Maçonaria e Mórmons, Lojas e Templos, Morgan e Smith

Sobre o livro que revelaria segredos maçônicos, mas acabou revelando segredos mórmons.

Em 1827, David Cade Miller publicou um livro escrito por Willian Morgan que profundamente impactou o mormonismo para sempre e que documentou uma das grandes influências na formação mórmon para toda posteridade.

William Morgan nasceu no estado da Virginia, em 1774. Através de uma série de revézes da vida, Morgan acabou mudando-se em 1821 para Batavia, no estado de Nova Iorque, a menos de 100 km de Palmyra, junto com sua esposa então de 18 anos, Lucinda Pendleton Morgan.

William Morgan

William Morgan, cujo desaparecimento e suposto assassinato desencadeou um fervor anti-maçônico no século 19, e cuja viúva se tornou uma das primeiras esposas polígamas do Profeta Joseph Smith

Por causa de conflitos pessoais mal documentados, Morgan anunciou no começo de 1826 que havia escrito, e estava prestes a publicar, um livro expositório sobre os rituais maçônicos iniciais, incluindo os sinais, as palavras-chaves, e os apertos-de-mão secretos da fraternidade (famosamente) secreta da maçonaria.

No dia 11 de Setembro de 1826, Morgan foi preso por dívidas em haver, embora discuta-se até hoje se a prisão havia sido legal e/ou justificada. No dia seguinte, um amigo foi até onde estava preso em Canandaigua (a meros 20 km de Joseph Smith em Palmyra) pagar sua fiança, e tomando uma carruagem, viajaram até o Forte Niagara, a 100 km ao norte de Batavia, onde o rio Niagara desemboca no Lago Ontário, chegando lá no próximo dia. Depois disso, não se tem nenhuma outra notícia confiável sobre o paradeiro de Wiliam Morgan. [1][2][3]

Rápidamente, boatos espalharam-se por todo o estado, e depois para todo o país, que Morgan havia sido sequestrado e assassinado pelos maçons por causa de seu livro ainda não publicado. Alguns meses depois de seu desaparecimento, David Miller publicou o livro de Morgan com o título ‘Ilustrações da Maçonaria por Membro da Fraternidade que Dedicou Trinto Anos Ao Assunto’. [4][5]

A publicação do livro, explorando a maçonaria com um tom conspiratório e secretivo, aliado aos rumores de que Morgan havia sido assassinado por maçons justamente para proteger os segredos maçônicos, rapidamente espalhou notoriedade e infâmia para a Fraternidade, tanto por Nova Iorque, como por todos os EUA. Editoriais em jornais e livros denunciavam a Ordem, e leis e/ou projetos-de-lei anti-maçônicas proliferaram. O livro em si tornou-se um bestseller! E, ainda neste furor, criou-se um movimento formal anti-maçônico, influenciando a política americana pelas próximas décadas, inclusive levando até a formação oficial de um partido político anti-maçônico que conseguiu alguns sucessos nas eleições presidenciais de 1828 e 1832. [6][7][8]

Joseph Smith iniciou sua carreira religiosa nesse contexto.

Smith encerrou sua carreira de vidente e caçador de tesouros justamente em 1826, e iniciou o projeto do Livro de Mórmon em 1827. Publicado em 1830, ainda no meio do fervor regional e nacional contra a maçonaria, o Livro de Mórmon apresentou temas anti-maçônicos tão fortes e evidentes que era fora descrito por leitores independentes como a “Bíblia Anti-Maçônica”. [9]

Smith tanto internalizou esse sentimento de repulsa à tradição maçônica que, apesar de seu pai e seus irmãos mais velhos todos pertencerem à Ordem de Maçons, Smith jamais cogitara juntar-se à ela. Inclusive, dado a proximidade geográfica e a restrições demográficas da Fraternidade, é muito provável que os próprios Smiths conhecessem Morgan, ao menos por reputação. [10]

Não obstante, mais de uma década se passaria até que o legado de Morgan cruzasse eternamente com o de Smith.

Em 1830, a viúva de William Morgan, Lucinda, casou-se com um ourives de Batavia, George Harris, e ambos se converteram ao Mormonismo logo após. Após alguns anos, os Harris mudaram-se para a colônia mórmon no Missouri e em 1838, enquanto Joseph Smith fugia de credores em Ohio, acolheram Smith em seu lar. Neste ano, Lucinda Pendleton Morgan Harris tornou-se a segunda esposa plural de Joseph Smith (para a qual ainda há documentação que o comprove, e enquanto ainda se mantinha casada com George Harris tanto legalmente, quanto de corpo presente), vindo a ser inclusive a primeira mulher a velar o seu corpo após o assassinato de 1844, antes mesmo de sua única esposa legal, Emma Hale Smith. [11]

Mas Morgan e Smith não compartilharam apenas da mesma esposa.

Em 1841, Hyrum Smith conseguiu convencer seu irmão Joseph a se tornar um maçom, e ele foi iniciado em março de 1842. Em seguida, em menos de 2 meses, em maio de 1842, Smith estabeleceu as ordenanças do templo que ele chamou coletivamente de “investidura”. Essa “investidura” incluía sinais, rituais, roupas, e apertos-de-mão idênticos — ou quase idênticos — aos que Smith aprendera na maçonaria e as semelhanças eram tão marcantes e óbvias que os próprios iniciados (de ambos rituais) notaram-nas imediatamente. [12][13] O Apóstolo Heber C Kimball escreveu para o Apóstolo Parley P Pratt sobre sua investidura, explicando as enormes semelhanças que ele encontrou entre o ritual maçônico e as investiduras mórmons:[14]

“O irmão Joseph sente-se tão bem quanto eu o jamais vi. Um motivo para isso é que ele juntou um grupo pequeno com o qual ele se sente seguro, e com o qual ele se sente à vontade para abrir o seu coração e ainda sentir-se seguro. Eu quisera que você pudesse estar aqui conosco para que pudesse sentir e ouvir por si mesmo. Nós temos recebido umas coisas preciosas através do Profeta sobre o sacerdócio que faria a sua alma se regozijar. Eu não lhe posso escrever no papel pois elas não devem ser escritas. Então você precisa voltar e recebê-las pessoalmente. Nós organizamos uma Loja aqui de maçons, pois recebemos uma dispensação. Isso foi em março. Desde então já quase 200 foram induzidos como maçons. O irmão Joseph e o irmão Sidney foram os primeiros a serem recebidos na Loja. Todos os Doze se tornaram membros, exceto Orson Pratt, ele ainda hesita. Logo ele acordará. Há uma semelhança entre o sacerdócio e a maçonaria. O irmão Joseph diz que a maçonaria foi tirada do sacerdócio mas se tornou degenerada, mas muitas coisas ainda estão perfeitas.”

Neste quesito, William Morgan figura importantemente, não como originador das ordenanças templárias mórmons, pois Smith as recebeu de seus novos irmãos nas lojas de Illinois, 16 anos após a suposta morte de Morgan, mas como documentador desta influência. Nenhum SUD que tenha recebido suas ordenanças templárias, especialmente antes das mudanças instituídas em 1990, poderia ler as descrições de William Morgan (veja as ilustrações abaixo) sem reconhece-las dentro dos próprios Templos SUD.

Primeiro Aperto de Mão

Primeiro Aperto de Mão

P: O que é isto?
R: Um aperto de mão.
P: Qual aperto de mão?
R: O aperto de mão de um Aprendiz Maçom.
P: Tem um nome?
R: Tem sim.
P: Queres da-lo a mim?
Segundo Aperto de Mão

Segundo Aperto de Mão

Quarto Aperto de Mão, Aperto de Mão do Mestre, ou Sinal Seguro da Pata de Leão.

Quarto Aperto de Mão, Aperto de Mão do Mestre, ou Sinal Seguro da Pata de Leão.

Primeiro Sinal e sua Penalidade

Primeiro Sinal e sua Penalidade

Segundo Sinal

Segundo Sinal

Segunda Penalidade

Segunda Penalidade

Terceiro Sinal e sua Penalidade

Terceiro Sinal e sua Penalidade

Quarto Sinal

Quarto Sinal

Naturalmente, há muito mais na teologia e mitologia SUD que se pode rastrear da maçonaria do que apenas as ordenanças do Templo. E certamente há muito nestas ordenanças que são originais a Smith. O que impressiona, contudo, é a clareza com que Morgan documenta a extensão da forte influência maçônica sobre os rituais mais sagrados para o mormonismo de maneira clara e inequívoca. Este, talvez, seja o seu maior e mais longevo legado intelectual. [15][16][17]


NOTAS
[1] Ver link
[2] Ver link
[3] Ver link
[4] Ver link
[5] Ver link
[6] Ver link
[7] Ver link
[8] Homer, Michael. Similarity of Priesthood in Masonry: The Relationship Between Freemasonry and Mormonism, em ‘Dialogue: A Journal of Mormon Thought’. Vol 27, No 3, 1994.
[9] Bushman, Richard. Joseph Smith and the Beginnings of Mormonism. 1988. University of Illinois Press, pp. 119-125.
[10] Bushman, Richard. Joseph Smith: Rough Stone Rolling. 2005. Alfred A. Knopf, pp. 4494-451.
[11] Compton, Todd. In Sacred Loneliness: The Plural Wives of Joseph Smith. 1997. Signature Books, pp. 43-53.
[12] Journal of Discourses 11:327-28; 18:303
[13] Johnson, Benjamin. My Life’s Review. 1947. Zion’s Printing and Publishing Co., p. 96.
[14] Kimball, Heber Chase, em carta para Pratt, Parley Parker. 17 Jun 1842. Arquivos SUD.
[15] Ver link
[16] Ver link
[17] Mórmons consideram seus rituais templários secretos sagrados e por isso não podem ser divulgados em público. Em respeito a esta sensibilidade, abstém-se aqui de publicar fotos comparativas dos sinais, apertos-de-mão, e penalidades (abolidas com as mudanças de 1990) do ritual templário mórmon, mesmo que eles sejam fartamente disponíveis tanto em formato de vídeo como em formato de texto pela internet. Maçons também cuidam de seus rituais com sigilo, mas aqui trata-se de um documento histórico e não dos rituais e sinais atuais e utilizados presentemente. Por respeito a esta sensibilidade, tampouco se publica fotos comparativas com rituais atualizados ou presentes nas correntes e escolas mais comuns no Brasil.

86 comentários sobre “Maçonaria e Mórmons, Lojas e Templos, Morgan e Smith

  1. Tem vários pontos a serem esclarecidos.
    Primeiro: o Livro de Mórmon, não foi escrito nem é uma obra de ficção. O Livro de Mórmon foi traduzido por Joseph Smith, e essa obra é real. O próprio livro carrega consigo a revelação: outro Testamento de Jesus Cristo. A Igreja é uma prova da existência de Cristo, e suas revelações são próprias e únicas com um só propósito Divino. Somente quem pisou no Templo e realizou tais ordenanças é capaz de descrever sua intensidade e valor. Nenhum comentário ou pesquisa ou imagem (que certamente foi revelada por descrentes) revela isso.
    Já a pluralidade foi uma revelação dada por Deus para aquela época, pois com o grande trabalho dos pioneiros de estabelecer a Igreja, muitas mulheres acabavam ficando viúvas e sem lar ou um portador do sacerdócio para guiá-las e ampará-las, então elas eram “adotadas” como esposas por homens portadores do sacerdócio. Creio que se J. Smith era praticante desse ato, Emma foi abençoada com entendimento e compreensão para aceitar e apoiar o marido.
    E em relação á revelações, Sim a Igreja é regida e guiada por revelação. Brigham Young foi um profeta de Deus e sua revelação em relação ao sacerdócio aos negros foi verdadeira, antes eram um povo marcado pelo pecado, e por meio de revelação foi permitido o sacerdócio aos negros. Os membros negros da Igreja, através do estudo compreendem essa revelação e são gratos por sua descendência agora poder desfrutar das bençãos do sacerdócio.
    Qualquer dúvida ou pergunta pendente, disponha. Abraços.

    [Editado e moderado de acordo com a Política de Comentários]

    • Bianca, você entende que não tem como provar que o Livro de Mórmon foi traduzido de placas de ouro? O testemunho da veracidade do Livro de Mórmon advém da fé e não de fatos atuais. Uma coisa é a história contada, outra a história comprovada. Concorda ou discorda?
      As mulheres eram “adotadas” por passarem dificuldades… E as que não queriam ser “adotadas” e quase que foram obrigadas a isso? Há casos de mulheres que se posicionaram contra a poligamia, tiveram que ir contra tudo e todos no mormonismo, se afastaram e posteriormente relataram todo o sofrimento que passaram.
      E a revelação de Brigham Young sobre os negros serem sujos, mesquinhos e desprovidos de inteligência também é verdadeira?

    • POR FAVOR ME AJUDA A ENTENDER UMA COISA. ESTA ESCRITO “Quando no meio de ti, em alguma das tuas cidades que te dá o SENHOR, teu Deus, se achar algum homem ou mulher que proceda mal aos olhos do SENHOR, teu Deus, transgredindo a sua aliança, que vá, e sirva a outros deuses, e os adore, ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei.” Dt 17.2,3 PORQUE COLOCARAM UM OBELISCO NO LOCAL ONDE NASCEU jOSEPH SMITH? ISTO ESTA REGISTRADO ATE COM FOTO, NO LIVRO ENSINAMENTO DOS PRESIDENTES DA IGREJA. UM OBELISCO É. Foi colocado no centro de grandes espaços abertos, nos templos do deus solar RA. Surgiram, na época do período pré-dinástico cultos, para uma grande pedra sagrada que foi levantada no templo de Heliópolis, a “Cidade do Sol”. Tal como acontece com as pirâmides, este monumento tinha uma relação primitiva com o culto solar. Como regra geral, obeliscos foram erigidos em pares e servia para proteger o templo magicamente. O obelisco é composto de duas partes: o corpo e pirâmide.

  2. Por favor irmão, assim como você diz que o Livro de Mórmon não tem provas de ser traduzido de placas de ouro, não temos provas do que o Presidente Young disse(agora, sobre essa doutrina antiga, sei que a posteridade de Caim foi marcada e não poderiam receber o sacerdócio) e agora com revelações dos últimos dias, o Senhor abençoou-os novamente. Você diz que existem relatos de mulheres que relataram tal sofrimento, o Livro de Mórmon também tem um relato de sua veracidade. Não sou historiadora nem me preocupo com a maneira em que os homens tentam provar o contrário das Divinas revelações de nosso Pai Celestial. Eu ensino as crianças de meu Ramo sobre a História da Igreja e sobre as Traduções das Placas de Ouro, leio os registros que nosso forte e amado profeta Joseph e também outros pioneiros relataram sobre essa difícil jornada. Pois bem o Espírito não me deixa negar sobre a veracidade dessas placas.
    Pois bem, voltando ao assunto da poligamia, sabemos que Deus é perfeito e suas revelações também, e apesar de muitos de Seus servos serem dignos e portadores do sacerdócio, sabemos que outros não seguiam corretamente a este mandamento ou até mesmo não o poderiam fazê-lo por não terem o sacerdócio, mas esses eram astutos e violaram a ordem de Deus. Até após a poligamia ser banida da Igreja, muitos homens continuaram com essa prática, afirmando se passar por membros Mórmons. E sabemos que isso não é verdade.

    • “Não sou historiadora nem me preocupo com a maneira em que os homens tentam provar o contrário das Divinas revelações de nosso Pai Celestial.”

      “Por favor” digo eu. Eu também não sou historiador, mas escolhi não ser ignorante em relação a nada que surge à minha frente, principalmente em relação aos assuntos que me dizem respeito.
      De acordo com o Dicionário Online de Português, ignorância é “s.f. Falta geral de conhecimento, de saber, de instrução. Estado de quem ignora. Falta de conhecimento de um objeto determinado. Imperícia, incompetência”. Ao afirmar que “não se preocupa” assume-se a deliberada ignorância a respeito do assunto.

      Deus é perfeito sim, mas os homens não. Nenhum homem foi perfeito nesta Terra, e se alguém pode ter sido perfeito esse homem foi Jesus. Ser digno e portador do Sacerdócio nunca impediu nenhum homem de ficar doente, de ser esquizofrênico ou de portar transtornos de personalidade. E também não impediu esses mesmos homens de mentir intencionalmente. Já ouviu aquele ditado sobre quem encontraremos no céu? “Quem achávamos que ia estar, não vai. Quem achávamos que não ia, vai”? É disso que falo.

      Não tenho a intenção de mudar o que você acredita, Bianca. Eu sou um defensor da liberdade individual, e nela está incluída a liberdade religiosa (claro, dentro dos limites éticos de não ferir a liberdade dos outros etc.). Existem inúmeras coisas boas dentro e fora da Igreja, seja essa a “mórmon”, a Adventista, a Assembléia de Deus etc. Mas também existem coisas ruins. Não existe nada perfeito nesta Terra. Em tudo há algo bom e algo ruim. E “não se preocupar” com a integralidade de qualquer coisa é ignorar.

      Pra terminar, cito uma frase atribuída a Sócrates: “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Se é dele mesmo ou se ele existiu não tenho como provar, mas a frase é boa. As coisas são assim.

      • É saudável irmos atrás de conhecimento, porém será que todo conhecimento é proveitoso? A 13ª Regra de Fé nos diz para procurarmos coisas louváveis e de boa fama. Será que devemos dar atenção à “má fama” da Igreja apregoada por seus críticos? Considero que busquemos conhecer a História do mormonismo e da Igreja, as coisas boas e as coisas ruins, e ficar com aquilo que ajudará em nosso crescimento como seres humanos. Todavia, temos que ter um senso crítico, debater e tomar cuidado para não ficar jogando pedras nos líderes do passado e do presente ou em outras pessoas e nos esquecermos de nossos próprios defeitos. Não nos esqueçamos das palavras do Salvador:
        João 8:7 “…Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra.”

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