Primeiro de Abril

01 de abril de 2014. Esta data entrou para a história do Mormonismo no Brasil, e talvez no mundo.

Orson Wells anuncia para o mundo a descoberta da Zarahemla

Orson Wells anuncia para o mundo a descoberta da Zarahemla

O diretor americano Orson Wells, repetidamente eleito como um dos melhores cineastas na história do cinema, adaptou a novela ‘Guerra dos Mundos’ de H.G. Wells para o rádio em 1938. Em seu primeiro episódio, em 30 de outubro, a primeira metade da encenação consistia em boletins de noticiário cobrindo a fictícia invasão da Terra por alienígenas de Marte. Apesar do aviso no início do programa, muitos ouvintes pegaram o show já em andamento, e uma parcela deles acreditaram no que ouviam como se fôra noticiário normal, resultando em um pequeno pânico público. Centenas de pessoas ligaram ansiosas para as estações da CBS para confirmar as notícias, e nos dias seguintes, para reclamar de haverem sido enganadas.

Da mesma maneira que 30 de outubro de 1938 entrou para história do rádio, este 01 de abril p.p. entrou para a história do Mormonismo. O site Vozes Mórmons publicou uma brincadeira de Primeiro de Abril que se espalhou rapidamente (viralizou, como se diz em internetês) enganando dezenas de milhares de Mórmons no Brasil e mundo afora. Até o presente momento, mais de 27 000 pessoas acessaram o artigo, com quase 10 000 compartilhamentos na rede social Facebook e mais de 30 000 visualizações por lá, tornando-a a “pegadinha” Mórmon mais bem-sucedida no Brasil e talvez no mundo (se alguém souber de uma que tenha conseguido maior divulgação e penetração, comente dela abaixo, por favor).

Piadas bem-sucedidas à parte, o que realmente permanece de importante são as questões levantada por este episódio. Por que a brincadeira foi tão crível? Como os Mórmons brasileiros reagiram? O que suas reações dizem a respeito da cultura Mórmon? Quais conceitos científicos podem iluminar nosso entendimento dele?

“O teste de uma boa religião é se pode-se fazer piadas com ela.” ― G.K. Chesterton (Escritor, filósofo, e apologista Cristão… influente na conversão de C.S. Lewis, apologista queridinho dos profetas SUD)

Ninguém nunca fica feliz ao cair numa brincadeira ou pegadinha. Muitas pessoas acham graça de fazer (ou assistir) outras pessoas caírem em brincadeiras ou pegadinhas. Existem motivos psicológicos e neuro-cognitivos específicos e claros para isso, e não, não é hipocrisia ou falta de caráter. Consideremos uma breve introdução a alguns dos conceitos científicos e lógicos mais conhecidos e melhor estudados antes de analisar o comportamento dos Mórmons diante desta brincadeira recente.

Viés de Confirmação

Viés de Confirmação é um fenômeno reflexo de neuro-cognição através do qual pessoas tendem a prestar mais atenção a informações que confirmem suas crenças, opiniões, ou hipóteses e ignorar informações que as contradigam. Leitura, busca, interpretação ou até memória enviesada reforçam tais crenças por ressaltar quaisquer dados confirmatórios (mesmo os insignificantes ou irrelevantes) e ignorar os desconfirmatórios (descaracterizando-os, invalidando-os, ou simplesmente ignorando-os), podendo resultar em um aumento de Polarização de Atitudes (ver abaixo) e Ilusão de Compreensão (ver abaixo).

Polarização de Atitudes

Polarização de Atitudes é o fenômeno psicológico através do qual pessoas aumentam sua confiança e certeza em suas crenças ou opiniões quando oferecidas informações e evidências neutras (ambíguas) ou contraditórias, ao invés de racionalmente re-considerar suas posições iniciais. Este fenômeno ocorre, em grande parte, como consequência de como tais pessoas abordam as evidências (i.e., sob viés de confirmação).

Ilusão de Compreensão

Ilusão de Compreensão é o fenômeno neuro-cognitivo através do qual pessoas experimentam sensações de elação através da falsa percepção de compreensão de determinado assunto ou tema. A sensação de regozijo está presente mesmo quando confrontado com informações contraditórias por causa do viés de confirmação.

Pensamento de Grupo

Pensamento de Grupo é o fenômeno psicológico coletivo onde um grupo de pessoas incentivam harmonia ou conformidade como maneira de evitar conflitos ou dissonância, resultando em ideações ou pensamentos coletivos irracionais, disfuncionais, ou distópicos. O fenômeno é estruturado e reforçado através de mecanismos sociais como Pressão de Grupo, Coesão de Grupo (i.e., nós contra eles), supressão de opiniões divergentes, imposição de lealdade, e isolacionismo.

Condicionamento de Thorndike

Condicionamento de Thorndike, ou a Lei de Efeitos, é o fenômeno neuro-cognitivo através do qual comportamentos são condicionados através de repetidas exposições a consequências imediatas. Consequências agradáveis ou prazerosas tendem a incentivar a repetição de determinados padrões de comportamentos, enquanto consequências desagradáveis ou desprazerosas coibam subsequentes comportamentos. Este fenômeno é fundamental na modelagem de Pensamento de Grupo. (Ver Edward L. Thorndike)

Reforço de Skinner

Reforço de Skinner é uma expansão do conceito de Thorndike, através do qual o processo de repetição — e exposição repetida — a estímulos condicionadores amplificam exponencialmente seus efeitos sobre comportamento, inclusive modulando até crenças e modos de pensamentos. (Ver B. F. Skinner)

Obediência de Milgram

Obediência de Milgram é o fenômeno psicológico através do qual indivíduos se sentem aliviados de suas próprias consciências ou considerações pessoais de ética ou moralidade quando expostas à figuras de autoridade, mesmo quando estas lhe forçam instruções que violem suas crenças, opiniões, ou ética pessoais. Posto doutra maneira, pessoas disponibilizam com naturalidade suas crenças e opiniões mais íntimas quando confrontadas com o desconforto de ter que desobedecer ou se opor à uma figura de autoridade. (Ver Stanley Milgram)

Efeito de Forer

Efeito de Forer é um fenômeno psicológico através do qual pessoas tendem a buscar encaixar-se pessoalmente em quaisquer descrições vagas e generalizadas sobre si mesmas, desde que seja positivo e enaltecedor, sem qualquer valor de correlação. Consequentemente, indivíduos buscam informações que as façam sentir-se boas, inteligentes, morais, éticas, e sábias, mutilam as informações existentes para que as pareçam dizer isto, ou ignoram as informações negativas ou contrárias. (Ver Bertram R. Forer)

Dissonância Cognitiva

Dissonância Cognitiva é um fenômeno psicológico através do qual indivíduos sentem desprazer e dor ao se confrontar com duas crenças, ideias, ou ideais mutuamente conflitantes. Consequentemente, quando assim confrontados, o instinto natural das pessoas é sempre reduzir ao máximo a dissonância ao evitar expor-se a informações que possam resultar em informações conflitantes, deturpar ou ignorar uma ou mais informações conflitantes, ou simplesmente negar sua existência. (Ver Leon Festinger)

Argumentum ad Hominem

Argumentum ad Hominem é uma falácia lógica não-estrutural que consiste em vilipendiar o autor de alguma informação ou argumento que produza dissonância cognitiva apenas para descreditar a informação ou o argumento e possibilitar ignora-los, sem quaisquer ponderações sobre a validade da informação ou do argumento em si mesmas.

Esta é uma lista certamente não exaustiva de lida psicológica diante de aflição psico-cognitiva. Quem se lembrar de mecanismos ou táticas não discutidas aqui, por favor incluam-nos nos comentários abaixo, com breve descrição ou explanação para o benefício de todos.

É importante salientar que todos estamos expostos e vulneráveis a estas abordagens reacionais e irracionais, pelo simples fato de construção neuro-arquitetural. A importância de se discutir, explorar, e ilustrar tais desvantagens neuro-cognitivas é, justamente, aprender a estarmos mais conscientes deles e, dentro de limite do possível, em controle.

Reações Mórmons

Havendo discutido alguns dos mecanismos psicológicos pelos quais todos nós enxergamos o mundo, e que todos precisamos sobrepujar para levar uma vida mais ponderada e racional, ilustremos com reações concretas de Mórmons que leram a brincadeira em questão. Seria útil le-los com os critérios discutidos acima em mente, analisando quais destes mecanismos irracionais (e naturais) estão exibindo, como nós usamos os mesmos mecanismos episodicamente, e como eles poderiam ter reagido diferentemente se estivessem conscientes destes reflexos psicológicos.

Os comentários abaixo são retirados, sem edição (exceto um, que era longo e desconexo demais), daqui do site e do Facebook.

Como era de se esperar (embora ninguém aqui realmente acreditasse que a piada atingiria além dos nossos leitores usuais), muitos Mórmons perceberam imediatamente a piada.

Nem percam seu tempo. O link da matéria original dá num texto explicando sobre o dia da mentira. IÉ, IÉ! Pegadinha do Mallandro!!!

Impressionante como as pessoas acreditam cegamente nas notícias que encontram na internet.
Que essa sirva de lição.

Mas foi uma pegadinha de primeiro de abril bem legal. Como diria Silvio Santos: “bem bolado, bem bolado”.

Calma gente! O templo existe, os pesquisadores existem, mas foi exagerado um pouco pra virar uma brincadeira! Os contra que se acalmem, e nós, os “a favor” que demos risadas pois isso nao abala o nosso testemunho. bom dia a todos

qual a fonte ??? Nem o site oficial da igreja publicou isso ai, é por causa do 1º de Abril?

Seria legal se não fosse pegadinha de 1º de abril

A notícia é falsa. Se vc clicar no link da matéria original vai ver que é um texto sobre primeiro de abril! Eles publicaram essa matéria ontem no dia da mentira! Por favor, não a repassem mais!

Coloca-se uma notícia dessas logo no dia 01 de abril!
Assim eu desconfio…
rsrsrsrsrsr

Feliz Dia da Mentira 🙂

kkkkkkkkkkkkkk

As pessoas ainda criticam… Isso que dá serem crédulas, e não lerem o que é publicado, não usarem o raciocínio, e serem levadas somente pela emoção, aliás isso ocorre muito na igreja, basear crenças em achismos, ou em ouvi tal pessoa falar!

Infelizmente, a maioria dos Mórmons que leu o artigo — ou mais provavelmente, o título do artigo — acreditou na notícia… com entusiasmo.

MARAVILHOSO

VEJAM QUE GRANDE DESCORBERTA

Fico muito feliz com esta descoberta!

CHUPA! !

Toma

Show…

Agora quero ver algumas pessoas falarem que o Livro de Mormom foi inventado…

Não posso deixar de dizer “Ah, eu já sabia!”… Kkkk

Ainda tem gente que diz q livro de mormom não é verdadeiro…

A Igreja É Verdadeira

Eu acredito, é um estudo sério,o futuro dirá!

Mais comprovacoes da veracidade so Livro de Mormon.Muito legal, não que sejam necessárias comprovações científicas, mas para quem só “acredita vendo”, pense melhor.

mais uma prova para mostrar a veracidade de que A igreja de jesus cristo dos santos dos últimos dias é a única verdadeira

“E todos os povos ouviram e saberam que isso é verdade!”

Para os que tb querem provas cientificas de O Livro de Mórmon está ai mais uma! mas eu particularmente já sei que ele é verdadeiro sem precisar de provas científicas porque eu já o li inteiro e o espirito testificou a veracidade do livro. , mas essas provas cientificas tb é boa para confirmar oque já sabemos. Como diz nas escrituras: “Não obtereis testemunho senão depois da prova de vossa fé”

Na verdade existem muitos outros resquícios arqueológicos nas Américas da presença do cristianismo mesmo antes dos colonizadores do velho mundo…

E muitos outros, quer tenham acreditado ou não a princípio, decidiram tomar ofensa e proferir condenações.

Quero fazer um alerta. (E talvez isso seja polemico, mas não importa). Trata-se de meu posicionamento a respeito do blog “Vozes Mórmons”. Desculpe pelo tom de exortação. Mas senti a necessidade de manifestar-me sobre este assunto… distorcem a verdade, omitindo fatos históricos, citando assuntos polêmicos com referencias equivocadas, distorcendo a ordem dos acontecimentos e debochando da verdade revelada. Quando esses sites são claramente identificados como “anti-mormons” – não há tanto problema – pois se percebe, de pronto, qual a intenção dos autores.

Brincadeira infeliz, por se tratar de um site em quem deveria preservar a verdade…. Sinto mas não confiarei mais neste site que manipula informações com um cunho que deveria refletir sempre a verdade. Adeus site.

Nao e falta de humor. E sim ter consciencia de que isso pode servir como um prato cheio para os anti-mormons, jah q muitos mormons desavisados estao postando em seus Facebook achando a ‘veracidade do Livro de Mormon. ‘ Te liga. Esse tipo de brincadeira eh sem senso nenhum e nao tem graca!

Nossa, mancada de vocês… Tem gente publicando e compartilhando no face, isso pode gerar muita confusão. Quando dizerem e publicarem que é mentira, não vão divulgar do mesmo jeito.
Repetindo, pode causar muita confusão. Principalmente quando se trata da crença religiosa. Brincadeira pode ser feita, só se quem for vitimado seja o autor.

Palhacada….site podre…

Em nossa crença não se brinca com assunto sério, tão pouco achamos importante um dia da mentira, Os fatos e pessoas do Livro de Mormon só estão começando vir a tona, Por ai ainda vem muito mais, Abração pra quem dizia que ers mentira.

q otario

Muito decepcionada com esse site. Como podem brincar assim com as coisas do Senhor? É realmente uma pena ver isso!

Pode isso? se for pegadinha do blog não tem graça nenhuma? isto pode afetar seriamente a vida de milhares de pessoas não é coisa de se brincar.

Já fazem piada com tanta coisa sobre a Igreja. As pessoas estão compartilhando em redes sociais, prestando testemunho em cima dessa informação. Isso só vai fazer os membros sejam mais ridicularizados. Quem não é membro vai dizer… Esses mórmons acreditam em tudo mesmo. Eu acho que assuntos que tratam do Evangelho não devem ser envolvidos em nenhum tipo de brincadeira. É desrespeito. Não se trata de qualquer religião, é a Igreja verdadeira. Só isso.

Por que sera que essa informação só esta rolando aí no Brasil? Aqui nos EUA a BYU não anunciou tal coisa não. Mesmo com a maior das boas intenções, mentiras com o nome da igreja podem desonrar o bom nome da igreja. Se o mentiroso for pego corre o risco de ser escumungado e proscessado!

Nem Jesus Cristo agradou a todos…porisso sempre haverá polemica em relação a verdade encontrada…se acharem as placas de ouro e mostrarem para esses idiotas que não acreditam em nada, tb não vão acreditar que o livro de Mórmon foi escrito atravez dessas placas…infelizmente é assim mesmo…

Independente de provas científicas, a verdade é que o Livro de Mórmon é verdadeiro.

Um comentário, contudo, merece destaque por tentar amenizar a avalanche de reações negativas e contextualizar dentro de um paradigma de crença e fé que ajudasse os Mórmons indignados a manter suas crenças e ainda assim reagir racional e coerentemente.

Triste imaginar que tantos irmãos(a) que se dizem “fieis membros da única e verdadeira igreja viva sobre toda a face da terra” necessitem tão desesperadamente de evidências históricas que comprovem a autenticidade ou não do livro de mórmon. Como se ruínas,pinturas rupestres,ou qualquer outra comprovação histórica fizessem qualquer diferença em relação a “Fé”. É por isso que fico chocado com os comentários negativos sobre a “brincadeira” do Marcello, afinal se amanhã ou depois fossem encontradas a Arca da Aliança, o cajado de Moisés ou as ossadas de Cristo isto mudaria a fé Cristã ? seria mais ou menos verdadeira?

Considerações

Embora muitos Mórmons tenham percebido, e até achado graça, na brincadeira, é indiscutível que muitos mais ficaram mal-humorados e ranzinzas com ela, reagindo com tristeza, hostilidade, agressividade e até rudez. Além disso, a maioria absoluta simplesmente caiu na brincadeira, acreditando na notícia falsa e passando-a adiante com efusividade, isto não obstante a nota de rodapé claramente demonstrar que o artigo era falso!

O falso artigo de 01/04/2014 trazia um link para esta página como referência da notícia. Quantos leitores acessaram-na? 2 035, de bem mais de 20 000 acessos, ou menos de 10%!

O falso artigo de 01/04/2014 trazia um link para esta página como referência da notícia. Quantos leitores acessaram-na? 2 074, de bem mais de 27 000 acessos, ou menos de 8%!

Isto talvez seja um dos dados mais intrigantes em todo este episódio.   Menos de 8% dos 27 000 acessos diretos ao artigo se deram o trabalho de checar a fonte da notícia para averiguar sua procedência. E isso sem contar nas dezenas de milhares de pessoas que leram o título e chamada da matéria no Facebook e passaram-na adiante sem sequer checar o artigo em si.

Seria muito fácil dispensa-los como preguiçosos ou ignorantes, mas a verdade provavelmente é um pouco mais complexa do ponto de vista psicológico.

A realidade é que na cultura Mórmon dá-se uma importância exagerada à autoridades. Obediência cega aos líderes sem questionamento é a palavra de ordem, o que condiciona Mórmons a atribuirem relevância máxima à pessoas em posições de autoridade. Lê-se num artigo que autoridades (experts) em arqueologia encontraram algo, então não cabe discussão.

Esta ênfase em obediência a autoridade é muito útil em coesão social e em sucesso nas carreiras profissionais, além de ser muito propício para Pensamento de Grupo. Neste, condiciona-se a não questionar opiniões coletivas, por mais absurdas que possam ser. Não existe exemplo mais claro, para Mórmons, que a historicidade do Livro de Mórmon. O Livro de Mórmon postula que os Ameríndios são descedentes de Israelitas pré-Babilônicos, e o condicionamento coletivo de Pensamento de Grupo impossibilita o indivíduo Mórmon de questionar esta postulação. Como não há nem uma única peça de evidência arqueológica, linguística, literária, biológica, genética, ou histórica que apoie tal postulado, esta crença gera uma quantidade exagerada de dissonância cognitiva quanto mais se enfatiza importância nela. Tamanha dissonância explicaria qualquer busca angustiada por alívio, na forma de informações novas que reduzam-na — assim como uma pessoa afogando se debate intensamente por uma bóia.

Esta foto está correndo pelas redes sociais esta semana antes da Conferência Geral. Quantos Mórmons não acreditaram que não é uma montagem?

Esta foto do lutador Anderson Silva está correndo pelas redes sociais esta semana antes da Conferência Geral. Quantos Mórmons não acreditaram que não é uma montagem?

O descuido para checar a procedência e relevância da notícia espúria é inteiramente compreensível por causa do viés de confirmação. Como se trata de uma notícia que confirma, ao invés de desconfirmar, uma crença pessoal importante e íntima — especialmente uma que gera grandes quantidades de dissonância cognitiva — não há realmente necessidade de checa-la. Sabe-se, intimamente, que é válida. Esta é, no final das contas, a natureza irracional e ilógica destes mecanismos psicológicos para redução de dissonância, confirmação da identidade de grupo, e do indivíduo (através do efeito de Forer).

Um observador neutro recomendaria reestruturação das crenças irracionais que causam tamanha dissonância cognitiva, mas além dos problemas pessoais (i.e., efeito de Forer e viés de confirmação), seria necessário, neste caso, vencer obstáculos coletivos enormes que, por serem coletivos, exponeciam-se. Pensamento de grupo, modelado por décadas de condicionamento e reforço, e estruturados por obediência à autoridade torna o paradigma quase que insuperável, ao menos em âmbito individual.

As reações, especialmente as negativas, oferecem ainda mais confirmação para os modelos psico-cognitivos construidos acima. Conflitados entre o forte desejo do viés de confirmação e repulsados pela dolorosa desconfirmação que apenas serve para ressaltar a sempre presente dissonância cognitiva, reduz-se-la através de polarização de atitudes reforçada por ilusão de compreensão, colorida com uma agressividade ad hominem para selar e isolar a dissonância o mais hermeticamente possível.

Infelizmente, o grande problema é que tais mecanismos psicológicos apenas apresentam uma ilusão de conssonância cognitiva e falsa sensação de harmonia coletiva. O grande problema de deserção na Igreja é apenas um sintoma desta desarmonia coletiva — e a resposta não é intensificar o pensamento de grupo e o foco em obediência a autoridades. A solução, complexa por natureza, incluiria uma reestruturação de paradigmas de modo a permitir maior flexibilidade intelectual e social e uma avaliação mais honesta, aberta, e auto-reflexiva, tanto do indivíduo, como do coletivo.

Enquanto se insiste nos modelos cognitivos antigos e ultrapassados, expõe-se os Mórmons a uma ingenuidade social e puerilidade intelectual que os deixa presas fáceis a todo tipo de embustes, mesmo os de Primeiro de Abril!

Conclusão

A brincadeira expôs algumas angústias e ansiedades latentes na comunidade Mórmon brasileira e, talvez por preencher esta lacuna, atingiu sucesso em se auto-propagar dentro da comunidade. Estas angústias e ansiedades têm raízes em falhas (pessoais e comunitárias) de treinamento e educação em pensamento crítico, raciocínio lógico, e auto-reflexão.

Leitura e educação em técnicas e abordagens acadêmicas e racionais, pensamento crítico, e mecanismos lógicos para lidar com estresse cognitivo focando em falhas de viés, falácias lógicas, e ilusões psicológicas ajudariam a remediar e reduzir tais angústias e ansiedades. Tal exercício poderia, até, ajudar a fomentar uma fé revigorada e mais saudável, tranquila numa coerência mais racional e lógica. Aqui seria um bom lugar para se começar.

Enquanto ponderamos os motivos e os significados desta brincadeira Mórmon de Primeiro de Abril, alguém poderia se voluntariar para inclui-la na lista de “peças do dia da mentira que ficaram famosas“?

53 comentários sobre “Primeiro de Abril

  1. Me lembrou uma vez que quando eu abençoava o sacramento, eu e meu amigo Mestre tinhamos o costume de pegar um pedaço do pão pra comer depois durante a sacramental e cortava o restante pra congregação. Acontece que uma vez o pão distribuido pelos diaconos estava acabando e não ia dar para todo mundo. O Bispo então pediu para os diaconos voltarem para eu e meu amigo cortar em mais pedaços. Então sem que ninguém percebesse, peguei um pão escondido debaixo da mesa, coloquei na bandeja e cortamos um monte de pedaços. Como era reunião de testemunho, um irmão se levantou e disse no pulpito: “Hoje testemunhamos um milagre. O pão do sacramento foi multiplicado”. O que eu vejo é tanta expectativa de acontecer uma grande coisa como uma descoberta cientifica, um exorcismo, ver um anjo no templo, que dá a impressão que não acreditam de verdade no que pregam

    • Peri Barros, eu li 10 vezes seu comentário. ele foi ótimo. parece que não acreditam em nada tamanha escassez de evidências.

    • Porque eu não achei inteiramente relevante. Todas as vezes que eu chequei, o link me levava para a página correta (ver print screen incluído acima). O mesmo número de pessoas que se queixaram do link escreveu dizendo que, para elas, o link funcionava normalmente. E, mais importantemente, menos de 8% das pessoas que acessaram o artigo no site sequer tentou checar o link! Isso sem falar que a maioria das pessoas que leram a “notícia” o fez direto do Facebook, sem sequer se dar o trabalho de acessar o artigo. Levando tudo isto em consideração, a quantidade de pessoas (como você) que tiveram problemas com o link é uma minoria tão baixa que não representa relevância estatística — isto é, mesmo que exageremos muito pra cima, o problema pode ter afetado entre 0,5 e 4% de todas as pessoas que leram (e compartilharam) a “notícia”, mas provavelmente menos. Não alterou significantemente a evolução dos eventos.

      • Esta brincadeira também contribuiu estatisticamente para comprovar que não só a maioria dos membros da igreja sequer checam as fontes como também a maioria dos que se dizem leitores na internet checam fontes das notícias ou leem a matéria por completo. Percebo exatamente isso quando acesso as páginas da Folha de SP, O Estadão e a Veja no facebook, a maioria das pessoas opinam e tiram conclusões próprias e precipitadas apenas por julgarem a imagem e o título da matéria sem ao menos sequer terem o mínimo senso de clicar no link para lerem a matéria por completo para depois, claro, opinarem sobre o assunto.

      • Vi vários compartilhamentos e fui chegar e vi que era uma brincadeira, na mesma hora fui avisando as pessoas que compartilharam. Isso é um mal que acontece com a maioria das pessoas, não só membros da igreja, saem compartilhando tudo que leem. É sempre bom verificar uma informação em várias fontes.

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