Mentiras e Mórmons, Mórmons e Mentiras

Templos são sagrados para os mórmons. Tão sagrados que os Santos dos Últimos Dias, membros da maior igreja mórmon na atualidade, precisam comprovar sua “dignidade” para sequer poder entrar ou frequentar um de seus muitos templos.

Esta “comprovação de dignidade” ocorre durante duas entrevistas oficiais com líderes eclesiásticos, que devem ocorrer bienalmente. Durante essas entrevistas, uma lista de 14 perguntas são feitas. Entre elas uma sobre honestidade:

9. Você é honesto em palavras e ações?

Obviamente, honestidade é um princípio valorizado entre mórmons. E isso não é surpreendente. Afinal, a Bíblia Hebraica (popularmente conhecida como Velho Testamento) inclui, em uma das duas listas de Dez Mandamentos (Êxodo 20; c.f. Êxodo 34), a mesma preocupação:

16. Não darás falso testemunho contra o teu próximo.

A Bíblia Cristã (popularmente conhecida como Novo Testamento) é ainda mais gráfica em sua condenação da prática da mentira (Apocalipse 21):

8. … todos os mentirosos — o lugar deles será no lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte.

Além de todo o foco doutrinário e teológico, honestidade é um dos temas recorrentes no ensino da Primária (crianças), com canções famosas — e muito repetidas — como a ‘Creio em ser Honesto‘:

A minha honestidade vai,

Brilhar em tudo que eu fizer,

Bons hábitos cultivarei,

E só verdades eu direi,

O certo eu defenderei,

E um exemplo eu serei.

Não há como passar uma mensagem mais clara que essa: mórmons acreditam em ser honestos! Mórmons acreditam em ensinar (doutrinar, até) seus pequenos mórmonzinhos a serem honestos. Mórmons acreditam em incentivar (coagir, até) seus adultos a serem honestos.

Não obstante, existe um experimento social que contradiz essa mensagem e sugere que mórmons, na prática cultural, não aderem tão estritamente ao conceito de honestidade.

O Candidato Mórmon

Ontem foi o último dia da campanha de Mitt Romney para Presidente dos Estados Unidos. Em quase seis anos de campanha presidencial, Romney contou milhares de mentiras documentadas e comprovadas, muitas das quais lhe foram contestadas em pessoa ou por escrito, sem quaisquer retratações, públicas ou privadas. Em realidade, o grau de desonestidade é tão grande que é possível que, no julgamento histórico futuro, as mentiras de Romney marquem mais a sua candidatura que o fato histórico de ser o primeiro mórmon a ser um candidato viável à presidência americana. [1][2][3]

Mitt Romney é apenas um homem, e não é justo julgar um grupo inteiro de pessoas baseado nas falhas éticas deste único exemplar. E, naturalmente, há e houve políticos no presente e no passado que tenham sido marcados por mentiras, desonestidade, e anti-ética. O que realmente me alarmou e me surpreendeu durante essa campanha foi o entusiasmo com que mórmons abraçaram a candidatura de Mitt Romney (inclusive com tácito apoio de oficiais e líderes gerais da Igreja), a despeito dela ser notoriamente caracterizada pela desonestidade! Todas as pesquisas de opinião pública apontam apoio majoritário entre mórmons por Mitt Romney, algumas chegando a números tão assimétricos quanto 84% a favor e 13% contra. [4][5][6]

Essa maioria absoluta não se manifesta apenas estatisticamente. A evidência anedótica sustenta esses dados científicos. Em abril de 2012, eu postei um artigo listando uma dúzia de mentiras notórias e linkando para centenas mais, e em grande parte a resposta de mórmons foi de apoio e defesa ao candidato, sem contar as diversas reclamações em redes sociais e os emails agressivos. Desde argumentos falácicos e infantis como “todo político mente” e “ele não faz nada além do que o seu adversário faz” até as bizarrices apologéticas tentando deturpar os fatos e a realidade (das mentiras) ou distorcer as palavras (mentirosas), passando por insultos pessoais contra o mensageiro (e.g., o presente autor ou os repórteres e jornais das matérias originais), tudo que poderia ser atirado em defesa do candidato mórmon foi atirado.

Exceto pia da cozinha… e a admissão de que Romney vem sido extraordinariamente desonesto.

Quando eu escrevi o artigo em abril, eu imaginei que muitos (se não a maioria) dos mórmons fossem se sentir indignados com a falta de ética e compostura moral em público de uma figura mórmon tão proeminente. Infelizmente, o exato oposto ocorreu, aventando-se diversas desculpas esfarrapadas e táticas dissimuladoras para se manter o orgulho na posição elevada e de prestígio de um correligionário, sem traços de vergonha para a mácula pública trazida sobre a religião por associação.

Na época eu perguntei se Mitt Romney representava apropriadamente os mórmons, cultural e moralmente. Ao aceita-lo tão efusivamente, a resposta da comunidade mórmon me parece um sim inequívoco. A minha pergunta hoje é, então, por que? Por que uma religião que foca tanto na honestidade, e despreza tanto a mentira, abraça com tanto vigor uma figura pública que exala desonestidade e mentiras?

Em parte, a resposta repousa na própria Igreja SUD. Apesar dos ensinamentos explícitos da Igreja em prol da honestidade e da ética, a Igreja (ou, quiçá, sua liderança) tem uma longa história de desonestidade pública e oportunismo ético. Essa dissonância entre a filosofia formal e a prática pode, e deve, causar um enorme golfo intuitivo entre líderes eclesiásticos e membros comuns onde uma ambiguidade moral é cultivada (e, por vezes, encorajada), mesmo que apenas em plano subconsciente.

Mentiras Oficiais

Em carta de 1887 para o Presidente John Taylor, o Apóstolo Charles Penrose expressou preocupações:

…as prevaricações e os subterfúgios sem fim que a nossa atual condição nos impõe… ameaçam tornar nossa próxima geração uma raça de mentirosos… [7]

Durante as décadas de 1870 e 1910, a Igreja SUD travou inúmeras batalhas legais e judiciais contra o Governo Federal dos EUA por causa da prática da Poligamia (também conhecido como Casamento Plural, Casamento Celestial, ou “O Princípio”). Entre as muitas táticas usadas pela Igreja para tentar manter a prática da Poligamia viva, a despeito de enorme pressões do governo federal, a liderança da Igreja instruiu os membros a mentirem sobre o status de suas famílias, incentivando-os a inventar estórias para explicar a ausência dos pais, trocar nomes e sobrenomes, mentir para oficiais do judiciário e mesários eleitorais, falsificar documentos de casamentos e divórcios, etc. Neste contexto, o Apóstolo Penrose demonstrou preocupação ao Presidente Taylor (este determinado a manter o “Princípio” vivo) sobre o estado moral e ético dos Santos dos Últimos Dias.

Talvez ele tenha sido mais profético que o próprio Taylor, que havia profetizado que Poligamia jamais seria “removida da Terra até a Segunda Vinda de Cristo”. [8]

Essa não foi a primeira vez que líderes na Igreja mentiram, ou incentivaram mentiras, publicamente, e não foi a última. Vejamos alguns exemplos notórios:

1) POLIGAMIA I

Em agosto de 1835, sob a direção de Joseph Smith, a Igreja canonizou na escritura Doutrina e Convênios uma seção (removida em 1876) intitulada ‘Regras sobre Casamento’, onde Smith e a Igreja se pronunciavam determinadamente contra Poligamia:

Conquanto esta Igreja de Cristo tem sido repreendida pelos crimes the fornicação e poligamia: nós declaramos que cremos que um homem terá apenas uma esposa, e uma mulher apenas um marido, exceto em caso de óbito, quando qualquer um dos dois estará livre para casar-se novamente. [9]

O problema é que Joseph Smith não acreditava em “um esposo, uma esposa”, mas permitiu a inclusão desta seção para acalmar os ânimos de alguns líderes (e sua esposa Emma) que haviam se enfurecido e ofendido ao descobrir o “caso sórdido” (como descreveu Oliver Cowdery na época) entre Smith e a adolescente Fanny Alger, que na época trabalhava como empregada doméstica para os Smith.

Emma Smith, Oliver Cowdery, Warren Parrish, e demais líderes viram o relacionamento como adultério, enquanto Joseph Smith provavelmente o encarava como casamento, embora secreto. Independentemente, Smith autorizou a mentira de que mórmons acreditavam em monogamia a ser inclusa nas escrituras para abafar a crise eclesiástica (e conjugal) que a descoberta do relacionamento (e de uma gravidez resultante) havia desencadeado. Alger, expulsa do lar Smith por Emma, sumiu de Kirtland por mais ou menos 6 meses, e logo após ressurgir, foi enviada a Missouri — e acabou casando-se com outro homem no meio do caminho.

Joseph Smith casou-se com outra mulher (em segredo) em Missouri, mas começou a campanha para angariar múltiplas esposas com afinco apenas em Illinois, no começo de 1841. Entre 1842 e sua morte em 1844, casou-se com no mínimo outras 31 mulheres, e durante esse período emitiu dúzias de comunicados públicos e oficiais, verbais e impressos, negando quaisquer envolvimentos com outras mulheres, tanto para os membros, como para os não-membros, como para sua esposa legal Emma. Para as esposas plurais, seus parentes, e aos amigos introduzidos ao “Princípio”, Smith exigia absoluto segredo e demandava que se mentisse sobre o assunto, caso questionados. [10][11]

Exemplificando perfeitamente sua abordagem do assunto, em maio de 1844, com mais de 33 esposas secretas, Joseph Smith queixa-se num discurso de Sacramental:

Que [julgo pesado] é para um homem ser acusado de cometer adultério e de ter 7 esposas, quando eu só tenho apenas uma. [12]

2) MASSACRE DE INOCENTES

Em setembro de 1857, um grupo de aproximadamente 60 mórmons armados, sob a liderança de 2 Presidentes de Estaca, 2 Conselheiros de Estaca, 1 Bispo, e alguns Sumo-Conselheiros enganaram, sequestraram, e executaram mais de 120 inocentes, entre homens, mulheres, e crianças (a sangue frio e com requintes de crueldade).

O debate entre historiadores sobre a cumplicidade de Brigham Young ainda é feroz, mas sobre um ponto não há mais nenhum debate: Young foi culpado de “homízio” (art. 348 e 349 do atual código penal brasileiro). Imediatamente após o massacre, Young inteirou-se do ocorrido e dos culpados, ordenou a destruição de documentos (e.g., diários, cartas, botina, etc.), ajudou a foragir da lei alguns dos principais atores por quase duas décadas, criou e disseminou (com ajuda de George Smith e demais líderes) mentiras sobre as vítimas e sobre os Índios Paiute, e quando não havia como resgatar o seu enteado John Lee, decidiu pressionar por sua condenação para exonerar os demais atores de processo, inclusive a si mesmo, e salvaguardar a reputação da Igreja. [13][14][15]

3) POLIGAMIA II

Após décadas de batalhas legais e judiciais, sempre do lado perdedor, e enfrentando a completa desorganização legal da Igreja por intervenção federal, Wilford Woodruff solicitou a confidentes e amigos, entre líderes da Igreja e colegas não-Mórmons, para redigirem um texto que publicamente repudiasse a prática da Poligamia, aplacasse o governo federal, e permitisse que Utah se juntasse à União como um Estado. A esperança (completamente equivocada) era que o status de Estado lhes permitissem autonomia para redigir uma Constituição que legalizasse Poligamia, e condizente com isso, Woodruff e a maioria na Primeira Presidência e no Conselho de Doze Apóstolos continuaram contraindo, e autorizando, novos casamentos polígamos.

Em outras palavras, o que nós hoje chamamos de “O Manifesto” (i.e., Declaração Oficial #1) era uma completa farsa (mentira) para enganar o governo federal dos EUA! Enquanto isso, a liderança da Igreja (com algumas exceções) continuou mentindo para o governo federal por mais 14 anos, mantendo a instituição da Poligamia viva e presente.

Rumores da desonestidade Mórmon sobre Poligamia cresceram até culminar numa CPI (comissão parlamentar de inquérito), que se estabeleceu para determinar se autorizariam a posse do recém-eleito Senador de Utah (e Apóstolo) Reed Smoot. Durante o inquérito, líderes da Igreja foram convocados a depor, inclusive o então Presidente da Igreja Joseph F Smith, que acabou sendo humilhado publicamente, pego em contradições e mentiras. Prontamente, Smith emitiu o que hoje chamamos de “Segundo Manifesto”, e finalmente suspendeu a prática de autorização apostólica para Poligamia (mas não sem intensa oposição de alguns do Quorum dos Doze). [16][17]

4) CONTRA DEUS

Em diversas entrevistas no ano de 1997, o então Presidente da Igreja Gordon Hinckley repudiou uma das doutrinas mais marcantes estabelecidas por Joseph Smith:

Eu não sei se nós ensinamos [que Deus Pai fora outrora um homem, como somos nós hoje]. Há muito tempo que eu não ouço isso discutido em discurso público. Eu não sei. Eu não sei todas as circunstâncias nas quais essa afirmação foi feita. Eu entendo o fundo filosófico por detrás disso. Mas eu não sei muito a respeito disso e eu não sei de outros que saibam.

Esta afirmação de Hinckley não pode ser vista como nada além de desonesta. A doutrina, além de afirmada por quase todos os Presidentes da Igreja, e por dúzias de Apóstolos, desde Joseph Smith, era em 1997 publicada pela Igreja nos Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, no manual da Escola Dominical Príncipios do Evangelho, e fora anunciada na Conferência Geral de 1994 por ninguém menos que o próprio Gordon Hinckley!

Talvez a Autoridade Geral com melhor senso de Relações Públicas, Hinckley deve ter concluído que doutrinas que distinguiam mórmons demais dos outros cristãos americanos não lhe serviriam bem, e ao invés de discuti-la abertamente, ou repudia-la completamente para os membros, optou por dizer uma coisa à imprensa, e outra aos membros da Igreja. [18][19][20][21][22][23]

Estes são apenas alguns exemplos nos quais a Igreja, ou seus líderes máximos, mentiram em público para defender suas reputações, ou a da Igreja. Dificilmente se ouve discussões entre membros da Igreja sobre esses passos “em falso” por parte da liderança, e naturalmente muitas delas passam completamente desapercebidas em nível consciente. Não obstante, essas atitudes passam para o inconsciente coletivo e é assimilado em práticas culturais comunitárias e aceitáveis entre mórmons.

Mentiras nas Escrituras

Nenhuma discussão sobre as visões mórmons sobre mentira e honestidade poderiam deixar de abordar algumas passagens nas escrituras canônicas.

Como mencionado acima, as escrituras incluem ordens claras para evitar mentiras a todo custo: D&C 50:17-18, D&C 63:17, D&C 93:24-26, D&C 129:7, 2 Ne 9:34, 2 Ne 28:8-11, etc.

Não obstante, lemos sobre como Abraão mentiu sobre sua esposa Sarah (Gen. 20:1-16) para se proteger; o filho de Abraão, Isaque, mentiu sobre sua esposa Rebeca (Gen. 26:7-11) para se proteger; o filho de Isaque, Israel, em conluio com sua mãe Rebeca, mentiu para o pai para roubar a benção de seu irmão Esaú (Gen. 27:5-25); o primo de Isaque, Labão, mentiu para Israel para que casasse com ambas suas filhas, e não apenas Raquel (Gen. 29:18-28); e Israel mente para o seu sogro Labão para não ter que dividir heranças (Gen. 31:22-32). Ufa! Que família! E estes são os Patriarcas-Profetas fundadores de toda raça Israelita e da família de Jesus!

Mentiras Comuns

Desde jovem, membros da Igreja são “ensinados” a mentir, muitas vezes a si mesmos, e de maneira imperceptível e subliminar.

Em um vídeo que tornou-se viral na internet, o professor da religião da BYU Robert Millet ensina a estudantes se preparando para o serviço missionário como evadir e evitar perguntas diretas (e potencialmente desconfortáveis ou embaraçosas). O exemplo que ele utiliza não é diferente do que vimos acima com Gordon Hinckley:

Não deve ser a resposta mais esperta do mundo [responder à pergunta de um estranho: vocês acreditam que o Homem pode se tornar como Deus?] assim: “Sim, sim, permita-me citar Lorenzo Snow e o Profeta [Joseph Smith]”… A abordagem mais sábia seria assim: “Essa é uma pergunta muito interessante, e que me perguntam frequentemente, mas permita-me começar assim: Na Primavera de 1820…”

 

Quem nunca aprendeu essa manobra? Se alguém faz uma pergunta difícil ou embaraçosa sobre a Igreja, ou suas crenças, ou seu passado, ou sua história, dissimula-se. Muda-se de assunto. E, no pior das hipóteses, ataca-se a credibilidade ou a honestidade ou a sinceridade do interlocutor!

Não seria mais honesto responder a pergunta? Sim, nós acreditamos que Deus já foi um homem mortal, e sim acreditamos que um homem mortal digno pode ser como Deus.

Quantas vezes membros da Igreja não equivocam ou qualificam suas crenças apenas para torna-las mais “palatáveis” ou menos “estranhas” sob a pretensão de “leite antes da carne”?

Quantas vezes membros da Igreja não mentem sobre poligamia, dizendo que “nós não acreditamos mais em poligamia”, mas sabendo plenamente que a revelação sobre poligamia continua canonizada e que nos templos de hoje um homem viúvo pode ser selada a várias mulheres para eternidade, mas uma mulher viúva não pode ser selada a vários homens para a vida eterna?

Quantas vezes membros da Igreja não mentem sobre racismo, dizendo que a Igreja nunca segregou brancos e negros, porque negros podiam ser batizados e gozar de filiação à Igreja, sabendo claramente que negros eram tratados como membros de segunda categoria?

Quantas vezes membros da Igreja não mentem para aumentar as estórias “inspiradoras” ou para “promover testemunho”, ou mesmo passam adiante “rumores” que “aumentam a fé” com “fatos” que jamais são confirmados (pois sequer são fatos)? Primeiros Domingos de cada mês, no mínimo, e quase toda aula de Escola Dominical, são recheadas destas.

Na minha experiência pessoal, tanto na vida real (i.e., no campo missionário, nas reuniões dominicais, etc.), como na vida virtual (i.e., aqui no nosso site, nas redes sociais, etc.), mentir ou dissimular é uma prática comum entre mórmons, desde que seja para proteger a Igreja ou “fazer conversos” ou “manter a fé”. E eu conheço pouquíssimos Mórmons que discordariam dessa atitude por princípio!

Hipótese de Penrose e Conclusão

Posto que mentir para si mesmo e para não-membros é algo louvável durante a formação juvenil e pueril de um mórmon, e posto que a própria atitude pública da Igreja sugere que mentir é aceitável diante de problemas de percepção pública, não se deve surpreender que o mórmon médio não se choque quando um candidato político mórmon lance mão de mentiras para vencer o pleito eleitoral.

Eu proponho o que eu vou chamar da Hipótese de Penrose, que postula que a aceitação cultural entre mórmons da prática de mentir publicamente por justificações de fim é diretamente proporcional a prática eclesiástica de evitar confrontação direta com os problemas sociais, culturais, intelectuais, e morais de determinadas políticas ou doutrinas mórmons.

Em defesa da Hipótese de Penrose vimos acima uma lista histórica (e não compreensiva) da ofuscação proposital por parte institucional, tanto no passado distante como no passado recente, e uma experiência social não controlada (i.e., a aceitação cultural da candidatura Romney) que demonstra que mentir é uma atitude socialmente aceitável, embora oficialmente condenada, entre mórmons.

Ao contrário, para refutar a Hipótese de Penrose, seria fundamental encontrar dados demonstrando que mórmons não aceitariam uma mentira pública, mesmo que ela viesse a seu favor coletivo (favorecendo um membro famoso ou a própria Igreja). Sendo que ainda não há dados que a refutem, tanto como há dados que a sustentem, eu concluo com a predição de que ela é uma descrição real do contexto cultural mórmon na atualidade, e que dados futuros apenas a confirmarão.

A Hipótese de Penrose não é apenas uma descrição teorética negativa. Ela oferece uma predição positiva, que pode muito bem servir de conselho e mapa para um futuro éticamente melhor, como a própria citação acima de Charles Penrose sugere. Como a aceitação cultural da mentira é proporcional a prática institucional, se a Igreja passar a estabelecer uma postura menos defensiva e mais honesta, admitindo seus erros passados ou presentes, encarando abertamente suas crenças idiosincráticas independentemente de considerações em relações públicas, ignorando a crescente busca de aceitação no mercado de religiões cristãs, e evitando mentiras e ofuscações, a HP prediz que a aceitação cultural de mentira entre membros da Igreja decrescerá proporcionalmente. Num futuro hipotético (e utópico?) onde a Igreja, e seus líderes, são francos e abertos, a HP sugere que membros da Igreja não aceitariam ser representado por um candidato a presidente que mente e engana descaradamente.

Adendo

Em tempo, eu deixo uma última anedota como a ironia máxima em todo essa triste consideração. Descobriu-se na última semana que Mitt Romney aproveitou-se de uma brecha na lei federal há quase 2 décadas para montar uma empresa fantoche que deveria servir como uma ONG cujo propósito oficial seria passar doações milionárias, feitas pelo próprio Mitt Romney, para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Entretanto, na prática ela serve apenas para devolver-lhe o dinheiro isento de impostos federais, deixando para trás míseros percentuais para a Igreja no evento de falecimento dos “funcionários executivos” da ONG. Em outras palavras, Mitt Romney esta usando a Igreja para lavar dinheiro e evitar o fisco, de maneira desonesta e (atualmente) ilegal, em detrimento da Igreja. [24]

Deixe suas opiniões abaixo…

Apêndice

Eu recebi vários comentários em particular (gente, vamos comentar aqui embaixo para gerar um debate público sobre o assunto!), e alguns deles criticando o viés negativo contra a instituição da Igreja. As críticas são boas e válidas, e por isso gostaria de escrever algumas linhas sobre elas.

Certamente, a conclusão do artigo não é positiva nem para a Igreja, e tampouco para os membros. Ninguém gosta de ser chamado de mentiroso, e eu imagino que poucas pessoas queira uma auto-imagem como a de alguém que aprova de mentiras por motivos ideológicos. Nesse ponto, as críticas e as queixas são válidas e coerentes.

Não obstante, o artigo acima procura abordar o assunto partindo de uma perspectiva científica e racional. Apesar da Hipótese de Penrose ser uma conjectura informada (i.e., é impossível determinar externa e objetivamente as motivações de uma pessoa ou de um grupo de pessoas), ela é estruturada em fatos reais (i.e., históricos e bem documentados) e em dados estatísticos populacionais.

A candidatura de Mitt Romney é o que cientistas chamam de “experimento natural”. Experimentos naturais são estudos empíricos onde as condições experimentais são determinadas pela natureza, pelo acaso, ou por forças externas, e são particularmente úteis para epidemiologistas, economistas, antropologistas, sociologistas, e cientistas políticos, entre outros. No caso específico de Mitt Romney, temos a confluência de um candidato político que seja mórmon no sentido mais tradicional, que seja notoriamente mentiroso e desonesto (bem acima de qualquer média política convencional), e que esteja disputando uma campanha apertada contra um presidente amplamente impopular.

Seria difícil desenhar uma situação melhor para avaliar o contraste entre ideologia e honestidade, e ainda mais, foca-lo num subgrupo específico (i.e., mórmons) e contrasta-lo contra outros subgrupos de controle (i.e., protestantes, cristãos em geral, Republicanos, e americanos em geral). Sim, seria possível montar um experimento controlado para avaliar o assunto (fica a dica, cientistas da BYU!), mas seria um desperdício passar um experimento natural tão bem (fortuitamente) desenhado.

Como eu citei acima, pesquisas de opinião pública demonstram um viés a favor de Romney entre Mórmons de 84% a 13%, o que é um percentual de aprovação absurdamente enorme em qualquer situação política para qualquer país no mundo! Comparemos, então, como se sai Romney em outros subgrupos eleitorais para avaliar se há contrastes relevantes (retirados de pesquisas na mesma época do ciclo eleitoral): [4][5][6][6b][6c]

Mórmons: 84 x 13
Protestantes: 52 x 43
Evangélicos (brancos): 73 x 21
Protestantes (brancos): 53 x 43
Protestantes (negros): 1 x 95
Católicos: 47 x 49
Católicos (brancos): 53 x 44
Judeus: 29 x 64
Não Religiosos: 26 x 68
Total: 46 x 50

Alguns temas saltam aos olhos imediatamente:

1) Raça é um fator muito importante para americanos, visto que brancos tendem a preferir Romney em grandes maiorias (e, para todos os propósitos, mórmons podem se considerar como um subgrupo predominantemente monorracial nos EUA).

A disparidade de negros em favor de Obama (e contra Romney) não é nenhuma surpresa, especialmente tendo em consideração o passado racial dos EUA e os temas racistas populares entre Republicanos na atualidade.

2) A questão da raça é marcadamente mais importante para evangélicos, visto que a diferença cai dramaticamente entre brancos em religiões mais tradicionais, como católicos e protestantes.

Até que ponto a questão racial é importante para mórmons? Não há dados estatísticos para medir isso (fica a dica, Pew Forum!), mas a minha impressão pessoal e anedótica é que faz muita diferença (a maioria dos mórmons a favor do Obama que eu conheço são multirraciais, não Brancos)!

3) O apoio mórmon a favor do Romney é bastante assimétrico, menor apenas que entre negros protestantes, e não é em nada surpreendente, tendo em vista o status de minoria em ambos os estes subgrupos.

A questão ficaria, então, em como avaliar desses dados se há qualquer impacto no quesito honestidade (ou falta dela). Para isso, comparemos as reações dos mesmos grupos durante a última campanha presidencial, quando o mesmo Barack Obama competia contra o Republicano John McCain, famoso até então por uma longa carreira política honesta e sincera (apelidado de “maverick” por falar o que pensa e ser fiel a suas crenças, e famoso pelas campanhas “straight talk express” — “falando franco”). Os dados de pesquisa de opinião abaixo são retiradas de aproximadamente o mesmo período no ciclo eleitoral que os dados acima, para melhor comparação:

Mórmons: 75 x 19
Protestantes: 45 x 44
Evangélicos (brancos): 68 x 24
Protestantes (brancos): 53 x 39
Protestantes (negros): 2 x 90
Católicos: 42 x 44
Católicos (brancos): 53 x 39
Judeus: 23 x 74
Não Religiosos: 24 x 67
Total: 40 x 48

O primeiro tema que salta aos olhos, comparando o ciclo eleitoral de 2008 com o ciclo eleitoral de 2012, é que em todos os subgrupos religiosos onde há predominância racial majoritária (i.e., Branco) o Romney cresceu em relação ao Barack Obama, enquanto este manteve mais ou menos a liderança entre subgrupos religiosos de minorias raciais (i.e., negros, hispânicos).

Naturalmente, como era de se esperar, o maior crescimento de Romney sobre McCain foi no segmento de mórmons. Simpatizar com uma pessoa (candidato) do mesmo grupo tribal (religião) e racial é um instinto neurológico, perfeitamente natural e esperado, e não é nenhuma surpresa que Romney tenha maiores ganhos entre mórmons sobre McCain por conseguir identificar-se com este subgrupo em dois quesitos (três, contando com o ideológico).

Apesar de haver as ressalvas contextuais óbvias (Obama em 2008 ser largamente desconhecido mas o primeiro Negro com chances presidenciais num país de passado racial conturbado; McCain em 2008 ser associado com o desastre da administração Republicana prévia; Obama em 2012 ainda sofrer com as consequências legadas do desastre da administração Republicana prévia — e da curta memória e curtíssima atenção do eleitorado americano; eleitorado americano largamente ignorante e notoriamente manipulável face a estímulos raciais, especialmente no Sul e no interior, etc.), as relações ideológicas mantiveram-se estáveis entre 2008 e 2012, e isso se reflete nas estatísticas entre Obama e McCain, e Romney e Obama.

Não obstante, esse é precisamente o ponto principal do argumento acima. Ao que tudo indica, para mórmons ideologia é mais importante que honestidade. Não fosse assim, as taxas de aprovação de Mitt Romney (mentiroso) cairiam em relação aos de John McCain (mais honesto). Claro que o mesmo argumento pode se extender aos demais subgrupos analisados acima (e.g., evangélicos, protestantes brancos, católicos brancos, e Republicanos), e eu acredito que é um tema que deva ser abordado, mas o nosso foco aqui é mormonismo, e portanto estamos analisando puramente as reações e as tendências entre mórmons, e não os demais subgrupos.

O que os dados deixam evidente é que mórmons não aparentam nem mais, nem menos preocupados com honestidade política que a população em geral. Para um grupo que se considera pertencer à “única Igreja verdadeira”, possuir o “único evangelho vivo”, participar de uma instituição eclesiástica “perfeita”, e de exigir “dignidade” de seus membros, ele não se mostra estatisticamente diferente ética e moralmente dos demais grupos ao seu redor (a anedota da Igreja tentar apoiar a candidatura de Mitt Romney — mencionada brevemente acima — por subterfúgios apenas piora o caso contra esta “diferenciação”).

A discussão do artigo acima serve justamente para conjecturar os motivos culturais que levam à falha cultural em se distinguir dos vizinhos a despeito de uma meta moral elevada. E não nos enganemos aqui, mórmons tem uma meta moral e ética elevada e louvável.

Eu deveria ter elaborado um pouco mais na metodologia da minha abordagem do tema, mas creio que esse apêndice deva corrigir esta falha e preencher esta lacuna.

Notas

[1] Clicar em link no número
[2] Clicar em link no número
[3] Milhares não é um exagero hiperbólico. O cientista político Steve Benen documentou e desmentiu 917 tais mentiras apenas no ano de 2012 (link #2 acima) e eu postei links para algumas dezenas mais (link #1 acima).
[4] Clicar em link no número
[5] Clicar em link no número
[6] Clicar em link no número
[6b] Clicar em link no número
[6c] Clicar em link no número
[7] 16 Fev. 1887, Charles W. Penrose para John Taylor em Cartas Arquivadas de John Taylor, Biblioteca da Universidade de Utah; citado em Hardy, B.C., Solemn Covenant: The Mormon Polygamous Passage, 1992, University of Illinois Press.
[8] 27 Set. 1886, Revelação ao Presidente John Taylor em Centerville, Utah em Unpublished Revelations of the Prophets and Presidents of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints vol.1, pg. 145, seção 88.
[9] D&C 101:4 (1835)
[10] Compton, Todd. In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith, Signature Books, 1997, pp. 25-42.
[11] Van Wagoner, Richard. Mormon Polygamy: A History, Signature Books, 1989, pp. 29-40, 50-71.
[12] History of the Church vol. 6, p. 411
[13] Brook, Juanita. The Mountain Meadows Massacre, University of Oklahoma Press, 1950, pp. 211-223.
[14] Bagley, Will. Blood of the Prophets: Brigham Young and the Massacre at Mountain Meadows, University of Oklahoma Press, 2002, pp. 365-385.
[15] Walker, R., Turley, R., Leonard, G.. Massacre at Mountain Meadows, Oxford University Press, 2008, pp. 129-148, 227-231, 255-264.
[16] Van Wagoner, Richard. Op. cit., pp. 133-163.
[17] Paulos, Michael H. The Mormon Church on Trial: Transcripts of the Reed Smoot Hearings, Signature Books, 2008, pp. 19-142.
[18] Clicar em link no número
[19] Clicar em link no número
[20] Clicar em link no número
[21] Clicar em link no número
[22] Clicar em link no número
[23] Clicar em link no número
[24] Clicar em link no número
[25] Talvez seja importante deixar claro que, sim, é óbvio que nem todo mórmon apoia ou aceita Mitt Romney como candidato ou como representante correligionário. Afinal, 13% não são 0%! Não obstante, a assimetria em favor do apoio é enorme e inegável. Também gostaria de expressar a minha esperança, e a minha confiança nas análises estatísticas, de que Mitt Romney perderá a eleição hoje. Nada poderia ser melhor para os EUA, para o mundo, e para a Igreja — que poderá passar mais alguns anos buscando um candidato que a represente com honestidade, integridade, e ética!

62 comentários sobre “Mentiras e Mórmons, Mórmons e Mentiras

  1. Análise muito completa. São mesmo emblemáticas as questões da poligamia, do racismo, da doutrina de que o homem pode virar deus. Para não ficarem feios na fita e não destoarem demais dos cristãos “tradicionais”, os mórmons negam veementemente essas doutrinas em público, mesmo sabendo que são amplamente respaldadas pelas escrituras SUD e pelos ensinamentos de seus profetas e apóstolos.

    É uma típica tática diversionista, um verdadeiro show de ilusionismo: “Não somos racistas, desde 1978 os negros recebem o sacerdócio”. Só que escondem a todo custo o que as escrituras oficiais mórmons REALMENTE ensinam sobre a cor da pele (ver o próprio conceito de “lamanitas”, algo absolutamente central no Livro de Mórmon, o mais correto livro da Terra para os mórmons e a pedra angular da religião).

    “A poligamia foi proibida pela Igreja ainda no século XIX”. Só que escondem que o casamento plural é uma doutrina legítima da Igreja e não foi renegada, e continua sendo praticada nos templos no caso de homens viúvos que se casam de novo para a eternidade e terão várias esposas na ressurreição.

    Para os mórmons, os fins (preservar a imagem da Igreja, conquistar novos membros, entrar para a “mainstream”) sempre justificam os meios. Portanto, as mentiras de Mitt são fichinha. O prestígio de ter um mórmon na Casa Branca justifica QUAISQUER meios.

  2. Eu nem precisava ler esse artigo para saber , que os membros da igreja são altamente vulneráveis em sua integridade , fez parte do amadurecimento do meu testemunho conhecer líderes que não me pagam o que me devem e outros atos de mentiras, mas eu prefiro chamar os irmãos ao arrependimento e expor a “picaretagem” a eles para tenham peso na consciência.Passar a mão na cabeça, só esconde a sujeira debaixo do tapete, não vai ajudar a nos aperfeiçoar.Eu uso o amor e a caridade, mas sou firme para exigir verdade e integridade, assim como quero que a exijam de mim. A Igreja é a mesma da bíblia, os profetas antigos talvez cometiam mais falhas que os profetas atuais.Se alguém se sente lesado pela falta de integridade de Mitt Romney que busque a imprensa e a justiça e leve provas para pedir reparação de danos.Obama poderia ter usado essas afirmações em sua campanha, isso obrigaria Mitt a se explicar…é sempre bom ouvir o outro lado.

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