Desafio de História Mórmon: Carta de Joseph Smith

O Profeta Joseph Smith escreveu essa carta no dia 11 de abril de 1842. Embora trate-se de correspondência pessoal, ela foi publicada pela Igreja na História da Igreja (vol. 5, pp. 134-136)

Pintura entitulada 'Joseph Smith Pregando aos Lamanitas' por William Armitage (1890)

“Aquilo que é considerado errado em uma circunstância pode ser, e freqüentemente é, correto em outra.” — Joseph Smith (Pintura intitulada ‘Joseph Smith Pregando aos Lamanitas’ por William Armitage, 1890)

Para quem ele escreveu e enviou essa carta?

Qual o seu contexto histórico?

O que Joseph Smith queria expressar com essa carta?

Qual o seu resultado imediato?

Como o contexto altera a interpretação do seu conteúdo?

Anote suas respostas (ou hipóteses) na seção de comentários abaixo.

A felicidade é o objeto e a meta final de nossa existência; E será a sua finalidade, se perseguimos o caminho que nos leva à ela; E este caminho é a virtude, a retidão, a fidelidade, a santidade, e o guardar todos os mandamentos de Deus. Mas nós não podemos guardar todos os mandamentos de Deus sem conhecê-los primeiro, e não podemos esperar conhecer todos, ou mais dos quais já conhecemos, a menos que nos subjuguemos a ou guardemos aqueles que já recebemos. Aquilo que é considerado errado sob uma circunstância pode ser, e frequentemente é, correto sob outra.

Deus disse ‘Não matarás’; Em outro tempo Ele disse ‘Destruirás completamente’. Este é o princípio sobre o qual o governo do céu é conduzido – por revelação adaptado às circunstâncias nas quais os filhos do reino se encontram. O que quer que Deus requira é o correto, não importa o que seja, mesmo que não vejamos a razão daquilo até muito tempo depois que os eventos ocorreram. Se buscarmos primeiro o reino de Deus, todas as coisas boas nos serão adicionadas. Tanto como com Salomão, primeiro ele pediu por sabedoria, e Deus assim o deu, e com isso todo o desejo de seu coração, assim como com coisas que podem ser consideradas abomináveis para todos os que compreendem a ordem do céu apenas em parte, mas que na realidade são corretas porque Deus as deu e as sancionou através de revelação especial.

Um pai pode açoitar uma criança, e bem justificado, por haver roubado uma maçã; Enquanto se a criança tivesse pedido pela maçã, e o pai lhe-a dado, a criança teria comido a maçã com um melhor apetite; Não haveria açoites; Toda o prazer da maçã teria sido assegurado, e toda miséria do furto desaparecido.

Esse princípio será justamente aplicado a todas as interações de Deus com Seus filhos. Tudo que Deus nos dá é legal e correto; E é justo que gozemos de Seus presentes e Suas bençãos quando e onde Ele se dispuser a nos presentear; Mas se nos apropriarmos destas mesmas bençãos e prazeres sem a lei, sem revelação, sem mandamento, estas bençãos e prazeres se tornarão em maldições e condenações no fim, e nos prostraremos em tristeza e lamúrias de arrependimento eterno. Mas na obediência há alegria e paz imaculada e imperturbada; E conquanto Deus nos designou nossa felicidade – e a felicidade de todas as Suas criaturas, Ele nunca instituiu – Ele nunca instituirá uma ordenança ou um mandamento a Seu povo que não seja calculado em sua natureza a promover a felicidade que Ele preparou, e que não terminará na maior quantia de bem e glória para todos que sejam os recepientes da Sua lei e ordenanças. Bençãos oferecidas, porém rejeitadas, não serão mais bençãos, mas se tornam como o talendo escondido na terra pelo servo iníquo e preguiçoso; O bem investido retorna a seu doador; A benção é distribuída para aqueles que a receberão e aproveitarão; Pois para aquele já tem que lhe é dado, e que tem em abundância, porém para aquele que não lhe é dado ou que não recebe, ser-lhe-á tirado o que tem, ou o que poderia ter tido.

Sê sábio hoje, é loucura postergar
No dia següinte o precedente fatal pode reclamar.
Assim com que na sabedoria se perde no tempo
Por toda eternidade.

Nosso Pai Celestial é mais liberal em Seus pontos-de-vistas, e mais infinito em Suas misericórdias e bençãos, do que nós somos capazes de crer e receber; E, ao mesmo tempo, Ele é mais terrível nos obreiros de iniquidade, mais horrível nas execuções de Suas punições, e mais preparado para detectar toda falsidade, do que nós somos capazes de supor que seja. Ele se deixará ser questionado por Seus filhos. Ele diz: ‘Peça e ser-lhe-á dado, busque e encontrará.’ Mas se tomar para si aquilo que não lhe pertence, ou o que Eu não lhe dei, será recompensado de acordo com suas ações; Mas de nada de bom lhes privarei aqueles que caminham eretos diante de mim, e fazem Minha vontade em todas as coisas – que ouvirão Minha voz a voz do meu servo a quem enviei; Pois Eu me deleito naqueles que buscam diligentemente conhecer Meus preceitos, e viver a lei do Meu reino; Pois todas as coisas serão reveladas a eles no Meu próprio tempo, e no final terão alegria.”

7 comentários sobre “Desafio de História Mórmon: Carta de Joseph Smith

  1. Caro Jocimar

    Podemos confiar nessas informações históricas?, por esse contexto a imagem de Joseph passa a ser no mínimo a de um canalha e hipócrita o que é complicado numa posição de um representante de Deus ou isso se encaixa na afirmação de que depende das circunstâncias.

    Sobre essa afirmação de que: “Aquilo que é considerado errado sob uma circunstância pode ser, e frequentemente é, correto sob outra.” Mereceria uma discussão neste post. Isso me lembra a história de Abraão no Egito ao mentir dizendo que Sara era sua irmã, como tantas outras nas escrituras que parecem confirmar o que foi expresso na carta de Joseph.

    • Madaleudo, a primeira fonte de publicação do texto dessa carta, dentre os contemporâneos de Joseph, é de autoria de John C. Bennett em seu livro “History of the Saints”. Por outro lado, a carta original de Smith nunca foi encontrada, o que colocou em xeque a veracidade da carta e das alegações publicadas por Bennett em seu livro. Sobre esse ponto, o historiador americano Devery S. Anderson, em seu artigo intitulado “’I Could Love Them All’: Nauvoo Polygamy in the Marriage of Willard and Jennetta Richards” publicado na revista “Sunstone” diz:

      “Embora o relatório de Bennett tenha seu viés, muitos de seus principais elementos foram confirmados por fontes tanto amigáveis quanto hostis. […]”

      “O texto original da carta “Felicidade” de Smith nunca foi encontrado e a autenticidade da transcrição de Bennett foi desafiada. No entanto, uma carta que [Willard] Richards escreveu à Jennetta alguns meses antes, em fevereiro de 1842, empresta à transcrição alguma autenticidade e dá uma visão sobre o estado de seu casamento de longa distância.”

      Anderson diz que Richards escreveu uma carta por mês entre os meses de setembro de 1841 até janeiro de 1842. Não se tem registros de que Richards tenha escrito mais cartas para sua esposa após o mês de janeiro; além disso, há uma grande lacuna no diário de Richards compreendendo os períodos de janeiro a julho de 1842 que dificulta sabermos se realmente Richards escreveu alguma carta para a esposa entre esse meio tempo.

      Segundo o que se encontra escrito no já referenciado livro de Bennett, a carta Nancy Rigdon foi ditada por Joseph Smith e escrita por Willard Richards. É relevante sabermos disso porque entre as correspondências que Richards enviava para sua esposa Jennetta, havia diversas passagens notoriamente semelhantes quando comparadas com a carta publicada por Bennett. Em suma, Anderson conclui que Willard Richards “estava familiarizado com a linguagem e os conceitos encontrados na carta Nancy Rigdon, que ajuda a verificar a sua autenticidade”.

      Se confrontarmos as datas das cartas em que Richards escrevia para sua esposa (a última registrada é de 22 de janeiro de 1842) e a provável data em que Joseph concebeu a carta para Nancy Rigdon (não antes de 9 de abril de 1842), veremos que há uma diferença considerável entre elas. Vejamos o que Anderson diz:

      “Uma cópia da carta Nancy Rigdon existe no livro a carta de Joseph Smith sob o título “A carta de Joseph Smith para Nancy Rigdon” e é atribuída a data de janeiro de 1842. Caso esta data esteja correta, então Richards teria tomado o seu ditado antes de escrever a Jennetta em Fevereiro. Outras fontes sugerem que a carta Nancy Rigdon não foi escrita antes de 09 de abril, porque as referências de “felicidade” foram feitas para espelhar frases similares utilizadas por Sidney Rigdon em seu sermão no funeral onde Marinda Hyde primeiramente se aproximou de Nancy Rigdon. Mas, mesmo que a carta Nancy Ridgon não tivesse sido escrita até o momento em que Joseph começou a propor a Nancy, ele já poderia ter vindo a utilizar esse tipo de linguagem e conceitos para convencer os Doze para aceitar o casamento plural.”

      Vale ressaltar que Bennett, antes amigo de Joseph, possuía um forte sentimento de inimizade para com ele. Para a Igreja em geral, Bennett tornou-se muito hostil devido suas muitas investidas contra a Igreja e a moralidade de Joseph, por exemplo, acusando-os de prostituição, adultério, conspiração etc.

      Apesar de Bennett não gozar de credibilidade entre os santos fiéis, podemos dizer que hoje não se busca discutir se a carta publicada por Bennett é legitima, legitimidade essa que é reconhecida pela maioria dos historiadores, mas sim o contexto em que Bennett a expôs em seu livro. Muitos estudiosos sud acreditam que Bennett tenha fabricado muitas de suas declarações com o objetivo de difamar e infamar Joseph Smith, uma vez que, segundo esses estudiosos, são escassas as informações sobre os eventos que sucederam o convite de casamento plural feito por Joseph à Nancy, e posteriormente, no recebimento da carta pela senhorita Rigdon. Todavia, vale lembrar que muito dos argumentos contra a veracidade das alegações de Bennett são de apologistas da Igreja, onde que dificilmente uma posição em favor de Bennett seria destacada.

      O historiador Richard S. Van Wagoner em seu livro “Sidney Rigdon: A Portrait of Religious Excess”, traz detalhes adicionais sobre o episódio da carta na residência de Orson Hyde; mas segundo apologistas sud, como Wagoner se vale de declarações de críticos da Igreja daquela época para fundamentar sua defesa em relação à boa índole de Nancy Rigdon, não lhe é dado o crédito devido em relação a esse ponto.

    • Madaleudo, de fato, seria interessante relacionarmos as justificativas de Joseph, sob a perspectiva de certos atos de líderes e patriarcas das escrituras.

      Uma vez que você tenha mencionado o exemplo de Abraão, se formos buscar uma defesa da integridade desse patriarca (conforme consta no relato de Gênesis 12: 10-20), sob a perspectiva da argumentação mórmon desse episódio, veremos que um dos sustentáculos de defesa da retidão de Abraão é justamente fundamentado nas declarações que Joseph se valeu no momento em que ele buscou justificar a poligamia para a jovem Nancy. A título de exemplo, no manual do aluno “O Velho Testamento – Gênesis a II Samuel” na p. 63-64, no tópico “(5-5) Gênesis 12: 10-20. Por Que Abraão Disse que Sara Era Sua Irmã?” Podemos ler que parte do argumento central da defesa de Abraão foi justificado citando a mesma carta doutrinária que Joseph enviou à Nancy Rigdon.

      Não vou entrar no mérito da questão se Abraão mentiu ou não mentiu para livrar-se de uma possível morte. Há argumentos sólidos tanto por parte de quem acusa Abraão de mentir quanto daqueles que procuram defender sua integridade. O que nos importa compreender neste momento, é como a doutrina mórmon se valeu desses episódios ambíguos do passado bíblico para se buscar uma justificação, diante do estabelecimento de uma doutrina de difícil aceitação, como a da poligamia.

      A carta remetida para Nancy Rigdon nos dá a entender que, quando a poligamia apenas começou a ser introduzida entre as pessoas que compunham o círculo de amizade mais intimo de Joseph Smith, uma das ferramentas mais persuasivas que Joseph poderia se valer para enriquecer sua retórica era se voltar para o passado e buscar justificar suas pretensões embasadas em experiências de patriarcas e antigos líderes bíblicos; mesmo que essas experiências apresentassem ambiguidades. Talvez essas ambiguidades fossem exatamente o que ele precisava para tornar possível um precedente que legitimasse seu discurso de que “Aquilo que é considerado errado sob uma circunstância pode ser, e frequentemente é, correto sob outra.”

      A carta Nancy Rigdon não é a única vez em que Joseph buscou dar credibilidade a seu discurso ao usar os patriarcas e outros líderes como exemplo. Aqui no “Vozes Mórmons”, o Marcello Jun postou um artigo muito interessante sobre a posição de Joseph Smith em 1836 sobre a abolição da escravatura -“Joseph Smith: Abolição da Escravatura”-, traduzindo uma carta que foi escrita e enviada por Joseph à Oliver Cowdery, neste momento editor do jornal oficial da Igreja: “O Mensageiro Defensor dos Últimos Dias”. Nesta carta Joseph queria tornar público sua posição a favor da manutenção da escravidão nos estados da região Sul dos EEUU. Na carta acima citada, Joseph recorreu às escrituras (aos patriarcas e outros líderes bíblicos como Abraão, Apóstolo Paulo e Jesus Cristo) para legitimar sua posição a favor da escravidão como instituição.

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