Vice-Governador Mórmon Pede Desculpas por Homofobia

O vice-governador do estado de Utah, Spencer Cox, proferiu um emocionado, sincero, e tocante discurso em honra às vítimas do recente atentado terrorista em Orlando no qual ele pede desculpas à comunidade LGBT pela homofobia do passado.

Vice-governador de Utah, Spencer Cox (Foto: KUTV)

Vice-governador de Utah, Spencer Cox, discursa para LGBT e aliados (Foto: KUTV)

Membro ativo d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e do Partido Republicano, Cox admite ter crescido com noções e atitudes homofóbicas dos quais ele se arrepende e pelos quais pede sinceras desculpas, reconhecendo ter demorado para perceber a discriminação, o preconceito, e o ódio frequentemente imposto a esse grupo minoritário.

O discurso de Cox viralizou na internet e foi muito bem recebido pela mídia jornalística, exceto pelo jornal da Igreja SUD.

Ironicamente, enquanto todas os jornais e sites de notícia focaram, em seus títulos e seus artigos, o apoio de Cox à comunidade LGBT, como citamos acima (ver coberturas em The Washington Post, The Washington TimesThe Salt Lake Tribune, Revista Time, USA TODAYNPR, VOX, Esquire, Raw Story, JoeMyGod, KUTV, e a KSL), o jornal oficial da Igreja SUD, Deseret News, simplesmente ignorou a comunidade LGBT como se ela não tivesse nada a ver com o discurso, mencionando apenas um discurso para “honrar as vítimas” do atentado em Orlando e taggeando o artigo “devemos amor uns aos outros”. O jornal da Igreja chegou a intitular seu artigo de maneira a insinuar que o foco do discurso seria blindar mórmons de serem chamados de intolerantes:

Cox: “Chamar pessoas de idiotas, comunistas, fascistas, ou intolerantes … não mudará corações ou mentes” (sic)

Cox fora um dos autores do projeto-de-lei estadual que protegeria pessoas LGBT de sofrerem discriminação no ambiente de trabalho ou em transações imobiliárias e residenciais. O projeto-de-lei ganhou tração em Utah apenas depois do apoio da Igreja SUD, que exigia uma inserção de isenções legais para a Igreja, além de outras instituições religiosas e pequenas empresas familiares, para que pudessem discriminar contra funcionários LGBT por “motivos religiosos” sem repercussões legais. Inseridas tais isenções, e angariado o apoio da Igreja, o projeto passou pelo legislativo de Utah (notoriamente controlado pela Igreja SUD) e a lei foi assinada no ano passado.

Em seu discurso, Cox reconta como foi aprendendo aos poucos a respeitar o sofrimento, a dor, e o medo de ser perseguido como uma minoria apesar dele mesmo não pertencer a esse grupo.

“Em primeiro lugar, reconheço plenamente que sou careca, razoavelmente jovem, de meia-idade, hétero, branco, homem, republicano, político … com todas as expectativas e privilégios que vêm com esses rótulos. Eu provavelmente não sou quem vocês esperavam ouvir hoje.

Estou aqui porque, na manhã de ontem, 49 americanos foram brutalmente assassinados. E isso me deixou triste. E isso me deixou com raiva. E isso me deixou confuso. Eu estou aqui porque essas 49 pessoas eram gays. Eu estou aqui porque isso não deveria importar. Mas eu estou aqui porque importa.

Não estou aqui para dizer-lhes que eu sei exatamente o que vocês estão passando. Não estou aqui para dizer-lhes que eu sinto sua dor. Não tenho a pretensão de saber a profundidade do que vocês estão sentindo agora. Mas eu sei o que é sentir medo. E eu sei o que é sentir-se triste. E eu sei o que é ser rejeitado. E, mais importante, eu sei o que é sentir-se amado.

Eu cresci em uma cidade pequena e frequentei uma pequena escola secundária rural. Havia algumas crianças da minha turma que eram diferentes. Às vezes eu não era gentil com eles. Eu não sabia disso na época, mas sei agora que eles eram gays. Eu sempre lamento não tratá-los com bondade, dignidade e respeito – e amor – que mereciam. Por isso, sinceramente e humildemente peço desculpas.

Ao longo dos anos seguintes, meu coração mudou. Ele mudou por causa de vocês. Ele mudou porque comecei a conhecer muitos de vocês. Vocês têm sido pacientes comigo … Vocês me trataram com bondade, dignidade e respeito – e amor – que muitas vezes eu não merecia. E isso me fez amar vocês.

Mas agora estamos aqui. Estamos aqui porque 49 pessoas lindas e incríveis foram-se. Elas não são apenas estatísticas. Elas eram indivíduos. Elas eram seres humanos. Cada uma delas tinha uma história. Cada uma delas tinha sonhos, objetivos, talentos, amigos, família. Elas são você e elas são eu. E uma noite elas saíram para relaxar, rir, para se conectar, para esquecer, para lembrar. E em poucos minutos de caos e terror, elas foram embora.

Creio que todos podemos concordar que já caminhamos um longo caminho como sociedade quando se trata de nossa aceitação e compreensão da comunidade LGBT … No entanto, há alguma coisa sobre essa tragédia que muito me perturba. Acredito que há uma questão, duas perguntas, na verdade, que cada um de nós precisa perguntar-se no fundo de nossos corações. E estou falando agora para a comunidade hétero. Como você se sentiu quando soube que 49 pessoas haviam sido baleadas por um auto-proclamado terrorista? Essa é a pergunta fácil. Agora a difícil: esse sentimento mudou quando você descobriu que o tiroteio ocorrera em um bar gay às 2 da manhã? Se esse sentimento mudou, então estamos fazendo algo errado.”

Assista o discurso inteiro de Cox aqui:

Cox não é o primeiro político mórmon a desafiar a Igreja SUD em sua política de discriminação contra pessoas LGBT. O Senador Estadual Steve Urquhart recentemente criticou a Igreja em público por seus esforços (i.e., lobby) para bloquear nova legislação para coibir discriminação baseada em orientação sexual.

No ano passado, o ex-governador de Utah (2005-2009) e ex-candidato à presidência dos EUA (2012) Jon Huntsman, jr., assinou um documento legal chamado amicus curiae para ser entregue à Suprema Corte do país em apoio à legalização do casamento homoafetivo em âmbito nacional.

Apesar de todo investimento da Primeira Presidência e dos 12 Apóstolos Mórmons para ilegalizar o casamento homoafetivo em estados distantes (sem sucesso), impedir sua legalização em Utah (sem sucesso), e silenciar membros da Igreja que apóiem sua legalização publicamente (sem sucesso), Huntsman se uniu ao côro de Mórmons que decidiram que não há motivos racionais, éticos, ou morais para seguir discriminando contra uma classe inteira de pessoas por causa de sua orientação sexual.

O caso legal em questão foi ouvido pela Suprema Corte em 28 de abril, que julgou por bem legalizar o casamento homoafetivo em todos os Estados Unidos. A Igreja SUD iniciou sua cruzada legislativa e judicial anti-gays nos EUA há exatas três décadas e centenas de milhões de dólares atrás, apenas para perder em última instância. Após alguns meses dessa histórica derrota, a Igreja SUD sigilosamente alterou seu Manual de Instruções para arrefecer sua discriminação institucional (sem sucesso, pois logo vazou para o público), resultando em protestos, resignações em massa, e muita publicidade negativa. Não obstante, a Igreja recentemente migrou sua cruzada judicial anti-gay para o México.

A despeito da demonstração de sinais de preocupação na liderança pela crescente aceitação de homossexuais e demais LGBT na sociedade em geral, e entre Mórmons em específico, e a despeito das retaliações da liderança da Igreja contra membros que a contradigam, cada vez mais Mórmons (famosos, como Cox, Urquhart, Huntsman, ou mesmo membros comuns) rejeitam a imposição do preconceito e da discriminação e abraçam seus irmãos e irmãs LGBT assim, como são.


ATUALIZAÇÃO: O jornal Deseret News desonestamente alterou o título e o texto do artigo original justamente suavizando a crítica mencionada no nosso artigo acima. O novo título agora lê “Cox conta para a mídia a história por trás de seu sincero discurso” e o artigo menciona que “seus comentários foram inspirado por suas interações pessoais com a comunidade LGBT”. Chamamos a alteração desonesta pois o costume de conduta de ética jornalística é indicar alterações a artigos eletrônicos, especialmente um que altere o tema central e/ou dados relevantes e/ou respondam a críticas específicas. Felizmente, havíamos salvado o artigo original para documentação e possível comparação com o alterado. Não obstante a alteração à surdina, o artigo ainda deflete o foco central do discurso em si, que é discriminação, preconceito, e violência contra pessoas LGBT.

 

 

4 comentários sobre “Vice-Governador Mórmon Pede Desculpas por Homofobia

  1. Será que ainda há esperanças ?

    Louvável a atitude do Brother Cox mas ainda me pergunto, até quando a igreja continuará nessa batalha implacável de desrespeito e ódio para com o próximo ?

    Esses dias fiquei ainda mais desanimado da religião ao escutar uns alunos da minha classe de religião dizendo que o ataque era “até que merecido”…

    Ou então quando o professor do curso A Eterna Família, no LDSBC, comentou sorrindo que eles não pecariam mais, num sarcasmo impressionante.

    O quê me deixa mais triste é que isso vem de Utah, o americano daqui parece ter parado no tempo.

    Como diria um colega do Vozes Mórmons: “É muita religiosidade e pouca espiritualidade!”

  2. Durante anos eu tentei juro que tentei ser Hétero era fiel membro da Igreja frequentei o seminário quatro anos fui um dos melhores alunos, servi como missionário de tempo integral honrosamente por dois anos, ocupei vários cargos dentro da igreja inclusive fui oficiante na casa do (senhor ) Templo e nada disso mudo minha orientação pq ela é algo que vai muito alem de desejo e minha acescência. Fico muito feliz com a posição do Governador Spencer Cox em se desculpar com a comunidade lgbt pela homofobia disseminada que tem acabado tragicamente com tantas vidas assim como o #genocidio# #homofobico# em Orlando . Vocês podem nos privar dos nossos direitos negar liberdade mas nao podem matar todos nós. Ainda que tenham cortado nossa cabeça no Paquistão diante de nossa mãe idosa. Não podem matar a todos nós. Mesmo que tenham quebrado nossos pés e nosso pescoço dentro de casa no Camarões. Não podem matar todos nós. Ainda que tenham nos enforcado no Irã e queimado nosso rosto em Uganda. Não podem matar todos nós. Mesmo que tenham nos empalado no Amazonas e esfaqueado na Paraíba. Não podem matar a todos nós. Ainda que tenhamos sido garroteados, esquartejados, asfixiados, alvejados e apedrejados. Não podem matar a todos nós. Mesmo que tenham nos lançado do alto de telhados na Síria.
    Nós resistiremos.
    Na realidade nós já sobrevivemos aos piores tiranos e regimes totalitários da história; do massacre de Tessalônica à santa inquisição, de Gengis Khan ao nazismo, do stalinismo ao macartismo, de Stonewall à ditadura militar.
    Não podem matar a todos nós, porque a violência parece poderosa, mas é fraca e efêmera como um sopro. Eu sou Gay .

    • Super me identifiquei com seu comentário, sei como é ser gay e membro da igreja (inclusive também servi missão) é uma tortura mental terrível, mas apesar disso estamos cada vez mais fortes e corajosos em sermos felizes é livres para amarmos. Eu sou gay e sou feliz.

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