(…) o homem que honra seu sacerdócio [his priesthood], a mulher que honra seu sacerdócio [her priesthood], receberão uma herança eterna no reino de Deus. (Brigham Young, Journal of Discourses 17:119)
Santos dos últimos dias estão acostumados a pensar o sacerdócio como sendo algo exclusivo para os homens. Muitas vezes até ouvimos a palavra “sacerdócio” para designar coletivamente os homens membros da Igreja sud. A citação acima de Brigham Young, porém, nos faz questionar nossa compreensão do que é o sacerdócio e de como ele pertence a homens e mulheres. E olha que Brigham não era exatamente um feminista.
O uso do sacerdócio por parte das mulheres é um dos temas mais fascinantes – e, mais do que nunca, atuais! – da história mórmon. As percepções que herdamos – ou “tradições dos homens”, literalmente – , porém, bloqueiam nosso entendimento; ou ainda, nos fazem ver o passado mórmon a partir das doutrinas e práticas da Igreja sud no presente.
A promessa de Joseph Smith
Os ensinamentos do Profeta para a Sociedade de Socorro de Nauvoo eram de que homens e mulheres deveriam compartilhar do sacerdócio.Joseph Smith organizou a Sociedade Feminina de Socorro de forma bastante independente da hierarquia da Igreja – elas tinham suas finanças, sua própria liderança. Definitivamente, a Sociedade de Socorro não foi pensada para ser uma “organização auxiliar do sacerdócio”, mas uma organização do sacerdócio, composto por mulheres que portassem o sacerdócio. Joseph Smith utilizou uma inspiração maçônica para organizar tal sociedade e prometeu que lhes seriam dadas chaves do sacerdócio. Joseph Smith também aconselhou as mulheres a abençoarem os doentes e aflitos, com imposição de mãos.
Em abril de 1842, quando a Sociedade de Socorro foi organizada, Joseph Smith registrou o seguinte:
Às duas horas, reuni-me com os membros da ‘Sociedade Feminina de Socorro’ e após presidir na admissão de muitos novos membros, dei uma palestra sobre o Sacerdócio, mostrando como as irmãs viriam a possuir os privilégios, bênçãos e dons do Sacerdócio. (History of the Church 4:602)
Na terceira reunião da nova organização, ele ainda afirmou que “faria desta Sociedade um reino de sacerdotes como nos dias de Enoque”. ¹
Bênçãos com imposição de mãos
Com a aprovação de Joseph Smith, Emma – a presidente da Sociedade – e suas conselheiras, Sarah Cleveland e Elizabeth Whitney, administraram bênçãos com imposição de mãos. Na quinta reunião da Sociedade, certa irmã Durfee foi uma das pessoas que prestaram seu testemunho. Ela “prestou testemunho da grande bênção que ela recebeu na última reunião quando da administração por Emma Smith e Conselheiras Cleveland e Whitney”, acrescentando que “achava que as irmãs tinham mais fé do que os irmãos”. A prática de mulheres imporem as mãos sobre doentes persistiu durante todo o século XIX e início do XX.
Nosso preciosos preconceitos
Hoje, esses fatos do passado mórmon podem parecer estranhos ou até errados para muitas pessoas. Se pretendermos um estudo sério do assunto, teremos necessariamente que tentar abdicar de nosso preciosos preconceitos e tradições. E, obviamente, ir às fontes históricas.²
Resquícios
Independentemente da visão que hoje prevaleça na Igreja sud ou do número de homens que se sintam ameaçados e gritem “apostasia!”, de algumas mulheres sud que também se chocam com a ideia de serem portadoras do sacerdócio, os fatos históricos estão à disposição para nosso estudo.
No séc. XXI, sobreviveu um resquício dessa autoridade sacerdotal feminina no mais sagrado dos locais de adoração sud, o templo. Pensando nas ordenanças lá realizadas, gostaria de propôr as seguintes perguntas para a reflexão pessoal e o debate aqui neste blog:
– Por qual autoridade as mulheres ministram as ordenanças no templo?
– Se elas não possuem autoridade do sacerdócio, por que as ordenanças do templo não são administradas exclusivamente por homens?
– Aliás, se as mulheres não recebem o sacerdócio, por que recebem a investidura e usam as vestimentas do sacerdócio?
Fique à vontade para deixar seu comentário ou pergunta.
Notas
1. http://josephsmithpapers.org/paperSummary/nauvoo-relief-society-minute-book
2. Estarei explorando este e outros temas num curso presencial em Porto Alegre, intitulado Introdução à Doutrina de Nauvoo.


Matéria excelente Antonio, concordo plenamente que as mulheres possuem o sacerdócio,porém de maneira restrita a exerce-lo dentro dos templos como revelado até então,para alguns membros infelizmente isto é apostasia,agora quanto a estender o uso dele para fora das ordenanças realizadas no templo,seria uma revelação ou melhor mudança bem radical em todos os aspectos dentro da organização da igreja.
Obrigado, Alexandre. Noto que o debate atual sobre a ordenação de mulheres faz pouca referência a esses fatos históricos que mostram o fato das mulheres serem investidas do sacerdócio.
Não devemos nos opor aos direitos das mulheres em poder portar o sacerdócio de maneira igualitária aos homens. Não pode haver polêmica sobre esse assunto. Inclusive as mulheres já tem um poder imensurável que os homens não têm, de poder gerar filhos em seu ventre. Admiramos essa condição abençoada por Deus as mulheres. Mas devemos levar em conta a vontade de nosso Pai Celestial. Se Ele determinar que elas podem possuir, porque discutiremos? Eu imaginaria uma guerra em que os homens terem que ir a frente de batalha para lutar, se expor a mutilações variadas, enfrentar os inimigos para proteger suas famílias, pra que deixar que elas passem por isso? Nesse mundo elas são os principais seres para a raça humana não ser extinta. Temos que protegê-las a qualquer custo. Se for o caso receberemos revelação a seu tempo. Abraços!
Arlindo,
vejo alguns problemas com a famosa afirmação de que os homens têm o sacerdócio e as mulheres têm a maternidade. Por exemplo, a vida não é gerada pela mulher, mas pelo encontro do homem e da mulher. Poderíamos, claro, apontar para o papel muito mais importante das mães na criação dos filhos, etc, mas grande parte disso tem a ver com papéis culturais que isentam o homem de maior dedicação. Ainda, o sacerdócio inclui muitas coisas além de ofícios, com o próprio casamento celestial sendo uma ordem do sacerdócio, de acordo com D&C 131.
“Por exemplo, a vida não é gerada pela mulher, mas pelo encontro do homem e da mulher”. Exatamente, mas somente a mulher pode ter um ser crescendo dentro dela, somente a mulher pode passar por todas as fases da gestação durante 9 meses e somente a mulher pode saber o que é a dor do parto(se parto normal). Da mesma forma o sacerdócio, a mulher pode participar de várias bençãos tendo o manto do sacerdócio sobre si, em especial as ordenaças do templo, mas somente o homem pode ser ordenado ao sacerdócio, somente o homem pode abençoar pela autoridade do sacerdócio, somente o homem pode exercer determinados ofícios do sacerdócio.
Não sou machista e nem quero parecer, foi apenas uma lógica que expus e que pode estar certa ou errada. Se o desejo do Senhor for que somente os homens sejam ordenados ao sacerdócio que assim seja. Porém, se o desejo do Senhor . é de que as mulheres recebam o sacerdócio também, que assim seja e que nossos líderes comecem a ver isso (dessa maneira se confirmariam as palavras de Eliza R. Snow em artigo recente deste site).