Jane Manning James – parte I

jane3A história de Jane Elizabeth Manning James (1822-1905) tem se tornado cada vez mais conhecida por um número crescentes de mórmons e estudiosos do mormonismo. Uma história que inclui fome e perseguição; seu abandono pelo marido durante longas duas décadas; sua insistência junto a um presidente da Igreja para receber certas ordenanças; sua convivência no lar de Joseph e Emma Smith, e muitos outros acontecimentos que tornam sua vida como mulher mórmon e negra uma narrativa única e impressionante.

Na nova página publicada pela Igreja sud em dezembro do ano passado, acerca das visões raciais no mormonismo, o nome de Jane é citado da seguinte forma:

Jane Manning James, membro fiel negra que atravessou as planícies e viveu em Salt Lake City até sua morte, em 1908, (…) pediu para entrar no templo, foi autorizada a realizar batismos por seus antepassados mortos, mas não foi autorizada a participar de outras ordenanças.

Ela também foi um dos personagens retratados no filme Joseph Smith: o Profeta da Restauração,  produzido pela Igreja sud em 2005, em que a jovem de 21 anos, recém chegada a Nauvoo, virou uma mulher de 45-50 anos.

Jane Elizabeth Manning nasceu em 1822, em Wilton, no estado do Connecticut. Era uma negra livre e desde menina trabalhou numa fazenda. Seu encontro com missionários mórmons na sua cidade natal, em 1843, fez com que ela não só se convertesse, mas também liderasse oito pessoas de sua família na migração para Nauvoo, incluindo seu filho pequeno e sua mãe. A família de Jane foi impedida de seguir com o grupo maior de conversos quando lhes foi negado entrar num barco no estado de Nova York, sendo então obrigados a seguir a pé.

Em sua autobiografia, Jane relembra:

Caminhamos até nossos sapatos gastarem e nossos pés ficarem doloridos e rachados e sangrarem até se ver toda a marca dos nossos pés com sangue no chão. Paramos e nos unimos em oração ao Senhor, pedimos a Deus, o Pai Eterno, para curar nossos pés e nossas orações foram respondidas e nossos pés curados sem demora.

No filme produzido pela Igreja em 2005, Jane chega com os pés sangrando e Joseph Smith lhe aplica bandagens, uma licença poética que ironicamente nega seu relato de cura divina (trecho entre 52:30 e 53 minutos).

Ao longo de mais de 1287 quilômetros, Jane e sua família tinham que dormir muitas vezes a céu aberto. Mas a dureza não estava apenas na natureza.  Ao chegarem a Peoria, no estado de Illinois, os Manning sofreram ainda a ameaça de serem presos, por não portarem documentos que atestassem sua alforria – o que lhes causou grande aflição uma vez que nenhum deles jamais havia sido escravo.

Seguimos nosso caminho nos alegrando, cantando hinos e agradecendo a Deus por sua infinita bondade e misericórdia para nós (…)

Quando finalmente chegam a Nauvoo, os nove santos negros são guiados até a casa de Joseph Smith. Em suas memórias, Jane disse ter reconhecido o rosto do profeta de um sonho que tivera. Eles são apresentados então a Emma e Joseph Smith e se sentam junto a outros convidados. Joseph pede a Jane que relate a sua história. A família Manning então ouve de Joseph Smith “Deus os abençoe. Vocês estão entre amigos. Agora serão protegidos”.

Depois de uma semana na casa dos Smith, todos acham novas casas e trabalho, com exceção de Jane. Chorando uma manhã, ela é vista por Joseph Smith. Jane relata o diálogo entre os dois. “Todo mundo foi embora e achou uma casa e eu não tenho nenhuma”. Ao que Joseph respondeu

Sim, tem. Você tem uma casa aqui mesmo se quiser. Não deve chorar. Nós secamos todas as lágrimas aqui.

“Mansion House”, onde Jane viveu com a família Smith.

Durante os meses que viveu na casa, ajudando no trabalho doméstico, Jane conversava seguidamente com a mãe do profeta, Lucy Mack Smith, e tinha também a companhia de outras jovens que lá moravam, esposas plurais de Joseph, como Eliza e Emily Partridge e Sarah e Maria Lawrence.

Não se sabe quando ou como Jane tomou conhecimento das doutrinas e práticas que estavam em desenvolvimento em Nauvoo, ou qual foi sua reação inicial ao casamento plural. Mas seria possível que nas tarefas domésticas Jane tivesse visto as “roupas do santo sacerdócio” ou detectado no convívio social as relações românticas entre Joseph Smith e outras mulheres. O fato é que a experiência no lar Smith lhe foi marcante por toda a vida e decisiva na sua devoção por Joseph Smith.

Em suas memórias, ela definiu Joseph Smith como “o melhor homem que já vi na terra” e “um homem bom, grande, nobre e belo”. Quando soube do seu assassinato, Jane disse que sentiu o desejo dela própria morrer.

Após migrar para as Montanhas Rochosas, Jane pediria à Primeira Presidência para poder ingressar no templo, batizar-se por seus ancestrais, ser selada a um marido e ainda, em um dos momentos mais duros de sua vida, ser selada como filha a Joseph Smith, no novo e eterno convênio. Sua luta nesse período será tratada na segunda parte deste post.

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