Pornografia no Templo de Salt Lake?

Quem poderia imaginar estar no lugar mais sagrado para os membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o templo central na cidade do Lago Salgado, e deparar-se com uma pintura pornográfica?

Vitral exposto no Templo de Salt Lake City da Igreja SUD, na escadaria entre as salas do Jardim e do Mundo (Foto: The Salt Lake Temple: A Monument to the People)

Essa é justamente a queixa de uma membro da Igreja que, ao encontrar um artigo exaltando os detalhes arquitetônicos do templo, imediatamente ventilou seus sentimentos de frustração, surpresa, e choque de encontrar tamanha indecência e imoralidade na “casa do Senhor”:

“O Templo de Salt Lake é de tirar o fôlego, bonito, cheio de simbolismo e sacrifício que os pioneiros deram para ele. No entanto, eu me pergunto por que Adão e Eva são mostrados assim, especialmente Eva. Em um momento em que o modéstia era primordial e o fato que acreditamos em modéstia, estou desapontada por não ter sido muito coberta e que a Igreja não tenha pintado em cima dela. No templo que é a sede da Igreja e nossa crença na santidade da feminilidade e da maternidade, me enoja  vê-la exibida dessa maneira. Nossos corpos são templos, sagrados e devem ser cobertos. Eu percebo que há simbolismo em sua nudez, eles não eram capazes de “ver” e eram inocentes antes de deixarem o Jardim do Éden. Eles receberam mantos de peles para se cobrir, assim que entenderam. Mas me incomoda que isso seja mostrado. Especialmente à luz de todos os problemas no mundo com pornografia, abuso sexual. As estatísticas mostram que 1 em cada 3 ou 5 mulheres é sexualmente abusada. Pergunto-me quanto muitas mulheres, e até mesmo os homens, se sentem quando vêem essa representação. Gostaria que a Igreja o tornasse mais modesto. Em outros templos eu não vi um problema [assim].”

Ignoremos por agora a sua insinuação de que mulheres são vítimas de abuso sexual por causa de falta de modéstia na parte delas (uma crença comum entre mórmons, incentivada por líderes como Spencer Kimball e Dallin Oaks), e concentremo-nos na sua relação com arte. Esse tipo de reação entre mórmons com relação a arte e ombros não é uma novidade e esse tipo de reação não parece ser uma exceção.

Há mais de 5 anos publicamos um artigo sobre uma manipulação de uma pintura clássica para esconder ombros femininos em uma publicação oficial da Igreja SUD.

No ano passado publicamos um artigo sobre uma aluna da universidade mórmon que recebeu uma nota “zero” em um projeto de arte e fotografia porque suas peças exibiam uma modelo expondo seus ombros desnudos.  Waverly Giles, estudante do primeiro ano da Universidade de Brigham Young em Idaho, postou sua reação de choque e revolta em mídia social e seu desabafo rapidamente viralizou e ganhou os noticiários. Giles, chocada com a óbvia exibição de misoginia, conseguiu ganhar uma nova oportunidade após apelação (e toda celeuma pública), e respondeu com humor e inteligência:

“Meu professor está me dando uma segunda chance com o projeto, além de muita inspiração.”

Colegas seus compartilharam, com abundante tom de ironia, exemplos de arte que receberiam notas 0 por “exposição desnecessária”:

Além de manuais oficiais da Igreja destinados a jovens para lhes determinar o que podem e o que não podem vestir, as regras de vestimentas da universidade da Igreja também mantém determinações indumentárias draconianas, especialmente controlando as roupas femininas. Entre os exemplos de proibições:

  • Calças ou jeans que sejam remendados, desbotados, desgastados ou rasgados;
  • Calças ou jeans de comprimento acima do tornozelo;
  • Calças capri;
  • Chinelos;
  • Shorts de quaisquer tipos;
  • Cortes de cabelo com estilos extremos e cores não naturais;
  • Para as mulheres: Vestuário imodesto, como blusas sem mangas, que não cubram o estômago, ou sejam decotados na frente ou atrás;
  • Para as mulheres: Vestidos ou saias acima do joelho (mesmo com leggings por baixo)

O controle exagerado em comunidades mórmons de como mulheres se vestem ou devem se vestir não é incomum, e é certamente encorajado pela liderança da Igreja SUD. Nem arte escapa desse escrutínio misógino? Nem mesmo a arte sacra? Dentro do principal templo de toda religião SUD?


Cresce, aos poucos, na Igreja SUD uma conscientização coletiva de que mulheres SUD não vêm sendo tratadas ou consideradas com a mesma igualdade de respeito e oportunidade que os homens SUD. Tais reflexões não são novas ou originais, mas o que mais impressiona no presente momento é a penetração social desta ideia. Além de uma crescente mobilização entre mulheres SUD, parece haver uma recíproca preocupação entre a liderança (exclusivamente masculina) SUD. Leia mais aqui.

A campanha ‘Vista Calças Para Sacramental’ foi organizada por um grupo de mulheres SUD ativas que, apesar de valorizar a Igreja em suas vidas, sente-se discriminadas dentro de uma cultura religiosa patriarcal. Leia mais aqui.

Estudo conduzido com 48.984 membros ativos da Igreja SUD demonstra que Mórmons estão começando a aceitar o conceito de ordenar mulheres ao Sacerdócio e abraçá-las em posições de liderança eclesiástica. Leia mais aqui.

Uma membro ativo na Igreja SUD é chamada pelo Bispo e pelo Presidente de Estaca por um comentário publicado no Facebook, e pressionada a apagá-lo. Leia mais aqui.

O Apóstolo Dallin H. Oaks acredita que mulheres são culpadas por se tornar peças vivas de “pornografia” para “tentar” os homens. Leia mais aqui.

A Igreja Mórmon promove a “cultura do estupro”? Certamente, ninguém questiona que o crime de estupro é amplamente condenado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Não obstante, a “cultura do estupro” vai muito além de meramente compactuar com esse crime violento em si. Leia mais aqui.

A psicóloga mórmon Kristy Money reage e responde ao ensaio recém publicado pela Igreja SUD sobre o tema  de mulheres e o sacerdócio. Leia mais aqui.

A Igreja Mórmon estabalece regras de vestuários bastante específicas. Além de machistas e extremistas, essas regras não parecem ser aplicadas consistentemente. Leia mais aqui.

Antropóloga Mórmon Chelsea Shields foi oradora especial na prestigiosa Conferência TED, popularmente conhecida como TED Talks. Seu discurso focalizou na sua experiência pessoal dentro da Igreja SUD, da cultura Mórmon, e de seus estudos acadêmicos em tôrno de questões de gênero e religião institucional. A cobertura de seu discurso expõe facetas interessantes do Mormonismo, além de sua percepção pelo público não Mórmon. Leia mais aqui.

5 comentários sobre “Pornografia no Templo de Salt Lake?

  1. A maldade está no coração do homem. Vi os quadros e figuras e sinceramente não vi nada de mais, são quadros feitos em outros tempos e não sugere a idéia de incentivo a pornografia ou coisas do gênero.

    Isso é bem diferente do que vi no face algum tempo a qual foi polemico a qual um homem nú estava caminhando em um lugar público com crianças ao redor. Aquilo sim é algo para ser reprovado pois aquilo nada tem a ver com arte, especialmente se tratando de lugar público com a presença de crianças.

  2. Na verdade a pintura não condiz com a doutrina templária pelo simples fato de que, como aprendemos durante a Investidura, Adão e Eva já estavam cientes de sua nudez no Jardim do Éden e lá foram selados pela eternidade. A Investidura, com a entrega dos garments, antecedeu o selamento deles, antes de serem expulsos do Jardim. A pintura pode até não ser pornográfica, mas que contradiz a Investidura, isto sim acontece.

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