Mórmons se Opõem a Descriminalizar Poligamia

Pesquisa de opinião pública entre eleitores no estado de Utah revela que a maioria crê que poligamia não deve ser descriminalizada.

Capa do livro 'Fastasmas da Poligamia: Assombrando os Corações e o Céu de Mulheres e Homens Mórmons

Capa do livro “Fastasmas da Poligamia: Assombrando os Corações e o Céu de Mulheres e Homens Mórmons”, que explora a persistente presença do tema na teologia mórmon

A pesquisa, encomendada pelo jornal The Salt Lake Tribune e o Instituto Hinckley de Ciências Políticas, e conduzida pela firma Dan Jones & Associates, determinou que 62% dos eleitores afirmam que poligamia não deve ser descriminalizada, enquanto 19% crê que ela “provavelmente” deva ser, e 12% afirma categoricamente que ela “deve” ser descriminalizada.

Qualificando o estudo por subgrupos, a pesquisa conseguiu determinar que a grande maioria dos membros d´A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, tanto entre os que se autoclassificam como “ativos” ou “menos ativos”, concordam com a maioria dos católicos e a maioria dos protestantes em sua oposição à descriminalização da poligamia. Curiosamente, os grupos mais jovens, nas faixas etárias entre 18 e 24, e 25 e 34 anos de idade, foram os grupos que mais se expressaram em oposição à prática da poligamia.

Mórmons poligamistas. Mórmons fundamentalistas.

Janelle, Christine, Kody, Meri e Robyn Brown. (Imagem: TLC)

A diferença etária surpreendeu pesquisadores, uma vez que jovens tendem a ser mais favoráveis a diferentes arranjos matrimoniais e familiares. Para a antropóloga Janet Bennion, jovens em Utah têm a percepção mais negativa acerca da poligamia provavelmente devido à história mórmon e/ou aos casos de abuso noticiados na região, diferentemente de jovens em outros locais dos país, que não necessariamente relacionam poligamia a crenças e práticas religiosas. “Os mileniais na Nova Inglaterra [nordeste dos EUA] a exergam de modo diferente, talvez por estarem distantes do contexto de poligamia em Utah”, afirmou ao Tribune. 

Aceitação crescente

Em pesquisa nacional do Gallup em 2003, poligamia era considerada moralmente aceitável por apenas 7% dos entrevistados. Nos anos seguintes, esse percentual se manteve idêntico ou próximo à aceitação de casos extraconjugais. A partir de 2010, porém, a aprovação da poligamia cresceu consideralvelmente, atingindo 16% em 2015, e 14% em 2016.

Mórmons Contra Poligamia

O Legislativo de Utah, controlado majoritariamente por membros da Igreja SUD, aprovou no começo do ano em primeira instância um projeto de lei que poderá recriminalizar a prática da poligamia. De autoria do deputado Mike Noel, o projeto foi aprovado e deverá ainda ser votado pelo senado estadual.

O projeto de Noel é uma resposta à ação do polígamo mórmon Kody Brown e suas esposas, que processaram o estado de Utah pelo banimento da poligamia. Os Browns ficaram famosos pelo reality show Sister Wives, do canal TLC. Em 2014, um juiz federal havia decidido a favor dos Browns, considerando que proibir coabitação violava seus direitos constitucionais de livre exercício da religião. Com a decisão federal, considerava-se que a poligamia em Utah  havia sido descriminalizada na prática. O processo dos Browns corre agora em um tribunal federal de segunda instância.

[Entenda mais sobre o caso clicando aqui]

O debate do projeto-de-lei foi acalorado. O deputado estadual Dan McCay afirmou não entender o motivo de fazer da poligamia um crime em Utah, quando em diversos outros estados é apenas um delito, segundo a reportagem do jornal The Salt Lake Tribune.

Outros políticos, no entanto, desejavam uma legislação ainda mais rígida, como o deputado Keven Stratton, que defendeu tornar a poligamia um crime de terceiro grau, segundo o canal de notícias Fox 13. “Não sabemos o que o futuro trará e o que a Suprema Corte poderá ou não fazer ao definir casamento”, afirmou  Stratton.

Logo após a aprovação do casamento gay pela Suprema Corte nos EUA, no ano passado, uma família polígama mórmon do estado de Montana tentou legalizar a união do marido com sua segunda esposa, sem sucesso. A decisão da Suprema Corte também foi referida pelo advogado da família Brown: “Está claro que estados não podem mais usar códigos penais para coagir ou punir aqueles que escolhem viver em uniões consensuais mas impopulares”, afirmou Jonathan Turley.

Embora abuso exista em alguns grupos fundamentalistas – dentre os quais a Igreja FSUD é notadamente aquela que o institucionalizou em maiores proporções – , a criminalização do casamento plural pode ter um efeito contrário ao almejado.  Como observou o deputado Dan McCay, a criminalização dificultaria grandemente a denúncia de abusos em grupos fundamentalistas, fazendo com que tais comunidades “levantem muros”.

“Não acho que a comunidade sentirá de fato o empoderamento para sair e conseguir a ajuda de que precisam”, disse o polígamo mórmon Brady Williams, famoso pelo reality show My Five Wives.  Para a autora Anne Wilde, “adultos em uma relação de consenso não merecem ser colocados sob uma sombra de condenação”, segundo reportagem do jornal oficial da Igreja SUD Deseret News.

Gays e Polígamos

Em 2012, publicamos que um dos possíveis motivos para a luta da hierarquia SUD contra o casamento gay poderia ser justamente a “abertura que o casamento entre pessoas do mesmo sexo daria para a descriminalização da poligamia nos EUA”. No ano passado, coincidentemente, a nova política oficial contra crianças e adolescentes com pais LGBT foi moldada na política SUD, há décadas, de discriminar contra crianças e adolescentes com familiares mórmons fundamentalistas. Agora, os trabalhos legislativos no estado mórmon parecem confirmar nossa intuição.

O deputado Stratton fez também questão de negar que qualquer grupo religioso o houvesse abordado para criminalizar a poligamia, numa óbvia referência à pressão política exercida pel’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias na legislatura do estado.

Em um estado colonizado por polígamos, a Igreja de passado polígamo quer um presente e futuro monogâmicos. E nisso, com certeza, está em acordo com a vontade de seus membros. Mas deveriam as leis civis ser formuladas sob tal influência religiosa?

Um dos votos contrários à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Suprema Corte dos EUA, o juiz John Roberts afirmou que os mesmos argumentos em favor de tais uniões poderiam ser usados para legalizar a poligamia. De acordo com ele,

Se um casal de pessoas do mesmo sexo tem o direito constitucional de casar porque seus filhos de outra forma “sofreriam o estigma de saberem que suas família são de alguma forma inferiores”, por que o mesmo raciocínio não se aplicaria a uma família de três ou mais pessoas criando filhos?

SUD e Poligamia: Crenças e Medos

Outro estudo publicado este ano ainda demonstrou que mulheres mórmons, membros d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sofrem ainda na atualidade com a perspectiva de poligamia na vida pós-mortal. O estudo, conduzido pela pesquisadora Carol Lynn Pearson, ouviu de mais de 8 mil respondentes mórmons que apenas 15% deles sentiam-se à vontade com o conceito de poligamia na vida após a morte, enquanto 85% sentia-se incomodados, desanimados, desconfortáveis ou abertamente em oposição à prática.

Pearson publicou seus resultados e suas análises no livro ‘Fastasmas da Poligamia: Assombrando os Corações e o Céu de Mulheres e Homens Mórmons‘, também disponível no formato eletrônico, junto com inúmeros relatos pessoais coletados de seus respondentes.

Pearson explica que, apesar da Igreja haver banido a prática publicamente em 1890 e de facto em 1904, poligamia ainda é uma realidade na crença mórmon e na experiência religiosa até hoje. Mórmons creem que, através da cerimônia de selamento, seus casamentos durarão por toda eternidade, mas enquanto uma mulher só pode ser selada a um único homem para a eternidade, um homem viúvo pode ser selado a quantos mulheres quiser ou puder. Esse assimetria matrimonial eterna influenciaria negativamente os casamentos na atualidade.

Esse medo e apreensão motiva muitos mórmons, por exemplo, a mentir repetida e publicamente sobre os fatos do passado polígamo de sua religião. Enquanto seus Profetas e Apóstolos afirmaram, no passado distante e até recente, que poligamia é um fator essencial e fundamental da fé mórmon, muitos membros da Igreja a rejeitam sem apego, e tentam reduzir a dissonância cognitiva com o passado religioso inventando outra realidade. Seria essa dicotomia entre as crenças fundamentais (ainda, por exemplo, canonizadas nas escrituras) e a crença popular que estimula tantos mórmons a perseguir e oprimir seus irmãos mórmons que desejam seguir a fé como Joseph Smith e Brigham Young ensinaram?


“Mórmon fundamentalista” é um termo amplo que designa mórmons que praticam ou acreditam que devem praticar o casamento plural (poligenia), entre outros princípios, e que usualmente não estão associados à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD). Em 1890, a Igreja SUD aboliu publicamente a prática, e em 1904 oficialmente, e pelo menos desde 1909 excomunga praticantes ou simpatizantes do fundamentalismo mórmon.

2 comentários sobre “Mórmons se Opõem a Descriminalizar Poligamia

  1. Já no Brasil a poligamia é compulsória.

    Esquece um par de meias na casa da amante que rapidinho um Juiz te garante uma união estável e uma PA pra pagar…

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