Ética institucional: Playboy vs Igreja Mórmon

A revista Playboy virou notícia na semana passada ao publicar, pela primeira vez em sua história, um ensaio fotográfico de uma modelo transgênero assumida.

A atenção girou em torno de duas reações polarizadas entre aqueles que elogiaram a publicação pela inclusão aberta e generosa de uma minoria frequentemente marginalizada (i.e., transgêneros), e aqueles cujos preconceitos os motivam a desejar perpetuar tal marginalização e discriminação.

Ines Rau é a “coelhinho do mês” da edição de novembro de 2017 da revista Playboy (Foto: Derek Kettela/Playboy)

 

A Igreja SUD não se pronunciou oficialmente sobre esse evento específico, mas a revista Playboy sim, e sua resposta pública levanta um interessante ponto de contraste com a Igreja Mórmon.

Cooper Hefner, diretor de criação e filho do fundador da Playboy Hugh Hefner, retrucou com clareza e objetividade:

“Nós deveríamos, coletivamente, lutar por um mundo mais aberto, e não por um que promova o ódio e a falta de aceitação.”

A conta oficial no Twitter da Playboy também respondeu, citando inúmeros leitores que vociferaram publicamente sua revolta pessoal, e suas decisões de cancelar suas assinaturas da revista, em 1965 em resposta à inclusão de primeira modelo negra!

Por exemplo:

Cartas ao editor (1965); sobre a primeira coelhinho negra da Playboy, Jennifer Jackson

‘Eu não preciso do poster da edição de março… Já há negras demais nessa universidade agora.’

Reações nas mídias sociais (2017); sobre a primeira coelhinho transgênero da Playboy, Ines Rau

‘Eu cresci com a Playboy e suas coelhinhos sexy de cada edição. Eu gostaria de congratular a Playboy por oficialmente se acovardar ao politicamente correto. Não vou renovar minha assinatura por causa disso.’

Contrastando imagens de ambas modelos que entraram para história como pioneiras, a revista de posiciona:

“A História se repete”

“Estar do lado certo da História”

“Estar do lado certo da história” é a questão central aqui.

Em 1965, enquanto a revista Playboy recebia críticas por incluir uma modelo negra, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ativa e oficialmente pregava segregação racial, relegando membros negros da Igreja a membros de segunda classe, proibindo-os de entrar nos templos sagrados, excluindo-os de seus ritos mais sagrados e de quaisquer cargos de liderança, chegando a proibir casamentos interraciais, e ainda demonizando-os como seguidores de “Satanás” e, portanto, merecedores de discriminação e preconceito. Hoje, em 2017, a Igreja se esforça intensamente para negar que jamais pregara preconceito e discriminação contra negros, mas a história já está afixada permanentemente no passado e nos registros históricos. Em 1965, ela simplesmente estava no “lado errado da história”.

Agora, atualmente em 2017, enquanto a revista Playboy recebe críticas por incluir uma modelo transgênero, a Igreja SUD mantém suas políticas transfóbicas (e homofóbicas) de pregar preconceito e discriminação contra seus membros LGBT. Além de abertamente discriminar contra membros LGBT, a Igreja discrimina contra crianças em lares de pais LGBT, frequentemente expulsa membros transgêneros da Igreja simplesmente por assumirem publicamente suas identidades pessoais, e ainda faz lobby para incentivar medidas públicas que legalizam a discriminação contra transgênero nas leis norte-americanas.

Não será considerado em 2069 antiético e imoral discriminar contra pessoas por suas orientações sexuais ou suas identidades de gênero, da mesma maneira que em 2017 é considerado antiético e imoral discriminar contra pessoas por suas cores de pele? Se conseguimos aprender, enquanto espécie, a imoralidade do racismo nesses 52 anos entre 1965 e hoje, não é razoável crer que aprenderemos tal lição com relação a homofobia e transfobia? Neste caso, não estaria a Igreja SUD novamente hoje, assim como estivera em 1965, do “lado errado da história”?

Líderes da Igreja Mórmon vivem admoestando seus fieis contra os perigos morais da pornografia, como se vê em publicações como a Playboy, inclusive citando-na especificamente como exemplo negativo [ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui, e aqui]. Contudo, o que se dizer quando a supostamente imoral pornógrafa demonstra uma atitude de inclusão, compaixão, e ética enquanto a supostamente guardiã absoluta da moral divina defende o preconceito, a segregação, e a discriminação?

A História, afinal das contas, se repete.


Waverly Giles, estudante mórmon do primeiro ano da Universidade de Brigham Young em Idaho, postou sua reação de choque e revolta em mídia social ao ser punida pela misoginia mórmon popularizada pela cruzada anti-pornografia. Leia mais aqui.

Cresce, aos poucos, na Igreja SUD uma conscientização coletiva de que mulheres SUD não vêm sendo tratadas ou consideradas com a mesma igualdade de respeito e oportunidade que os homens SUD. Tais reflexões não são novas ou originais, mas o que mais impressiona no presente momento é a penetração social desta ideia. Além de uma crescente mobilização entre mulheres SUD, parece haver uma recíproca preocupação entre a liderança (exclusivamente masculina) SUD. Leia mais aqui.

A campanha ‘Vista Calças Para Sacramental’ foi organizada por um grupo de mulheres SUD ativas que, apesar de valorizar a Igreja em suas vidas, sente-se discriminadas dentro de uma cultura religiosa patriarcal. Leia mais aqui.

Estudo conduzido com 48.984 membros ativos da Igreja SUD demonstra que Mórmons estão começando a aceitar o conceito de ordenar mulheres ao Sacerdócio e abraçá-las em posições de liderança eclesiástica. Leia mais aqui.

Uma membro ativo na Igreja SUD é chamada pelo Bispo e pelo Presidente de Estaca por um comentário publicado no Facebook, e pressionada a apagá-lo. Leia mais aqui.

O Apóstolo Dallin H. Oaks acredita que mulheres são culpadas por se tornar peças vivas de “pornografia” para “tentar” os homens. Leia mais aqui.

A Igreja Mórmon promove a “cultura do estupro”? Certamente, ninguém questiona que o crime de estupro é amplamente condenado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Não obstante, a “cultura do estupro” vai muito além de meramente compactuar com esse crime violento em si. Leia mais aqui.

A psicóloga mórmon Kristy Money reage e responde ao ensaio recém publicado pela Igreja SUD sobre o tema  de mulheres e o sacerdócio. Leia mais aqui.

A Igreja Mórmon estabalece regras de vestuários bastante específicas. Além de machistas e extremistas, essas regras não parecem ser aplicadas consistentemente. Leia mais aqui.

Antropóloga Mórmon Chelsea Shields foi oradora especial na prestigiosa Conferência TED, popularmente conhecida como TED Talks. Seu discurso focalizou na sua experiência pessoal dentro da Igreja SUD, da cultura Mórmon, e de seus estudos acadêmicos em tôrno de questões de gênero e religião institucional. A cobertura de seu discurso expõe facetas interessantes do Mormonismo, além de sua percepção pelo público não Mórmon. Leia mais aqui.

8 comentários sobre “Ética institucional: Playboy vs Igreja Mórmon

  1. Esse mundo do politicamente correto está ficando chato demais. Querem obrigar héteros a admirarem lascivamente trans.

    Boicote realmente é a maneira mais efetiva de o público consumidor mostrar que não aceita essas imposições progressistas.

  2. Sou mormon ativo e um grande critico da postura da igreja e dos lideres em muitos casos! Mas nesse caso o que raios tem diretamente a ver a igreja com a playboy?? Seria a mesma coisa que relacionar o McDonald’s com o ISIS! A igreja é tao contra a pornografia como qualquer outra religiao cristã! So me expliquem! E por favor sem aquele comentario batido de “cognicao” ou sarcasmo e piadinhas de deboche! Uma simples resposta direta e respeitosa a uma questao direta e respeitosa.

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