Estas Três Coisas São Verdadeiras

Reflexões de uma acadêmica mórmon

Autora convidada: Melissa Inouye

Jesus Cristo. Crianças. Mórmons. Mormonismo.

Detalhe de “Deixai as crianças”, pintura de Carl Heinrich Bloch.

Divisões agudas tornam difícil identificar “como os mórmons se sentem” sobre a política que barra crianças de pais em casamentos homossexuais de bênçãos ou batismo n’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Mas estas três coisas são verdadeiras:

  1. Mormonismo é carismático;
  2. Mormonismo é organizado;
  3. Mormonismo é os mórmons.

Por “Mormonismo é carismático” (do termo charismata, ou dons do Espírito Santo, incluindo visões, curas, profecia, etc.), quero dizer que sua existência como tradição religiosa está predicada sobre certas histórias miraculosas serem reais: primeiro e acima de tudo, o nascimento e missão divina de Jesus Cristo, cuja vida estabeleceu um exemplo perfeito; após, as visões e inspiração dadas a Joseph Smith, um profeta chamado para revelar novas maneiras de entender a relação da humanidade com Deus. A afirmação do mormonismo de uma conexão continua com Deus através de revelação profética e também pessoal é como um cabo de alta tensão vivo — um conduto para o poder, mas também uma série responsabilidade. Por um lado, a experiência pessoal do Espírito é verdadeiramente miraculosa — uma abençoada anomalia, uma reorientação que muda a vida, uma alegria. Por outro, na história dos movimentos religiosos, poder carismático leva inevitavelmente a cismas.

Por “Mormonismo é organizado”, quero dizer que a vida religiosa mórmon se desenrola não apenas na vida espiritual interna do indivíduo, mas no contexto de uma comunidade local e uma hierarquia institucional centralizada globalmente. Manuais prescrevem exatamente como realizar certo rito, especificam procedimentos para selecionar líderes e definem comportamentos aceitáveis e inaceitáveis na comunidade. Camadas e camadas de estruturas institucionais foram construídas — e continuam a se acumular — com a intenção de canalizar o que é benéfico e proteger contra o que for potencialmente desestabilizador nas pretensões carismáticas do mormonismo. Essas estruturas altamente burocratizadas são como o revestimento do cabo — limitando as direções nas quais o poder pode fluir, conservando energia, protegendo do choque. Por exemplo, se um bispo mórmon sabe de um membro que diz ter sido ordenado por Deus a sacrificar seu filho em um altar com uma faca de cozinha e iniciar uma nova Igreja de Jesus Cristo dos Abraões dos Últimos Dias, o bispo irá intervir (com o respaldo de uma seção do Manual que afirma que o abuso de uma criança não será tolerado em nenhuma forma).

Por “Mormonismo é os mórmons”, quero dizer que o mormonismo é feito de indivíduos mórmons, que são produtores de religião, assim como consumidores. Mormonismo não é definido por credos (expressões padronizadas de doutrinas essenciais), mas por conselhos (grupos de mórmons agindo em conjunto). Aqueles que atualmente ocupam os mais altos níveis de liderança foram originalmente escolhidos dentre as fileiras dos professores da Escola Dominical e líderes de jovens, e requisitados a passar mais e mais tempo (e finalmente todo o tempo) como parte desses conselhos da Igreja. Nesse sentido, a distância entre a liderança máxima da Igreja e membros leigos pode ser pequena em termos de experiência cotidiana e cultura compartilhada, ainda que haja obviamente grandes variações globalmente entre a experiência de membros e líderes de Spanish Fork, Utah, a experiência de membros e líderes de Mitaka, Japão. Mormonismo não é um monolito — sua liderança máxima não é, sua cultura não é, seu povo não é. É um corpo vivo, elétrico e vital, constituído de sistemas, órgãos e células.

Aqueles que veem a política como evidência de que todos os mórmons são homofóbicos ou que líderes da igreja são inteiramente insensíveis a minorias sexuais estão errados. Muitos mórmons são defensores apaixonados dos direitos de grupos minoritários, incluindo a comunidade LGBT, e a própria Igreja apoiou a legislação de direitos civis para pessoas LGBT em Utah. O lançamento de um vídeo com o Élder Todd Christofferson é uma tentativa de mostrar boa fé e integridade em uma escala pessoal para explicar a abordagem da Igreja acerca de uma questão complexa e delicada. Para mim, ele soa sincero —ainda que claramente desconfortável por antecipar que muitos duvidarão de sua sinceridade — quando diz que se você acredita que o comportamento de uma pessoa é gravemente errado e contrário aos mandamentos de Deus, não estará fazendo a ela nenhum favor ao fingir que aceita seu comportamento. De acordo com os protocolos de diálogo do Capítulo Mórmon da Fundação para Diplomacia Religiosa, do qual sou membro, aqui ele estaria “respondendo as questões difíceis” à medida que compartilhava suas convicções profundas com integridade e candor.

Aqueles que veem o clamor contra a política como evidência de que os que expressam consternação são mórmons infiéis estão errados. Apesar da intenção piedosa que o Élder Christofferson expressou em vídeo, a política criou ou reabriu feridas emocionais profundas em gays e lésbicas mórmons e seus familiares. Como disse Tom Christofferson, irmão gay do Élder Christofferson, a política perpetua “o problema de tratar pessoas como grupos ao invés de indivíduos”, sem levar em consideração diversos arranjos piedosos e pastoralmente sensatos. Batismos avidamente aguardados no sábado foram cancelados. Filhos de casamentos homossexuais ou de orientação mista agora passam a ser estigmatizados e, ainda mais significativamente, impedidos de receber Cristo e desenvolver sensitividade à companhia do Espírito Santo em seus anos de formação. Pessoas se perguntam sinceramente: o quão semelhante a Cristo (e o quão de acordo com a segunda Regra de Fé, e a proibição do Manual contra qualquer forma de abuso contra crianças) é barrar crianças ao batismo por causa do comportamento dos pais – ou de um dos pais? [1] Como não causará à criança um incrível dano emocional contar que ela não será batizada como o restante da Primária, porque seu pai se divorciou da mãe e casou com um homem?

Esse claro desacordo sobre o curso de ação cristã é desmoralizante em uma igreja mundial que, apesar de vastas divisões culturais, permanece junta através da imitação comum de Jesus Cristo, que nas escrituras canonizadas nunca disse algo a respeito de casamento, a não ser que divorciados eram como anjos no céu, mas que é mais conhecido por declarar que o maior mandamento depois de amar Deus era amar outros como a nós mesmos. O poder do amor de Cristo é real, e a razão pela qual pessoas se tornam mórmons e permanecem mórmons é porque o sentiram — de Deus e das pessoas. Viver esse segundo grande mandamento traz o Espírito e dá alegria à vida. É por isso que as reações de tantos são tão cruas. Eles percebem um conflito entre o padrão carismático de Cristo de ignorar regras religiosas para abençoar proscritos sociais e espirituais e a manutenção de uma fronteira organizacional da política.

Estes três elementos — carisma, organização, pessoas —existem em um estado de tensão dinâmica e têm moldado a vida mórmon por quase dois séculos. Em suas várias combinações, têm trazido numerosas doutrinas, práticas, políticas e modos de vida: ordenanças do templo, poligamia, evangelização mundial, bênçãos de cura por mulheres, o fim da poligamia, o fim das bênçãos de cura por mulheres, a exclusão de negros do sacerdócio, o sistema de bem-estar da Igreja, a inclusão de negros no sacerdócio, gravações em vídeo das ordenanças do templo, traduções das ordenanças do templo em dezenas de línguas, alívio para as vítimas do furacão Katrina e poços para pessoas em Madagascar. [2]

Definindo o carismático além dos limites da religião e mais amplamente como uma envolvente ideologia moral universalista, a tensão produtiva entre os ímpetos carismático e institucional conduz quase todas as grandes organizações humanas: a Igreja Católica do Papa Francisco, os Estados Unidos da América, o Partido Comunista Chinês. Como forças de atrito em um gerador elétrico, é essa tensão que mantém o poder fluindo. Ambos são essenciais. Você não pode ter apenas amor divino, você não pode ter apenas manuais.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e seus membros tiveram um fim de semana ruim. Estes dias trouxeram à tona divisões sobre interpretações cruciais da comunidade cristã. Por mídias sociais, e-mails e na Escola Dominical, pessoas declararam apoio ou desalento, relataram revelação pessoal divina a favor ou contra a política. Reclamaram. Choraram. Levaram suas preocupações a Deus. Como isso tudo funciona? Como nossos Pais Celestiais se sentem quando seus filhos brigam sobre como serem bons? Não faço ideia. Felizmente, como ocorre com todas as relações eternas – e como diria meu tio Dillon – ”o primeiro milhão de anos é o pior”.

Uma coisa de que tenho certeza é que a retórica de líderes e membros da Igreja sobre atração pelo mesmo sexo tem evoluído no sentido geralmente positivo de uma maior compreensão e simpatia, considerando onde estávamos há vinte anos, e que continuará a evoluir. Uma vez que essa política foi concebida como uma medida de compaixão, tenho esperança de que aqueles que fazem as políticas apreciarão a forma como a discussão e debate em torno do assunto destacou inúmeras consequências negativas que os formuladores de política podem não ter intencionado. Espero que futuras mudanças de política sejam mais efetivas em demonstrar amor e compreensão. Não se trata de ser politicamente correto, mas de proteger a vida da comunidade religiosa.

É verdade: em vários momentos da existência de uma religião, pessoas são requeridas a “seguir a fila”. Mas ao longo do tempo, longas filas não ajudam movimentos carismáticos vibrantes, e carisma é o sangue do mormonismo. Sem a alegria elétrica que vem de uma experiência recíproca do amor de Jesus Cristo, lutaremos, limitados em nossa habilidade de socorrer aqueles que precisam.

Das três afirmações com as quais iniciei este texto, a última é a mais importante: mormonismo é os mórmons. Mórmons vivem sua religião dentro de uma densa rede de relações, verticais e horizontais. Com a vitalidade e intimidade dessas relações vem uma grande responsabilidade — mais do que o cidadão deve ao representante eleito e vice-versa, mais do que o meio-campista deve ao time. Nossa prática dentro de uma estrutura de liderança laica nos dá familiaridade com os processos refinadores de liderar e ser liderado, cometer erros e fazer emendas.

A chave para avançarmos como uma Igreja que deseja ser definida pela fé comum em Jesus Cristo é aproximarmos uns dos outros, falarmos terna e humildemente em conselhos e em privado, atarmos feridas e pedirmos desculpas onde machucamos sem intenção. Ficamos ombro a ombro em lugares santos e fizemos convênio de amar e servir uns aos outros, com Deus como nossa testemunha. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não é uma máquina organizacional de manivelas e engrenagens que são facilmente substituídas, mas o corpo de Cristo, potente e elétrico, sensível e frágil, com membros e órgãos que não podemos nos dar ao luxo de colocar fora. Devemos olhar para nossas próprias famílias e congregações, onde nossas vidas religiosas acontecem. Aqui, onde conhecemos e somos conhecidos, amamos e somos amados, devemos encontrar a caridade que nos permitirá ser uma bênção nas vidas daqueles que Deus nos deu. [3]

Melissa InouyeMelissa Wei-Tsing Inouye é doutora em línguas e civilizações do Leste Asiático pela Universidade de Harvard. Atualmente leciona na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia. Seus interesses de pesquisa são a história do cristianismo na China e o estudo do mormonismo global. Artigo publicado originalmente em inglês, traduzido sob permissão da autora.


NOTAS

[1] Agradeço a Kristine Haglund por compartilhar esta citação de George Q. Cannon, então Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência da Igreja. “Topics of the Times,” Juvenile Instructor 34 (March 1, 1899): 137-138. Reproduzido em Latter-day Saints’ Millennial Star 61 (March 30, 1899), 198-199; Latter-day Saints’ Southern Star 1 (April 29, 1899): 170.

[2] É impossível colocar links a todos os estudos sobre tais tópicos, mas para iniciar, caso você já não tenha encontrado estes livros, considere o seguinte: sobre os primórdios do mormonismo, Richard Bushman, Joseph Smith: Rough Stone Rolling (New York: Knopf, 2005); Samuel Brown, In Heaven as It Is on Earth: Joseph Smith and the Early Mormon Conquest of Death (New York: Oxford University Press, 2012); e John Turner, Brigham Young: Pioneer Prophet (Cambridge: Belknap, 2012); sobre mormonismo no século 20, Greg Prince, David O. McKay and the Rise of Modern Mormonism (Salt Lake City: University of Utah Press, 2005); Paul Reeve, Religion of a Different Color: Race and the Mormon Struggle for Whiteness (New York: Oxford University Press, 2015). Para uma lista mais completa, veja a lista de leitura do  blog Juvenile Instructor. Para fontes primárias e secundárias em formato digital, consulte o guia de assuntos em Estudos Mórmons da biblioteca da BYU.

[3] Escrevi sobre minha experiência como criança em uma congregação mórmon local no recente livro da White Cloud Press, A Book of Mormons, a ser lançado no final de novembro de 2015.

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5 comentários sobre “Estas Três Coisas São Verdadeiras

  1. É interessante, ela parece conhecer bem os princípios de geração (conversão para) de energia elétrica. E foi muito feliz em sua clara analogia.

    Sob este prisma não há derrotados ou vencidos, há sim uma luta que nunca cessa, pela comunhão e pela presença de Deus nos (e entre) os homens. Não há como ter alegria na lágrima de um igual, e apenas nós, mórmons, podemos mudar isso em nosso próprio meio.

  2. É a igreja cristã com o maior nível de gente culta que eu conheci pessoalmente.

    Já visitei igrejas com pessoas formadas em algo, mas ao mesmo tempo ignorantes e que não sabem nada sobre a sua volta.

    Notei que os SUD (pelo menos no sul) tendem a ser razoáveis. Não penso mais em sair, vou ficar e ajudar a mudar o que puder.

  3. EXTRAORDINÁRIO TEXTO!!!!!!!!!

    Todos os membros deveriam ler e deveria ser debatido nas sacramentais e escola dominical.

    Parabéns Vozes Mórmons, sempre tem INTELIGÊNCIA abundante em seus autores e artigos e isto só pode vir do Criador..

    Abs!!!!!!

  4. Só elogios para este texto, parabéns! A autora conseguiu fazer uma mediação conciliadora com docilidade e inteligência , em sua análise da situação atual vivenciada pelos membros da igreja.
    Gostaria de ressaltar dois pontos que considero importante: “o poder carismático” em que a autora refere-se como um “cabo de alta tensão vivo”, como conseqüência da afirmação do mormonismo da conexão contínua com Deus – um conduto para o poder.” De fato, esta ideia pode explicar pelo menos em parte, as decisões da liderança SUD com relação às famílias LGBTs. Todavia, não podemos, ao mesmo tempo, deixar de pensar que o “poder carismático” pode ser usado de forma intencionalmente abusiva, pois transmite a ideia exata de “ providencial,” “exemplar” e como conseqüência, agrupa em torno de si, seguidores e partidários da causa. O poder carismático não é peculiar da religião, ele está em outras áreas também, como na política por exemplo. Ele é alicerçado na obediência dos seguidores ao líder e no caso da religião, acredita-se exatamente na afirmativa mórmon de “conexão contínua com Deus”.
    O outro ponto, na qual eu compartilho do mesmo anseio da autora é este, citando as palavras dela: “Espero que futuras mudanças de política sejam mais efetivas em demonstrar amor e compreensão. Não se trata de ser politicamente correto, mas de proteger a vida da comunidade religiosa”. Neste sentido, parece-me não haver “conexão” com os ensinamentos de Cristo e, enquanto humilde seguidora dele, tenho a impressão de que um “abismo” formou-se entre a comunidade religiosa e a liderança SUD.

  5. Entendo o posicionamento da autora, apesar de bem escrito, a favor do batismo e contra a estipulação da liderança mundial. Muitas vezes veremos coisas injustas acontecerem em nome de coisas maiores ou mais numerosas, importantes e/ou fortes. Acredito que este seja o caso dessa proibição. Pode parecer injustiça, mas não vivemos isolados do mundo, mesmo que estejamos tentando e os líderes agiram e agem inspirados pelo cabeça da Igreja que é Jesus Cristo, que sabe de todas as coisas presentes, passadas e futuras. Eu acredito na existência D’Ele, na ordenança dos líderes por Ele, na autoridade da Igreja por Ele e nas orientações e definições e ações da igreja por Ele também. Senti e não duvido que a decisão foi tomada não somente para o bem dos membros, mas para o bem de toda a humanidade e aceito e confio nisso.

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