Família Mórmon Encara Ostracismo Novamente

Artigo no The Washigton Post, jornal de renome internacional com a segunda maior coleção de prêmios Pulitzer, explorou esta semana o drama de uma família Mórmon.

Paul Sautter-Walker teme que seus 4 filhos sofram a dor do ostracismo e da discriminação que ele sentiu quando adolescente crescendo na Igreja Mórmon.

A família Sautter-Walker (da esq. para dir. Alex, Kyleigh, Paul, Morgan, Riley e Ric)

E não sabe como fazer para melhor proteger suas crianças.

Há 20 anos, quando Paul tinha 17 anos de idade, ele saiu do armário para seus pais como homossexual. Imediatamente seus pais rejeitaram sua identidade homoafetiva e o obrigaram a terapia de aversão com eletrochoques.

(Leia sobre terapia de “cura gay” sendo vendida na BYU hoje!)

Durante seis semanas ele foi eletrocutado enquanto olhava materiais pornográficos, particularmente quando fotos homossexuais o excitavam sexualmente ou quando fotos heterossexuais não o excitavam.

O trauma dessa experiência foi tamanha que Paul fugiu de casa e abandonou a Igreja. Em 1997 conheceu Ric, 10 anos mais velho, através de amigos em comum e os dois estão juntos desde então num relacionamento monogâmico, estável, e feliz. Em 1999 eles celebraram uma cerimônia ecumênica, e tão logo lhes foi permitido legalmente, casaram-se em janeiro p.p..

Antes disso, porém, o casal começou a adotar crianças através do sistema público de adoção. Quando a mais velha das suas 4 crianças, Alex, tinha 3 anos, eles decidiram retornar à Igreja para poder cria-las como Mórmons. Ambos sentiam a necessidade e o anseio de educar suas crianças na fé de suas infâncias e imbui-las com o sentido religioso com o qual haviam crescido, apesar da dor e do ostracismo. Contudo, ambos sentiam que a Igreja e a comunidade SUD haviam abrandado com relação a homossexuais, e Paul inclusive começou a reatar relações com sua família.

Os três filhos mais velhos já foram batizados como membros da Igreja SUD, e todos frequentam as reuniões dominicais praticamente desde que nasceram, sendo crianças ativas e bem integradas na sua Ala, porém a caçula só cumprirá 8 anos de idade no ano que vem.

De acordo com a nova política oficial da Igreja, Morgan não poderá se batizar no ano que vem, como haviam planejado. Ademais, Paul e Ric, que são membros ativos e bem quistos na sua Ala, tornaram-se oficialmente “apóstatas” de acordo com a nova regra, passíveis de excomunhão, apenas por estarem fielmente casados há 19 anos e criado uma família unida e amorosa com 4 filhos.

Paul e Ric relatam haver se ofendido com a humilhação de serem classificados como uma família “fraudulenta” em plena Conferência Geral pelo Apóstolo Tom Perry, mas que tocaram a vida normalmente, continuando ativos na Igreja do mesmo jeito. Tudo mudou, contudo, com a mudança recente, e agora eles se sentem forçados à uma posição mais pró-ativa.

Assim como muitas famílias LGBT, os Sautter-Walkers sentem-se confusos e conflituosos. Eles querem permanecer na Igreja, mas eles temem que a harmonia que haviam construído para suas crianças em sua Ala seja violentamente interrompida pelas exigências da nova regra. Isolar a filha caçula do batismo que os outros 3 filhos mais velhos receberam não lhes parece uma experiência edificadora para ela. E a perspectiva de serem excomungados por algo que, não apenas é a própria fundação da sua família estável e cheia de amor e dedicação, mas com o qual os membros de sua Ala convivem harmoniosamente há mais de uma década, tampouco lhes parece uma experiência edificante para as 4 crianças.

Ambos chegaram a preencher seus formulários de resignação, como milhares de outros membros da Igreja fizeram recentemente, mas ainda não tiveram a coragem de envia-los ou protocola-los.

(Leia sobre resignações em massa, ou de membros fiéis e apologistas, ou dicas de protestos sem resignação ou membros fiéis e apologistas pressionando por mudanças)

Paul diz preferir resignar a ser excomungado, enquanto Ric prefere ser excomungado.

“Eu quero que eles me fitem nos olhos com todo o ódio que consigam conjurar para poder me excomungar. Aqui estou eu, uma pessoa boa e honesta, e eles querem me tocar porta afora.”

Em realidade, nenhum dos dois gostaria de sair da Igreja, e prefeririam poder ficar e criar seus filhos nela. Contudo, dizem que não conseguem imaginar como isso será possível, mantidas as presentes condições, e acham muito pouco provável que eles permanesçam, e saindo, que um dia retornem.

“Você só pode ser chutado ao chão tantas vezes antes de se levantar, sacodir a poeira, e sair em outra direção completamente diferente.”


Recentemente, outro jornal de renome internacional abordou o assunto mais diretamente. O conselho editorial do The New York Times, um dos jornais mais prestigiosos do mundo com o maior número de Prêmios Pulitzer,  publicou uma crítica aberta à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

O conselho editorial do The New York Times ressaltou a preocupação da liderança essa política em sigilo e a aspereza com a qual trata famílias e crianças:

“A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não parecia ansiosa para chamar a atenção para as suas políticas recentemente atualizadas sobre o casamento gay. Em um memorando compartilhado de forma confidencial, a igreja instruiu os líderes que os mórmons em relações do mesmo sexo deveriam ser tratados como “apóstatas“. As crianças sendo criadas por duas mães ou dois pais, o edital determina, devem ser banidos da igreja até que se tornem adultos e possam renunciar a união de seus pais.”

O jornal, então, resumiu as reações negativas e públicas de membros e não membros ao que ele descreveu como sendo discriminatória e preconceituosa, especialmente quando contrastado com o resto da sociedade autóctone:

“A resposta de centenas de membros da igreja foi poderosa. Nos últimos dias, os mórmons têm deixado a igreja em massa, dizendo que eles não se sentem mais em casa em uma instituição que tão resolutamente exclui um segmento da população que vem se tornando cada vez mais visível, legalmente protegida e socialmente aceita nos Estados Unidos.”

Demonstrando respeito pelos direitos religiosos da liderança e da Igreja SUD para determinar políticas discriminatórias e preconceituosas, não obstante explicou que esses direitos não os exime de crítica pública:

“As organizações religiosas têm o direito de definir doutrina. Líderes mórmons veem o casamento heterossexual como vital para a salvação eterna. Mas aqueles que continuam a estigmatizar as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo como um pecado, e perpetuar estereótipos nocivos, devem esperar reações de suas congregações.”

O jornal brevemente resumiu o histórico de ativismo anti-gay da Igreja SUD:

“Durante a última década, a Igreja Mórmon tem usado o seu poder social e sua tesouraria para injetar-se na luta política sobre os direitos dos homossexuais. A igreja financiou a Proposição 8 da Califórnia, uma iniciativa que buscou invalidar a decisão judicial de 2008 que legalizou o casamento homossexual no estado. Os eleitores aprovaram a proposição por uma pequena margem, um revés que galvanizou partidários do casamento homossexual e moldou as estratégias jurídica e cultural, levando até Suprema Corte a legalizar o casamento gay neste verão.”

E descreveu o contexto histórico recente de falsa esperança de evolução, o que preparou muitos para o desapontamento atual:

“Após a Proposição 8 ter sido considerada inconstitucional em 2010, a Igreja Mórmon em grande parte desapareceu do debate político sobre o casamento gay. No início deste ano, a igreja parecia dar um passo adiante na questão de igualdade em orientação sexual e identidade de gênero, apoiando um projeto de lei anti-discriminação em todo o estado.”

Condenando a atitude da Igreja e justificando as reações negativas de muitos Mórmons:

“Essa evolução faz a sua nova política particularmente chocante. A exclusão das crianças, em particular, tem alimentado doloroso exame de consciência entre os mórmons devotos e os não praticantes, incluindo muitos que tinham desaparecido da igreja, mas estavam contentes em permanecer em seus elencos. Kate Kendell, uma ativista dos direitos gay que foi criada mórmon, escreveu que ela nunca esperava cortar formalmente os laços com a igreja até que ela soube da nova política.”

Os editores escolheram  citar uma reação emblemática, ao mesmo tempo pessoal para Kate Kendell e sua família, quanto simbólica de milhares de outros Mórmons:

“Foi o tratamento gratuitamente cruel e estigmatizante das crianças que me empurrou a repudiar a igreja da minha infância … É impossível para mim ser parte de uma religião que atacaria seus próprios membros e os pune negando o envolvimento de crianças na Igreja.”

Encerrando com um contraste de como outras igrejas (inclusive outras igrejas de denominação Mórmon) abordam a questão com mais ética e justiçam, enquanto a Igreja SUD é vista como exclusivista e preconceituosa:

“Ms. Kendell, sua esposa e seus três filhos não têm falta de opções quando se trata de locais de culto. Um número crescente de igrejas de várias denominações têm evoluído para abraçar todas as pessoas.

O conselho editorial do The New York Times decidiu registrar publicamente sua crítica à Igreja SUD e sua nova política de discriminação contra famílias LGBT, que foi perfeitamente ilustrado no artigo do The Washington Post.

Quanto tempo demorará para a liderança da Igreja SUD perceber que a sua reputação internacional está se fixando como uma igreja homofóbica e discriminatória?

(Ênfases nossas nas citações do editorial do The New York Times)

17 comentários sobre “Família Mórmon Encara Ostracismo Novamente

    • Estamos interessados em saber de você duas coisas:

      1) De onde você tirou a ideia que nós afirmamos que a “igreja…excomunga criança” (sic);

      2) De onde você tirou a impressão que esse seu comportamento é educado.

  1. Nossa, eu nunca li tanta besteira na minha vida…estou afastada da igreja a algum tempo, porem nunca vi a igreja discriminando crianças por motivo algum…mas pera aee… nenhuma igreja apoia o casamento gay e muito menos q eles tenham famíla…não tenho nada contra os gays, mas querer impor suas escolhas em leis q vieram do tempo de cristo…ai já é demais né.

    • Nunca mesmo, Liliam. A única besteira que você leu aqui foi a que você escreveu.

      Você nunca viu “a igreja discriminando crianças”? Não confunda a sua ignorância dos fatos com sua inexistência. Ou não deixe sua preguiça de clicar nos links embutidos no artigo acima para descobrir do que se está falando lhe dar a falsa impressão que essa ignorância substitui a realidade dos fatos.

      Você acha que “nenhuma igreja apoia o casamento gay” (sic)? Não confunda a sua ignorância dos fatos com sua inexistência. Inclusive, a segunda maior Igreja Mórmon apóia o casamento gay.

      Você acha que “leis q vieram do tempo de cristo” (sic) são todas válidas até hoje? Não confunda a sua ignorância dos fatos com validação da sua opinião equivocada. Pois os fatos não lhe favorecem, Liliam.

    • Liliam
      A Igreja Presbiteriana (U.S.A.) aceita casamentos homossexuais. No Brasil temos algumas denominações assim chamadas “igrejas inclusivas”. Lanna Holder e Rosania Rocha são duas pastoras que vivem maritalmente de uma denominação assim.

  2. Gostaria de saber se a pessoa que publicou este artigo realmente conhece as doutrinas e convênios feitos A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias? Pois percebo que há muitos erros neste artigo. A igreja não excomunga crianças. Para nós membros fiéis da igreja a verdade é imutável! Não importa se milhões de pessoas fazem certas coisas, se não é o certo, não devemos fazer. Sugiro que vocês falem diretamente com um membro da primeira presidência para que se esclareça muitas idéias erradas que estão fazendo a respeito dela. Procurar a verdade e falar a verdade, sei que muitas vezes não é fácil, porém é nobre !

    • Gostaria de saber se a pessoa que publicou esse comentário realmente sabe ler e se é fluente em português? Pois percebo que há muitos erros nesse comentário que uma pessoa alfabetizada não deveria cometer. Gostaria que ela demonstrasse onde leu no artigo acima que alguém tenha intimado que a Igreja SUD “excomunga crianças”.

      Procurar ler os artigos e entender o que está escrito neles antes de comentá-los muitas vezes não é fácil, porém é nobre!

      Com relação a “verdade [ser] imutável”, sugerimos ler o que Brigham Young disse sobre a imutabilidade das leis de Deus.

      Procurar educar-se sobre história muitas vezes não é fácil, porém é nobre!

  3. O homossexualismo é pecado. Esse casal deve se arrepender e renunciar à sua conduta pecaminosa se quiser continuar na Igreja de Cristo.

  4. Como bem falou o The NewYork Times:

    “As organizações religiosas têm o direito de definir doutrina. Líderes mórmons veem o casamento heterossexual como vital para a salvação eterna. Mas aqueles que continuam a estigmatizar as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo como um pecado, e perpetuar estereótipos nocivos, devem esperar reações de suas congregações.”

    A Igreja está agora suportando todo o tipo de reação e crítica e ela suportará o quanto mais for necessário, mas não aceitará o errado como certo, o pecado como virtude.

  5. Relacionamento homossexual já é motivo para excomunhão quando a pessoa é ativa, não sei como conseguiram ficar ativos por 10 anos. O par já deveria ter passado por conselho disciplinar há muito tempo.

    • Marcel, ser homossexual não é considerado pecado na doutrina mórmon, na doutrina mórmon pecado é o ato(ação) homossexual. Veja o livreto Deus ama seus filhos.
      E pelo visto o casal com seus filhos já foram aceito na congregação na qual frequentavam e eram ativos.
      Isso gerou desconforto para família e para congregação que os aceitava sem repudio e sem discrimina-los.
      Agora como fica a cabeça das crianças? E como fica a família toda perante a nova política da igreja.
      A minha visão sobre o assunto é que a igreja que retirar o homossexual e seus familiares da igreja. E criou a tática de discriminar suas crianças.

  6. Na minha opinião, o texto traz uma reflexão que todos deveríamos nos dar o direito de perceber o quanto de infortúnio a igreja que se diz de CRISTO(amor genuíno, que viveu e acolheu todas minorias) esta em desarmonia com o evangelho real, plausível…provável, puro….sem as alterações que foram postas no velho e novo testamento para aprisionar e discriminar pessoas. Lamentável posição desse gestores empresariais.

  7. Não sei me expressar tão bem como muitos que deram suas opiniões, mas posso falar algo simples, Deus condena o pecado mais ama o pecador, amar não significa apoiar os erros, e sim agir com muita sinceridade para com as pessoas, jamais podemos apoiar o que é contrário a vontadde de Deus, eu apoio firmemente nossa liderança, pois eles são direcionados por Deus, e sei que muitas vezes para agradar a Deus, desagradaremos aos homens, a homosexualidade é abominável diante de Deus.Levítico 20:13 e 18:22.

  8. Creio que a Corporação SUD realmente deseja fixar sua identidade como homofóbica , discriminatória e eu acrescento, fundamentalista!
    Há interesse em perpetuar tal reputação, pois esta também é um modo de exercer o ” poder sobre o ideário da mentalidade” de milhares de crentes. Assim, fica estabelecido o regime de pensamento da maioria, amparado no discurso do “modelo ideal de família”, “modelo de família segundo Deus” ,blá, blá, blé, blé. Fecha-se para os crentes e fieis qualquer forma de pensamento analítico e crítico gerando o pensamento repetitivo e imitativo. Quer melhor forma de exercer poder?

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