“No oeste americano a história de uma cidade se confunde com a de uma religião”.
Assim comenta a jornalista Ana Paula Padrão antes de uma reportagem sobre os mórmons de Salt Lake City. Hoje é uma data especial para cidade e o estado, que em 04 de janeiro de 1896 se tornaria o 45º estado da União dos Estados Unidos da América. De fato, esse não era o ideário da companhia pioneira de Brigham Young na constituição de sua república Mórmon.

Em 24 de julho quando Young chegou ao Vale Salgado declarou aquele pequeno grupo:
“Se o povo dos Estados Unidos nos deixar em paz por dez anos, não teremos que pedir qualquer privilégio especial a eles”.[1]
Para a surpresa daqueles membros, apesar do território ser pertencente ao México, 6 meses depois seriam anexados aos EUA. Os anos em que Young foi presidente da Igreja apesar da pressão do governo, o casamento plural e o sonho de um dia se tornarem uma República manteve vivo. O manual ‘Ensinamentos dos Presidentes da Igreja Brigham Young’ na pág. 10 diz:
“Durante muitos anos, Brigham Young serviu na região denominada Deseret (que posteriormente viria a tornar-se o Estado de Utah) como governador territorial e superintendente de assuntos indígenas. Mais tarde, foi substituído por homens nomeados pelo governo federal. Brigham passou anos tentando resolver conflitos entre os santos dos últimos dias e o governo dos Estados Unidos referentes ao desejo dos santos de alcançarem independência política. Enfrentou críticas e escárnio de ministros religiosos, jornalistas, reformadores e políticos que atacavam os santos e o próprio Brigham por causa das crenças religiosas e práticas sociais, econômicas e políticas que exerciam. No entanto, tais dificuldades não alteraram sua clara compreensão da necessidade de “fazer santos” e desse modo construir Sião. (…)
O Presidente Young sabia que Sião não poderia ser construída somente por meio de trabalho árduo. Sião deveria ser dirigida por intermédio do sacerdócio, que ele sabia ser o ‘Governo do Filho de Deus’.”
Foi então na presidência de John Taylor que em 1882, o sonho foi se tornando um pesadelo com a Lei Edmunds que era contra a simples coabitação ilegal. O simples fato de sustentar mais de uma mulher já considerava um criminoso. A lei tirou direitos civis e fez com que membros se tornassem inelegíveis para cargos públicos e políticos. Em 1887 com Wilfford Woodruff a situação se agravou de vez com a Lei Edmunds-Tucker que fez com que todos os casamentos deveriam ser registrados, mulheres perderam o direito de votar, a educação passou a ser um sistema público. A Igreja perdeu sua condição de entidade jurídica além de ter os bens confiscados pelo governo federal.
Em 1890 após muitas disputas o Manifesto foi declarado na Conferência Geral em 06 de outubro. Assim estava decretada a rendição ao governo norte-americano. Apesar desse passo que consolidava a vitória do congresso e dos Republicanos, Woodruff no final de seu discurso declarou sua defesa:
“Quero dizer a toda Israel que o passo que tomei ao lançar esse manifesto não aconteceu sem que eu tivesse orado fervorosamente ao Senhor. Estou prestes a ir-me para o mundo espiritual, assim como outros homens de minha idade. Espero encontrar-me face a face com meu Pai Celestial – o Pai de meu espírito; espero encontrar-me face a face com Joseph Smith, Brigham Young, John Taylor e outros apóstolos. Eu preferia ser morto a tomar uma posição que desagrade a Deus ou os céus. Minha vida não é melhor do que a de outros homens. Não ignoro os sentimentos despertados pelo curso que escolhi. Cumpri meu dever, e a nação da qual fazemos parte tem de ser responsável pelo que foi feito no tocante a esse princípio.” [2]
Após isso parte das perseguições cessaram e o governo se manteve disposto a anexar o Território como estado. Para isso em 1891 foi dissolvido o Partido do Povo que era da Igreja e os membros tiveram que se filiar aos Democratas ou Republicanos. Muitos eram adeptos das idéias dos Democratas, mas a maioria se filiou aos Republicanos mesmo sendo os maiores responsáveis pelo fim do casamento plural.
Os anos de 1893 a 1895 brindou o fim do Território com a devolução das propriedades confiscadas pelo governo e a conclusão do Templo de Salt Lake City. Nesse período membros trabalharam muito para uma constituição da qual tornava crime a poligamia além de tornar o Estado laico, ou seja, separar a Igreja SUD de decisões políticas. Então no começo do ano de 1896 após 38 anos e 6 meses Utah se tornava um estado tendo o Republicano e mórmon Heber Manning Wells (1859-1938) como seu primeiro governador. Até os dias atuais foram 17 governadores sendo a maioria Republicanos e apenas 2 não mórmons e uma mulher.
A população as vezes parece que não conhece ou se esqueceu de todos esses detalhes e do ideário do pioneirismo mórmon. A população é muito patriota inclusive líderes mórmons como o presidente Ezra Taft Benson. Após 120 anos ficam as pergunta no ar: Essa data deve ser um dia decomemoração ou de tristeza para a população SUD?
Referências:
[1] Journal of Discourses, 5:226.
[2] Millennial Star, 24 nov. 1890, p. 739.
Reportagem SBT Brasil:
Concordo com você Richard e a história tá ai pra nos mostrar isso, não sei qual seria a forma ideal pois todas elas precisam do ser humano para dirigi-las, com ou sem religião já sabemos do mal que ele pode causar tendo o poder nas mãos. Quanto a pergunta do post, acho que os líderes fracassaram e foram derrotados em seus ideais e junto com eles os planos de Deus, portanto uma data para ser lamentada já que o Reino de Deus na terra não se concretizou, continuamos ainda apenas com a sua igreja. (podemos também olhar isso pelo lado positivo, claro)
Esse é o ponto Madaleudo, oque será que Deus pensa sobre seu ” reino “?. Jesus fala por meio de uma sequencia de parábolas em mateus 13 e nenhuma delas parece ter a configuração de um reino terrestre no sentido que conhecemos. No livro de mórmon observasse o tempo todo, uma certa critica a reinados ou impérios dirigidos por soberanos absolutos. De fato, numa das historias mais lindas do livro observamos o rei Benjamim, e a descrição sobre seu governo, e fica claro que o mesmo não segue nenhum modelo monárquico semelhante. Acredito que seu reinado divino supera e muito nossa atual compreensão e modelos terrestres falidos.
“O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui”.-João 18:36
Neste versículo o Salvador declara que seu reino não é deste mundo físico. O Elder Ronald E. Poelman em 1984 no discurso: “O Evangelho e a Igreja” declarou que a Igreja é “uma instituição divina”. Sim, nos tempos de Joseph Smith e Brigham Young a Igreja era uma organização divina e o reino de Deus um governo teocrático ou “teodemocrático” como dizia Smith.. O mais interessante para mim é que a implementação desse plano foi algo muito secreto pelo Conselho dos 50.
Por fim, Utah apesar de teoricamente ser um estado laico, a Igreja e cultura mórmon tem grande influencia local.