respondê-la é necessário analisá-la.
O raciocínio é inteiramente predicado na própria incapacidade dogmática de contemplar a mui provável possibilidade de que a própria estrutura lógica interna dessa crença repousa exclusivamente no instinto natural humano para o preconceito contra grupos diferentes.
O exemplo histórico da discriminação institucional SUD é apenas uma anedota icônica de uma crença religiosa firmemente mantida como a vontade divina inviolável, até que surge uma geração que rompe com o estabelecido paradigma, conscientiza-se da irracionalidade do preconceito, e altera o prisma de referência.
Estabelece-se, então, a apologia retroativa de “esqueçam o que foi dito”, “estávamos errados”, e “não sabemos por quê” e segue-se adiante com o novo paradigma, fingindo-se nunca haver existido o preconceito original e luta-se para extinguir a discriminação resultante.
A construção teológica que condena “gays, lésbicas e simpatizantes” a nunca adentrar “no Reino Celestial” presume um privilégio epistêmico absoluto a pronunciamentos que é racionalmente incompatível com a experiência humana. Dogmas religiosos aparentam fixos e imutáveis até que eles são mudados e novos conceitos soteriológicos o substituem, num ciclo que se apresentou repetidas vezes por toda história da humanidade e por toda história Mórmon.
Outra igreja Mórmon, crendo nas mesmas revelações de Joseph Smith, e no princípio básico estabelecido por Smith de “revelação continuada”, conseguiu construir para si uma teologia que permitisse “gays, lésbicas e simpatizantes… no Reino Celestial”. Afinal, a doutrina central do Mormonismo é que Deus “convida todos a virem a ele e a participarem de sua bondade; e não repudia quem quer que o procure… e todos são iguais perante Deus”.
William Shakespeare cunhou a frase “o passado é apenas prólogo”. A nova geração que romperá os grilhões do preconceito irracional contra LGBT já está surgindo progressivamente. Às gerações futuras caberá a árdua tarefa apologética de fingir que a discriminação contra famílias LGBT e suas crianças nunca ocorreu, criando novas versões do “esqueçam o que foi dito”, “estávamos errados”, e “não sabemos por quê”.
A realmente importante e relevante pergunta hoje é qual papel que cada um de nós desenvolverá nesta presente geração. Defenderemos as crenças atreladas aos preconceitos irracionais do passado, escondendo-nos atrás do princípio de obediência cega e até fanática, ou serviremos como agentes de mudança para um mundo e uma sociedade onde intolerância, discriminação, e preconceito não são valores louváveis ou defensáveis?
Marcello, a análise que fizeste do exemplo citado foi muito interessante! Dialogando por meio dele, gostaria de fazer um destaque: A parte do texto que saltou-me aos “olhos” quando li: “Deus convida a todos a virem a ele e a participarem da sua bondade, e não repudia a quem quer que o procure e todos são iguais perante Deus”, estas são escrituras conhecidas por todos, pelo menos , é o que presumo. Esse é o Deus que eu conheço e na qual, eu me relaciono. É o Deus que ama a todos. Encontro-me com ele quando estudo a Bíblia Sagrada e também por poder desfrutar suas criações. Para mim, a Bíblia Sagrada é uma “história de amor”, da lealdade de Deus ao povo que ele escolheu para testemunhar o seu amor. O estudo deve ensejar religiosidade sadia e tolerante, livre de fundamentalismos. Exemplificando, se não pratica o assassinato de adúlteras por meio do apedrejamento, ou a morte imediata do homem ou da mulher ou do feiticeiro que consultar mortos como recomenda a Bíblia, então não tem porque perseguir ou ofender os homossexuais somente porque há nela um trecho que considera o homossexualismo “abominação”. Percebo que os fundamentalistas comumente utilizam esse trecho, pois encontram guarida para sua homofobia e ódio, o que lhes é muito conveniente.
Acredito que enquanto a regra da “obediência cega” for atrelada ao senso comum de “mais e maior retidão”, dificilmente veremos aqui no Brasil, entre os membros SUDs, um Movimento contrário à regras discriminatórias ditadas pela Igreja SUD, tal como lemos naquela imagem lá dos EUA. O silêncio e a aceitação da discriminação como fato religioso natural, retrata o conformismo e a letargia intelectual de boa parte dos membros daqui e como consequência disto, o retardo de uma nova concepção de religiosidade, mais humana, mais amorosa,mais tolerante, mais cristã. Enquanto não vier a geração que romperá com o paradigma atual, as famílias LGBTs continuarão a ser prejudicadas em seu direito ao livre exercício de sua crença.