Jeová, o Pai

No meu post anterior, mostrei como, de acordo com algumas escrituras bíblicas, Cristo não pode ser considerado o Deus que interagiu com os antigos israelitas. O “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” para os autores do Novo Testamento é o próprio Pai e não seu Filho. Nesta continuação do tema, busco novamente na relação do Novo Testamento com a bíblia hebraica a identidade de Jeová como o Pai; também utilizo uma importante escritura de Doutrina e Convênios para mostrar como Joseph Smith também usava o termo Jeová para se referir ao Pai.

O SENHOR  e o Senhor

O nome “Jeová” é uma forma adaptada ao nosso idioma de lermos uma palavra hebraica de quatro letras (yod-he-vav-he, representadas nos idiomas ocidentais por YHWH) cuja pronúncia original é disputada; no judaísmo surgiu a tradição de ler esse nome sagrado de modo totalmente independente das quatro letras, vocalizando a palavra “Adonai” (senhor). Na tradução de João Ferreira de Almeida, não há a ocorrência do nome Yahweh, Javé ou Jeová; nela, as quatro letras hebraicas que designavam a deidade foram vertidos pela forma SENHOR, com todas as letras maiúsculas. Utilizando essa forma, o versículo inicial do salmo 110 nos ajuda a identificar com mais clareza quem é Jeová, ao fazer referência ao Pai e ao Filho:

Disse o SENHOR ao meu Senhor: assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. (Salmos 110:1)

O salmista fala aqui de dois personagens – “o SENHOR” – ou seja, Jeová – e “o meu Senhor”. Jeová fala diretamente ao segundo “Senhor”, dizendo que se sente ao lado direito. Novamente, temos os dois Deuses mencionados no livro de Salmos – o Deus Messias e seu Pai. A identificação de um e outro pode ser feita pela leitura de passagens do Novo Testamento que mencionam o mesmo salmo, como na comparação feita pelo autor de Hebreus entre Cristo e os anjos:

Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou nestes últimos dias pelo Filho.

A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

E a qual dos anjos disse jamais:

Assenta-te a minha destra,

Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés? (Hebreus 1:1-2, 4, 13)

Deus, o Pai, escolheu Cristo como seu herdeiro ou primogênito, estando acima dos anjos. Um dos argumentos utilizados para mostrar essa relação é que Deus não dirigiu a anjos as palavras iniciais que aparecem no salmo 110, mas a Cristo. Com esta afirmação em mente, identificamos o primeiro personagem – o SENHOR – como Deus, o Pai, enquanto “o meu Senhor” é Jesus Cristo. Ou seja, o Pai é chamado pelo salmista de SENHOR, a palavra que está substituindo o nome “Jeová”.

Ao longo do livro de Hebreus, outras referências ao salmo 110:1 são feitas em Hebreus 8:1; 10:12-13; 12:2. O salmo é também citado literalmente em Atos 2:34-35.

Em Efésios, a imagem de Cristo à direita do pai e tendo um escabelo sob seus pés é de novo evocada:

Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação;

Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus.

E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da Igreja. (Efésios 1:17,20, 23)

Reescrevendo o Salmos 110:1, a partir da informação em Hebreus e Efésios, teríamos esta afirmação:

Disse JEOVÁ [Deus, o Pai] ao meu Senhor [Jesus Cristo]: assenta-te à minha direita, até que [Eu, Jeová] ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.

Joseph Smith ora a Jeová

De acordo com essa tradição bíblica, Joseph Smith também identificava o Pai como Jeová. Na oração dedicatória do templo de Kirtland, como registrada em D&C 109, Joseph Smith se dirige ao Pai das seguintes formas, conforme a ordem em que aparecem na oração:

– “Senhor Deus de Israel” (versículo 1);

– “Senhor” (v. 3, 31, 33, 43, 44, 46, 48, 49, 50, 54, 60, 68, 69, 71, 72, 78);

– “Pai Santo” (v. 4, 10, 14, 22, 24, 29, 47);

– “Jeová” (v. 34, 42, 56);

– “Senhor Deus Todo Poderoso” (v. 77).

Desses 28 vocativos, “Senhor” é o mais frequente, seguido de “Pai Santo”. O nome “Jeová” vem em seguida, sendo usado três vezes. As duas formas compostas de “Senhor” aparecem uma vez cada. O uso desses vocativos de forma intercalada ao longo da oração não deixam dúvida de que o Profeta se dirige ao mesmo Deus – obviamente, o Pai. E ele o faz em nome de Jesus Cristo (v. 4).

Quando frequentava o Instituto de Religião, anos atrás, perguntei a um coordenador do Sistema Educacional da Igreja sua opinião sobre o assunto, referindo a D&C 109 como uma evidência de que Joseph Smith não havia ensinado a doutrina “Jesus é Jeová”. Ele respondeu que a doutrina da Igreja havia sido a mesma deste o início e o uso de Jeová naquela oração se devia ao fato de que Joseph não tinha claro o significado desse nome ou a quem se aplicava. Obviamente, a afirmação de que a Igreja sempre teve a mesma doutrina e de que Joseph Smith naquele momento empregava de modo “errôneo” o termo Jeová se contradiziam. Talvez para fugir dessa contradição, cerca de um ano depois, o mesmo funcionário do SEI apresentou uma nova interpretação, desta vez mais colorida, criativa, segundo a qual o Profeta orava a ambos, ao Pai e ao Filho!

Nenhuma evidência textual da própria oração dedicatória feita em Kirtland corrobora essa explicação inusitada. Tampouco se encontra na história mórmon a suposta prática de orar a Cristo ou a ambos, Deus e Cristo.

Embora não tenha certeza de qual é a explicação oficial promovida pela Igreja sobre a oração dedicatória de Kirtland, a oração a Jesus Cristo é de fato sugerida pelo “Index”, da edição tríplice em inglês, listando os três versículos com o nome Jeová sob a entrada “Jesus Christ – Jehovah”. Fica a estranha sugestão de que Joseph Smith orava ao Filho. Resta saber se há ou ainda haverá uma explicação doutrinária oficial que explicitamente confirme tal interpretação.

Pelo exposto acima, vemos que a ideia de que Jeová é o Cristo pré-mortal não é corroborada nem pelo salmo 110, nem pela oração dedicatória do templo de Kirtland.

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17 comentários sobre “Jeová, o Pai

  1. No meu estudo pessoal compreendi que o significado do nome Jeová* significa que ‘eles causam o que vem a ser’. Ou seja: ‘Eles causam o que quiserem causar’. Visto que ‘ninguém lhe pode deter a mão ou dizer: “que estás fazendo”, eles fazem o que bem entendem’. Esse é o significado do nome Deles ao meu entender. Mas também descobri mais. Por exemplo: quando Jeová avisa a Moisés de que devem obedecer à vós do anjo que os guiava, disse:

    “Eis que envio um anjo diante de ti para guardar-te pela estrada e para introduzir-te no lugar que preparei. Guarda-te por causa dele e >obedece à sua voz. Não te comportes rebeldemente contra ele, pois não perdoará a vossa transgressão; porque meu nome está nele.

    “Meu nome estás nele”. O que isso pode significar? Eu compreendo que Jeová advertia o povo por que deu ‘autoridade’ à quele anjo. é como se ele agora pudesse ‘causar o que quisesse causar’ aos que por ventura não ‘obedecesse’. Assim como Jeová mata ou deixa viver – pois ‘ninguém lhe pode deter a mão ou dizer: “que está fazendo” ‘, assim deu essa autoridade àquele anjo. É óbvio, pois, que o nome não é próprio de um só Deus, por mais poderoso que este possa ser. Acredito que todos os Deuses que tem ‘autoridade’ são Jeová. Assim, acredito, é isso o que significa que a Jesus ‘foi-lhe conferido autoridade acima dos demais anjos’ – Jesus tornou-se um Jeová após retorno aos céus. note este texto curioso como ajuda a este entendimento:

    “Jesus falou estas coisas, e, levantando os olhos para o céu, disse: ‘Pai, veio a hora; glorifica o teu filho, para que o teu filho te glorifique, segundo lhe deste autoridade sobre toda a carne, […] Também, não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo e eu vou para ti. Santo Pai, vigia sobre eles por causa do teu próprio nome que me deste, para que sejam um, assim como nós somos. Quando eu estava com eles, costumava vigiar sobre eles por causa do teu próprio nome que me deste; e tenho-os guardado, e nenhum deles está destruído exceto o filho da destruição, para que se cumprisse a escritura.” – João 17: 1, 2, 11, 12 – TNM.

    Já com respeito à tradução do João Ferreira, a muito aprendi a ficar com o pé atrás com respeito à confiabilidade dela. Ela diferencia Jeová de Cristo com “Senhor” maiúsculo e/ou minúsculo. muito bem. Mas acontece que o caso do Salmo mostrado pelo irmão é apenas uma rara exceção. No restante de todo o texto – Escrituras Hebraicas e gregas – ela nos confunde.

    O fato de que o Smith ter orado a Jeová ou a Jesus, hoje, pouca diferença faz. Descobrimos que, sendo Jesus hoje um Jeová (um Deus de autoridade que ‘faz o que bem quer’) pode também ouvir nossas orações e as responder. É claro que, sendo eles ‘um’, concordam em tudo – entre todos os Deuses santos há concordância, embora, penso, todos se auto-consultam sobre qualquer assunto desta vida.

    __________
    *Hebr.: יה ׁשר יה (’Eh‧yéh ’Ashér ’Eh‧yéh), transliterado.

    Wandrey
    ARSBI

  2. Um complemento a minha resposta no artigo anterior:

    Estou definitivamente convencido de que Joseph Smith reconhecia Jeová como Jesus Cristo mesmo na época da oração dedicatória do Templo de Kirtland. Após uma cuidadosa análise da Seção 109 de Doutrina & Convênios, vários pequenos detalhes conduziram-me a tal conclusão.
    —–
    GEE, Senhor: “Título de profundo respeito e honra dado a Deus, o Pai, e ao Salvador, Jesus Cristo. O título refere-se à posição que ocupam como senhores supremos e amorosos de todas as suas criações”.
    —–
    Doutrina & Convênios, Seção 109:
    Versículos de 1 a 33:
    Joseph Smith certamente está comunicando-se com o “Pai Santo, em nome de Jesus Cristo” (v. 4).
    —–
    Versículos de 34 a 46:
    A partir do momento em que Joseph Smith exclama “Ó Jeová”, é claramente perceptível que a direção em que a oração caminhava até então muda e Joseph, então, passa a rogar por perdão (ver Mt. 9:6).

    Detalhes importantes:
    “concede tua paz”, v. 39 (ver Isa. 9:6; Jo. 14:27).
    “tua salvação”, v. 39 (ver Mois. 6:52; At. 4:10-12).
    “teus julgamentos”, v. 40 e 45 (ver Jo. 5:22).
    “tua graça”, v. 44 (ver At. 15:11).
    —–
    Versículos de 47 a 53:
    Joseph volta a comunicar-se com o Pai Santo.

    “teu Ungido”, v. 53 (ver At. 4:27).
    —–
    Então, Joseph volta a falar brevemente com Jeová (v. 54-59), e logo continua sua oração ao Pai (v. 60-68), pois no versículo 68 podemos ver claramente que ele não está falando diretamente com Jeová, mas com o Deus de Jacó (ver v. 1): “como ele fez convênio com Jeová e um voto a ti, ó Poderoso Deus de Jacó”.
    —–
    Os versículos de 69 a 76 evidentemente são direcionados a Jeová/Jesus Cristo: “Que tua igreja (…) adorne-se como uma noiva (…) em tua presença”, v. 73-74.
    —–
    Por fim, sinto-me inclinado a ideia de que os versículos de 77 a 80 são direcionados tanto ao Pai quanto a Jesus Cristo. A utilização do título “Senhor Deus Todo-Poderoso” e o contexto em geral deixam-me com essa impressão.
    —–
    Outro detalhe interessante permanece no fato de que essa oração foi oferecida em 27 de março de 1836. Poucos dias depois, em 3 de abril do mesmo ano, Joseph registra uma voz que era como o ruído de muitas águas, “sim, a voz de Jeová, que dizia: Eu sou (…) vosso advogado junto ao Pai” (D&C 110:3-4).
    —–
    O cabeçalho da Seção 109 indica que Joseph Smith havia dito que “esta oração foi-lhe dada por revelação”. Particularmente, acredito ser esse o motivo dela ser tão complexa, pois é uma oração dedicando “A Casa do Senhor” e, portanto, foi dedicada tanto ao Pai quanto ao Filho, visto que ambos “ocupam [a posição] como senhores supremos e amorosos de todas as suas criações” e simbolicamente são Um; tenho certeza de que Joseph Smith compreendia perfeitamente isso.

    Ademais, se esta Seção de Doutrina & Convênios fosse tão visível e exaustivamente contraditória com relação à doutrina pregada atualmente, certamente teria sido editada ou já deixaria de ter sido publicada em nossos dias.

    😉

    • Anderson Garcez Faccio disse: “Ademais, se esta Seção de Doutrina & Convênios fosse tão visível e exaustivamente contraditória com relação à doutrina pregada atualmente, certamente teria sido editada ou já deixaria de ter sido publicada em nossos dias.”

      Penso que não necessariamente, caro Anderson; Um exemplo simples é que o esforço para dissociar a imagem pública da Igreja da prática da poligamia, ao menos nos EEUU, não fez com que ela suprimisse a Secção 132 de Doutrina e Convênios.

      Porém, se você está “definitivamente convencido” não há mais espaço para discussão. Persistir nesse ponto seria como “desferir socos contra o vento”. Acredito que os pontos levantados pelo Trevisan indicam que, assim como tantas outras, esta doutrina sofreu um processo de reelaboração desde Joseph Smith.

      • Leonel,

        Eu não sei até que ponto esse argumento é válido. Embora eu tenda a concordar com você, a impressão que eu tenho é que muitos Mórmons, especialmente na liderança, ainda acreditam em poligamia e que ela será o modelo de casamento vigente no mundo vindouro. Talvez, por isso a insistência em manter a seção 132 no cânon oficial, e talvez por isso a virulência com a qual atacaram os grupos polígamos no passado.

        Mas você pode estar certo, e ser apenas uma hesitação motivada por tradição.

        Um possível exemplo, ao meu ver, é o Livro de Abraão. Esta cada vez mais óbvio que o Livro de Abraão não tem absolutamente nada a ver com os papiros que Joseph Smith “encontrou” e “traduziu”, e eu tenha a distinta impressão que os 15 estão ignorando-o propositadamente, de modo a relega-lo quase que à marginalidade religiosa e cultural, talvez para, um dia, remove-lo do cânon sem grandes traumas. Como fizeram com as Palestras Sobre A Fé.

      • Anderson, Leonel e Marcello,

        como há uma interpretação “correta” dada pela Igreja a muitas passagens de escritura potencialmente contraditórias ou que remontam a práticas ou doutrinas já reelaboradas, nem tudo precisa ser editado ou retirado do cânon.

        Exemplo: D&C 20 diz que o sacramento deve ser administrado por élderes e que sacerdotes só podem administrá-lo na ausência de élderes; mestres e sacerdotes não tem nada a ver com a administração da ordenança; também diz que a congregação se ajoelha no momento das orações sacramentais. A Igreja há muito realiza algo totalmente diferente do está escrito, mas o texto continua intacto.

        Se isso pode ser feito com escrituras que contêm instruções do que fazer em termos rituais, imagina o que pode ser feito com uma questão tão aberta e complexa quanto a identidade de Cristo e o Pai.

        A edição de D&C 132 tem sido pensado há muito tempo e não duvido que ainda aconteça, eliminando as referências ao casamento plural.

    • Anderson,

      Eu acho que você esta lendo demais nesses trechos. Não que isso seja uma abordagem incomum ou impopular — muito de midrash e exégese utiliza essa técnica. O que não significa que ela seja uma técnica histórico-crítica boa. Pelo contrário, é rejeitada por historiadores como via de regra.

      Dito isso, eu concordo com você que Smith usava Jeová para o Cristo Pré-mortal. Mas também concordo com Antônio que ele misturava com Jeová para Deus Pai.

      A verdade é que não há nenhum relato claro desta época que expusesse, sem equivocações, doutrinas Cristológicas, teleológicas, soteriológicas, ou ontológicas elaboradas. O que mais se aproxima a uma posição específica foram as Palestras Sobre A Fé, e nela Smith postulava Deus desincorporado. Posição que ele revisou completamente em menos de uma década, além de introduzir conceitos mais claros e específicos de Cristologia, ontologia, e até teodicia.

      Esse período de Ohio é uma época em que Smith ainda testava e revisava muitas ideias, e parece a muitos pesquisadores (entre eles Richard Bushman) que ele ainda não havia consolidado seu pensamento religioso, e por isso vê-se nesse período muita ambiguidade e algumas contradições.

      (Em tempo: na atual publicação das escrituras em inglês, publicada pela Igreja, o índice conta com uma entrada para “God the Father: Jehovah”.)

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