A Avestruz Mórmon

Mórmons fazem como a avestruz, enterrando a cabeça na areia quando confrontados com uma situação desconfortável ou desconhecida?

Avestruz

Essa é a atitute mórmon quando confrontado com fatos novos ou desconhecidos ou desafiadores?

Todos não, dirá um.

Se não todos, a maioria? Esse tipo de atitude é cultural ou institucionalmente encorajada?

Vejamos.Nós recebemos uma mensagem não solicitada de uma jovem mórmon que simplesmente dizia:

“Falsas verdades pra que isso? (sic)
Isso não interfere no meu Testemunho. (sic)”

Intrigados, perguntamos de quais “falsas verdades” ela estaria falando. Não intrigados pela estranha escolha de “falsas verdades” em vez de “mentiras”, e não intrigados pela possibilidade de havermos publicado “falsas verdades” (não publicamos!), mas pelo o que ela teria imaginado que seriam “falsas verdades”.

Sua resposta foi tão mal educada quão inespecífica e inútil:

“Em tudo ue (sic)

Não conhece o mormonismo!
Fiquei quieto então. (sic)”

Muita gente nos xinga de muita coisa, mas ninguém nos chama de ignorantes sobre o mormonismo! Então, nossa curiosidade só aumentou. Determinados a descobrir o que ela havia confundido com “falsas verdades”, e ela enviou o print desse artigo nosso, seguido de sua acusação confiante e desafiadora:

“Isso por exemplo(sic)

Dentre tudo oq vcs postam .” (sic)

Ironia das ironias, esse artigo em particular é nada mais que uma reportagem de um artigo publicado pelo jornal da Igreja Deseret News. Apontamos esse fato (e sua ironia), perguntando-lhe se ela estaria dizendo que o jornal da Igreja publica “falsas verdades”.

A sua resposta demonstra a arrogância que só vem de ignorância:

“Vc não tirou isso da liahona (sic)

Fassame o favor (sic)

Isso é tudo mentira. .. (sic)

Pq vc não procura conhecer o evangelho melhor, aproveita e se arrepende do que vc ta fzd (sic)

O que vc ganha postado essas coisas nessa página?” (sic)

Continuamos a lhe insistir que a notícia fora tirada de uma fonte oficial da Igreja SUD, inclusive instigando-a a clicar no link do artigo do Deseret News para checar por si mesma e comparar com o nosso artigo. Ela simplesmente se recusava a crer nessa possibilidade:

“Qual seria sua fonte ? (sic)

Outro mentiroso ?” (sic)

“Não é o jornal oficial da igreja (sic)

Eu sei meu bem. (sic)

Hahahaha (sic)”

Quando lhe perguntamos se ela sabe quem seria o dono do Deseret News, ela afirma que sabe muito bem:

“Alguém como você que não gosta da igreja (sic)

Nossa igreja So tem um site” (sic)

Se ela tivesse olhado no site do Deseret News, não demoraria mais que 10 segundos para achar a página “sobre nós” deles, que diz:

“O Deseret News (www.deseretnews.com) é a primeira organização de notícias e o maior negócio de funcionamento contínuo no estado de Utah. De propriedade de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o Deseret News oferece notícias, informações, comentários e análises a partir de uma premiada e experiente equipe de repórteres, editores, colunistas e blogueiros. Sua missão é ser uma marca líder de notícias para o público focado em fé e família em Utah e em todo o mundo.”

Se ela não quisesse ler ou confiar no que o próprio site diz de si mesmo, uma busca de menos de 5 segundos na ferramenta de buscas de sua escolha (e.g., Google, Yahoo, Bing, etc.) teria-lhe  levantado essa informação:

“O Deseret News Publishing Company é uma editora com sede em Salt Lake City, Utah, Estados Unidos. É uma subsidiária da Deseret Management Corporation, uma holding detida pela Corporação do Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias Saints. A empresa publica o jornal local em Salt Lake City, o Deseret News, e suas inserções semanais, o Church News e o Mormon Times.”

Em resumo, essa jovem mórmon nos enviou mensagem para, arrogantemente e sem educação, xingar-nos de mentirosos por haver publicado notícia divulgada por jornal cujo dono é a Igreja SUD. Quando confrontada com o fato que o jornal da Igreja publicou a notícia que nós apenas divulgamos, como ela reage?

Primeiro, ela evita confrontar o fato que nós não havíamos “criado” a notícia.

Segundo, ela evita confrontar o fato que a fonte da notícia é confiável.

Terceiro, ela evita confrontar o fato que a fonte é a própria Igreja SUD.

E, finalmente, ela inventa que a fonte é mentirosa e decide ignorar quaisquer fatos e provas que a demonstrem que ela estava equivocada desde o início!

Nós vemos esse tipo de postura o tempo todo. Recebemos milhares de mensagens com essa (baixa) qualidade de rigor intelectual e honestidade intelectual. Essa jovem é inexperiente e provavelmente não goza de uma educação formal adequada, mas nós vemos essa postura em muitos membros da Igreja com níveis educacionais que sugeririam uma complexidade intelectual maior do que isso. Sabemos, também, que dissonância cognitiva é uma reação psicológica instintiva e universal, e responsável por boa parte dessas reações.

É certo que nem todos (embora muitos) os membros reagem assim, de maneira tão aberta e flagrantemente ignorante com a jovem do exemplo acima. Não obstante, há formas muito mais comuns e sutis desse tipo de anti-intelectualismo à la avestruz que nós vemos com mais frequência ainda.

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O cientista de computação britânico Paul Graham criou um diagrama, chamando-o de “hierarquia da discordância“, para ilustrar os diferentes níveis de qualidade de argumentação possível, com as melhores formas de argumentação no topo, as segunda-melhores formas logo abaixo, e assim por diante, até a forma menos útil e relevante de todas.

"Hierarquia da Discordância" de Paul Graham

“Hierarquia da Discordância” de Paul Graham

Separemos, para fins didáticos, a pirâmide diagramática de Graham em 7 categorias de formas de argumentação ou contra-argumentação:

  • Categoria A: Refutação ao Ponto Central;
  • Categoria B: Refutação;
  • Categoria C: Contra-argumento;
  • Categoria D: Contradição;
  • Categoria E: Resposta ao Tom;
  • Categoria F: Ad Hominem;
  • Categoria G: Ataque Puro.

Graham explica que os argumentos mais eficientes e relevantes focam no ponto central do tema em discussão, sem se distrair com assuntos ancilares ou irrelevantes. Portanto, a categoria A expressa os melhores tipos de argumentos. É importante notar que a forma de um argumento não determina sua validade. Pode-se argumentar muito eloquentemente com formas na categoria A e ainda estar equivocado nos fatos, ou em lógica, ou em conclusão, etc. Contudo, estando certo ou estando errado, não se pode dizer que sua argumentação seja irrelevante, ou inconsequente, ou incongruente.

Argumentos da categoria B abordam detalhes específicos do ponto central, que podem ou não ser relevantes, porém sem discutir o ponto principal em discussão. Argumentos da categoria C propõe um argumento diferente e/ou divergente da proposição inicial, sem abordá-la diretamente, porém baseando-se em algum fato ou dado específico que o contradiga. Argumentos da categoria D fazem o mesmo, porém sem quaisquer apelos a dados ou fatos.

Argumentos nas categorias E, F, e G são puros exercícios em futilidade intelectual, apelando apenas aos sentimentos mais irracionais e basais. Em E, discute-se o tom da proposição inicial sem quaisquer considerações dos seus méritos factuais ou intelectuais. Em F, utiliza-se a falácia lógica de atacar a fonte da proposição inicial na esperança de desmerecê-la enquanto fonte e, assim, desmerecer a proposição. E em G, simplesmente xinga-se e insulta-se como crianças no jardim de infância.

No exemplo que vimos acima, a jovem mórmon nunca sequer tentou sair das categorias E, F, e G. Essas categorias são inteiramente inaceitáveis em qualquer contexto social com o mínimo de preocupação intelectual e ético. Argumentos da categoria D são aceitáveis, porém pouco relevantes por contribuírem pouco ou nada às discussões. Argumentos das categorias B e C são interessantes e válidos para consideração, e podem contribuir aos debates, mas certamente em nada comparáveis com os argumentos da categoria A, que deveriam ser o nosso alvo em todas as nossas discussões e debates.

Mais exemplos?

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Essa jovem nos acusa de mentir por citar uma “carta” sem mostrá-la ou documentá-la. A carta em questão é uma carta do Bispado Presidente para o legislativo de Utah. É verdade que não documentamos a carta, mas documentamos um artigo do jornal Deseret News citando a carta. Em um artigo sobre o gasto de fundos da Igreja para construir um estádio para eventos privados, e com esse tipo de documentação, essa é a abordagem dessa jovem SUD:

“Já que vocês são TÃO transparentes com os seus seguidores, CADÊ A CARTA? (sic) Kkkkkkkkkkk. Pfv né queridos.. (sic) vão arrumar o que fazer bando de desocupados, kkkkk (sic)”

Quais os tipos de argumentos que ela está utilizando aqui? De que nível de qualidade?

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Essa jovem SUD reage assim à notícia de uma comparação apostólica entre a pedra de vidente e celulares modernos:

“Vão arrumar o que fazer, kkkk. (sic) Larguem de ser desocupados e vão trabalhar invés (sic) de ficar aí tentando se promover procurando falhas na fé dos outros.. (sic) não acredita? OK! Mas tb não tente fazer as pessoas que acreditam ou que ainda não conhecem a religião acharem (sic) que é uma seita. Isso não vai levar vocês a lugar nenhum, na verdade vai, pra o inferno, (sic) kkkk. E o apóstolo citado usou de comparação, então pfv  né? (sic) Só precisa ter metade do cérebro pra entender isso. Não desvirtue o que ele está falando. E olha.. . “A SEITA” que dói menos!! (sic)”

Quais os tipos de argumentos que ela está utilizando aqui? De que nível de qualidade?

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Essa jovem SUD responde assim ao se confrontar com a possibilidade de haver “exist[ido] casamento gay na Igreja primitiva”:

“…suas palavras mim causa nojo! (sic)”

Qual o tipo de argumento que ela está utilizando aqui? De que nível de qualidade?

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Essa jovem SUD reagiu assim ao se confrontar com notícias sobre o aumento nas taxas de suicídio entre jovens membros da Igreja:

“Pessoas se suicidam por satanás não pela liderança, homens mulheres gays lésbicas se suicidam pela inveja de satanás! (sic) A igreja não descrimina o gay, simplesmente ele não pode ser portador do sacerdócio, e fazer as funções da igreja, mas jamais iremos expulsar alguém!! (sic) Cuidado com o que postam, as redes sociais tem influência positiva/negativa entendam isso! (sic)

Vocês merecem que essa página saia do ar!! (sic) E muita blasfêmia! (sic)”

Quais os tipos de argumentos que ela está utilizando aqui? De que nível de qualidade?

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Esse jovem SUD responde assim a um artigo sobre simbologia arquitetônica nos templos SUD e suas origens históricas:

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“Pagina apostata ,mentirosa e Marxista. (sic) Não acreditem em nada do q ela posta (sic)”

Quais os tipos de argumentos que ela está utilizando aqui? De que nível de qualidade?

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Exposto o problema, perguntamos aos nossos leitores: Esse é uma atitude que é incentivada pela Igreja? Ou pelas doutrinas mórmons? O que se pode fazer para incentivar os membros da Igreja a uma posição mais intelectualmente honesta e coerente?


Avestruzes enterram suas cabeças na areia quando ameaçados? Não. Trata-se apenas de uma lenda urbana. Avestruzes conseguem correr até 50 km/h por 10 minutos, com tiros chegando aos 70 km/h. Além de seus quase 3 metros de altura e 160 kg de puro músculo, seus chutes são potentes o suficiente para matar um leão, suas patas são armadas com garras afiadas e resistentes, e usualmente vivem em rebanhos de entre 10 e 100 aves para proteção. De onde vem, então, essa lenda urbana? Avestruzes cavam buracos na terra para seus ovos, e pais avestruzes enfiam a cabeça na terra dentro do ninho algumas vezes ao dia para virá-los e checar se estão bem. Elas até podem se agachar rente ao chão para evitar confrontos, mas seu instinto primário de defesa é correr ou chutar. Lendas urbanas são desmistificadas assim: lendo, estudando, pesquisando, e aprendendo os fatos.

25 comentários sobre “A Avestruz Mórmon

  1. Ou pelas doutrinas mórmons?

    Originalmente, a cultura (ou doutrina) mórmon não parecia, ao menos superficialmente, compactuar com esse tipo de covardia intelectual. Quem já estudou D&C sabe do que me refiro.

    Creio que isso se ‘institucionalizou’ culturalmente, com o passar dos anos, devido ao acúmulo constante de erros não desculpados ou honestamente abordados dentro da Igreja.

  2. O que se pode fazer para incentivar os membros da Igreja a uma posição mais intelectualmente honesta e coerente?

    Não tenho ideia e nem muita esperança. Isso não é só na Igreja, está na mídia, na política, nas escolas, em todos os países, e classes sociais. Uma alienação com precedentes à Idade das Trevas.

    Não sei se é apenas um case de relações públicas, mas as únicas ‘ações’ que vejo da parte da Igreja são essa reformatação dos currículos para os jovens. No sistema de educação religiosa da Igreja eles abordavam alguns assuntos espinhosos com farta e desonesta apologia, tentando inocular seus adeptos. Mas o tiro saiu pela culatra, pois hoje, uma rápida pesquisa poe em xeque a versão apologista, deixando algumas pessoas ainda mais indignadas.

    A nova abordagem agora é de ‘diálogos abertos’ e temas padrão da fé, mas o que noto é um completo despreparo dos adultos que lidam com jovens, e as aulas continuam sendo improdutivas para e espiritualidade deles quando confrontados com a realidade dura do ‘mundo’.

    • Gerson Sena:

      Creio que temos visões diferentes em relação ao que a igreja ensina…entretanto como estive “à margem da mesma” durante boa parte da última década posso apenas falar do antes e do agora no que diz respeito ao meu redor. Sempre fomos ensinado na igreja a buscar conhecer e aprender…como naquela escritura ” Examinai tudo e retende o que há de bom”. Por outro lado concordo que alguns líderes locais podem ter aquela velha atitude de que ” o que eu desconheço não me interessa” e isso pode refletir negativamente em sua postura perante os demais.

      Eu tenho uma teoria bem pessoal minha, e pelo que venho presenciando tem alguma base…vai chegar o tempo, se é que já não estamos nele, em que,por um motivo ou por outros, muitos membros das antigas, que estão menos ativos retornarão em bloco á igreja, o que impactará positivamente no sentido de modificar a “cultura local” de muitas unidades. Se isso bastará? Pode ser que sim,acredito que pelo menos chacoalhará a árvore. Vai haver um choque de gerações de líderes? Com certeza…em alguns lugares isso pode ser mais dissonante do que em outros…no entanto haver pessoas que conhecem as duas margens do rio pode ser algo bastante refrescante para muitas pessoas.

      • Bom ter sua experiência por aqui, Linhaça. Só conheço a igreja a partir dis 90, e na mente de um adolescente, sem cultura e pobre de 15 anos. Mudei muito e percebi muita coisa nesse tempo, mas alguma coisa mudou para ruim nos último tempos, e agora a igreja percebe e parece até temer por isso.

        Eu sei o que uma simples falta de atenção de 4 anos num grupo de jovens pode estragar uma geração inteira. Vivo hoje numa estaca que não consegue renovar suas famílias e líderes (por décadas), por perder jovens, quase sem exceção, antes de montarem suas famílias.

        É nesse contexto que me expresso. Não fosse o bispo que tive (raros de achar), talvez eu nem estivesse aqui também.

      • Não sei em que momento da década de 90 vc chegou…no entanto foi justamente nos meados dos 80 até o final dos 90 que houve uma “queda” expressiva na postura de muitos líderes. Explicações para isso podem passar, inclusive, pela mudança do perfil da liderança, antigamente eram todos ou quase todos conversos a poucos anos, depois entrou a turma que nasceu/cresceu na igreja…e infelizmente, como em todo lugar, encontrar tudo pronto e funcionando pela inércia pode causar uma falsa impressão de que não é necessário tanto esforço hoje como antigamente…Aos poucos foi sendo criada uma geração de “líderes de fim de semana”…Em muitos lugares é raro ver líderes que estejam na capela sem ser aos domingos…na minha época a capela ficava aberta praticamente a semana toda à noite, sempre havia alguém lá ou vc podia contar que se precisasse de algo,mesmo que fosse apenas para desabafar, era só ligar para os líderes e não te pediriam para esperar o domingo…
        Mestre familiar era questão de honra, ao ponto de não vermos a hora de receber essa designação ( comecei como mestre familiar quando ainda era um sacerdote) outra explicação é que com o crescimento da igreja as lideranças foram se diluindo com parte da mesma indo para novas unidades…Minha Ala de origem, por exemplo, dividia a cada ano,praticamente…isso sem contar o Plano piloto, no qual nos dividimos em 4 unidades de uma só vez…bons tempos aqueles…os líderes eram meio loucos ( no bom sentido) e não havia nada impossível de ser feito…hoje sobram desculpas para não fazer as coisas, falta fé real para atingir metas e sobra acomodação. Aqui no meu “novo” ramo vejo o mesmo espírito de união que existia na minha Ala de origem naqueles tempos…

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