David Bednar: Mórmons Devem Ser Intolerantes

O Apóstolo David Bednar, além de afirmar que “não há homossexuais na Igreja”, ofereceu um alerta apostólico para os membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias de que devem insistir em ser intolerantes contra tais pessoas.

Em uma reunião com transmissão via satélite para a América Latina, e em resposta a uma pergunta previamente vetada pela organização do evento, disse o Apóstolo Bednar:

Esta uma pergunta do Chile. Nossa tradução tem de ser “perfecto”. Pronto?

Como podem homossexuais membros da igreja viver e permanecer firmes no evangelho?

Primeiro eu quero mudar a pergunta. Não há membros homossexuais na igreja.

A primeira reação de Bednar à pergunta “como podem homossexuais membros da igreja viver e permanecer firmes no evangelho”, obviamente motivada pelo sofrimento e desafios de pessoas LGBT resultante da discriminação oficial da Igreja SUD, é rejeita-la como uma pergunta válida. Homossexuais, diz ele, não existem.

Nós não somos definidos pela atração sexual. Não somos definidos pelo comportamento sexual.

Bednar passa a contradizer a própria doutrina e teologia Mórmon que preconiza o casamento como instituição final da própria existência humana, para o qual “atração sexual” serve função tão primordial que figura proeminentemente no ritual templário. Além disso, Bednar ignora o alto nível de controle que a liderança SUD impõe sobre seus membros exatamente sobre “comportamento sexual”, o que mais que prova como membros da Igreja são “definidos” pela liderança baseado em seus “comportamentos sexuais”.

Bednar argumenta que essa uma característica (i.e., “atração sexual”) não deve nos definir enquanto pessoas, mas em nenhum momento ele explica porquê deve-se, portanto, ignorar a sua existência. Cor de cabelo tampouco nos define enquanto pessoas, mas será que Bednar diria que “não há membros ruivos na Igreja”? Cor de pele tampouco nos define enquanto pessoas, mas até 1978 os líderes da Igreja SUD definiam-nas dignos ou indignos baseado nessa característica, também.

Somos filhos e filhas de Deus e todos nós temos diferentes desafios na carne. Existem muitos tipos diferentes de desafios. Não seria um desafio ser muito bonito ou muito atraente, e no mundo em que vivemos, nunca desenvolver um caráter profundo, porque somos capazes de abrir portas e ter sucesso apenas por causa da nossa aparência física? E nós nos tornamos pessoas fúteis e superficiais em muitos aspectos de nossas vidas.

Isso pode ser um desafio na carne.

Ser bonito e atraente é o primeiro e melhor exemplo que Bednar  sugere como “desafio na carne” equivalente ao de “ser homossexual” (que, de acordo com Bednar, não existe). Será que há uma taxa elevada de suicídios entre jovens membros da Igreja bonitos e atraentes, como há entre jovens homossexuais?

Algumas pessoas têm limitações físicas. Elas podem nascer com um corpo que não seja totalmente funcional, ou podemos ter uma inclinação a ser atraídos por pessoas do mesmo sexo.

Para Bednar, homossexualidade é o mesmo que uma deficiência física. Em parte, isso não é equivocado ou mesmo novidade. Líderes da Igreja SUD já aceitam que orientação sexual é uma característica inata e biológica, e não uma opção pessoal. Contudo, será que Bednar defende discriminar contra deficientes físicos, também? Cadeirantes não poderão mais se casar no templo?

Por meio da expiação de Jesus Cristo somos abençoados com a agência moral. Agência é a capacidade de agir, e não simplesmente receber ação.

Esta é uma garrafa de água. É um objeto. Ela não tem a capacidade de agir. É um objeto que só pode receber ações. Portanto, este objeto se move se eu fizer com que ele se mova, ou se alguma outra força fizer com que ele se mova. Minha esposa está com medo que eu vou bater-lhe com a garrafa d’água.

Você e eu não somos objetos. Somos agentes. Bem-aventurados com a agência por causa da expiação de Cristo, e com essa agência estamos a agir e não sofrermos a ação. Este organismo nos dá a capacidade de determinar como vamos reagir à variedade de desafios que iremos experimentar na carne. Então, você escolhe, você age de acordo com os ensinamentos de Cristo.

Simplesmente ser atraído por alguém do mesmo sexo não é pecado. Há muitos membros da igreja que podem ter alguma manifestação desta atração. Eles honram seus convênios, eles guardam os mandamentos, eles são dignos. Eles podem receber as bênçãos do templo e eles podem servir na igreja. É quando agimos de acordo com a inclinação ou a atração – que é quando ele se torna um pecado.

Assim, Bednar explica que homossexuais membros da Igreja tem a liberdade de escolha: Eles podem sofrer discriminação e preconceito institucional da Igreja SUD, mas apenas se quiserem. Ao escolher permanecer na Igreja, membros homossexuais escolhem de livre vontade própria fazer parte de uma minoria discriminada. (Infelizmente para Bednar e para a Igreja, milhares de membros estão escolhendo não compactuar com isso!)

E aqui está a resposta à pergunta inicial. Como podem homossexuais membros da igreja viver e permanecer firmes no evangelho? Aceitando sofrer as indignidades de ser tratados como pessoas menos importantes e menos relevantes, e submeter-se ao celibato e à uma vida pessoal e familiar menos (muito menos, de acordo com a doutrina Mórmon) espiritual e feliz que os membros heterossexuais.

Assim, a razão pela qual eu comecei a minha resposta como eu fiz, é que nesta questão, a palavra “homossexual” foi usada para descrever ou rotular um membro da igreja. É um rótulo impreciso. Somos filhos e filhas de Deus e nós determinamos como respondemos à variedade de desafios que experimentamos na mortalidade através do exercício correto da nossa agência moral.

Bednar se contradiz ao argumentar que membros sentem “atração por alguém do mesmo sexo” involuntariamente e ainda podem escolher “exercício correto da… agência moral” (através do celibato), mas mesmo assim não podem ser “rotulados” como “homossexuais”. Ser uma pessoa homossexual significa sentir “atração sexual pelo mesmo sexo”, independente se o indivíduo abraça ou rejeita essa atração. Contudo, Bednar insiste em despersonalizar homossexuais, negando-lhes a descrição honrosa (e precisa) de suas características pessoais inatas.

Agora eu quero falar muito diretamente a você. O mundo ensina que devemos ser tolerantes e inclusivistas. Há algumas coisas que nós não aceitamos ou toleramos. Nós amamos todas as pessoas com todos os desafios que qualquer pessoa enfrenta. O propósito do evangelho de Jesus Cristo e da Igreja do Salvador é ajudar as pessoas em receber a força para lidar com seus desafios. Então, nós não discriminamos, e não somos fanáticos. Nós estendemos amor semelhante ao de Cristo a todos os filhos e filhas de Deus.

Bednar avisa, a partir de seu ofício apostólico, que “o mundo ensina que devemos ser tolerantes e inclusivistas”. Membros da Igreja não devem seguir o mundo. Membros da Igreja devem ser intolerantes e exclusivitas, não tolerando que pessoas homossexuais sejam aceitas como pessoas normais (não podem nem ser chamadas de homossexuais — ruivos e canhotos seriam os próximos?) e excluindo pessoas LGBT, famílias LGBT e até crianças em famílias LGBT!

Bednar aproveita para fechar o estereótipo do preconceituoso ao se definir com adjetivos que se contrapõe exatamente aos seus atos e aos seus ensinamentos. “[N]ós não discriminamos, e não somos fanáticos”! Enquanto supremacistas brancos clamam “não somos racistas, apenas estamos protegendo a raça branca”, e nativistas clamam “não somos xenofóbicos, apenas estamos protegendo o nosso país dos imigrantes”, Bednar avisa que “não discriminamos” enquanto ele evita ajudar um membro da Igreja sofrendo dúvidas sobre sua orientação sexual justamente para defender políticas discriminatórias contra ele.

Mas qual é o propósito do plano do Pai? Chegamos à terra, nós somos abençoados ao receber um corpo físico. O casamento entre homem e mulher foi ordenado por Deus e a família é essencial ao plano do Pai para o destino eterno e felicidade de seus filhos.

Nós não somos definidos por nossas atrações sexuais, disse Bednar. Exceto se essa atração for heterossexual, então ela é o propósito de tudo que Deus faz por nós!

Esse plano é interrompido em qualquer coisa exceto em um casamento entre um homem e uma mulher.

Um homem e uma mulher?

Uma mulher?

Uma mulher para um homem?

Esse é o plano de Deus de acordo com a teologia Mórmon?

Agora, Joseph Smith não criou o plano. Thomas Monson não criou o plano. Deus o Pai Eterno criou o plano. O Salvador através de sua expiação torna o plano operacional, eficaz em nossa vida, e o pai não mudou de idéia sobre como o plano deve operar. Então, por favor, não deixe que as vozes do mundo confundam-no ou levem-no em uma direção diferente, enquanto você chega a compreender melhor o plano do Pai, então você vai entender o propósito para o casamento entre um homem e uma mulher. Espero que esteja respondendo à questão.

Bednar, em nenhum momento, respondeu à pergunta de uma maneira caridosa ou com compaixão. Algum membro da Igreja, sofrendo por causa de sua homossexualidade ou com a de algum parente seu, gostaria de ouvir dicas de como fazer para manter-se firme e fiel na Igreja. Bednar, pelo contrário, decide lhe explicar porque sua homossexualidade não existe, ela é tão difícil quanto ser uma pessoa linda e atraente, e é tão simples que só nunca se apaixonar, nunca namorar, nunca se casar, nunca formar uma família, nunca demonstrar carinho e afeto e companheirismo por outra pessoa.

Qualquer coisa que alguém gostaria de acrescentar?

Um ponto relacionado é que há uma diferença divinamente projetada entre um espírito feminino e um espírito masculino. Você precisa ler e estudar várias vezes a proclamação da família. Ela ensina que o genêro é uma característica essencial das vidas pré-mortal, mortal e da identidade eterna e do propósito eterno.

Atração sexual não define enquanto pessoas, disse Bednar. Nossas genitálias nos definem enquanto pessoas. Um pênis ou uma vagina são as reais características que definem quem somos, nossos talentos e potenciais eternos.

Assim, sempre que você tomar essas diferenças divinamente desenhadas – as capacidades e talentos do espírito feminino e do espírito masculino, e eles são selados pelo poder do sacerdócio, ele cria uma unidade e uma singularidade, um todo, que não pode ser alcançado de qualquer outra maneira.

Famílias homossexuais nunca poderão ser felizes ou plenas ou relevantes. Famílias de religiões diferentes, que não são selados no templo, tampouco podem ser felizes, plenas, ou relevantes.

Minha mulher e eu estamos casados há 41 anos. Ela é, além do Espírito Santo, ela é a maior professora que já tive. Ela não pensa como eu penso. Ela não vê o que eu vejo, e eu aprendo muito com as coisas que ela pensa e vê que são diferentes de mim. Às vezes, homens e mulheres ficam frustrados uns com os outros, porque eles não vêem as coisas da mesma maneira. Eles não deveriam ver as coisas da mesma maneira. E a educação que vem de um homem e uma mulher em um casamento ordenado por Deus é uma das mais ricas bênçãos nesta vida.

E Bednar finalmente nos oferece uma explicação racional de porquê famílias LGBT não conseguirem ser famílias felizes, ou plenas, ou relevantes. Um casal homossexual, cada um com seu penis, são incapazes de ter pontos-de-vista e ideias e opiniões diferentes e complementares entre si. Um casal homossexual, cada uma com sua vagina, são incapazes de diálogos e conversas inteligentes, profundas, e iluminadoras. Apenas um casal que, entre eles, possuam um pênis e uma vagina, conseguem ter esse tipo de relacionamento interpessoal onde um adiciona ao outro insights e ensinamentos de vida.

Agora temos tomado muito tempo para responder a esta pergunta, mas espero que você possa sentir que a duração dessa resposta enfatiza a importância do tema no mundo em que vivemos. É por isso que temos tido bastante tanto tempo.

Você pode asssitir toda a resposta de Bednar, com tradução simultânea para o espanhol, aqui:

O Apóstolo Bednar tem razão? Deveria a Igreja SUD, e seus membros, insistir na intolerância a pessoas LGBT? Devem continuar a rejeição de esforços para uma sociedade mais inclusivista e menos preconceituosa?

21 comentários sobre “David Bednar: Mórmons Devem Ser Intolerantes

  1. Às vezes, fico pensando sobre o que é ser gay…Conheci um garoto, na escola,quando eu tinha oito anos, e ele era diferente, usava roupas de menina, tudo rosa…Um dia, a professora perguntou por que desenhava tantas flores no caderno, e ele respondeu que a mãe dele o ensinou a desenhar apenas flores…A mãe também o fazia usar sombrinhas coloridas nos dias de sol…Até hoje, muitos anos depois, não sei por que a mãe dele agia assim…
    Eu creio que, hoje em dia, ser gay está virando moda. Tenho uma amiga, muito jovem, muito linda, que sempre foi hétero, que sempre gostou de rapazes, mas, depois de uma desilusão com o namorado, decidiu se tornar lésbica, e tem uma namorada.
    Também me lembro de um missionário gay que serviu em minha cidade. Ele voltou, casou, se separou da esposa, se assumiu, arrumou um namorado, veio visitar o Brasil com ele, depois arrumou outros, mas, não acredito que isso tenha lhe trazido felicidade. Não vejo isso nos olhos dele.
    Eu penso que precisamos respeitar as diferenças, desde que sejam genuínas. Acho que, quando uma pessoa decide mudar de gênero por livre e espontânea vontade, está se voltando contra a vontade divina.
    Gosto de uma escritura simples, em Gênesis 2;24 :
    ” Portanto, deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher e serão ambos uma carne ”
    Podem me chamar de antiga, mas, eu acho tão lindo o verdadeiro amor entre um homem e uma mulher…

  2. VIVENCIANDO OS CONCEITOS DO ELDER DAVID E. BEDNAR

    Vamos fechar os olhos um minuto e fingir que não existem homossexuais na igreja.

    Conheci muitos deles, pessoas maravilhosas e lideres potenciais, um deles foi meu companheiro na missão, ele sabia ser homossexual, eu sabia, meu presidente da missão sabia, a família dele sabia, mas jamais ele quebrou minha confiança nele, e eu o amava por isso, e digo com alegria que nele eu sentia o espírito de Cristo e de santidade. Seu vaso interior era limpo.

    O que o Elder Bednar disse nesta entrevista é a mesma coisa. Me fez lembrar deste meu companheiro amado, rotulado e as vezes até mau compreendido, Lembro também de tê-lo defendido de um outro missionário oriundo do Texas, que por meu companheiro ser “negro” ele não ficaria na mesma casa que ele. Joguei suas malas pela janela e o convidei a se retirar e dormir na rua, ou a pedir desculpas a meu companheiro. (…já podem imaginar o que ele decidiu não?)

    Pouco tempo depois de seu chamado missionário em São Paulo Norte, soube de seu retorno, abandono da igreja e falecimento. Eu descobri que nele o termo “homossexual” era como um remendo velho em seda pura.

    Um membro da igreja ou uma pessoa que se qualifique a ser membro e se diga homossexual , com certeza será orientada que não é possível ser os dois.

    Do que estamos falando? Da conduta e não do rótulo.

    Não é possível ser um membro da igreja que se diga cumpridor das regras e mandamentos, ao mesmo tempo “mórmon” e “homosexual ativo”.

    Me parece bem claro dizer isto assim como também dizer:
    “Não há ADÚTEROS na igreja”;
    “Não há PECADORES na igreja”;
    “Não há FOFOQUEIROS na igreja”;

    O entendimento à declaração do Elder Bednar é que o rótulo muitas vezes fala mais alto que a conduta.
    “ Não somos definidos pelo comportamento sexual.”

    Não há inconsistência em dizer que a opção heterossexual ou homossexual não nos define como pessoas. Embora isto seja tão importante.

    Culturalmente somos criados com a binarismo de homens e mulheres A atração pelo mesmo sexo sem deixar que este desejo se manifeste e se torne pecado criarão sentimentos sim, as vezes de repressão, decepção e frustração e infelicidade, mas não é o que nos define.

    Nosso conteúdo que podemos passar para outros em forma de emoções e paixões, é mais a pura manifestação cultural, seja “queer” ou não,que em boa tradução significa “ESQUISITO”.

    (*)A teoria queer recusa a classificação dos indivíduos em categorias universais como “homossexual”, “heterossexual”, “homem” ou “mulher”, sustentando que estas escondem um número enorme de variações culturais, nenhuma das quais seria mais “fundamental” ou “natural” que as outras. Contra o conceito clássico de género, que distinguia o “heterossexual” socialmente aceito (em inglês straight) do “anómalo” (queer), a teoria queer afirma que todas as identidades sociais são igualmente anómalas. (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_queer)

    Os desafios da carne, afetam a todos os anômalos, as maiorias heterossexuais , e outras minorias, e quando se tornam pecados são igualmente tratados com aconselhamentos, acompanhamentos e quando sem demonstração de arrependimento, com tribunais disciplinares do mesmo modo.

    A teologia regrada da igreja Mormon e até dita radical, baseada em Doutrina & Convênios exige isto.
    Reconhecimento, arrependimento e redenção (esta última já cumprida pelo sangue de Cristo)

    O binarismo social que este post agressivo traz, ofende até os ruivos, canhotos ou homossexuais, anômalos ou normais, já que na verdade este arremedo de rótulos são criações humanas, entre muitos deles identifico inteligências privilegiadas, amadas pelo Criador: Prefiro pensar que a estes, o “desafio da carne” é muito mais conflitante;

    São entre outros os:
    Nerds, Afro descendentes, deficientes, anômalos, aspegers (como meu filho esquecido por ser um queer), autistas, pobres, meus amigos homossexuais (sem querer rotular pessoas tão maravilhosas) …e muitos outros aspectos que forçam estas pessoas a engendrar o caminho da marginalidade no meio social, familiar e religiosa.

    A teologia mórmon não nos ensina que devemos ser absolutos em tudo que acreditamos, mas ser árbitros de si mesmo, e isso, uma vez independente do acreditar ou não, é parte da identidade de cada um.
    Me recuso a aceitar que os jovens homossexuais e de tanta outras identidades culturais que são membros da igreja, não sejam capazes de tal desafio, mesmo considerando as limitações de cada um deles.

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