A posição da mulher na doutrina mórmon ganhou uma reflexão especial pela pena de John Taylor. Morando em Nova York para editar o jornal The Mormon, na década de 1850, John Taylor conheceu a jovem e bela Margaret Young (sem parentesco com Brigham), então com vinte anos. Transformando em artigo do seu jornal parte do que havia escrito em cartas de amor a Margaret, Taylor publicou, em 1857, Origem e destino da mulher, traduzido abaixo. Em setembro de 1856, Margaret havia se tornado esposa plural de John Taylor, com quem ainda teria nove filhos.
Que ideias no texto de Taylor a respeito da mulher seriam hoje um ar fresco na teologia sud atual? Que ideias não fazem mais sentido fora do contexto histórico original? Que doutrinas ensina John Taylor que chamam sua atenção, leitor(a)?
Com a palavra, John Taylor.
Origem e destino da mulher
Os santos dos últimos dias têm sido ridicularizados muitas vezes por sua crença na pré-existência dos espíritos e por casar para o tempo e toda eternidade, sendo ambas doutrinas bíblicas. Somos frequentemente requisitados a dar nossa visão com relação a esses princípios, mas considerando que as coisas do Reino pertencem aos filhos do Reino, não são, portanto, para serem dadas àqueles que não o têm. Mas tendo sido gentilmente requisitado por uma senhora (membro da Igreja), há alguns dias, para responder as seguintes questões, não poderíamos realmente recusar, quais sejam: “De onde vim? O que faço aqui? Aonde vou? E qual meu destino depois de obedecer a verdade e perseverar até o fim?”.
Para seu benefício e de todos os interessados, tentaremos responder brevemente as perguntas como as entendemos. A razão será evidente para nossa crença na pré-existência dos espíritos e no casamento para o tempo e toda eternidade.
Senhora, de onde vieste? Qual tua origem? O que fazes aqui? Aonde vais e qual teu destino? Diga se tens entendimento. Não sabes que és uma centelha da Deidade, saída de Seu eterno braseiro e trazida em meio do eterno fulgor?
Não sabes que nas eternidades passadas, teu espírito, puro e santo, habitava no seio do teu Pai Celestial, e em sua presença, e com tua Mãe, uma das rainhas do céu, cercada por teus espíritos irmãos e irmãs, no mundo espiritual entre os Deuses? Que à medida que teu espírito contemplava as cenas que lá transpiravam e tu crescias em inteligência, viste mundos após mundos serem organizados e povoados com teus espíritos semelhantes que tomaram sobre si tabernáculos, morreram, foram ressuscitados e receberam sua exaltação nos mundos redimidos sobre os quais haviam habitado. Estando disposta e ansiosa para imitá-los, esperando e desejando obter um corpo, uma ressurreição e também uma exaltação, e tendo obtido permissão, fizeste um convênio com um dos teus espíritos semelhantes para ser teu anjo da guarda enquanto na mortalidade, também com outros dois espíritos, homem e mulher, de que virias e tomaria um tabernáculo pela sua linhagem e tornar-se-ia sua descendência. Também escolhestes um espírito semelhante a quem amaste no mundo espiritual (e que também teve permissão para vir a este planeta e tomar um tabernáculo) para ser teu cabeça, apoio, marido e protetor na terra e exaltar-te nos mundos eternos.
Tudo isso foi arranjado, assim como os espíritos que nasceriam por meio da tua linhagem. Almejaste, vislumbraste e oraste ao teu Pai no céu para chegar o tempo em que poderias vir a esta terra, que havia saído e caído de onde fora primeiramente organizada, próxima ao planeta Colobe. Com o tempo, chegou o momento e ouviste a voz de teu Pai dizendo: “vai, filha, habitar o mundo abaixo e tomar sobre ti um tabernáculo e operar teu estado probatório com temor e tremor e te levantar para a exaltação. Mas lembra, filha, que tu vais na condição de esquecer tudo o que já viste ou soubeste acontecer no mundo espiritual: não saberá ou lembrarás de nada concernente ao que viste ocorrer aqui; mas deves ir e tornar-se um dos seres mais indefesos que criei enquanto em tua infância, sujeita à doença, à dor, às lágrimas, ao luto, ao pesar e à morte. Mas quando a verdade tocar as cordas do teu coração, elas vibrarão; então, a inteligência iluminará tua mente e derramará seu esplendor em tua alma e começarás a compreender as coisas que antes sabias mas que se haviam ido; começarás, então, a entender e conhecer o objetivo da tua criação. Filha, vai e seja fiel como tens sido em teu primeiro estado”.
Teu espírito, repleto de alegria e gratidão, regozijou-se em teu Pai e rendeu louvor a seu santo nome, e o mundo espiritual ressoou em hinos de louvor ao Pai dos espíritos. Tu te despediste de teu Pai e tua Mãe e de todos e, junto com teu anjo da guarda, vieste a este globo perigoso. Tendo os espíritos que havias escolhido para tomar um tabernáculo através da sua linhagem e teu cabeça deixado o mundo espiritual alguns anos antes, vieste um espírito puro e santo. Tens obedecido a verdade e teu anjo da guarda ministra a ti e te guarda. Escolheste aquele que amavas no mundo espiritual para ser teu companheiro.
Agora, coroas, tronos, exaltações e domínios estão em reserva para ti nos mundos eternos e o caminho está aberto para retornares à presença do Pai Celestial, se apenas obedeceres e caminhares na lei celestial, cumprires os desígnios do teu criador e resistires até o fim, quando a mortalidade é posta na tumba, poderás descer à tua sepultura em paz, surgir em glória e receber tua recompensa eterna na ressurreição dos justos, junto com teu cabeça e marido. Ser-te-á permitido passar pelos Deuses e anjos que guardam os portões, e adiante, e acima, para tua exaltação em um mundo celestial entre os Deuses. Para ser uma sacerdotisa e rainha no trono do teu Pai Celestial e uma glória para o teu marido e a tua descendência, para conceber as almas dos homens, povoar outros mundos (como concebeste seus tabernáculos na mortalidade), enquanto eternidades vêm e vão; e, se aceitares, senhora, isto é vida eterna. E aqui é cumprido o dito do Apóstolo Paulo de que “o homem não é sem a mulher, nem é a mulher sem o homem no Senhor”. “Que o homem é o cabeça da mulher e a glória do homem é a mulher.” Portanto, tua origem, o objetivo do teu destino supremo. Se fores fiel, senhora, a taça está ao teu alcance; bebe, então, do elixir celestial e vive.
Origin and destiny of woman, publicado originalmente no periódico The Mormon, em 29 de agosto de 1857, Nova York. Tradução de Antônio Trevisan Teixeira.
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O curioso, José Carlos, é que a ideia que escolhemos nossos pais/progenitores sobreviveu de certa forma como uma crença de alguns sud. Eu pelo menos já ouvi isso algumas vezes de pessoas diferentes, em discursos ou testemunhos. Mas nunca ouvi na Igreja uma pessoa falando que escolhíamos os cônjuges. Como o universo das crenças não obedece sempre a uma lógica, não se elabora como o filho escolhe os pais sem que os pais tenham se escolhido, etc.
Enfim, seria interessante saber como essa doutrina foi difundida ao longo do tempo.
Antônio,
Você sabe quem teria iniciado essa ideia? Ninguém menos que Joseph Smith, em Nauvoo, com a chamada doutrina de “almas gêmeas”. Temos 3 ou 4 testemunhas disto
E imagino que você sabia, ou imagine, o contexto, do surgimento dessa doutrina? Poliandria.
Verdade, Marcello. Remonta a Joseph Smith e John Tayor deve ter aprendido como instrução pessoal ou – especulando aqui – num dos quóruns desenvolvidos em Nauvoo. Como a doutrina em questão foi ensinada por Joseph Smith de forma muito privada, sabemos dela pelo testemunho das esposas plurais ou de outros homens mais próximo de Joseph que provavelmente ouviram isso dele. No entanto, John Taylor é um dos poucos – até onde sei – que colocaram a doutrina no papel de forma explícita.
Elizabeth Lightner, por ex., disse que de acordo com Joseph, “eu era dele antes de vir aqui”.
Durante o funeral de Elizabeth A.Whitney, uma das esposas plurais de Joseph Smith, seu sobrinho Joseph F. Smith disse que
“(. . .) as mulheres que entraram em casamento plural com o Profeta Joseph Smith foram mostradas a ele já em 1831 (…) E quando o Senhor mostrou essas mulheres a Joseph, algumas delas sequer conheciam a Igreja, muito menos ele.” (Journal History, 17 de fevereiro de 1882)
A referência ao ano 1831 é muito interessante porque é o mesmo ano em que Joseph recebe a revelação sobre o casamento com “as filhas dos nefitas e lamanitas”.
Mais tarde, Brigham Young também vai fazer uma referência a esses convênios antes desta mortalidade numa revelação sobre a lei da adoção. Em Winter Quarters, Brigham relatou uma visão de Joseph Smith, para quem ele teria feito a seguinte colocação:
“Os irmãos têm uma grande ansiedade para compreender a lei de adoção ou os princípios de selamento; e se você tiver uma palavra de conselho para mim, estarei feliz em recebê-la”
Joseph respondeu da seguinte forma:
“´Não esqueça de dizer às pessoas para manter o Espírito do Senhor; e se assim fizerem, eles se encontrarão tal como foram organizados por nosso Pai nos Céus antes de virem ao mundo. Nosso Pai nos Céus organizou a família humana, mas todos estão desorganizados e em grande confusão´. Joseph mostrou-me então o padrão, como eles estavam no início.” (Manuscript History of Brigham Young, 23 February 1847; Church Historians Office)
Na minha opinião leiga, não considero ‘apostasia’ o texto de John Taylor. Mesmo tendo lido discursos de Bruce R. McConkie dizendo que nós escolhemos o nosso cônjuge e que não existe predestinação neste caso, e o atual apóstolo Dieter F. Uschtdorf dizer em um discurso do SEI que não existem ‘almas gêmeas’, não discordo da visão de John Taylor porque tenho minhas experiências espirituais principalmente com relação ao meu cônjuge. Nossas bênçãos patriarcais … enfim conforme vamos amadurecendo em nosso relacionamento vejo que a mão do Senhor esteve desde o início na nossa vida. Um dia saberemos a verdade e espero que John Taylor esteja 100% correto.
E a propósito não sou nenhuma apóstata e nem prego estas coisas em público, mas a medida que obtenho conhecimento algumas coisas se tornam claras e o Espírito Santo confirma se são verdadeiras ou não. Sinto muito bem com a posição deste líder a respeito deste assunto.
Obrigada por disponibilizar estes materiais em português Antonio Trevisan Teixeira.
Estamos aqui para isso, Karine. No que se refere a doutrinas, acredito que somos convidados a provar todas as coisas e receber revelação pessoal a respeito do que é verdadeiro ou não. Abraços!